De como a Espiritualidade do Deserto nos ensina a perdoar e encobrir o pecado dos outros

 

Marcus Vinicius Matos*

 

Monastery of Saint Macarius the Great, Wadi El-Natroun, Egypt.

O Monastério de Santo Macarius, O Grande. Wadi El-Natroun, Egito. Foto de: Faris Knight

O orgulho continua sendo o principal entrave a termos uma real comunhão com Deus. Essa é a minha experiência. Talvez seja a sua. E, possivelmente, seja a experiência mais marcante na história da Igreja. Toda vez que ela se engaja em uma espécie de “cruzada” – seja contra outras religiões, ou contra determinado estilo de vida – ela se esquece da sua função. A Igreja não foi criada para combater pecadores, ou mesmo o pecado em si. Sua função é acolher o pecador no processo de arrependimento de seus pecados. Ajudá-lo a abrir mão de suas autodefesas e do seu instinto de autopreservação, que é estritamente ligado ao orgulho: reconhecer suas falhas, suas fraquezas e sua condição de pecador.

 

 

O processo de arrependimento requer, em primeiro lugar, um processo de reconhecimento de si. Por incrível que pareça, abrir mão do orgulho requer amar a si próprio. Mas talvez nada seja mais difícil para um pecador arrependido do que, consciente dos seus próprios pecados, amar a si próprio. Esse é um esforço que exige de nós admitir duas coisas. Em primeiro lugar que, apesar de mim mesmo, da minha condição, e das minhas falhas, Deus me ama. Em segundo, o que é mais difícil, eu preciso fazer o mesmo pelo meu próximo.

 

Parecem duas tarefas simples. No entanto, demandam a admissão da nossa insuficiência gerada por um profundo senso de amor próprio, que reconhece seus limites e suas falhas. Nosso instinto inicial é o de ser duro conosco, e adotar um rigor severo com nossas próprias falhas. Queremos nos punir por nossos próprios pecados, porque isso nos dá a sensação de que há algo que possamos fazer para redimir nossa própria condição. Aceitar que Deus nos ama, enquanto pecadores, talvez seja a tarefa mais exigente para o coração orgulhoso. Assim como Naamã, o orgulhoso general Sírio (2 Reis 5:1-27) que inicialmente se recusa a simplesmente aceitar a dádiva de Deus, sem fazer nada em troca; nós também nos recusamos a mergulhar no rio. O orgulho é a principal razão de sermos duros com nós mesmos, e com nosso pecado. É a nossa resistência à graça e ao amor incondicional de Deus.

 

Cave of Saint Macarius the Great

A Caverna de Santo Macarius, O Grande. Foto de: Faris Knight 25 de Agosto de 2011

 

E se somos duros com nossos próprios pecados, por conta de nosso orgulho, faremos o mesmo com o próximo. Não há contradição nisso: é preciso amar a si mesmo, para amar ao próximo. A dureza com que lidamos com as nossas falhas, e a dureza com que impomos condições para o que o próximo encontre o perdão de Deus, são ambas fruto do nosso orgulho. Essa rigidez do nosso coração para consigo mesmo, e para com as falhas do próximo, “geralmente é acompanhada de um senso de superioridade”[1]. Essa dureza no nosso coração, fruto do orgulho, precisa ser primeiramente admitida para ser curada – assim como todos os nossos pecados.

Há dois exemplos interessantes que os Pais da Igreja e a Espiritualidade do Deserto nos trazem nesse tema: as vidas de Macarius, O Grande; e de Moises, o Negro. Macarius era um condutor de camelos egípcio, que vivia do comércio. Foi ordenado como pastor e vivia numa pequena vila onde foi falsamente acusado de engravidar uma jovem. Depois de provada sua inocência foi viver no deserto, e se tornou o primeiro monge a habitar o deserto de Scetis. Se tornou um eremita.[2] Talvez pela sua própria experiência de vida, ele se propunha a não julgar os outros. Se alguns monges eram respeitados pela suas experiências místicas, Macarius, diziam eles “era como Deus ‘que protege o mundo inteiro e carrega os pecados de todos; ele acolheu e protegeu seus irmãos, e não tinha olhos nem ouvidos para os pecados de quem quer que fosse’”.[3]

 

Moisés, chamado de O Ladrão ou O Negro, foi um escravo liberto que viveu como um ladrão na região da Nitria. Tardiamente se tornou um monge, e foi discipulado pelo padre Isadore. Se tornou um dos grandes Pais do Deserto de Scetis. Aconselhado por Macarius, foi viver em Petra. Terminou sua vida martirizado, foi morto junto com sete de seus irmãos por invasores “bárbaros”[4]. Conta-se dele que certa vez ouviu que um monge seria levado diante de um concílio e julgado. Foi convidado para participar do concílio, e não compareceu. Ao ser procurado, ele carregava uma cesta cheia de areia, que se derramava pelo caminho. Respondeu aos interlocutores, que exigiam sua presença no julgamento: “como eu poderia julgar a meu irmão, se meus pecados me perseguem como a areia que se derrama dessa cesta?”[5]

 

Uma das marcas da caridade dos Pais do Deserto era que eles não julgavam. Não é que o pecado tenha que ser tratado de forma “light”. Ao contrario, é necessário admitir a densidade de nossos pecados, e nossa profunda condição de pecadores, para poder de fato lidar com ele. Assim como só o amor de Deus nos salva dos nossos próprios pecados; só o amor ao próximo é capaz de levar-nos a Deus. O nosso orgulho, e o nosso julgamento, jamais será capaz de tal feito. É preciso amar a si próprio, e ao próximo, para que possamos desenvolver qualquer entendimento da espiritualidade cristã que seja “mais do que um mero disfarce”[6].

 

Aqueles que se concentram no pecado dos outros, perdem a dimensão mais importante de si: suas fraquezas. Enquanto a Igreja insistir em perder tempo acusando grupos, minorias e outras religiões de seus pecados; ou insistir em acusar seus próprios membros de “idolatria”, resultado da não adoção de uma suposta “cosmovisão cristã”; ela, a Igreja, não estará apta a fazer como Eliseu: perdoar Naamã pelo pecado que ainda iria cometer, ao curvar sua cabeça a um falso deus, por dever cívico (2 Reis 5: 17-19). Rowan Williams, parafraseando um monge do deserto, dizia que “quem está preocupado em enterrar seus próprios cadáveres, não tem tempo de procurar os corpos putrefatos no quintal do seu vizinho”[7]. Que essa seja nossa preocupação, e nossa ocupação, a cada dia.

 

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*Marcus Vinicius Matos é Doutorando em Direito no Birkbeck College (Universidade de Londres, Inglaterra), Professor de Direito Público e Teoria de Direito. Frequenta atualmente a Christ Church Rio, em Botafogo, Rio de Janeiro. É membro da  Diretoria Nacional da Aliança Bílbica Universitária do Brasil (ABUB). É casado com Priscila Vieira e pai de Aurora. Instagram e Twitter: @mvdematos.  Siga também as páginas do Blog Dignidade e da Rede FALE no Facebook. As opiniões expressas nesse texto são de responsabilidade exclusiva do autor.

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Notas:

[1] Rowan Williams – Life, death and Neighbours, YouTube: World Community for Christian Meditation, 2015.

[2] WARD, Benedicta, The Sayings of the Desert Fathers: The Alphabetical Collection, Revised Edition. Kalamazoo, Michingan, USA: Cirtercian Publications, 1984, p. 124.

