Entrevista com Onleilove Alston – Os Cristãos da Letra Vermelha 

(Traduzido por: Sara Tironi)

NOTA DO EDITOR: enquanto muito evangélicos brancos se preocupam com o Black Lives Matter [1] ser um movimento subversivo, aqui nos Cristãos da Letra Vermelha somos gratos por membros de nossa rede que têm compartilhado, já há alguns anos, as boas novas do Jesus que não é branco. Onleilove Alston é uma de nossas grandes professoras que tem nos ajudado a enxergar o motivo pelo qual a encarnação do Evangelho em movimentos como o Black Lives Matter é uma boa nova para todos nós. Estamos felizes em dar destaque à voz dela hoje.

 

1) Compartilhe conosco um pouco do pano de fundo da sua fé. Quando você começou a seguir Jesus?

Eu não fui criada em nenhum sistema de crença específico, ainda que a minha mãe fosse ateia e meu pai estivesse em um ramo da Nação do Islã.

Quando eu tinha cerca de sete anos, minha família ficou desabrigada e meu irmãozinho e eu entramos em um programa de acolhimento familiar em casas de parentes e começamos a morar com minha avó e minha tia. Com dez anos de idade, algo me levou a pegar o livro de Salmos e eu comecei a orar de manhã, ao meio-dia e à noite. Eu hoje acredito que era o Espírito Santo que estava me direcionando! Eu fiz isso por quatro anos e então minha tia disse, “Alguém precisa levar essa menina para a igreja”. Eu comecei a ir à Igreja Batista Missionária Greater Bright Light. Eu respondi a um chamado no altar, fui batizada na semana seguinte e comecei a receber a comunhão.

Eu também amava ler e aprender sobre a história negra. Eu lia Malcolm X e Dr. King e pensava que todas as igrejas estavam envolvidas em questões de direitos civis. Essa era a minha expectativa.

Quando eu estava na [Universidade de] Penn State, eu me juntei aos Navigators, e comecei a aprender sobre a cultura evangélica. Eu tenho muito respeito por eles e possuo muitos amigos por causa desse grupo. Mas foi nessa época que eu também comecei a perceber uma separação entre fé e justiça, o que era muito estranho para mim. Quando eu me converti, Jesus salvou minha mente e corpo da perda do lar, do sistema de acolhimento sócio-educativo onde eu poderia ter facilmente terminado na prisão. Para mim, fé e ação social eram completamente atadas uma a outra.

Minha relação com Deus era muito próxima quando o Espírito Santo me conduziu para si. Antes de eu me envolver fortemente na igreja, eu tive uma relação bastante vigorosa com Deus. Mas por meio de minha atividade na igreja, eu senti que as pessoas estavam tentando me moldar dentro dessa cultura ocidental branca – mesmo na igreja negra. Eu quase abandonei minha fé na faculdade, mas, como minha experiência de conversão foi tão poderosa, não pude fazer isso. Porém, ainda havia essa tensão entre a cultura ocidental, a cultura bíblica, e minha cultura enquanto pessoa afrodescendente.

2) Como você resolveu essa tensão?

Na Penn State, eu cursei uma disciplina de estudos sobre religião afroamericana na qual eu li “O Deus dos Oprimidos” de James Cone. Eu o reli durante aquele verão. Eu comecei a ver a Bíblia dentro da minha realidade. Isso tornou claro aquilo que eu havia sido chamada para fazer em comunidades urbanas em geral, e na zona leste de Nova York de forma particular.

Isso me fez enxergar minha realidade no Evangelho muito mais do que a média dos evangélicos. Eu escutava o Focus on the Family e Charles Stanley, mas eu lutava para integrar sua forma de cristianismo à minha vida cotidiana.

3) Você é apaixonada pelo que? Em que você trabalha diariamente?

Em relação a minhas atividades diárias, eu sou Diretora Executiva do Faith in New York, uma afiliada da PICO[2], uma federação de 70 congregações que organizam atividades baseadas na fé para criar políticas justas em nossa cidade enquanto constroem uma comunidade de amor. Eu também lidero um trabalho com mulheres sobre Teologia da Libertação para a rede PICO, em que mulheres de fé estão fazendo seu trabalho de justiça e se reunindo em retiros, pensando sobre como organizar atividades com fé, e centradas na participação de gênero.

Eu sou a fundadora do Prophetic Whirlwind, uma organização que provê materiais de estudos bíblicos e promove a educação via mídias sociais, palestras, e workshops sobre as raízes africanas do cristianismo e da fé judaica. Essa é uma grande paixão minha.

Até 1869, Israel estava ligada ao Egito – ligada a toda África. Foi apenas quando o Canal de Suez foi terminado que Israel se separou da África. Inclusive, até o princípio dos anos 1900, Israel era considerado como nordeste africano.

O mundo inteiro se abriu para mim e revelou questões que eram importantes para cristãos negros, e cristãos em geral. Nós realmente separamos o cristianismo da fé dos hebreus. Mas os primeiros crentes continuaram a celebrar a Páscoa e o Sabbath. Na cultura hebraica, a salvação é de todos – da comunidade inteira – não apenas do indivíduo. Essa é a norma na cultura africana.

É importante entender que a Bíblia é um livro multicultural. Meu trabalho é sobre reconciliar Jesus com sua cultura – sua cultura hebraica. Se você está tentando entender o cristianismo em um contexto ocidental, você ficará perdido.

É muito importante para os cristãos se conectarem com as raízes hebraicas de sua fé, porque de outra forma sua fé se tornará incoerente, será ocidentalizada e transformará a brancura em ídolo.

Da Wikimedia Commons. Autor: Tubs.

 

4) Você escreve e fala bastante sobre a importância de entender a negritude da Bíblia. Como isso se encaixa em nossa teologia?

