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A gravidez causou em mim um impacto reflexivo inesperado. Iniciei uma jornada sem volta em reflexões profundas sobre a condição de mulher. Até aquele momento era atenta às questões de gênero, mas afinal não me sentia assim tão diferente dos homens, especialmente nas metas profissionais. A eminência da maternidade levou-me a pesquisar sobre ‘mães na academia’. A pergunta: “Por que você está chorando?”, durante a gravidez, era respondida mais ou menos assim: “Leio uma pesquisa (ou estatísticas) sobre mulheres na academia…”.

A fé está presente, ativa na perspectiva adotada nessa reflexão. O nó, então, torna-se híbrido, complexo: mulher, evangélica, mãe, pesquisadora… Na alma ressoa: “e o que será de mim?”.

É minha jornada (para dentro e adiante) neste nó de fé, maternidade, mulher e profissional (entre outras linhas) que pretendo compartilhar. Começo por aderir a uma prática atual nos movimentos pró parto humanizado: um relato de parto. Minha filha Aurora fará um ano esse mês. E vez ou outra me pego emocionada em mais uma narrativa do parto. O registro que segue é uma versão de um primeiro texto escrito em maio de 2015, quando ela tinha dois meses.

 

Escrevo sentada no chão da sala de casa, onde minha filha nasceu. Não, não foi um parto planejado para ser em casa. Moro em um flat no centro de Londres, em um prédio de estudantes, e não julgava que tivesse vínculos tão fortes com o lugar para desejar um parto domiciliar – embora esta seja uma opção dada a mulheres com gravidez de baixo risco pela saúde pública da Inglaterra (o NHS – National Health Service). Minha intenção era fazer o parto no centro de nascimento (Birth Centre) do hospital. Com apoio de uma parteira, minha mãe e meu marido como acompanhantes; com uma estrutura que envolvia uma pequena piscina, cadeira, colchonete, bola de pilates e outras possibilidades. Mas entre intenção e acontecimento é comum haver um lapso. E nesse lapso mergulhamos, os quatro: eu, a bebê, meu marido, minha mãe.

 

Pré- parto

Tive uma gravidez plenamente feliz, relativamente tranquila (apesar dos prantos descritos acima). A partir do quinto mês sentia muitas dores. Fruto da Disfunção da Sínfise Púbica, conhecida como dor pélvica. As dores e a dificuldade de mobilidade aumentavam junto com o tamanho da barriga. A bebê encaixou com 36 semanas e havia, até pelas dores do final da gravidez, uma expectativa minha e da família de que o parto adiantasse. Assim, quando completei 41 semanas (dia 24 de março), a expectativa e ansiedade me tomaram. Como sei que essa condição, 41 semanas, é rara no Brasil, desconfiei que a família estaria preocupada. Simplesmente cortei a comunicação. E elegi meu marido como o canal entre mim e o mundo exterior. Ele foi meu filtro e adivinhou perfeitamente as palavras de que eu precisava naquele momento.

 

De 41 +1, uma quarta-feira (25), notei, pela manhã, um pequeno sangramento rosado e muito corrimento: eu perdia o muco. Comecei a sentir leves cólicas. No mesmo dia fomos ao hospital para uma ultrassonagrafia (eu, meu marido e minha mãe, que após muita luta para conseguir uma licença, esteve ao meu lado desde a 38ª semana até nossa pequena completar 20 dias). O médico, brasileiro, disse que tudo estava bem, a placenta em pleno funcionamento, embora com sinais de envelhecimento. Seguimos para a consulta com a parteira. Eu estava muito nervosa. Sabia que o procedimento padrão seria marcar uma indução. Eu não queria parto induzido porque lera que há maiores chances de terminar em epidural, cesárea ou com a utilização de instrumentos – ventosa e/ou forcepes. Claro, nada disso era minha vontade. Voltei para casa com a indução marcada para a segunda pela manhã, dia 30 de março. Na consulta, a parteira também me ofereceu fazer um deslocamento de membrana, mas eu preferi não realizar o procedimento naquele dia. A ideia da indução me perturbava. Travei uma nervosa batalha interna.

 

Minha longa fase latente

Na tarde daquele dia, fomos caminhar no parque (Regent’s Park). Desde que minha mãe chegara, saíamos as duas, diariamente. Naquele dia, meu marido nos acompanhava. O parque estava lindo e apresentava os sinais da primeira semana de primavera. No caminho de retorno para casa, eu apoiada no braço do meu marido, parei de repente. Senti a primeira contração. Ele percebeu e sorriu. Eu o reprimi – porque todos estavam muito ansiosos e aquele clima de expectativa alimentava minha própria ansiedade. Lembrei de perguntar que horas eram: por volta de 5 da tarde. Mas além de contrações fracas e esporádicas, que eu evitava comentar, e a leve cólica (que aumentava, no meu silêncio), nada mais aconteceu.