[3] Ibid., p. xxv.

[4] Ibid., p. 138.

[5] Ibid., p. xxv.

[6] DART, Ron, Rowan Williams’ “Silence and Honey Cakes: The Wisdom of the Desert” — Review by Ron Dart, Clarion: Journal of Spirituality and Justice, disponível em: <https://www.clarion-journal.com/clarion_journal_of_spirit/2011/06/rowan-williams-silence-and-honey-cakes-the-wisdom-of-the-desert-review-by-ron-dart-.html>, acesso em: 18 nov. 2018.

[7] Rowan Williams – Life, death and Neighbours.

 

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A Lectio Divina me fez encontrar a história da Igreja

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Repensar a Evangelização a partir de Jesus Cristo.

 

Shane Claiborne*

(Tradução: Mozart Archilla)

 

Tenho ouvido um burburinho em círculos cristãos que tem me preocupado. É a ideia de que se fizermos Jesus alcançar as pessoas mais influentes do mundo… então todo o resto do mundo virá em seguida.

 

Eu tenho visto essa filosofia contaminar igrejas e organizações, e até movimentos e conferências inteiras. Seu objetivo é atingir os “influenciadores” – os que detêm e controlam o poder e o acesso a ele. Eu vivenciei isso do lado de dentro, porque com frequência sou considerado uma dessas pessoas.

 

Não consigo definir muito bem o meu problema com isso. Afinal de contas, muitas das pessoas que vêm a essas reuniões de elite, cúpulas, e think-tanks, são influentes com razão… são brilhantes (algumas delas). Articuladas (a maioria delas). Carismáticas (todas elas).

 

Então eu lembrei da Young Life (Vida Jovem), uma organização da qual fiz parte no ensino médio.

 

O grupo Young Life tinha uma filosofia chamada de Key Kid (Garoto Chave). A ideia era que se você tocasse os jovens mais populares – as líderes de torcida e os jogadores de futebol – então os outros jovens [menos populares] também viriam. Por anos, essa foi a estratégia que dirigiu um dos mais eficazes ministérios de juventude no país.

 

De acordo com meus amigos na Young Life, eles aprenderam duas coisas ao implementar essa estratégia:

1) Ela funcionava. 2) Ela contrariava Jesus.

 

Mesmo que a filosofia fosse bem-intencionada e eficaz em alcançar centenas de jovens,  ela era problemática. Ela não combinava com a maneira a qual Jesus ministrava.

 

Ele não escolhia os mais poderosos, influentes, populares, polidos e imaculados.

 

Na realidade, eram os que residiam no poder e na prosperidade que lhe davam muito trabalho.

 

Certamente havia líderes ricos, soldados condecorados, homens de negócio poderosos e intelectuais influentes entre os que vieram a Jesus. Eles precisavam de Deus também.

 

Porém, Jesus foi muito claro quando disse que o discipulado fiel lhes faria perder tudo o que eles possuíam e confiavam – “é mais fácil entrar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus.” Mas nada é impossível. Todos os seus títulos, todas suas riquezas e todo o seu poder deveria ser trocado por uma cruz.



Jesus não começou de cima, e sim, de baixo. Jesus escolheu os ordinários. Ele escolheu os prostrados, os danificados e machucados, os marginalizados e excluídos. Escolheu pescadores e prostitutas, cobradores de impostos e leprosos.

 

Talvez porque eles não tinham nada a perder – a não ser as correntes que os prendiam.

 

A tentação aqui é acreditar que são os ricos e poderosos os mais preparados e eficazes em comunicar o amor de Deus, atingir pessoas para Cristo, ou transformar o mundo.

 

Mas a Bíblia nos mostra algo diferente, e a história a comprova – os melhores cristãos são os curadores feridos. Nossas credenciais não são nossos diplomas, habilidades ou reconhecimentos. Nossas feridas – machucados, cicatrizes – estas são nossas referências. Eu aguardo ansiosamente o dia em que os que possuem as feridas mais profundas se tornem as vozes mais destacadas na igreja.

 

Há alguns anos, Young Life abandonou a estratégia Key Kid. O resto da igreja precisa  fazer o mesmo.

 

Então, vamos parar um pouco e refletir.

 

Vamos olhar para nossas conferências e cúpulas, para os bancos das nossas igrejas e mesas de jantar. Estamos mais impressionados com os títulos das pessoas ou com suas lágrimas?

 

Vamos nos certificar de que atraímos as pessoas que Jesus atraía, e que se frustramos alguém, que seja os que Jesus frustrava. Frequentemente o que a igreja faz é o contrário: atraímos as pessoas que Jesus frustrava e frustramos as pessoas que Jesus atraía.

 

Será que as pessoas das quais Jesus se cercava teriam dinheiro para pagar as inscrições nas nossas conferências evangélicas? Seriam elas as convidadas dos nossos think-tanks teológicos?

 

Não tenho sequer a certeza de que Jesus se sentiria confortável pernoitando num Hotel de luxo, num Ritz Carlton [onde algumas dessas conferências acontecem].

Jesus admoestava os poderosos no alto de seus tronos e elevava os rebaixados. Ele mandava para a parte de trás do ônibus os que estavam na primeira classe, e convidava os que assistiam do lado de fora para se sentarem na área VIP. Os últimos se tornam os primeiros, os primeiros viram os últimos.

 

Os que tinham as vozes mais altas foram obrigados a ouvir, e aos que não tinham nenhuma voz, lhes foi dado um microfone.

 

O Reino de Deus não respinga de cima pra baixo… ele borbulha de baixo pra cima. Então vamos exorcizar o mal do falso merecimento. Vamos descer da escada do status e ouvir o clamor dos oprimidos.

 

Vamos sair de nossas cúpulas e tomar as ruas.

 

Porque vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes. E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são para aniquilar as que são. 1 Coríntios 1: 26-28

Traduzido de: The Myth of Trickle-Down change

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*Shane Claiborne é o autor de best-sellers, reconhecido ativista e preletor, além de um auto-declarado “pecador em recuperação”. Shane publica e palestra em vários países sobre promoção da paz, justiça social, e Jesus, e é autor de inúmeros livros como A Revolução Irresistível, Jesus for President, e o mais recente, Executing Grace (sobre a pena de morte). Ele é o líder visionário da comunidade The Simple Way, na Filadélfia, e co-diretor dos Cristãos da Letra Vermelha. Seu trabalho já foi citado e reconhecido pela Fox News, Esquire, SPIN, The Wall Street Journal, NPR e CNN. ____________________________________________________________________________________________________________

 

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Qual é o verdadeiro significado de um Cristianismo da Letra Vermelha?

 

Tony Campolo*

Tradução: Sara Tironi

 

 

De tempos em tempos é fundamental explicar novamente o que significa o Cristianismo da Letra Vermelha (Red Letter Christianity). Então aí vai:

 

1º – O Cristianismo Evangélico tem feito bem em articular uma ortodoxia teológica em grande medida deduzida das Epístolas de Paulo; mas tem falhado gravemente ao não enfatizar com seriedade os ensinamentos de Jesus – aquilo que, em muitas de nossas Bíblias, é destacado em letras vermelhas.

A evidência desse desequilíbrio é o apoio que muitos Evangélicos (embora nem todos) dão à pena de morte; à afirmação de um estilo de vida próspero de classe-média em vez de promover a simplicidade que enfatiza o sacrifício pelos pobres, como proclamado por Jesus; bem como a sua relutância em falar profeticamente contra a guerra. Tudo isso aponta para a necessidade de um novo movimento que recuse a se comprometer com a religião cultural do Americanismo.