Na história da igreja, os primeiros crentes eram hebreus e eles ainda celebravam o Sabbath no Sábado e se reuniam aos Domingos. Eles não viam sua aceitação de Yeshua como um abandono de sua fé judaica. Yeshua estava chamando seu povo de volta à pureza da Torah.

Mas quanto mais gregos e romanos se convertiam, e o Cristianismo ia se tornando a religião do Império, ele foi se enfraquecendo e se distanciando de suas raízes hebraicas. Por exemplo, o termo ajudadora (“helpmate[3]) é Ezer Kenegdo em hebraico e significa muito mais do que apenas uma auxiliadora, muito mais do que a explicação que nos foi dada. Desse modo, entender as raízes judaicas de nossa fé é incrivelmente importante.

É ainda mais poderoso entender as raízes culturais de nossas mães e pais da Bíblia. Marcos foi o pai do Evangelho na África. A Última Ceia e o Pentecostes se deram na casa de sua mãe, e ela era uma judia africana de Cirene. Eles eram refugiados. Os imigrantes sabem disso hoje? Irmãs e irmãos negros sabem disso hoje? Seria incrivelmente empoderador se nós conhecêssemos essas histórias.

Então houve um grande êxodo reverso a partir de Israel de volta para o Egito nos tempos bíblicos. As duas porções de terra eram ligadas, elas se pareciam e possuíam climas semelhantes. Quando Marcos e sua mãe precisaram deixar Israel, eles foram para o Norte da África. É um lugar para onde muitos judeus foram. Thomas Oden é um pesquisador da Eastern University e sua pesquisa abriu meus olhos. Marcos nasceu na África e morreu na África. Santo Agostinho era africano, sua mãe Mônica era africana, e ao morrer, ela disse a Santo Agostinho para carregar seus ossos de volta para a África.

Ou nós teremos um cristianismo ocidental ou teremos um cristianismo baseado na verdade da Bíblia, que é o que pode transcender a cultura. Quando você o separa de suas raízes, a versão embranquecida ocidental e frequentemente americana fere a todos, inclusive as pessoas brancas.

5) Conte-nos um pouco sobre seu trabalho com grupos negros em Israel. O que cristãos americanos sabem e entendem sobre eles?

Vou contar um pouco da história da Bíblia. Havia 12 tribos de Israel, e cada uma recebeu profecias de seu pai Jacó. Tudo correu bem por um tempo, mas então as pessoas começaram a seguir ídolos. No Velho Testamento, a idolatria é sempre associada à prática de injustiças. Injustiça significava manter relações sexuais injustas e relações econômicas injustas, entre outras coisas. As dez tribos do norte foram tão longe com sua idolatria que foram levadas pelos assírios.

Levi, Judá e Benjamin foram levados cativos à Babilônia alguns anos depois, mas eles puderam voltar e se reconstruir, enquanto as outras dez tribos não.

Adiantando para Jesus. Ele disse desde o começo: “Eu vim somente para as tribos perdidas de Israel”.

Isso é significante uma vez que a profecia bíblica afirma que quando essas tribos começarem a voltar para a Torah, o Messias retornará. Muitos pesquisadores, principalmente de fé judaica, viajam ao redor do mundo, como Indiana Jones viajando em busca da arca perdida, buscando essas tribos. E investigações mostram que muitas delas estão na África.

Os igbos na Nigéria são a tribo de Gade e devido ao tráfico transatlântico de escravos, um em cada quatro afroamericanos possui ancestralidade igbo. Sua história oral prova isso. Há muitas tribos na África que possuem tradições hebraicas antigas. Pesquisadores tem documentado isso repetidamente.

Isso também não é importante apenas em termos da profecia sobre o retorno de Jesus. É importante porque a Bíblia diz que essas tribos seriam espalhadas pelos quatro cantos da Terra. Eles parecerão diferentes, falarão línguas diferentes, mas eles serão reunidos em volta de uma fé comum. Na profecia, é dito que eles serão os mais pobres e oprimidos. Todos nós sabemos que Jesus nos disse para cuidar do menor desses.

A história dos hebreus se iniciou com pessoas saindo da escravidão, e Deus não desistiu delas. Essa é uma boa notícia porque significa que Deus nunca vai desistir de seu povo, ele nunca vai desistir de nós.

Acompanhe o ministério de Onleilove, Prophetic Whirlwind, no Facebook e Instagram.

 

 

Traduzido de: Christianity is Not a White Western Religion

[1] Nota de tradução: “Vidas Negras Importam”, em tradução livre.

[2] Nota de tradução: People Improving Communities through Organizing.

[3] Nota de tradução: Termo em português utilizado na Bíblia em Gênesis 2:18, segundo as seguintes versões: Almeida Corrigida e Revisada Fiel (“E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele”), Almeida Revisada Imprensa Bíblica (“Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora que lhe seja idônea”) e Sociedade Bíblica Britânica (Disse mais Deus Jeová: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora que lhe seja idônea”). A Nova Versão Internacional utiliza a expressão “alguém que o auxilie e lhe corresponda” (“Então o Senhor Deus declarou: Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda”).

Leia também:

+ Os Cristãos da Letra Vermelha

+ As Mulheres na Vida de Jesus

+ Uma Rebelião Não Violenta

 

 

A dignidade das lembranças que sempre retornam para o mesmo lugar.

 

Lidia Loback*

 

Uma menina de 4 ou 5 anos, com o entusiasmo de uma criança qualquer quando vai brincar, sai de sua casa em companhia de sua mãe e irmã mais velha para um dia diferente.

A mãe carrega bolsas com pedaços de lençol velho, uma garrafa de café, pão caseiro já cortado untado com margarina, uma marmita de “bóia-fria” contendo o suficiente para as três passarem o dia e muito desejo de voltar para casa com novidades para o marido, também, “bóia-fria”.