Durante a quinta-feira, tive contrações espaçadas, sentia que a intensidade aumentava, lentamente. Como as coisas não evoluíam, ligamos no hospital e marcamos o deslocamento de membrana. Não era possível ser no mesmo dia e o agendamento foi feito para a sexta-feira, às 17 horas. Tentei levantar meu ânimo, cozinhei, comi, caminhei.

As contrações ficaram impossíveis de disfarçar, e mais frequentes, a partir da quinta-feira (26). Chegaram a ser de 20 em 20 minutos durante o dia. Apertaram ao entardecer. A noite foi terrível. Contrações mais ou menos de 10 em 10 minutos. No hospital em que fiz o pré-natal, o procedimento é receber a parturiente apenas quando as contrações estão regulares de 5 em 5 minutos há cerca de uma hora, e duram cerca de 40 segundos. A medicina na Inglaterra é muito estatística, então esse procedimento é justificado por pesquisas que indicam que a maioria das mulheres sofre ‘atraso’ e até interrupção do trabalho de parto no momento de entrada no hospital. Se ficam em casa, a evolução é mais rápida. Ou seja: não havia razão para irmos para o hospital. Minha ansiedade cresceu muito. Mas quando o dia amanheceu (já era sexta, dia 27), as contrações foram reduzindo de frequência e intensidade. O parto não evoluía. Eu, na luta contra a ideia da indução.

Quando cheguei ao hospital para o deslocamento de membrana, na sexta, por volta das 17 horas, já completava 48 horas desde a primeira contração. Demorou para sermos atendidos. A parteira que realizou o procedimento disse que meu cérvix estava macio, o que era um ótimo sinal. O deslocamento foi bastante incômodo, dolorido, como uma cólica aguda, porém rápida. Voltamos para casa.

E então as contrações voltaram a ter frequência e aumentaram de intensidade. Eu continuava tensa, ansiosa e descrente da evolução do parto. Passei multo mal a noite toda. Nada mais parava no estômago, nem água. Além do desconforto óbvio das contrações, a dor pélvica me impedia de me acomodar na cama. A maioria das posições indicadas para aliviar as dores da fase latente do parto não eram possíveis para mim. Passei a maior parte da noite sentada, com a cabeça apoiada em uma pilha de travesseiros. Usei a Tens Machine que tínhamos alugado e contava com massagens nas costas, que meu marido fazia durante o pico das dores.

A bolsa rompeu por volta das 4 horas da madrugada (sábado, já era dia 28 – eu entrava no terceiro dia de contrações). Quando amanheceu, o líquido continuava escorrendo, aos poucos e constante. Eu não dormira durante a noite. Estava exausta e desanimada. A frequência das contrações caiu novamente, o ritmo indefinido, chegando a espaçar meia hora.

Chegamos ao hospital ‘de mala e cuia’ no sábado (28), por volta das 7 da manhã. Queríamos ficar por lá. Eu estava abatida, completamente exausta e segurava (mal) a ansiedade com a indução. O trabalho de parto parecia não evoluir. O hospital estava vazio e a parteira nos atendeu na recepção e nos encaminhou para a sala de consulta. Ela fez um exame de toque: 2 centímetros de dilatação. Sorriu e disse que estava tudo indo muito bem, que o cérvix estava macio e isso indicava que a dilatação prosseguiria. Mas nada disso me animou. Eu imediatamente calculei que foram 3 dias de contrações para 2 centímetros e me perguntava quanto tempo aquilo tudo ainda poderia durar. Naquele momento, eu pensava em topar qualquer coisa para que minha filha nascesse.

Essa parteira olhou bem em meu rosto e disse que eu parecia cansada, que o corpo não é tolo e que o trabalho de parto não poderia evoluir comigo naquele estado. Foi enfática em afirmar para eu retornar para casa e descansar. Dizia que eu precisava dormir. E era para ligar para o hospital dali 4 horas. Eu tive uma ou duas contrações durante a consulta. Em uma delas eu estava na cama, para o exame. Ela percebeu minha tensão, tocou meu braço e disse “relaxe seu corpo” e “respire fundo”. As palavras dela acionaram em minha cabeça todas as leituras que eu tinha feito sobre parto. “Seu corpo não é tolo”, “relaxe seu corpo”… eu lembrei que o parto é mais sobre permitir o corpo atuar do que tentar intervir. Percebi que minha ansiedade e tentativas de controle estavam atrapalhando. No final da consulta, ela disse “até daqui a pouco”. E nós voltamos para casa, um pouco frustrados. Eu, com uma missão: relaxar, descansar.