 

2º – o rótulo “Evangélico” tem sido comumente identificado na mídia como sendo anti-mulheres; anti-gays; anti-ambientalismo; pro-guerra; pro-lobby armamentista; e defensor de um patriotismo que beira a idolatria. Jesus não é um republicano, nem um democrata. Na verdade, Jesus nem mesmo é um americano! Ele transcende essas identidades políticas e nacionalistas e conclama todos esses principados e poderes a se sujeitarem a Ele.

O rótulo “Evangélico” tem sido tão distorcido na cultura popular que nós sentimos que deveríamos elaborar uma nova designação para quem somos – então, nós chamamos a nós mesmos de “Cristãos da Letra Vermelha” (“Red Letter Christians”).

 

3º – Para aqueles que argumentam que nós agimos como se as letras vermelhas na Bíblia fossem mais importantes do que as letras pretas, nós dizemos, “Vocês estão certos!”. Não somos apenas nós que dizemos isso, mas Jesus também disse o mesmo (leia Mateus 6). Além disso, nós estamos convencidos de que as letras pretas na Bíblia não podem ser entendidas a menos que sejam lidas por meio do Jesus encontrado nas letras vermelhas.

 

4º – Em resumo, o Cristianismo da Letra Vermelha é um chamado para o DISCIPULADO RADICAL. Nossas igrejas estão cheias de crentes, mas com poucos discípulos. Jesus disse “Vocês são meus discípulos se fizerem aquilo que eu ordeno”. O Cristianismo da Letra Vermelha é sobre fazer o que quer que seja que Jesus nos ordene que façamos.

 

 

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*Tony Campolo, é pastor associado da Igreja Batista Mount Carmel, na Filadélfia (EUA). Foi professor de Sociologia da Eastern University, e fundador da “Associação Evangélica para a Promoção da Educação”, cujo objetivo é apoiar programas educacionais em áreas de pobreza, particularmente, na América Latina – leia mais sobre o ministério de Tony, aqui. Além disso, Tony já colaborou com a Intervarsity (IFES/EUA) e com o SPEAK (Rede FALE no Reino Unido). Um dos seus primeiros textos traduzidos para Português foi “A Urgência do Chamado”, lançado no site de formação do Congresso Missionário da ABUB em 2006 – disponível parcialmente aqui, e integralmente aqui. Recentemente, o Dr. Campolo integra a liderança do movimento “Cristãos da Letra Vermelha”, escrevendo com regularidade no seu website. Tony e sua esposa Peggy vivem perto da Filadélfia, tem dois filhos e quatro netos.

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Entrevista com o fundador da primeira editora evangélica Afro-Americana

Tradução: Sara Tironi

Leia abaixo dois trechos da Entrevista. O conteúdo completo dela está disponível aqui.

Por que é importante para pessoas negras verem pessoas que se parecem com elas nos materiais bíblicos?

Quando eu me tornei adulto, toda a literatura da escola bíblica dominical era produzida por pessoas brancas e toda a redação era feita a partir da perspectiva branca. Todos os personagens bíblicos eram retratados como brancos. Comecei a me dar conta de que o material, tal como publicado, não era pertinente. Ele não falava da cultura vivida por afro-americanos e sobre como era seu culto. Isso acendeu meu desejo de produzir um material que fosse mais relevante para o contexto afro-americano.

O centro geográfico das Escrituras estendia-se do norte da África para o extremo sul da Europa; ainda assim, a literatura bíblica naquela época apresentava personagens com características do norte da Europa, de modo que buscamos oferecer representações bíblicas mais precisas.

Quais desafios você enfrentou quando começou a UMI?

Naquela época, Dr. Martin Luther King Jr. estava trabalhando para conquistar direitos civis para afro-americanos. Existia essa atitude de que nós da comunidade negra precisávamos fazer algo para impulsionar esse plano.

Ao mesmo tempo, havia essa noção sendo inculcada de que afro-americanos necessitavam tomar iniciativa, tomar o poder. Essas perspectivas dominaram a América negra durante os anos da década de 1960. A necessidade de igualdade e justiça social por um lado, e a necessidade de controle e poder afrocêntrico por outro. Assim que a UMI começou, enfrentamos a dificuldade de equilibrar essas perspectivas nos materiais que produzíamos.

+ Leia a entrevista completa: http://www.ultimato.com.br/conteudo/melvin-banks-tinha-um-sonho

+ Acesse o site da Urban Ministries Inc.: https://urbanministries.com/

+ Leia também: O Cristianismo não é uma religião branca e ocidental

Entrevista com Onleilove Alston – Os Cristãos da Letra Vermelha 

(Traduzido por: Sara Tironi)

NOTA DO EDITOR: enquanto muito evangélicos brancos se preocupam com o Black Lives Matter [1] ser um movimento subversivo, aqui nos Cristãos da Letra Vermelha somos gratos por membros de nossa rede que têm compartilhado, já há alguns anos, as boas novas do Jesus que não é branco. Onleilove Alston é uma de nossas grandes professoras que tem nos ajudado a enxergar o motivo pelo qual a encarnação do Evangelho em movimentos como o Black Lives Matter é uma boa nova para todos nós. Estamos felizes em dar destaque à voz dela hoje.

 

1) Compartilhe conosco um pouco do pano de fundo da sua fé. Quando você começou a seguir Jesus?

Eu não fui criada em nenhum sistema de crença específico, ainda que a minha mãe fosse ateia e meu pai estivesse em um ramo da Nação do Islã.

Quando eu tinha cerca de sete anos, minha família ficou desabrigada e meu irmãozinho e eu entramos em um programa de acolhimento familiar em casas de parentes e começamos a morar com minha avó e minha tia. Com dez anos de idade, algo me levou a pegar o livro de Salmos e eu comecei a orar de manhã, ao meio-dia e à noite. Eu hoje acredito que era o Espírito Santo que estava me direcionando! Eu fiz isso por quatro anos e então minha tia disse, “Alguém precisa levar essa menina para a igreja”. Eu comecei a ir à Igreja Batista Missionária Greater Bright Light. Eu respondi a um chamado no altar, fui batizada na semana seguinte e comecei a receber a comunhão.

Eu também amava ler e aprender sobre a história negra. Eu lia Malcolm X e Dr. King e pensava que todas as igrejas estavam envolvidas em questões de direitos civis. Essa era a minha expectativa.

Quando eu estava na [Universidade de] Penn State, eu me juntei aos Navigators, e comecei a aprender sobre a cultura evangélica. Eu tenho muito respeito por eles e possuo muitos amigos por causa desse grupo. Mas foi nessa época que eu também comecei a perceber uma separação entre fé e justiça, o que era muito estranho para mim. Quando eu me converti, Jesus salvou minha mente e corpo da perda do lar, do sistema de acolhimento sócio-educativo onde eu poderia ter facilmente terminado na prisão. Para mim, fé e ação social eram completamente atadas uma a outra.

Minha relação com Deus era muito próxima quando o Espírito Santo me conduziu para si. Antes de eu me envolver fortemente na igreja, eu tive uma relação bastante vigorosa com Deus. Mas por meio de minha atividade na igreja, eu senti que as pessoas estavam tentando me moldar dentro dessa cultura ocidental branca – mesmo na igreja negra. Eu quase abandonei minha fé na faculdade, mas, como minha experiência de conversão foi tão poderosa, não pude fazer isso. Porém, ainda havia essa tensão entre a cultura ocidental, a cultura bíblica, e minha cultura enquanto pessoa afrodescendente.