Para as crianças é uma festa. Para a mãe: uma colheita de algodão. A roça é linda! As flores abertas transformadas em algodão. O trabalho é para muitos na mesma situação daquela mãe. Conversas animadas se espalham pelas fileiras das pequenas árvores, o encarregado, filho do dono da roça caminha supervisionando o serviço, afinal, não se pode deixar algodão para trás.

As pessoas com os sacos amarrados à cintura arrastam folhas, gravetos e tudo o mais por onde o fardo passa. No meio da roça está a balança. Velha e enferrujada recebe os fardos repletos de algodão. A renda do trabalho depende do peso do algodão colhido. Feita a pesagem o saco é despejado na caçamba de um pequeno caminhão ali estacionado, e depois retorna para a fila dos sacos vazios à espera de outro trabalhador.

A mãe, numa tentativa de proteger as crianças, amarra um pedaço de lençol velho em quatro pés de algodão, dos mais fortes que conseguir encontrar. Embaixo da “cabaninha” estão as crianças, a garrafa de café, a comida e o lanche. Mas, as crianças não permanecem por muito tempo ali, correm, brincam com o encarregado, se juntam com outras crianças para a festa. Não muito tempo depois inicia-se os sintomas de insolação. Febre, tontura, vômito… Enfim, a mãe desesperada tem de tomar uma atitude rápida que não estava em seus planos: pegar as meninas, antes do dia de trabalho acabar, juntar os cacarecos esparramados por baixo dos pés de algodão e partir para a casa.

Planos frustrados. Não poderá contribuir no orçamento doméstico, continuará recebendo diariamente seu esposo cansado do sol, enfraquecido pela força exercida no facão no canavieiro, exaurido de quebrar pedras, e as vezes, machucado direto para o hospital, pelo facão, foice, cólica renal e etc.

Ao mesmo tempo, não pode se distrair com a frustração. É preciso acolher duas crianças febris, chorosas e sem forças para caminhar.

A casa oferecia os cuidados básicos que precisavam: banho gelado e descanso, protegidas do calor e da exposição solar.

Foto de Shuhrataxmedov.

 

O tempo passou. As crianças cresceram. Não precisam mais ir para a roça. O pai está aposentado, mas não parou de trabalhar. É zelador da igreja que frequenta. A mãe já passou por momentos bem piores mas está bem. Graças a Deus o tempo passou.

A  menina mudou pouca coisa. Cresceu, amadureceu, mas sente saudades. Da marmita do pai, da água da garrafa térmica, das brincadeiras na roça.

A menina é caçula. Inúmeras vezes esperava o pai voltar da roça para trazer-lhe o que sobrara da marmita. Não porque não havia comida em casa, mas porque, para a caçula, aquela era a comida mais gostosa! Até hoje o cheiro da marmita e o pão enrolado num papel visitam a lembrança da menina.

Enquanto os adultos lutavam pela sobrevivência a menina curiosa que era, acompanhava as conversas, prestava atenção e, de certa forma, sofria com eles. Um dia ela ia sair dali, mas as lembranças sempre retornariam para o mesmo lugar.

 

Originalmente publicado em: http://www.respingosdagraca.com.br/infancia/algodao-insolacao-e-a-marmita-do-pai/

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*Lidia Loback é pastora e assitente social.

É coordenadora do NUSELON – Núcleo Social Evangélico de Londrina e pastora na Igreja Casa de Oração Para Todos os Povos.

Formada em Assistência Social pela UEL e em Teologia pela UNIFIL.

É casada com Lisanias Loback e mãe.

Cotidianamente escreve em seu blog, Respingos da Graça.

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Leia também:

+ A dignidade, o instante e o anônimo.

+ De onde me virá o Socorro?

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Uma reflexão sobre as relações conjugais na igreja

 

Morgan Guyton*

(Tradução: Mozart Archilla)

 

Minha esposa e eu decidimos ousar no nosso casamento: enquanto um de nós pregava, o outro lavava os seus pés, invertendo as posições na metade do sermão. O texto que pregamos foi a passagem controversa de Efésios 5:22-23, que diz, “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vosso marido, como ao Senhor”. O nosso sermão veio à minha mente ao ler críticas ao livro “Real Marriage” (Casamento de Verdade), do mega-pastor Mark Driscoll, que aparentemente expande e reforça sua concepção de uma inferioridade feminina divinamente determinada. Eu não vou falar sobre um livro o qual não tive tempo de ler, mas pensei em compartilhar um pouco do que minha esposa e eu pregamos, como uma contribuição à recente discussão blogosférica sobre o casamento.

 

Efésios 5 compara o relacionamento entre marido e mulher com o relacionamento entre Cristo e a igreja. Em particular, Paulo escreve que o papel de Cristo é “purificar” a igreja (5:26), o que é na realidade um dos mais importantes (e submissivos) atos que Jesus pratica para com seus discípulos em João 13, ordenando-lhes a fazer o mesmo com outras pessoas (v. 15). Então, quando eu e Cheryl pregamos, nós conectamos as duas passagens, focando na maneira em que Pedro tentou impedir que Jesus lavasse seus pés.

 

O protesto de Pedro traz à luz um paradoxo sobre o ato de lavar os pés. É uma situação aonde não se sabe quem detém o poder, pois é tão humilhante lavar a parte mais suja de uma pessoa quanto ser lavado por outra pessoa. Somente crianças e adultos física ou mentalmente incapacitados precisam que outros os limpem. Lavar os pés de alguém é um ato submisso e paternalístico ao mesmo tempo. Pedro não ficou simplesmente escandalizado pela expressão de auto-insignificância de Jesus; ele também não quis ser emasculado ao ser o beneficiário da atitude de subserviência de Jesus.

