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Dá ao Rei a tua Justiça!

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“Dá ao rei tua justiça, ó Deus,
e concede retidão ao filho do rei.
Ajuda-o a julgar teu povo corretamente;
que os pobres sejam tratados com imparcialidade.
Que os montes produzam prosperidade para todos,
e que as colinas deem muitos frutos.
Ajuda-o a defender os pobres dentre o povo,
a salvar os filhos dos necessitados.
[…]
Ele tem compaixão do fraco e do necessitado,
e os salvará.
Ele os resgatará da opressão e da violência,
pois considera preciosa a vida deles.
Viva o rei!
[…]

Minha leitura seletiva do salmo 72 não quer negar ou ignorar nenhum de seus versos. No salmo o rei de Israel louva ao Senhor Deus pela glória e pelas promessas do pacto Davídico: os inimigos lamberão o pó a seus pés, os reis de toda a terra se curvarão e o servirão, seu governo se estenderá por todas as partes, os tributos e as orações fluirão para o seu palácio. O seu nome permanecerá, eu povo prosperará, os justos viverão em paz, e todas as nações serão abençoadas por meio dele.

Mas afirmo que não são os votos e louvores ao trono davídico o eixo do Salmo. Sem dúvida são essas as prerrogativas do rei messiânico; é o que lhe cabe em razão do pacto davídico. Mas a espinha dorsal do Salmo é a oração do rei e pelo rei para que ele se torne digno dessa posição. A questão que se coloca não é se virão ao rei as bênçãos, e qual o seu número, mas se ele se tornará uma bênção. Todo o problema é se o rei será justo e reto, se julgará o povo corretamente.

E de que consiste essa justiça? Do muito que se pode dizer sobre a justiça, é claro que uma dimensão particular da justiça é enfatizada: a equidade. A justiça não é, de modo algum, tratada como mera conformação à ordem legal, mas como princípio substancial. Ela está assim associada a outras virtudes, como a compaixão. O rei é justo porque tem compaixão, porque resgata da opressão; e o faz porque “considera preciosa a vida deles”. A justiça tem a ver, aqui, com o direito que procede do valor intrínseco das pessoas, e da relação de cuidado que o rei tem com elas. E essa justiça demanda cuidado especial com que é mais fraco, com quem está sujeito à opressão, com quem é necessitado.

Não se trata, é claro, de mera inversão da ordem econômica. Nem de meros benefícios e privilégios sociais; ele também ora para que “os justos floresçam durante o seu reinado”. A retidão, o cumprimento das leis de Deus e o reconhecimento do direito não são subvertidos em nome de um projeto de “avanços sociais”, como se certos pecados e pequenas injustiças fossem aceitáveis em nome do bem comum, à moda Utilitarista.

Mas aí está: a justiça, associada à compaixão, segue uma ordem: primeiro o fraco, o necessitado e o pobre, e depois os outros também. Não para favorecê-los injustamente e ilegalmente no julgamento, como é expressamente proibido em Levítico 19.15, mas para que, em sua desvantagem, ele seja tratado com equidade. Assim é o Senhor Jesus, o rei justo; mas assim devem ser todos os reis, e em verdade todos os seus servos. Para que “todas as nações sejam abençoadas por meio dele” (vc 17).

Cabe pois a nós a mesma oração: “Dá a nós a tua justiça, ó Deus”. Pois se somos herdeiros das promessas, precisamos ainda viver à altura delas.

Fé em Busca de Catolicidade

 

Trecho adaptado do capítulo: “Católica: as dimensões da missão”, que escrevi como contribuição para o livro “Harmonia”, a ser lançado pela editora Mundo Cristão em 2016 (Pedro Dulci, Ed.)