2) Como você resolveu essa tensão?

Na Penn State, eu cursei uma disciplina de estudos sobre religião afroamericana na qual eu li “O Deus dos Oprimidos” de James Cone. Eu o reli durante aquele verão. Eu comecei a ver a Bíblia dentro da minha realidade. Isso tornou claro aquilo que eu havia sido chamada para fazer em comunidades urbanas em geral, e na zona leste de Nova York de forma particular.

Isso me fez enxergar minha realidade no Evangelho muito mais do que a média dos evangélicos. Eu escutava o Focus on the Family e Charles Stanley, mas eu lutava para integrar sua forma de cristianismo à minha vida cotidiana.

3) Você é apaixonada pelo que? Em que você trabalha diariamente?

Em relação a minhas atividades diárias, eu sou Diretora Executiva do Faith in New York, uma afiliada da PICO[2], uma federação de 70 congregações que organizam atividades baseadas na fé para criar políticas justas em nossa cidade enquanto constroem uma comunidade de amor. Eu também lidero um trabalho com mulheres sobre Teologia da Libertação para a rede PICO, em que mulheres de fé estão fazendo seu trabalho de justiça e se reunindo em retiros, pensando sobre como organizar atividades com fé, e centradas na participação de gênero.

Eu sou a fundadora do Prophetic Whirlwind, uma organização que provê materiais de estudos bíblicos e promove a educação via mídias sociais, palestras, e workshops sobre as raízes africanas do cristianismo e da fé judaica. Essa é uma grande paixão minha.

Até 1869, Israel estava ligada ao Egito – ligada a toda África. Foi apenas quando o Canal de Suez foi terminado que Israel se separou da África. Inclusive, até o princípio dos anos 1900, Israel era considerado como nordeste africano.

O mundo inteiro se abriu para mim e revelou questões que eram importantes para cristãos negros, e cristãos em geral. Nós realmente separamos o cristianismo da fé dos hebreus. Mas os primeiros crentes continuaram a celebrar a Páscoa e o Sabbath. Na cultura hebraica, a salvação é de todos – da comunidade inteira – não apenas do indivíduo. Essa é a norma na cultura africana.

É importante entender que a Bíblia é um livro multicultural. Meu trabalho é sobre reconciliar Jesus com sua cultura – sua cultura hebraica. Se você está tentando entender o cristianismo em um contexto ocidental, você ficará perdido.

É muito importante para os cristãos se conectarem com as raízes hebraicas de sua fé, porque de outra forma sua fé se tornará incoerente, será ocidentalizada e transformará a brancura em ídolo.

Da Wikimedia Commons. Autor: Tubs.

 

4) Você escreve e fala bastante sobre a importância de entender a negritude da Bíblia. Como isso se encaixa em nossa teologia?

Na história da igreja, os primeiros crentes eram hebreus e eles ainda celebravam o Sabbath no Sábado e se reuniam aos Domingos. Eles não viam sua aceitação de Yeshua como um abandono de sua fé judaica. Yeshua estava chamando seu povo de volta à pureza da Torah.

Mas quanto mais gregos e romanos se convertiam, e o Cristianismo ia se tornando a religião do Império, ele foi se enfraquecendo e se distanciando de suas raízes hebraicas. Por exemplo, o termo ajudadora (“helpmate[3]) é Ezer Kenegdo em hebraico e significa muito mais do que apenas uma auxiliadora, muito mais do que a explicação que nos foi dada. Desse modo, entender as raízes judaicas de nossa fé é incrivelmente importante.

É ainda mais poderoso entender as raízes culturais de nossas mães e pais da Bíblia. Marcos foi o pai do Evangelho na África. A Última Ceia e o Pentecostes se deram na casa de sua mãe, e ela era uma judia africana de Cirene. Eles eram refugiados. Os imigrantes sabem disso hoje? Irmãs e irmãos negros sabem disso hoje? Seria incrivelmente empoderador se nós conhecêssemos essas histórias.

Então houve um grande êxodo reverso a partir de Israel de volta para o Egito nos tempos bíblicos. As duas porções de terra eram ligadas, elas se pareciam e possuíam climas semelhantes. Quando Marcos e sua mãe precisaram deixar Israel, eles foram para o Norte da África. É um lugar para onde muitos judeus foram. Thomas Oden é um pesquisador da Eastern University e sua pesquisa abriu meus olhos. Marcos nasceu na África e morreu na África. Santo Agostinho era africano, sua mãe Mônica era africana, e ao morrer, ela disse a Santo Agostinho para carregar seus ossos de volta para a África.

Ou nós teremos um cristianismo ocidental ou teremos um cristianismo baseado na verdade da Bíblia, que é o que pode transcender a cultura. Quando você o separa de suas raízes, a versão embranquecida ocidental e frequentemente americana fere a todos, inclusive as pessoas brancas.

5) Conte-nos um pouco sobre seu trabalho com grupos negros em Israel. O que cristãos americanos sabem e entendem sobre eles?

Vou contar um pouco da história da Bíblia. Havia 12 tribos de Israel, e cada uma recebeu profecias de seu pai Jacó. Tudo correu bem por um tempo, mas então as pessoas começaram a seguir ídolos. No Velho Testamento, a idolatria é sempre associada à prática de injustiças. Injustiça significava manter relações sexuais injustas e relações econômicas injustas, entre outras coisas. As dez tribos do norte foram tão longe com sua idolatria que foram levadas pelos assírios.

Levi, Judá e Benjamin foram levados cativos à Babilônia alguns anos depois, mas eles puderam voltar e se reconstruir, enquanto as outras dez tribos não.

Adiantando para Jesus. Ele disse desde o começo: “Eu vim somente para as tribos perdidas de Israel”.

Isso é significante uma vez que a profecia bíblica afirma que quando essas tribos começarem a voltar para a Torah, o Messias retornará. Muitos pesquisadores, principalmente de fé judaica, viajam ao redor do mundo, como Indiana Jones viajando em busca da arca perdida, buscando essas tribos. E investigações mostram que muitas delas estão na África.

Os igbos na Nigéria são a tribo de Gade e devido ao tráfico transatlântico de escravos, um em cada quatro afroamericanos possui ancestralidade igbo. Sua história oral prova isso. Há muitas tribos na África que possuem tradições hebraicas antigas. Pesquisadores tem documentado isso repetidamente.

Isso também não é importante apenas em termos da profecia sobre o retorno de Jesus. É importante porque a Bíblia diz que essas tribos seriam espalhadas pelos quatro cantos da Terra. Eles parecerão diferentes, falarão línguas diferentes, mas eles serão reunidos em volta de uma fé comum. Na profecia, é dito que eles serão os mais pobres e oprimidos. Todos nós sabemos que Jesus nos disse para cuidar do menor desses.

A história dos hebreus se iniciou com pessoas saindo da escravidão, e Deus não desistiu delas. Essa é uma boa notícia porque significa que Deus nunca vai desistir de seu povo, ele nunca vai desistir de nós.

Acompanhe o ministério de Onleilove, Prophetic Whirlwind, no Facebook e Instagram.

 

 

Traduzido de: Christianity is Not a White Western Religion

[1] Nota de tradução: “Vidas Negras Importam”, em tradução livre.