 


O que eu disse no sermão do meu casamento é que eu não posso assumir o papel de Jesus durante toda a nossa união, sem cometer este pecado de Pedro. Para evitar o pecado, eu preciso deixar minha esposa ser Jesus para que eu possa ser a igreja. Às vezes preciso lavar os pés dela e às vezes preciso deixá-la lavar meus pés. Às vezes preciso ser pastor e às vezes ela precisa ministrar. Em Marcos 10:42-45, Jesus deu aos seus discípulos o paradigma bíblico básico para o entendimento da liderança servil:

 

“Sabeis que os que julgam ser príncipes das gentes delas se assenhoreiam, e os seus grandes usam de autoridade sobre elas; mas entre vós não será assim; antes, qualquer que, entre vós, quiser ser grande será vosso serviçal. E qualquer que, dentre vós, quiser ser o primeiro será servo de todos. Porque o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos.”

 

Um líder cristão deve ser “servo de todos”. O único fato que entra em conflito com isso é que devemos, também, ser “servos de Jesus Cristo” (Romanos 1:1, entre outros). Eu não posso fazer tudo o que os outros me ordenam, porque meu senhor é Cristo, mas eu existo para servir outros. Meu objetivo, na minha igreja, é empoderar cada membro para que ministrem e façam o trabalho do reino. A única distinção entre eu, como pastor, e eles, como pregadores, é que o meu chamado é investi-los de capacidade e equipá-los para que vivam os seus chamados. Não existe razão para que eles se submetam a mim. Eles devem se submeter a Cristo, assim como eu, e devem ouvir as minhas pregações ou me ignorar completamente de acordo com o quanto eu lhes ajudo para que façam isso. Então se seus pastores dizem que vocês devem se submeter a eles, respondam dizendo que eles estão se comportando como príncipes das gentes! Eles devem se submeter a Cristo, e a vocês.

 


Meu trabalho como pastor é me rebaixar perante à minha congregação para que eles possam fazer o trabalho de Deus, assim como meu trabalho como marido é me submeter à minha esposa, incentivando e empoderando-a para que ela faça o trabalho que Deus conclama ela a fazer. Não significa que o dever dela como minha esposa é diferente, mas mesmo se eu fosse a “cabeça” espiritual na minha casa, não existiria hierarquia se eu exercesse minha liderança como Cristo. A única coisa sobre a qual sou autoritário com minha esposa é que eu não lhe permito que desista do seu chamado. Houve momentos nos quais equilibrar a maternidade e o seminário foi muito difícil, mas eu não a deixava desistir, porque sei que ela tem dons pastorais que eu não tenho. Tem sido difícil deixá-la em casa nos últimos anos, mas ela ama ser mãe e ela tem um magnífico ministério na nossa igreja, mesmo sem ter um título.

 


Então eu não consigo entender como a verdadeira liderança servil cristã pode existir no tipo de lar “complementarista” que Mark Driscoll e outros pastores reformados ensinam os homens a estabelecer (eu odeio o termo “complementarista”, aliás, porque é um eufemismo desonesto: chame simplesmente de “hierárquico”). Quando minha esposa e eu temos que tomar decisões, discutimos às vezes, mas chegamos sempre em um consenso geral ou então não decidimos nada e revisitamos a discussão posteriormente. Nunca houve um ponto aonde um de nós disse, “eu decidi isso pela gente e ponto final”.
Não é isso o que “complementaristas” acham que um marido deve dizer? O que farão se suas esposas discordarem? Bater nelas? O poder dos “príncipes das gentes” que Jesus falava em Marcos 10:42 era, no final das contas, derivado da ameaça ou prática de violência física. Líderes servis que imitam a Jesus não deverão jamais impor sua vontade pela força. O poder de Jesus é derivado de sua completa submissão a quem discordava dEle, ao ponto de deixar ser crucificado quando Ele dispunha de todos os recursos do Criador do universo à Sua disposição. Se a maneira que Jesus amava sua igreja é o modelo para como devo amar a minha esposa, então não vejo razão para que exista hierarquia de gênero em meu lar.

 

Traduzido de: Why Gender Hierarchy Makes No Biblical Sense to Me

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*Morgan Guyton é o autor de Como Jesus Salva o Mundo de Nós: 12 Antídotos contra um Cristianismo Tóxico (disponível, em inglês, aqui: How Jesus Saves the World from Us: 12 Antidotes to Toxic Christianity ). Seu blog, Mercy Not Sacrifice (Misericórdia Não Sacrifício) é hospedado pelo Patheos. Ele e sua esposa Cheryl são co-diretores da NOLA Wesley, um ministério da Reconciling United Methodist no campus das Universidades de Tulane e Loyola, em Nova Orleans.

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De como a espiritualidade clássica me fez reencontrar os Santos que perdemos

 

Desenho. São Fidelis de Sigmarigen e São José da Leonessa. De: Giovanni Battista Tiepolo (1696–1770)

Há mais de uma forma de agradecer. Uma delas é reconhecer. Podemos fazer isso reconhecendo a contribuição que pessoas específicas tiveram em nossa trajetória. Nesse texto, quero reconhecer a contribuição de pessoas de quem fui discípulo. De antemão, é preciso fazer aquele clássico esclarecimento – que no meio acadêmico é típico da relação entre “orientador” e “orientando,” que reflete, na realidade, um traço secularizado da antiga relação entre discípulos e mestres na Igreja: se eles são responsáveis pelo meu sucesso, certamente não podem ser responsabilizados pelas minhas falhas…

 

Entrei no Grão de Mostarda indicado pela minha atuação na Rede FALE e na ABUB. Era uma caminhada de três anos de discipulado: durante aquele tempo, haveria encontros semestrais, retiros de silêncio e espiritualidade. Eu havia me tornado uma liderança na juventude evangélica, circulava pelo universo do diálogo inter-religioso, e mantinha diálogos institucionais com a Igreja Católica e outras denominações Ortodoxas. No entanto, se eu compreendia a importância do diálogo ecumênico para a articulação de políticas públicas e de mobilização popular, ele parava por aí. E o conflito era aberto: muitas das práticas desses grupos se distanciavam bastante da espiritualidade batista, da ética conservadora e individual, e da teologia reformada brasileira e norte-americana, na qual cresci desde a minha conversão, aos 11 anos de idade.