 

Minha milagrosa fase “ativa” – ou fase onírica

Para sair/ entrar no meu flat há uma escada. Ela estava me matando nessas idas e vindas do hospital. No caminho de volta para casa, as contrações no taxi também me deixaram muito desconfortável, além dos quebra-molas. Eu entrei em casa confusa. Em minha cabeça passavam todas aquelas informações das leituras e ao mesmo tempo uma ideia obtusa, muito forte, que eu não conseguia evitar, de que “eu não quero voltar ao hospital”; “eu não quero subir essas escadas novamente com esse barrigão”. Junto a tudo isso, eu estava tão exausta que pensava “quero que ela nasça de qualquer forma, quero uma cesárea ou seja o que for”.

Segui o conselho daquela parteira ao pé da letra. Entrei em casa e me joguei na cama. Peguei meu travesseiro de grávida, me ajeitei o melhor que pude com aquele barrigão, a dor pélvica, as dores nas costas e as contrações. E fiquei lá, imóvel.

Não sei quando eu dormi. Minha mente trabalhava, confusa. Aquelas ideias contraditórias, “quero que ela nasça de qualquer jeito, vou voltar ao hospital e pedir para adiantar a indução, implorar uma cesárea”. Ao mesmo tempo, a forte sensação de “eu não quero voltar ao hospital, eu não quero mais subir as escadas…”

 

Então, eu orei. Orei meu salmo predileto, adaptado à situação: “Graças te dou, ó Deus, visto que de modo assombrosamente maravilhoso formaste meu corpo de mulher, totalmente preparado e capaz de dar à luz”; “Graças te dou, ó Deus, visto que de modo assombrosamente maravilhoso formaste a Aurora, minha bebê completamente saudável e capaz de trabalhar comigo para vir à luz”; “As suas obras são admiráveis e a minha alma o sabe muito bem”. Eu repetia mentalmente essas palavras. Elas foram me tomando… a mente, a alma, o corpo, tomavam, envolviam tudo. E eu adormecia cada vez mais profundamente.

Após umas 4 ou 5 horas de sono, acordei. Meu marido e minha mãe disfarçavam (mal) suas preocupações e incômodos. Eles tentaram me acordar muitas vezes, sem sucesso. Meu marido conta que quando ele tentava conversar comigo, eu dizia para ele coisas como: “fica aqui, me abraça”; “eu preciso de você”. Mas finalmente eu disse: “vamos ao hospital, apenas me ajudem a ir ao banheiro e me vestir”. Quando levantei, senti muita dificuldade em andar – responsabilizei as muitas horas inerte na cama, mais um efeito da dor pélvica. Percebi uma troca de olhares entre meu marido e minha mãe. Decidiam, naquele momento, cancelar o taxi, chamar a ambulância. No banheiro percebi que o que sentia era minha filha nascendo! Joguei meus 80 quilos encima da minha mãe, disse que minha bebe estava nascendo e pensava: “não quero que minha filha nasça no banheiro!”.

 

Pausa

Esse sono merece uma pausa. Não foi comum. Depois de uns dias, comecei a ter memória dele. Enquanto dormia, leituras* que havia feito sobre parto normal me vinham à mente. Dentro de mim, naquele momento, estavam parturiente, bebê e parteira! Todas ainda eu mesma, trabalhando duro. Em especial a ideia linda da dor de parto menos como dor e mais como um incômodo, um alerta para abrirmos mão do controle e permitir o corpo assumir o trabalho. Hoje analiso (veja como sou!) que, acordada, eu seria incapaz de abrir mão de minha racionalidade e consciência. E até disso meu corpo estava ‘ciente’! Cheguei a descrever o parto como irracional. Hoje discordo disso. Certamente não é da ordem da racionalidade objetiva em vigor na nossa cultura (e que, não surpreende, foi forjada assim por homens…). O parto é pleno. Poucas experiências na vida são tão plenas. É tudo integrado (todos os nomes que já foram dados: razão, emoção, alma, espírito, corpo, natureza, self, desejo, vontade, consciente, inconsciente… criação). Uma atividade total… Na, pela e para a Vida!