[2] Nota de tradução: People Improving Communities through Organizing.

[3] Nota de tradução: Termo em português utilizado na Bíblia em Gênesis 2:18, segundo as seguintes versões: Almeida Corrigida e Revisada Fiel (“E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele”), Almeida Revisada Imprensa Bíblica (“Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora que lhe seja idônea”) e Sociedade Bíblica Britânica (Disse mais Deus Jeová: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora que lhe seja idônea”). A Nova Versão Internacional utiliza a expressão “alguém que o auxilie e lhe corresponda” (“Então o Senhor Deus declarou: Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda”).

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+ Uma Rebelião Não Violenta

 

 

A dignidade das lembranças que sempre retornam para o mesmo lugar.

 

Lidia Loback*

 

Uma menina de 4 ou 5 anos, com o entusiasmo de uma criança qualquer quando vai brincar, sai de sua casa em companhia de sua mãe e irmã mais velha para um dia diferente.

A mãe carrega bolsas com pedaços de lençol velho, uma garrafa de café, pão caseiro já cortado untado com margarina, uma marmita de “bóia-fria” contendo o suficiente para as três passarem o dia e muito desejo de voltar para casa com novidades para o marido, também, “bóia-fria”.

Para as crianças é uma festa. Para a mãe: uma colheita de algodão. A roça é linda! As flores abertas transformadas em algodão. O trabalho é para muitos na mesma situação daquela mãe. Conversas animadas se espalham pelas fileiras das pequenas árvores, o encarregado, filho do dono da roça caminha supervisionando o serviço, afinal, não se pode deixar algodão para trás.

As pessoas com os sacos amarrados à cintura arrastam folhas, gravetos e tudo o mais por onde o fardo passa. No meio da roça está a balança. Velha e enferrujada recebe os fardos repletos de algodão. A renda do trabalho depende do peso do algodão colhido. Feita a pesagem o saco é despejado na caçamba de um pequeno caminhão ali estacionado, e depois retorna para a fila dos sacos vazios à espera de outro trabalhador.

A mãe, numa tentativa de proteger as crianças, amarra um pedaço de lençol velho em quatro pés de algodão, dos mais fortes que conseguir encontrar. Embaixo da “cabaninha” estão as crianças, a garrafa de café, a comida e o lanche. Mas, as crianças não permanecem por muito tempo ali, correm, brincam com o encarregado, se juntam com outras crianças para a festa. Não muito tempo depois inicia-se os sintomas de insolação. Febre, tontura, vômito… Enfim, a mãe desesperada tem de tomar uma atitude rápida que não estava em seus planos: pegar as meninas, antes do dia de trabalho acabar, juntar os cacarecos esparramados por baixo dos pés de algodão e partir para a casa.

Planos frustrados. Não poderá contribuir no orçamento doméstico, continuará recebendo diariamente seu esposo cansado do sol, enfraquecido pela força exercida no facão no canavieiro, exaurido de quebrar pedras, e as vezes, machucado direto para o hospital, pelo facão, foice, cólica renal e etc.

Ao mesmo tempo, não pode se distrair com a frustração. É preciso acolher duas crianças febris, chorosas e sem forças para caminhar.

A casa oferecia os cuidados básicos que precisavam: banho gelado e descanso, protegidas do calor e da exposição solar.

Foto de Shuhrataxmedov.

 

O tempo passou. As crianças cresceram. Não precisam mais ir para a roça. O pai está aposentado, mas não parou de trabalhar. É zelador da igreja que frequenta. A mãe já passou por momentos bem piores mas está bem. Graças a Deus o tempo passou.

A  menina mudou pouca coisa. Cresceu, amadureceu, mas sente saudades. Da marmita do pai, da água da garrafa térmica, das brincadeiras na roça.

A menina é caçula. Inúmeras vezes esperava o pai voltar da roça para trazer-lhe o que sobrara da marmita. Não porque não havia comida em casa, mas porque, para a caçula, aquela era a comida mais gostosa! Até hoje o cheiro da marmita e o pão enrolado num papel visitam a lembrança da menina.

Enquanto os adultos lutavam pela sobrevivência a menina curiosa que era, acompanhava as conversas, prestava atenção e, de certa forma, sofria com eles. Um dia ela ia sair dali, mas as lembranças sempre retornariam para o mesmo lugar.

 

Originalmente publicado em: http://www.respingosdagraca.com.br/infancia/algodao-insolacao-e-a-marmita-do-pai/

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*Lidia Loback é pastora e assitente social.

É coordenadora do NUSELON – Núcleo Social Evangélico de Londrina e pastora na Igreja Casa de Oração Para Todos os Povos.

Formada em Assistência Social pela UEL e em Teologia pela UNIFIL.

É casada com Lisanias Loback e mãe.

Cotidianamente escreve em seu blog, Respingos da Graça.

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Leia também:

+ A dignidade, o instante e o anônimo.

+ De onde me virá o Socorro?

+ A Lectio Divina me fez encontrar a história da igreja.

Uma reflexão sobre as relações conjugais na igreja

 

Morgan Guyton*

(Tradução: Mozart Archilla)

 

Minha esposa e eu decidimos ousar no nosso casamento: enquanto um de nós pregava, o outro lavava os seus pés, invertendo as posições na metade do sermão. O texto que pregamos foi a passagem controversa de Efésios 5:22-23, que diz, “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vosso marido, como ao Senhor”. O nosso sermão veio à minha mente ao ler críticas ao livro “Real Marriage” (Casamento de Verdade), do mega-pastor Mark Driscoll, que aparentemente expande e reforça sua concepção de uma inferioridade feminina divinamente determinada. Eu não vou falar sobre um livro o qual não tive tempo de ler, mas pensei em compartilhar um pouco do que minha esposa e eu pregamos, como uma contribuição à recente discussão blogosférica sobre o casamento.

 

Efésios 5 compara o relacionamento entre marido e mulher com o relacionamento entre Cristo e a igreja. Em particular, Paulo escreve que o papel de Cristo é “purificar” a igreja (5:26), o que é na realidade um dos mais importantes (e submissivos) atos que Jesus pratica para com seus discípulos em João 13, ordenando-lhes a fazer o mesmo com outras pessoas (v. 15). Então, quando eu e Cheryl pregamos, nós conectamos as duas passagens, focando na maneira em que Pedro tentou impedir que Jesus lavasse seus pés.

 

O protesto de Pedro traz à luz um paradoxo sobre o ato de lavar os pés. É uma situação aonde não se sabe quem detém o poder, pois é tão humilhante lavar a parte mais suja de uma pessoa quanto ser lavado por outra pessoa. Somente crianças e adultos física ou mentalmente incapacitados precisam que outros os limpem. Lavar os pés de alguém é um ato submisso e paternalístico ao mesmo tempo. Pedro não ficou simplesmente escandalizado pela expressão de auto-insignificância de Jesus; ele também não quis ser emasculado ao ser o beneficiário da atitude de subserviência de Jesus.

 


O que eu disse no sermão do meu casamento é que eu não posso assumir o papel de Jesus durante toda a nossa união, sem cometer este pecado de Pedro. Para evitar o pecado, eu preciso deixar minha esposa ser Jesus para que eu possa ser a igreja. Às vezes preciso lavar os pés dela e às vezes preciso deixá-la lavar meus pés. Às vezes preciso ser pastor e às vezes ela precisa ministrar. Em Marcos 10:42-45, Jesus deu aos seus discípulos o paradigma bíblico básico para o entendimento da liderança servil:

 

“Sabeis que os que julgam ser príncipes das gentes delas se assenhoreiam, e os seus grandes usam de autoridade sobre elas; mas entre vós não será assim; antes, qualquer que, entre vós, quiser ser grande será vosso serviçal. E qualquer que, dentre vós, quiser ser o primeiro será servo de todos. Porque o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos.”