 

Frequentar mosteiros beneditinos? Participar de “meditação” cristã? Ler livros escritos por andarilhos desempregados ou místicos medievais? Isso tudo parecia, antes do discipulado, em conflito aberto com minha espiritualidade batista, reformada, e sua ética protestante. Mas foi aí que conheci os quarto pastores que viriam a impactar minha vida nos próximos anos: Osmar Ludovico, Valdir Steuernagel, Ricardo Barbosa e Ricardo Gondim. O que eles propunham era ir além de “ler a bíblia” como prática de espiritualidade protestante: era necessário “deixar a Bíblia nos ler.” Esse salto de fé, que só foi possível graças aos períodos intensos de contrição, meditação, acolhimento e amizade que recebi deles e de meus irmãos e irmãs naqueles dias, viria a marcar pra sempre a maneira como enxergo a história da igreja e a espiritualidade cristã.

 

Passei a frequentar mosteiros beneditinos. Em alguns era muito bem recebido, convidado a participar dos ofícios e ficar conversando depois, como um “irmão de outra denominação”. Questionava, então, quando passava a frente de um dos raros templos protestantes de arquitetura cristã, e suas portas estavam fechadas: não havia lugar naquela casa para uma oração silenciosa, ao meio dia, no centro da cidade. Onde foi que nos perdemos, onde foi que desaprendemos a orar sem necessariamente falar – ou mesmo gritar?

 

Eu estaria mentindo se dissesse que essa espiritualidade me fez abandonar minha a teologia reformada, ou minha fé evangélica. Ao contrário: ela preencheu um vazio de mais de dois mil anos de história que havia em mim. Se jamais abri mão da crítica reformada àqueles movimentos que utilizaram da fé para enriquecer, como muitos fazem ainda hoje; por outro lado, aprendi a aprender com os Santos, a história e as narrativas de fé de muito tempo atrás. Se já conhecia aquela velha piada atribuída a Lutero, de que “dos doze apóstolos, quatorze estão enterrados na Espanha”; aprendi também uma piada dos católicos sobre nós, protestantes, para quem “o único santo autorizado é Santo Agostinho”.

 

Já se vão quase dez anos dessa experiência de discipulado. Ela teve uma profunda influencia na minha espiritualidade, na minha vida pessoal – me casei durante esse período – e na minha profissão. Foi a partir de debates que tive ali sobre “justiça”, que retomei leituras que tinha feito de maneira fluida da faculdade de Direito, e redescobri o Jusnaturalismo em Santo Agostinho e em Santo Tomás de Aquino, com suas convicções e contradições teológicas e jurídicas.

 

São Fidelis de Sigmarigen e São José da Leonessa. De: Giovanni Battista Tiepolo (1696–1770)

 

Na espiritualidade, além da lectio divina, procuro aprender diariamente com as tradições perdidas pelos protestantes. Todo racha deixa cicatrizes, mas também é preciso curá-las. Para curar as minhas, eu faço uso de alguns devocionários católicos romanos, para escândalo de muitos dos meus irmãos de fé (um aplicativo da igreja católica dos EUA para tablet). O que mais me chama atenção e edifica nele, é a possibilidade de aprender com a vida, o exemplo e a história da igreja.

 

O ex-Arcebispo da Cantuária, Rowan Williams, nos ensina que a atitude mais marcante dos cristãos é a gratidão: uma gratidão que desafia a realidade que nos cerca, e nos faz cantar e louvar – “aleluia!”. A gratidão cristã é a que se expressa mesmo diante das maiores adversidades, que nos faz abandonar a ilusão do olhar imediato para concentrar nossa Esperança no porvir. É, portanto, diante da aspereza dos tempos atuais, que expresso minha gratidão pelos meus mestres citados, e pela descoberta que me ofereceram: a espiritualidade clássica e medieval na história da igreja, para além dos meus arraias denominacionais. Segue um exemplo disso, e do caminho que essa jornada me fez percorrer até aqui.

 

No último dia 4 de fevereiro, fiz minha devocional em cima da vida de São José de Leonessa (também chamado de Eufranio Dessiderio), que compartilho agora:

 

Desde criança, Eufranio se sentia vocacionado, chamado por Deus. Terceiro filho de família de 8, havia sido prometido para casamento e ascensão social. Quando adolescente, no entanto, viu um grupo de monges Capuchinhos e quis se juntar ao grupo, aos 18 anos. Conta-se que certa vez pregou para um grupo de 50 bandidos que assaltavam caravanas na estrada. Todos se converteram e passaram a frequentar seus sermões. Foi missionário em Constantinopla, na Turquia, onde pastoreou mais de 4 mil escravos degredados em navios. Com frequência, os escravos desmaiavam de tanto remar, e ele se oferecia para substituí-los no remo – o que nem sempre era permitido pelos senhores dos escravos. Ele trabalhou em prisões, ministrando aos presidiários doentes durante uma epidemia. Certa vez se aproximou do Sultão, pedindo aprovação de um decreto que garantisse liberdade religiosa; acabou preso e condenado a morte por invasão de propriedade real. Foi pendurado por ganchos sobre uma fogueira por três dias, mas foi liberto (segundo a lenda, por anjos), e retornou a Itália em 1589. Terminou sua vida pregando em pequenas vilas, para os pobres, presos e doentes. Fundou hospitais, abrigos, e distribuía comida. Com crucifixo em mãos, entrava em brigas de rua para separá-las, orando, rezando e ensinando a paz.

