Guilherme de Carvalho

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Artigos por Guilherme de Carvalho

Dá ao Rei a tua Justiça!

“Dá ao rei tua justiça, ó Deus,
e concede retidão ao filho do rei.
Ajuda-o a julgar teu povo corretamente;
que os pobres sejam tratados com imparcialidade.
Que os montes produzam prosperidade para todos,
e que as colinas deem muitos frutos.
Ajuda-o a defender os pobres dentre o povo,
a salvar os filhos dos necessitados.
[…]
Ele tem compaixão do fraco e do necessitado,
e os salvará.
Ele os resgatará da opressão e da violência,
pois considera preciosa a vida deles.
Viva o rei!
[…]

Minha leitura seletiva do salmo 72 não quer negar ou ignorar nenhum de seus versos. No salmo o rei de Israel louva ao Senhor Deus pela glória e pelas promessas do pacto Davídico: os inimigos lamberão o pó a seus pés, os reis de toda a terra se curvarão e o servirão, seu governo se estenderá por todas as partes, os tributos e as orações fluirão para o seu palácio. O seu nome permanecerá, eu povo prosperará, os justos viverão em paz, e todas as nações serão abençoadas por meio dele.

Mas afirmo que não são os votos e louvores ao trono davídico o eixo do Salmo. Sem dúvida são essas as prerrogativas do rei messiânico; é o que lhe cabe em razão do pacto davídico. Mas a espinha dorsal do Salmo é a oração do rei e pelo rei para que ele se torne digno dessa posição. A questão que se coloca não é se virão ao rei as bênçãos, e qual o seu número, mas se ele se tornará uma bênção. Todo o problema é se o rei será justo e reto, se julgará o povo corretamente.

E de que consiste essa justiça? Do muito que se pode dizer sobre a justiça, é claro que uma dimensão particular da justiça é enfatizada: a equidade. A justiça não é, de modo algum, tratada como mera conformação à ordem legal, mas como princípio substancial. Ela está assim associada a outras virtudes, como a compaixão. O rei é justo porque tem compaixão, porque resgata da opressão; e o faz porque “considera preciosa a vida deles”. A justiça tem a ver, aqui, com o direito que procede do valor intrínseco das pessoas, e da relação de cuidado que o rei tem com elas. E essa justiça demanda cuidado especial com que é mais fraco, com quem está sujeito à opressão, com quem é necessitado.

Não se trata, é claro, de mera inversão da ordem econômica. Nem de meros benefícios e privilégios sociais; ele também ora para que “os justos floresçam durante o seu reinado”. A retidão, o cumprimento das leis de Deus e o reconhecimento do direito não são subvertidos em nome de um projeto de “avanços sociais”, como se certos pecados e pequenas injustiças fossem aceitáveis em nome do bem comum, à moda Utilitarista.

Mas aí está: a justiça, associada à compaixão, segue uma ordem: primeiro o fraco, o necessitado e o pobre, e depois os outros também. Não para favorecê-los injustamente e ilegalmente no julgamento, como é expressamente proibido em Levítico 19.15, mas para que, em sua desvantagem, ele seja tratado com equidade. Assim é o Senhor Jesus, o rei justo; mas assim devem ser todos os reis, e em verdade todos os seus servos. Para que “todas as nações sejam abençoadas por meio dele” (vc 17).

Cabe pois a nós a mesma oração: “Dá a nós a tua justiça, ó Deus”. Pois se somos herdeiros das promessas, precisamos ainda viver à altura delas.

Fé em Busca de Catolicidade

 

Trecho adaptado do capítulo: “Católica: as dimensões da missão”, que escrevi como contribuição para o livro “Harmonia”, a ser lançado pela editora Mundo Cristão em 2016 (Pedro Dulci, Ed.)

É fato que o termo “católico” se tornou um nome institucional da igreja romana, e isso quase inviabilizou o seu emprego entre os cristãos evangélicos Brasileiros; mas essa não é uma perda aceitável. O termo, uma transliteração do grego kath’holou que significa literalmente “conforme o todo, e assim “inteiro”, “completo” ou “geral” e “universal”[1], tem um inegável pedigree. Ele aparece pela primeira vez nos pais apostólicos (em Inácio de Antioquia e no “Martírio de Policarpo”) e nas versões mais recentes do Credo Apostólico, a mais antiga confissão de fé ecumênica, como adjetivo da igreja e artigo de fé. Mas seu emprego mais importante na antiguidade – e decisivo para nós – encontra-se no Credo Niceno-Constantinopolitano, produzido no Concílio de Constantinopla (381 d.C.) e aceito por todas grandes as igrejas Cristãs, para descrever as quatro marcas da verdadeira igreja: “Una, Santa, Católica e Apostólica”.[2] Este último, por si só, torna o ponto um artigo de fé e obrigatória a discussão do assunto. Mais >