 

Um líder cristão deve ser “servo de todos”. O único fato que entra em conflito com isso é que devemos, também, ser “servos de Jesus Cristo” (Romanos 1:1, entre outros). Eu não posso fazer tudo o que os outros me ordenam, porque meu senhor é Cristo, mas eu existo para servir outros. Meu objetivo, na minha igreja, é empoderar cada membro para que ministrem e façam o trabalho do reino. A única distinção entre eu, como pastor, e eles, como pregadores, é que o meu chamado é investi-los de capacidade e equipá-los para que vivam os seus chamados. Não existe razão para que eles se submetam a mim. Eles devem se submeter a Cristo, assim como eu, e devem ouvir as minhas pregações ou me ignorar completamente de acordo com o quanto eu lhes ajudo para que façam isso. Então se seus pastores dizem que vocês devem se submeter a eles, respondam dizendo que eles estão se comportando como príncipes das gentes! Eles devem se submeter a Cristo, e a vocês.

 


Meu trabalho como pastor é me rebaixar perante à minha congregação para que eles possam fazer o trabalho de Deus, assim como meu trabalho como marido é me submeter à minha esposa, incentivando e empoderando-a para que ela faça o trabalho que Deus conclama ela a fazer. Não significa que o dever dela como minha esposa é diferente, mas mesmo se eu fosse a “cabeça” espiritual na minha casa, não existiria hierarquia se eu exercesse minha liderança como Cristo. A única coisa sobre a qual sou autoritário com minha esposa é que eu não lhe permito que desista do seu chamado. Houve momentos nos quais equilibrar a maternidade e o seminário foi muito difícil, mas eu não a deixava desistir, porque sei que ela tem dons pastorais que eu não tenho. Tem sido difícil deixá-la em casa nos últimos anos, mas ela ama ser mãe e ela tem um magnífico ministério na nossa igreja, mesmo sem ter um título.

 


Então eu não consigo entender como a verdadeira liderança servil cristã pode existir no tipo de lar “complementarista” que Mark Driscoll e outros pastores reformados ensinam os homens a estabelecer (eu odeio o termo “complementarista”, aliás, porque é um eufemismo desonesto: chame simplesmente de “hierárquico”). Quando minha esposa e eu temos que tomar decisões, discutimos às vezes, mas chegamos sempre em um consenso geral ou então não decidimos nada e revisitamos a discussão posteriormente. Nunca houve um ponto aonde um de nós disse, “eu decidi isso pela gente e ponto final”.
Não é isso o que “complementaristas” acham que um marido deve dizer? O que farão se suas esposas discordarem? Bater nelas? O poder dos “príncipes das gentes” que Jesus falava em Marcos 10:42 era, no final das contas, derivado da ameaça ou prática de violência física. Líderes servis que imitam a Jesus não deverão jamais impor sua vontade pela força. O poder de Jesus é derivado de sua completa submissão a quem discordava dEle, ao ponto de deixar ser crucificado quando Ele dispunha de todos os recursos do Criador do universo à Sua disposição. Se a maneira que Jesus amava sua igreja é o modelo para como devo amar a minha esposa, então não vejo razão para que exista hierarquia de gênero em meu lar.

 

Traduzido de: Why Gender Hierarchy Makes No Biblical Sense to Me

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*Morgan Guyton é o autor de Como Jesus Salva o Mundo de Nós: 12 Antídotos contra um Cristianismo Tóxico (disponível, em inglês, aqui: How Jesus Saves the World from Us: 12 Antidotes to Toxic Christianity ). Seu blog, Mercy Not Sacrifice (Misericórdia Não Sacrifício) é hospedado pelo Patheos. Ele e sua esposa Cheryl são co-diretores da NOLA Wesley, um ministério da Reconciling United Methodist no campus das Universidades de Tulane e Loyola, em Nova Orleans.

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De como a espiritualidade clássica me fez reencontrar os Santos que perdemos

 

Desenho. São Fidelis de Sigmarigen e São José da Leonessa. De: Giovanni Battista Tiepolo (1696–1770)

Há mais de uma forma de agradecer. Uma delas é reconhecer. Podemos fazer isso reconhecendo a contribuição que pessoas específicas tiveram em nossa trajetória. Nesse texto, quero reconhecer a contribuição de pessoas de quem fui discípulo. De antemão, é preciso fazer aquele clássico esclarecimento – que no meio acadêmico é típico da relação entre “orientador” e “orientando,” que reflete, na realidade, um traço secularizado da antiga relação entre discípulos e mestres na Igreja: se eles são responsáveis pelo meu sucesso, certamente não podem ser responsabilizados pelas minhas falhas…

 

Entrei no Grão de Mostarda indicado pela minha atuação na Rede FALE e na ABUB. Era uma caminhada de três anos de discipulado: durante aquele tempo, haveria encontros semestrais, retiros de silêncio e espiritualidade. Eu havia me tornado uma liderança na juventude evangélica, circulava pelo universo do diálogo inter-religioso, e mantinha diálogos institucionais com a Igreja Católica e outras denominações Ortodoxas. No entanto, se eu compreendia a importância do diálogo ecumênico para a articulação de políticas públicas e de mobilização popular, ele parava por aí. E o conflito era aberto: muitas das práticas desses grupos se distanciavam bastante da espiritualidade batista, da ética conservadora e individual, e da teologia reformada brasileira e norte-americana, na qual cresci desde a minha conversão, aos 11 anos de idade.

 

Frequentar mosteiros beneditinos? Participar de “meditação” cristã? Ler livros escritos por andarilhos desempregados ou místicos medievais? Isso tudo parecia, antes do discipulado, em conflito aberto com minha espiritualidade batista, reformada, e sua ética protestante. Mas foi aí que conheci os quarto pastores que viriam a impactar minha vida nos próximos anos: Osmar Ludovico, Valdir Steuernagel, Ricardo Barbosa e Ricardo Gondim. O que eles propunham era ir além de “ler a bíblia” como prática de espiritualidade protestante: era necessário “deixar a Bíblia nos ler.” Esse salto de fé, que só foi possível graças aos períodos intensos de contrição, meditação, acolhimento e amizade que recebi deles e de meus irmãos e irmãs naqueles dias, viria a marcar pra sempre a maneira como enxergo a história da igreja e a espiritualidade cristã.

 

Passei a frequentar mosteiros beneditinos. Em alguns era muito bem recebido, convidado a participar dos ofícios e ficar conversando depois, como um “irmão de outra denominação”. Questionava, então, quando passava a frente de um dos raros templos protestantes de arquitetura cristã, e suas portas estavam fechadas: não havia lugar naquela casa para uma oração silenciosa, ao meio dia, no centro da cidade. Onde foi que nos perdemos, onde foi que desaprendemos a orar sem necessariamente falar – ou mesmo gritar?