 

 

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*Marcus Vinicius Matos é Doutorando em Direito no Birkbeck College (Universidade de Londres, Inglaterra), Professor de Direito Constitucional e Teoria de Direito. É membro da coordenação nacional da Rede Fale e foi “International Partner” da igreja All Souls, em Londres, onde participou da liderança do ministério com estudantes internacionais. Está em período de mudança de volta para o Brasil, residindo em Maringá, no Paraná. É casado com Priscila Vieira e pai de Aurora. Twitter: @mvdematos.

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+ A idolatria do(de) mercado: o homem todo para o dinheiro (todo)

A dignidade, o instante e o anônimo

Por uma ética da memória

Reflexões a partir da Revolta de Ferguson.

 

Shane Claiborne*

(Tradução: Mozart Archilla)

 

Dr. Martin Luther King Jr. disse: a “revolta é a linguagem dos que não são ouvidos”.

 

O que acontece quando as pessoas acham que suas vozes não estão sendo ouvidas?

 

Eles falam mais alto.

 

Revolta é o que quase aconteceu na cidade de Ferguson no EUA, e todos nós, que vivemos em bairros frágeis e com uma profunda injustiça racial como pano de fundo, precisamos prestar atenção.

 

Em Ferguson, uma comunidade bastante unida foi devastada por algo novamente entendido como injustiça. Eles queriam ser ouvidos. Porém, marchas pacíficas foram respondidas com brutalidade sem precedentes.

 

Lágrimas foram recebidas com gás lacrimogêneo.

É como se as autoridades estivessem tapando suas orelhas. Então as pessoas gritaram ainda mais alto – e o mundo começou a prestar atenção.

 

Num momento delicado de emoções à flor da pele, o povo de Ferguson teve que escolher entre a revolta e a ação direta não violenta nas ruas. Um grupo muito pequeno (muitos deles discutivelmente ativistas vindos de fora) apelaram para algumas formas de dano à propriedade alheia. Isso chamou a atenção da imprensa.

 

Alguns podem dizer que isso capturou as manchetes.

 

Mas não é assim que eu vou me lembrar de Ferguson.

 

O que chamou mais atenção do que o breve momento de depredação de bens, foi o cuidado disciplinado com o qual o povo de Ferguson começou a se organizar e treinar. Eles não combateram fogo com fogo. Eles fizeram seminários em não-violência e organização da comunidade. Eles montaram postos de inscrição de eleitores e de oração. Redes completamente novas de líderes cristãos foram formadas.

 

Essa rebelião não violenta tem sido incrível de se ver. Um movimento devagar, firme, disciplinado em Ferguson chamou a atenção do mundo. Outro dia, em uma teleconferência com líderes da igreja, alguém disse muito eloquentemente:

 

“Eles estão transformando um momento num movimento.”

 

O Dr. King estava certo. Revolta é uma maneira de fazer as pessoas prestarem atenção. Contudo, não é a única maneira.

Nós ainda lembramos dos protestos não violentos do movimento pelos direitos civis dos negros nos EUA – “sentaços”, boicotes, marchas. Eles também conseguiram atenção. A não-violência tem o poder de expor a injustiça de uma maneira que ela se torna tão desconfortável que as pessoas têm que responder. É a razão pela qual o Dr. King considerava a não-violência a arma mais potente à disposição dos negros naquele movimento.

Foto: protesto contra a segregação racial no Sul dos EUA

Pela sua própria experiência, o Dr. King argumentava que a violência “não é prática nem moral” e que rebeliões são “contraproducentes” e “socialmente destrutivas”. King insistia que se cada um no movimento se voltasse contra a não-violência ele ainda assim se levantaria e diria, “violência não é o caminho!”

Violência faz as pessoas assistirem televisão. Não-violência faz as pessoas ouvirem… e se dedicarem a uma mudança genuína e duradoura.

 

Quando eu fui embora de Ferguson as pessoas estavam discutindo o que aconteceria se cem pessoas se ajoelhassem em oração, bloqueando as portas da delegacia de polícia – um “oraço”? Até a mídia oportunista não perderia a chance.

 

Então eu penso no quê o Dr. King diria à luz de Ferguson. Acho que ele diria: “OUÇAM”.

 

Até à pequena minoria propensa à violência, nós poderíamos perguntar, “o que é que vocês querem tão desesperadamente que nós ouçamos?”

 

Da mesma maneira que ouvimos Ferguson, podemos aprender com Ferguson – assim como aprendemos com Montgomery e África do Sul. Muitos dos piores abismos de opressão se tornaram posteriormente os pólos mais brilhantes de esperança. Alguns dos momentos de maior injustiça iniciaram alguns dos maiores movimentos por justiça. Esses lugares conhecidos pelos atos de maldade inspiraram o mundo após o tempo de uma geração – desses locais surgem pessoas como Nelson Mandela e Rosa Parks.

 

Talvez seja assim com Ferguson.

 

Precisamos aprender com Ferguson para que estejamos preparados para as Fergusons do futuro. Nós conseguimos preparar nossas comunidades e a nós mesmos para enfrentar violência sem deixá-la tomar conta de nós. Nós podemos lutar contra o mal sem nos tornarmos maus.

 

Nós podemos encontrar uma terceira via que não é lutar nem fugir.

 

Afinal, se não encontrarmos canais não violentos para liberar a ira santa, ela provavelmente irá explodir em uma ira profana – violência e revoltas. Ao invés de ser preso por algo que compromete sua dignidade e integridade… vá para a cadeia por algo que lhes enfatize. É hora de renovar nosso compromisso com a construção de uma revolução não violenta.