 

Estágio expulsivo (ou de como acordei mãe)

Retomamos a cena: eu inclinada sobre minha mãe, para evitar que a “ajuda” da gravidade acabasse por fazer minha filha nascer no banheiro. Era muito difícil segurar as contrações. Meu marido no telefone com a emergência, já agachado, toalhas limpas em punhos (esse relato merecia um apêndice da versão dele).

IMG_0827A equipe de paramédicos chegou, em seis minutos após o chamado. Minha mãe colocou meus braços encima do meu marido e abriu a porta. Lembro apenas que a paramédica era uma mulher alta e quando ela se aproximou e se apresentou, eu me joguei encima dela. A equipe montou um ‘ninho’ no chão da minha sala, com nossa roupa de cama, e ligou para o hospital mais próximo enviar uma parteira. A paramédica me conduziu até a sala. Eu olhei o ‘esquema’, meu marido sentado no sofá, e vi que eu não tinha condições de ir para o chão, por causa da dor pélvica. Lancei meus joelhos ao chão, o dorso apoiado no sofá. É provável que ainda estivesse orando. Com ações. Uma das mãos, segurando meu marido, companheiro das maiores emoções da minha vida até aqui. Um dos paramédicos trouxe a máscara com gás – outro procedimento padrão de alívio de dor do parto na Inglaterra (claro, a mulher pode recusar). Eu relutei, mas lembrei da minha prima dizendo que essa fase era a mais dolorida. Inalei algumas vezes, mas aquilo também me incomodava. Lembrei mais uma vez das leituras. Uma delas dizia que não era necessário assim tanta força nesse ‘empurrar’. Que idealmente o bebê nasce em duas contrações, para evitar lacerações. Lembrei disso assim que ouvi os gritos entusiasmados, especialmente da minha mãe, dizendo: “estou vendo ela, filha, estou vendo o rostinho!”.

Meus ouvidos atentavam, em meio a tantos ‘push’ e ‘empurre’, à voz querida, suave e doce da minha própria mãe. Naquele momento os sons da voz dela me incentivando; dos meus gritos guturais para exalar força; e do já-tão-próximo choro da Aurora uniam três gerações de mulheres. Éramos uma só. Uma única-plena-forte mulher, cheia de fé, pura alegria. Esperei a próxima contração. Respirei, exalei com força. Senti a cabecinha passar e, depois, o corpinho escorregar. E assim nossa Aurora raiou. Era 4h12, 28 de março de 2015.

 

Pós parto

IMG_0832Deitei, recostada no edredom no chão. A Aurora me foi entregue e ali mesmo ela mamou pela primeira vez. Meu marido cortou o cordão umbilical. (E ainda conseguiu fotografar!!) A parteira então falou sobre a placenta, me deu a injeção – mais um procedimento típico dos partos no NHS – e eu não senti nada, apenas vi ela com a placenta na mão. Dei uma olhadinha e voltei a contemplar meu bebezinho.

 
Aurora ganhou um segundo nome, Sophie, em homenagem à parteira que conduziu os primeiros cuidados com ela e comigo. Meu parto não teve um único ponto: sutura zero! Quando ouviu a história do ‘sono’, a parteira sorria: “você tem que nos ensinar como fazer isso, precisamos ensinar as mulheres”! Após uma rápida ducha, fomos todos para o hospital, onde descansei até o outro dia. Eu estava tão feliz! Lembro que uma chuva fina, tipicamente londrina, caía lá fora. Minha mãe escondeu a Aurora embaixo de sua blusa e a levou até a ambulância. Como é normal, por causa da descarga de hormônios, eu estava um pouco trêmula. Mas subi as escadas para a rua, sozinha (rejeitei ajuda). Já não estava grávida…

           

Meu parto teve um sono profundo; também teve oração, teve trabalho. Toda vida que nasce é um milagre. Agora, mãe, oro e trabalho por outros milagres. O milagre de um mundo inclusivo, mais alegre, mais suave para nós. Para as crianças, para as mulheres. (Essa história continua…)

 

Priscila Vieira e Souza*

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*Priscila é doutora em Comunicação e Cultura pela ECO/UFRJ, e Pós-doutoranda na School of Arts do Birkbeck College, na Universidade de Londres.

 

Referências

(Nota sobre a ‘bibliografia’: os livros me chegaram através da rede de afetos: mulheres mães me emprestaram. E eu já devolvi ou repassei.)

 

GUTMAN, Laura. A maternidade e o encontro com a própria sombra. Rio de Janeiro: Best Seller, 2010.

BRUNG, Paule; BERTHERAT, Therese; Bertherat, Marie. Quando o corpo consente. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

GASKIN, Ina May. Guide to Childbirth. New York: Bantam Dell, 2003.