 

Eu estaria mentindo se dissesse que essa espiritualidade me fez abandonar minha a teologia reformada, ou minha fé evangélica. Ao contrário: ela preencheu um vazio de mais de dois mil anos de história que havia em mim. Se jamais abri mão da crítica reformada àqueles movimentos que utilizaram da fé para enriquecer, como muitos fazem ainda hoje; por outro lado, aprendi a aprender com os Santos, a história e as narrativas de fé de muito tempo atrás. Se já conhecia aquela velha piada atribuída a Lutero, de que “dos doze apóstolos, quatorze estão enterrados na Espanha”; aprendi também uma piada dos católicos sobre nós, protestantes, para quem “o único santo autorizado é Santo Agostinho”.

 

Já se vão quase dez anos dessa experiência de discipulado. Ela teve uma profunda influencia na minha espiritualidade, na minha vida pessoal – me casei durante esse período – e na minha profissão. Foi a partir de debates que tive ali sobre “justiça”, que retomei leituras que tinha feito de maneira fluida da faculdade de Direito, e redescobri o Jusnaturalismo em Santo Agostinho e em Santo Tomás de Aquino, com suas convicções e contradições teológicas e jurídicas.

 

São Fidelis de Sigmarigen e São José da Leonessa. De: Giovanni Battista Tiepolo (1696–1770)

 

Na espiritualidade, além da lectio divina, procuro aprender diariamente com as tradições perdidas pelos protestantes. Todo racha deixa cicatrizes, mas também é preciso curá-las. Para curar as minhas, eu faço uso de alguns devocionários católicos romanos, para escândalo de muitos dos meus irmãos de fé (um aplicativo da igreja católica dos EUA para tablet). O que mais me chama atenção e edifica nele, é a possibilidade de aprender com a vida, o exemplo e a história da igreja.

 

O ex-Arcebispo da Cantuária, Rowan Williams, nos ensina que a atitude mais marcante dos cristãos é a gratidão: uma gratidão que desafia a realidade que nos cerca, e nos faz cantar e louvar – “aleluia!”. A gratidão cristã é a que se expressa mesmo diante das maiores adversidades, que nos faz abandonar a ilusão do olhar imediato para concentrar nossa Esperança no porvir. É, portanto, diante da aspereza dos tempos atuais, que expresso minha gratidão pelos meus mestres citados, e pela descoberta que me ofereceram: a espiritualidade clássica e medieval na história da igreja, para além dos meus arraias denominacionais. Segue um exemplo disso, e do caminho que essa jornada me fez percorrer até aqui.

 

No último dia 4 de fevereiro, fiz minha devocional em cima da vida de São José de Leonessa (também chamado de Eufranio Dessiderio), que compartilho agora:

 

Desde criança, Eufranio se sentia vocacionado, chamado por Deus. Terceiro filho de família de 8, havia sido prometido para casamento e ascensão social. Quando adolescente, no entanto, viu um grupo de monges Capuchinhos e quis se juntar ao grupo, aos 18 anos. Conta-se que certa vez pregou para um grupo de 50 bandidos que assaltavam caravanas na estrada. Todos se converteram e passaram a frequentar seus sermões. Foi missionário em Constantinopla, na Turquia, onde pastoreou mais de 4 mil escravos degredados em navios. Com frequência, os escravos desmaiavam de tanto remar, e ele se oferecia para substituí-los no remo – o que nem sempre era permitido pelos senhores dos escravos. Ele trabalhou em prisões, ministrando aos presidiários doentes durante uma epidemia. Certa vez se aproximou do Sultão, pedindo aprovação de um decreto que garantisse liberdade religiosa; acabou preso e condenado a morte por invasão de propriedade real. Foi pendurado por ganchos sobre uma fogueira por três dias, mas foi liberto (segundo a lenda, por anjos), e retornou a Itália em 1589. Terminou sua vida pregando em pequenas vilas, para os pobres, presos e doentes. Fundou hospitais, abrigos, e distribuía comida. Com crucifixo em mãos, entrava em brigas de rua para separá-las, orando, rezando e ensinando a paz.

 

 

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*Marcus Vinicius Matos é Doutorando em Direito no Birkbeck College (Universidade de Londres, Inglaterra), Professor de Direito Constitucional e Teoria de Direito. É membro da coordenação nacional da Rede Fale e foi “International Partner” da igreja All Souls, em Londres, onde participou da liderança do ministério com estudantes internacionais. Está em período de mudança de volta para o Brasil, residindo em Maringá, no Paraná. É casado com Priscila Vieira e pai de Aurora. Twitter: @mvdematos.

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+ A idolatria do(de) mercado: o homem todo para o dinheiro (todo)

A dignidade, o instante e o anônimo

Por uma ética da memória

Reflexões a partir da Revolta de Ferguson.

 

Shane Claiborne*

(Tradução: Mozart Archilla)

 

Dr. Martin Luther King Jr. disse: a “revolta é a linguagem dos que não são ouvidos”.

 

O que acontece quando as pessoas acham que suas vozes não estão sendo ouvidas?

 

Eles falam mais alto.

 

Revolta é o que quase aconteceu na cidade de Ferguson no EUA, e todos nós, que vivemos em bairros frágeis e com uma profunda injustiça racial como pano de fundo, precisamos prestar atenção.

 

Em Ferguson, uma comunidade bastante unida foi devastada por algo novamente entendido como injustiça. Eles queriam ser ouvidos. Porém, marchas pacíficas foram respondidas com brutalidade sem precedentes.

 

Lágrimas foram recebidas com gás lacrimogêneo.

É como se as autoridades estivessem tapando suas orelhas. Então as pessoas gritaram ainda mais alto – e o mundo começou a prestar atenção.

 

Num momento delicado de emoções à flor da pele, o povo de Ferguson teve que escolher entre a revolta e a ação direta não violenta nas ruas. Um grupo muito pequeno (muitos deles discutivelmente ativistas vindos de fora) apelaram para algumas formas de dano à propriedade alheia. Isso chamou a atenção da imprensa.

 

Alguns podem dizer que isso capturou as manchetes.

 

Mas não é assim que eu vou me lembrar de Ferguson.

 

O que chamou mais atenção do que o breve momento de depredação de bens, foi o cuidado disciplinado com o qual o povo de Ferguson começou a se organizar e treinar. Eles não combateram fogo com fogo. Eles fizeram seminários em não-violência e organização da comunidade. Eles montaram postos de inscrição de eleitores e de oração. Redes completamente novas de líderes cristãos foram formadas.

 

Essa rebelião não violenta tem sido incrível de se ver. Um movimento devagar, firme, disciplinado em Ferguson chamou a atenção do mundo. Outro dia, em uma teleconferência com líderes da igreja, alguém disse muito eloquentemente:

 

“Eles estão transformando um momento num movimento.”

 

O Dr. King estava certo. Revolta é uma maneira de fazer as pessoas prestarem atenção. Contudo, não é a única maneira.

Nós ainda lembramos dos protestos não violentos do movimento pelos direitos civis dos negros nos EUA – “sentaços”, boicotes, marchas. Eles também conseguiram atenção. A não-violência tem o poder de expor a injustiça de uma maneira que ela se torna tão desconfortável que as pessoas têm que responder. É a razão pela qual o Dr. King considerava a não-violência a arma mais potente à disposição dos negros naquele movimento.

Foto: protesto contra a segregação racial no Sul dos EUA

Pela sua própria experiência, o Dr. King argumentava que a violência “não é prática nem moral” e que rebeliões são “contraproducentes” e “socialmente destrutivas”. King insistia que se cada um no movimento se voltasse contra a não-violência ele ainda assim se levantaria e diria, “violência não é o caminho!”