É fato que o termo “católico” se tornou um nome institucional da igreja romana, e isso quase inviabilizou o seu emprego entre os cristãos evangélicos Brasileiros; mas essa não é uma perda aceitável. O termo, uma transliteração do grego kath’holou que significa literalmente “conforme o todo, e assim “inteiro”, “completo” ou “geral” e “universal”[1], tem um inegável pedigree. Ele aparece pela primeira vez nos pais apostólicos (em Inácio de Antioquia e no “Martírio de Policarpo”) e nas versões mais recentes do Credo Apostólico, a mais antiga confissão de fé ecumênica, como adjetivo da igreja e artigo de fé. Mas seu emprego mais importante na antiguidade – e decisivo para nós – encontra-se no Credo Niceno-Constantinopolitano, produzido no Concílio de Constantinopla (381 d.C.) e aceito por todas grandes as igrejas Cristãs, para descrever as quatro marcas da verdadeira igreja: “Una, Santa, Católica e Apostólica”.[2] Este último, por si só, torna o ponto um artigo de fé e obrigatória a discussão do assunto. (mais…)

O Secularismo e a Introversão da Mente Moderna

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“Lá dentro está o nosso futuro! Lá dentro… está o nosso destino!”
Kevin Flynn (Tron: the Legacy, 2011)1
“A mente dele se move num círculo perfeito, porém reduzido. Um círculo pequeno é exatamente tão infinito quanto um círculo grande; mas embora seja exatamente tão infinito, não é tão grande.”
G. K. Chesterton (Ortodoxia)


Essa era a fé e a loucura de Kevin Flynn, dono da megacorporação tecnológica ENCOM, quando ele criavaClu, uma espécie de clone digital de si mesmo encarregado de criar o sistema perfeito no interior da Grade, um universo paralelo gerado digitalmente. Flynn acreditava ser possível levar a perfeição desse universo para o mundo externo, devido às infinitas possibilidades que ele oferecia: “uma fronteira digital para remodelar a condição humana”. Mas enquanto eles trabalhavam um milagre aconteceu: seres vivos digitais (ISO’s) emergiram dentro desse universo, alterando completamente os planos de Flynn. Agora ele desejava proteger os ISO’s com a ajuda de Clu e de Tron, o protetor dos “usuários”, uma versão digital do amigo e colega de Flynn, Alan Bradley que foi transportada do antigo sistema (do primeiro filme, Tron, de ) para o novo sistema.

LEIA A CONTINUAÇÃO DO ARTIGO NA REVISTA “TEOLOGIA BRASILEIRA”

 

Sobre a “Ciência Cristã das Afeições”

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Um dos mais importantes campos de poder na sociedade contemporânea é o campo afetivo. Temos falado repetidamente sobre esse assunto e os temas a ele associados em palestras e debates no L’Abri e pelo Brasil: amizade, afeição, sexo, amor, caridade, direitos afetivos, sentimentalismo, psicoteologia…  Um mundo de assuntos!

A emergência desse campo e sua crescente importância para a moral, a religião, a economia e a política, levaram-me a descrever essa nova situação como “A Revolução Afetiva”. Explico (resumidamente): (mais…)

A Teologia da Missão e a Linguagem da Transformação

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Em 2005 um grupo de amigos se reuniu para  discutir novos rumos para a reflexão evangélica sobre Cristianismo e Cultura e, particularmente, sobre as limitações e possibilidades da teologia da missão integral. Desses encontros surgiu o livro “Cosmovisão Cristã e Transformação”, publicado pela editora Ultimato em 2006. A este livro se seguiu outro pela mesma editora, intitulado “Fé Cristã e Cultura Contemporânea”, e uma série de iniciativas de tradução de autores reformacionais, palestras gravadas e artigos. O último desdobramento literário desse movimento foi o indispensável livro do filósofo e teólogo goiano Pedro Lucas Dulci, “Ortodoxia Integral”, que impulsionou novas reflexões no  movimento.

As reflexões tem nos levado recentemente a um ponto de inflexão, na medida em que  nos perguntamos: é o projeto historicamente denominado “Teologia da Missão Integral” ainda fértil e adequado para responder aos desafios da hipermodernidade e às necessidades da igreja evangélica brasileira no século XXI ou estaríamos no meio de uma crise paradigmática “Khuneana” que pode nos levar à ruptura e a um novo paradigma de teologia pública? Os próximos anos ou meses dirão; mas as atitudes dos representantes do paradigma atual sugerem que ele está irrecuperavelmente calcificado; seus atos e palavras mostrarão a verdade no futuro próximo.

Neste artigo vamos problematizar o uso da linguagem da transformação no contexto da missão integral. As respostas são apenas parciais. Na reflexão sobre o assunto, descobrimos que a própria tradição neocalvinista compartilha de alguns dos erros agora visíveis no discurso popular sobre a missão integral, embora não do mesmo modo, sugerindo que a mera substituição da teologia de missão integral pelo neocalvinismo holandês seria insuficiente para articular uma teologia pública radicalmente evangélica no contexto do século XXI. (mais…)

Ideologia liberal e promiscuidade sexual: Cúmplices?