Foto: Protesto contra as mortes de Jovens negros no Rio de Janeiro (Favela da Maré)

Imagine centenas de pessoas se ajoelhando para que seja cessada a deportação de crianças nas fronteiras. Imagine milhares se deitando para parar os carrascos antes da próxima execução promovida pelo Estado. Imagine um precedente sendo estabelecido em Ferguson, e que a cada vez que uma injustiça acontece na nossa vizinhança, nós a tornamos viral. E então colocamos nossos corpos no lugar onde eles pertencem – nas ruas, em marchas não violentas, “sentaços”, ocupações e vigílias.

Vamos antever aqueles inclinados à violência sendo convencidos que existe uma maneira melhor de nossas vozes sejam ouvidas – uma rebelião não violenta.

 

E vamos agora submeter nossos corpos como sacrifícios vivos para o movimento de Deus.

 

Traduzido de: A Nonviolent Uprising

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*Shane Claiborne é o autor de best-sellers, reconhecido ativista e preletor, além de um auto-declarado “pecador em recuperação”. Shane publica e palestra em vários países sobre promoção da paz, justiça social, e Jesus, e é autor de inúmeros livros como A Revolução Irresistível, Jesus for President, e o mais recente, Executing Grace (sobre a pena de morte). Ele é o líder visionário da comunidade The Simple Way, na Filadélfia, e co-diretor dos Cristãos da Letra Vermelha. Seu trabalho já foi citado e reconhecido pela Fox News, Esquire, SPIN, The Wall Street Journal, NPR e CNN. ____________________________________________________________________________________________________________

 

Leia também:

Os Cristãos da Letra Vermelha.

Esquecer, Inviabilizar e no fim, Barbárie

Bondade na dignidade

Os Cristãos da Letra Vermelha

Morf Morford*

(Tradução: Sara Tironi)

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Jesus parece ter tido suas mais produtivas e satisfatórias conversas com mulheres anônimas, isoladas, estigmatizadas e vulneráveis.

Há a “mulher adúltera” (João 8:1-11) e, claro, “a mulher junto ao poço”.

Ambas eram o tipo de pessoa com quem nenhum Rabi respeitável conversaria – e com quem nenhum homem de qualquer status gostaria de ser visto. Além disso, certamente nenhum homem tocaria em uma mulher estranha – principalmente uma considerada “impura” (no caso, a mulher com hemorragia).

A mulher junto ao poço, além de ser mulher, rejeitada por seu próprio povo, e de ter se casado diversas vezes, também era uma samaritana – e como todos sabem, “judeus não se dão bem com os samaritanos” (João 4:9 NVI).

A conversa de Jesus com a mulher no poço é tão satisfatória que Jesus diz uma das mais impressionantes linhas do Novo Testamento: “Tenho algo para comer que vocês não conhecem” (João 4:32 NVI).

Essa mulher, por sua vez, é considerada a primeira evangelista – senão missionária. Sua vida, e a vida de praticamente todos naquele povoado, foi transformada para sempre.

É significativo o fato de que o nome de nenhuma dessas mulheres tenha sido mencionado.

Nomear alguém, de acordo com dados históricos, era para pessoas “importantes” – reis, profetas e líderes. Essas mulheres não eram “importantes” – na verdade, elas eram excluídas, rejeitadas, “impuras” ou inúteis. Elas eram formas de interrupção e distração. As conversas de Jesus com elas foram “acidentais” e “involuntárias”. E muito mais frutíferas do que suas discussões com líderes religiosos – e com seus próprios discípulos.

Eu aprendo bastante com encontros não intencionados. mulher corcovada 001

Eu geralmente escuto mais do que falo.

Pessoas desprezadas, perdidas e despedaçadas falam com economia de sabedoria prática – elas conhecem muito bem as decepções e traições do mundo – e mesmo que elas tentem, não conseguem ignorar sua própria complexidade em meio à sua própria degradação.

Diferente delas, a maioria de nós, que vive uma vida consideravelmente confortável, ainda acredita em (e ainda vive por) mentiras contadas pelo mundo – e por nós mesmos.

A maioria dos “cristãos” que eu conheço sente “orgulho” por não “precisar” de ninguém.

E, a maioria deles, quando eu os pressiono, admite livremente que, não fosse pela promessa do Paraíso ou pela ameaça do Inferno, tampouco “necessitaria” de Deus.

Essas mulheres perdidas e abandonadas sabem melhor. Elas sabem que Deus pode, e que Ele vai alcançá-las, tocá-las e restaurá-las. Pessoas “religiosas” raramente “precisam” de Deus – ou mesmo de qualquer graça humana anônima. “Precisar de Deus”, para muitos de nós, é visto como um sinal de fraqueza. E talvez seja. É uma “fraqueza” que nos permite ser tocados, ou sermos aqueles que tocam os feridos, sem esperar nada em troca.

 

Traduzido de: The Women in Jesus’ Life

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*Morf Morford. A fé não é uma fórmula. Eu não usaria nem a palavra “relacionamento” nem a metáfora de “uma jornada” para descreve-la. Quanto mais velho fico, mais me parece com um processo – um foco determinado em ouvir o eterno, calar os ruídos e distrações, e se aproximar cada vez mais de cada sussurro e cada palavra, para perto da completude – e esvaziamento – do pulsar, das mãos e propósitos do Criador que, assim, nos leva finalmente para o lugar onde nós pertencemos. Sou professor e escritor, o que significa que gosto de ouvir e compartilhar o que vejo e escuto.

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Os Cristãos da Letra Vermelha

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Esta filha de Abraão

 

 

Alexandre Brasil*

 

A gênese do que se entende por Direitos Humanos é identificada por alguns autores como fruto do dissenso; das desigualdades que a sociedade europeia experimentava de forma cada vez mais evidente a partir dos séculos 16 e 17.