Violência faz as pessoas assistirem televisão. Não-violência faz as pessoas ouvirem… e se dedicarem a uma mudança genuína e duradoura.

 

Quando eu fui embora de Ferguson as pessoas estavam discutindo o que aconteceria se cem pessoas se ajoelhassem em oração, bloqueando as portas da delegacia de polícia – um “oraço”? Até a mídia oportunista não perderia a chance.

 

Então eu penso no quê o Dr. King diria à luz de Ferguson. Acho que ele diria: “OUÇAM”.

 

Até à pequena minoria propensa à violência, nós poderíamos perguntar, “o que é que vocês querem tão desesperadamente que nós ouçamos?”

 

Da mesma maneira que ouvimos Ferguson, podemos aprender com Ferguson – assim como aprendemos com Montgomery e África do Sul. Muitos dos piores abismos de opressão se tornaram posteriormente os pólos mais brilhantes de esperança. Alguns dos momentos de maior injustiça iniciaram alguns dos maiores movimentos por justiça. Esses lugares conhecidos pelos atos de maldade inspiraram o mundo após o tempo de uma geração – desses locais surgem pessoas como Nelson Mandela e Rosa Parks.

 

Talvez seja assim com Ferguson.

 

Precisamos aprender com Ferguson para que estejamos preparados para as Fergusons do futuro. Nós conseguimos preparar nossas comunidades e a nós mesmos para enfrentar violência sem deixá-la tomar conta de nós. Nós podemos lutar contra o mal sem nos tornarmos maus.

 

Nós podemos encontrar uma terceira via que não é lutar nem fugir.

 

Afinal, se não encontrarmos canais não violentos para liberar a ira santa, ela provavelmente irá explodir em uma ira profana – violência e revoltas. Ao invés de ser preso por algo que compromete sua dignidade e integridade… vá para a cadeia por algo que lhes enfatize. É hora de renovar nosso compromisso com a construção de uma revolução não violenta.

Foto: Protesto contra as mortes de Jovens negros no Rio de Janeiro (Favela da Maré)

Imagine centenas de pessoas se ajoelhando para que seja cessada a deportação de crianças nas fronteiras. Imagine milhares se deitando para parar os carrascos antes da próxima execução promovida pelo Estado. Imagine um precedente sendo estabelecido em Ferguson, e que a cada vez que uma injustiça acontece na nossa vizinhança, nós a tornamos viral. E então colocamos nossos corpos no lugar onde eles pertencem – nas ruas, em marchas não violentas, “sentaços”, ocupações e vigílias.

Vamos antever aqueles inclinados à violência sendo convencidos que existe uma maneira melhor de nossas vozes sejam ouvidas – uma rebelião não violenta.

 

E vamos agora submeter nossos corpos como sacrifícios vivos para o movimento de Deus.

 

Traduzido de: A Nonviolent Uprising

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*Shane Claiborne é o autor de best-sellers, reconhecido ativista e preletor, além de um auto-declarado “pecador em recuperação”. Shane publica e palestra em vários países sobre promoção da paz, justiça social, e Jesus, e é autor de inúmeros livros como A Revolução Irresistível, Jesus for President, e o mais recente, Executing Grace (sobre a pena de morte). Ele é o líder visionário da comunidade The Simple Way, na Filadélfia, e co-diretor dos Cristãos da Letra Vermelha. Seu trabalho já foi citado e reconhecido pela Fox News, Esquire, SPIN, The Wall Street Journal, NPR e CNN. ____________________________________________________________________________________________________________

 

Leia também:

Os Cristãos da Letra Vermelha.

Esquecer, Inviabilizar e no fim, Barbárie

Bondade na dignidade

Os Cristãos da Letra Vermelha

Morf Morford*

(Tradução: Sara Tironi)

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Jesus parece ter tido suas mais produtivas e satisfatórias conversas com mulheres anônimas, isoladas, estigmatizadas e vulneráveis.

Há a “mulher adúltera” (João 8:1-11) e, claro, “a mulher junto ao poço”.

Ambas eram o tipo de pessoa com quem nenhum Rabi respeitável conversaria – e com quem nenhum homem de qualquer status gostaria de ser visto. Além disso, certamente nenhum homem tocaria em uma mulher estranha – principalmente uma considerada “impura” (no caso, a mulher com hemorragia).

A mulher junto ao poço, além de ser mulher, rejeitada por seu próprio povo, e de ter se casado diversas vezes, também era uma samaritana – e como todos sabem, “judeus não se dão bem com os samaritanos” (João 4:9 NVI).

A conversa de Jesus com a mulher no poço é tão satisfatória que Jesus diz uma das mais impressionantes linhas do Novo Testamento: “Tenho algo para comer que vocês não conhecem” (João 4:32 NVI).

Essa mulher, por sua vez, é considerada a primeira evangelista – senão missionária. Sua vida, e a vida de praticamente todos naquele povoado, foi transformada para sempre.

É significativo o fato de que o nome de nenhuma dessas mulheres tenha sido mencionado.

Nomear alguém, de acordo com dados históricos, era para pessoas “importantes” – reis, profetas e líderes. Essas mulheres não eram “importantes” – na verdade, elas eram excluídas, rejeitadas, “impuras” ou inúteis. Elas eram formas de interrupção e distração. As conversas de Jesus com elas foram “acidentais” e “involuntárias”. E muito mais frutíferas do que suas discussões com líderes religiosos – e com seus próprios discípulos.

Eu aprendo bastante com encontros não intencionados. mulher corcovada 001

Eu geralmente escuto mais do que falo.

Pessoas desprezadas, perdidas e despedaçadas falam com economia de sabedoria prática – elas conhecem muito bem as decepções e traições do mundo – e mesmo que elas tentem, não conseguem ignorar sua própria complexidade em meio à sua própria degradação.

Diferente delas, a maioria de nós, que vive uma vida consideravelmente confortável, ainda acredita em (e ainda vive por) mentiras contadas pelo mundo – e por nós mesmos.

A maioria dos “cristãos” que eu conheço sente “orgulho” por não “precisar” de ninguém.

E, a maioria deles, quando eu os pressiono, admite livremente que, não fosse pela promessa do Paraíso ou pela ameaça do Inferno, tampouco “necessitaria” de Deus.

Essas mulheres perdidas e abandonadas sabem melhor. Elas sabem que Deus pode, e que Ele vai alcançá-las, tocá-las e restaurá-las. Pessoas “religiosas” raramente “precisam” de Deus – ou mesmo de qualquer graça humana anônima. “Precisar de Deus”, para muitos de nós, é visto como um sinal de fraqueza. E talvez seja. É uma “fraqueza” que nos permite ser tocados, ou sermos aqueles que tocam os feridos, sem esperar nada em troca.

 

Traduzido de: The Women in Jesus’ Life

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*Morf Morford. A fé não é uma fórmula. Eu não usaria nem a palavra “relacionamento” nem a metáfora de “uma jornada” para descreve-la. Quanto mais velho fico, mais me parece com um processo – um foco determinado em ouvir o eterno, calar os ruídos e distrações, e se aproximar cada vez mais de cada sussurro e cada palavra, para perto da completude – e esvaziamento – do pulsar, das mãos e propósitos do Criador que, assim, nos leva finalmente para o lugar onde nós pertencemos. Sou professor e escritor, o que significa que gosto de ouvir e compartilhar o que vejo e escuto.

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