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Poucos discordariam de que a moralidade sexual evangélica encontra-se em uma grande crise. E não apenas uma crise de coerência, uma crise de práticas, mas uma crise de princípios. Nos púlpitos (ou na grande maioria deles) a moralidade Cristã tradicional continua encontrando suporte: sexo exclusivamente heterossexual, rejeição da pornografia, namoro sem sexo, casamento como pacto moral, monogamia, etc.

Mas no meio do povo a regra já é outra há tempos. Sim, alguns dirão que sempre foi outra. É certo que o ‘puritanismo’ evangélico oficial sempre foi manco na prática, e na verdade isso se aplicaria à história inteira do cristianismo; mas não é disso que estamos falando, da evidente incoerência dos Cristãos em manter seus próprios padrões sexuais. O que vemos hoje é um pouco diferente: a moralidade sexual Cristã clássica deixou de ser difícil, para se tornar implausível. (mais…)

Resposta aos Críticos do Projeto Teste da Fé Brasil

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O lançamento recente do “Teste da Fé” gerou discussões acaloradas, e perguntas foram feitas sobre a nossa identidade teológica. Há muito o que dizer, e não há como resolver isso em um único post. Então decidi organizar os questionamentos em perguntas principais, e vamos começar respondendo a 10 perguntas básicas:

 

(1) Qual é o propósito do “Teste da Fé Brasil”?

Antes de tudo, reabrir a conversação sobre a relação entre ciência moderna e fé evangélica.

O campo evangélico Brasileiro apresenta uma atitude ambígua em relação à ciência, e em geral não apresenta a estima e a valorização da vida intelectual e da vida científica que caracterizam o protestantismo clássico. No seu extremo mais fundamentalista, tendemos a combinar uma leitura Bíblica questionável com um uso seletivo e pragmático da evidência científica, sem reconhecer o campo científico como um campo legítimo e sem ver a ciência como uma vocação legítima para o Cristão.

Por outro lado, no extremo mais “modernista” do movimento evangélico, onde ele se aproxima do que grosso modo se chama às vezes de “liberalismo teológico”, vê-se a tendência de revisar a fé evangélica sistematicamente, em termos de ideologias e cosmovisões seculares que pululam a academia moderna, apelando-se ao avanço da ciência moderna como prova de que a doutrina e as formas confessionais clássicas da Fé Cristã estariam ultrapassadas.

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Cristianismo e Secularismo: o que fazer quando o diálogo “acaba”?

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O que fazemos quando o diálogo com o secularismo aparentemente acaba (ou, ao menos, se esgota temporariamente)?

Certamente há limites para o diálogo. Andei pensando nisso diante dos debates atuais sobre o “estado laico”. Há muito fundamentalismo religioso para o qual “pluralismo” é um palavrão. Mas de modo geral o campo religioso brasileiro me parece extremamente plural e tolerante com a divergência. A sensação que muitos cristãos tem e expressam em conversas privadas (ou as não tão privadas assim na internet) é a de que a militância secularista é o fenômeno religioso mais agressivo dos últimos tempos (veja um exemplo interessante AQUI). O clima mudou, definitivamente.

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Extroversão Espiritual: o caminho para a realidade na vida cristã

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Segue o link para a mensagem pregada na Comunidade 242 no dia 07 de Julho!

extroversao_espiritual.mp3.

Manifestações: sempre fomos plurais, ainda não somos pluralistas

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O “Outono Brasileiro” revelou a imensa pluralidade de ideias e preocupações do povo brasileiro. Não que essa pluralidade não fosse conhecida; é que ver o arco-íris é sempre mais do que apenas saber que ele às vezes acontece ou mesmo que está acontecendo em algum lugar.

Vimos o arco-íris e de repente nos lembramos de que somos muito, muito diferentes. Retomando algo que já disse em outro post: o movimento começou com setores de esquerda atualmente fora do poder, que funcionaram como catalisadores, como o estopim. Então veio a enxurrada de gente, cada um com seu cartaz. (mais…)

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