A prática da restauração é a arte de se colocar outra vez nas mãos do divino Oleiro para que ele refaça o vaso quebrado e lhe dê a forma e a beleza de outrora, depois de qualquer crise ou desastre de ordem religiosa.

Chama-se restauração aquele processo de tratamento a que se submete a pessoa espiritualmente doente, a partir do reconhecimento desse fato. Começa com a intranquilidade gerada pelo peso da mão do Senhor, passa pela confissão de pecado, pela apropriação do perdão de Deus e pela agradável experiência da remoção de qualquer sujidade da alma, e termina com a recuperação da plena comunhão com Deus e da perfeita paz de espírito (Sl 32.1-5).

O tempo de tratamento não é uniforme. Depende naturalmente da extensão e da duração do envolvimento pecaminoso do paciente e de suas respostas à graça de Deus. Não há caso incurável, senão o daquele que comete o “pecado eterno” (Mc 3.29), ou o “pecado para a morte” (1Jo 5.16), que pode ser entendido como uma apostasia total (Calvino) ou “uma hostilidade descarada contra Deus e uma rejeição séria contra Jesus, depois de a pessoa ter sido exposta ao conhecimento da verdade” (G. M. Burger).1

Em outras palavras, a restauração é a arte de se colocar outra vez nas mãos do divino Oleiro para que ele refaça o vaso quebrado e lhe dê a forma e a beleza de outrora, depois de qualquer escorregão moral, depois de qualquer queda, depois de qualquer participação com coisas ou rituais satânicos, depois de qualquer desvio doutrinário, depois de qualquer aborrecimento com a igreja militante, depois de qualquer sofrimento não entendido nem aproveitado, depois de qualquer crise existencial, depois de qualquer período prolongado de frieza espiritual, depois de qualquer desastre de ordem religiosa, depois de qualquer ressentimento contra Deus e contra os homens, depois de qualquer empáfia e depois de qualquer experiência negativa.

A restauração é uma necessidade histórica, porque histórica é a fraqueza humana. Todos os filhos de Deus – em todos os tempos – precisam de restaurações e oram: “Restaura-nos, ó Senhor Deus dos Exercítos, faze resplandecer o teu rosto, e seremos salvos” (Sl 80.19).

De acordo com o Salmo 126, a restauração traz um duplo benefício: uma alegria fora do comum para os restaurados (“nossa boca se encheu de riso e a nossa língua de júbilo”) e um impacto muito forte sobre o mundo (“então entre as nações se dizia: Grandes coisas fez o Senhor por eles”).

A restauração se destina aos que abandonaram a igreja e aos que nela permanecem, todavia sem nenhum entusiasmo, como lembra o velho hino:

Quantos, que corriam bem
De ti longe agora vão!
Outros seguem, mas também
Sem calor vivendo estão.

Inicialmente individual, a restauração pode engrossar como as águas de um rio em épocas de chuvas. Uma restauração aqui e outra ali têm a forte possibilidade de se alastrar. Quando isso acontece, o primeiro beneficiado é a família, o segundo é a igreja e o terceiro é o país. A soma de vários casos de restauração acaba produzindo aquilo que se chama de avivamento religioso. Se for cuidadosamente mantido, aprofundado e espalhado, certamente esse avivamento há de mudar a história da igreja e a história universal. Basta consultar os registros históricos.

Nota
1 – Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, v. 3, p. 117.
Texto originalmente publicado no livro Teologia Para o Cotidiano. Ultimato, 2014.

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