Foto de See-ming Lee. Disponível em: https://www.flickr.com/photos/seeminglee/8358545238

Downton Abbey. Foto de See-ming Lee. Disponível em: https://www.flickr.com/photos/seeminglee/8358545238

Essas sociedades se conformaram a partir de uma lógica da diferença, onde os que nasciam em “berço de ouro”, tinham direitos à nobreza e aos outros restavam o serviço e a obediência. São essas situações que vão conformando a sociedade ocidental moderna e que foram dando caldo e condições para a Revolução Industrial graças a criação do chamado exército industrial de reserva, que vimos em nossas aulas na educação básica.

Um exemplo desse diálogo entre conceitos de igualdade que conformaram os direitos humanos e a certeza da diferença, pode ser visto na série britânica de TV Downton Abbey. Ali são retratados o cotidiano de uma família aristocrata e seus criados e os trânsitos possíveis afetivos e sociais que o início do século 20 permitia, diante da afirmação de um Estado de Bem-Estar Social, e após os avanços construídos a partir da Revolução Francesa. As oposições e percepções, tanto dos velhos nobres e criados, como dos novos, juntamente com as tensões daqueles que buscavam manter as tradições são o combustível narrativo desta série.

A busca pela distinção, por ser VIP (Very Important Person e que, em alguns casos, o “P” pode ser lido como Pastor), parece ser algo presente no DNA da humanidade. A tese de doutorado do sociólogo Pierre Bourdieu dedica-se exatamente a explorar e discutir essa presença na sociedade por distinção, de como a diferença é socialmente construída e de que forma, efetivamente, as pessoas ocupam posições, num sentido também geográfico, o que se dá pela reunião de seu capital social e por suas diferentes escolhas e opções. Essas ocorrem diante de um campo de possibilidades e acabam por conformar essas posições em que um dos focos é efetivar a singularidade de cada um. Ser diferente, ser especial.

Parece que essa é uma das buscas centrais do ser humano. Ser VIP, ser especial, ser tratado com distinção. Na vida cotidiana são vários os exemplos desse desejo, desde os carros grandes e possantes que poderiam passar por cima de outros até as pessoas com seus muitos compromissos que esperam atendimento bancário exclusivo ou que sabem que não precisarão enfrentar filas nos aviões graças aos seus programas de milhas. Programas que também as salvam das “classes econômicas” e as colocam em seu devido lugar de “primeira classe”. Isso sem falar das diferenças salarias e do fato de que alguns realmente acreditam que umas pessoas “valem” mais do que outras e que por isso o Brasil amarga a triste realidade de diferenças salarias gigantescas. Isso sem também entrarmos nas diferenças salariais “explicadas” pelo gênero, a qual inexplicavelmente ainda é muito presente na atualidade.

 

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E ainda tem gente que acha que o Marx é ultrapassado ou que não tinha razão e mais ainda, que afirmou coisas que seriam mera propaganda ideológica… esquecem de que “luta de classes” é um conceito produzido por uma área do conhecimento, a qual – igualzinho às outras áreas, sejam elas “duras” ou “moles” – sofre e expressa as limitações e as singularidades da vida humana. Daquilo que não deu conta, outros autores e autoras deram, parte do conhecimento que vai se acumulando e abrindo novas perspectivas. Quando alguém deixar de viajar em um avião porque foi um engenheiro ateu que planejou aquele modelo, vou começar a pensar em considerar as críticas contra as “ateias” ciências sociais.

A Bíblia é recheada de exemplos dessa busca de diferenciação. O desejo de ser especial e diferente está na decisão de Adão e Eva, queriam “ser igual à Deus”, mas também o encontramos no fratricídio de Caim ou na construção da Torre de Babel. Dando um salto, vemos novamente este desejo como um dos argumentos centrais de Satanás ao tentar Jesus no deserto e questioná-lo com uma variação do bem brasileiro “você sabe com quem está falando?!”. No caso, as formulações iniciais de Satanás foram sutis e começaram instigando uma pergunta que diariamente todos ouvimos “Se você é…”.

“Se você é VIP” não precisa pegar uma fila; “Se você é especial” pode furar uma fila… parece que, de fato, acreditamos que somos. Vendo que esta estratégia sútil não estava dando êxito, Satanás parte, então, para o explícito e oferece os resultados desta distinção, o fato de você ser diferente, ser melhor do que os outros pode te dar acesso a “tudo isto”: dinheiro, sexo e poder. E, de fato, é isso o que importa. Ser diferente para receber tratamento diferenciado!vip-1428267_960_720

A lógica dos Direitos Humanos é negar essa tentação do “Se você é…” ao afirmar a equidade dos seres humanos. É defender que TODOS e TODAS tenham acesso a tudo o que precisam para existir, se desenvolver e contribuir. É a defesa de que terra, casa, trabalho, educação, saúde e liberdade sejam uma realidade no cotidiano de cada pessoa. As opções e caminhos sociais, políticos, econômicos etc. para se garantir esses direitos são outra história e não estão postos e é na busca deles que as sociedades subsistem.

Antes da questão da dignidade humana, forte contribuição que tem no cristianismo importante referência, temos no exemplo do Deus encarnado uma contundente afirmação de que as desigualdades e as diferenças não fazem parte de seu plano para a sociedade. As orientações para a sociedade judaica, o convite à inclusão de viúvas, órfãos, deficientes são a marca de um Evangelho que se caracteriza pelo amor e pela inclusão.

O texto bíblico em Filipenses 2 é contundente em defender uma postura de negação desse desejo de “ser” que paira sobre as nossas cabeças, apresentando o didático e emblemático exemplo de Cristo “que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se”. O convite de Paulo é para que os seguidores de Cristo assumam essa mesma atitude de “esvaziar-se a si mesmo”, de colocar-se numa posição de servo. O convite aqui passa por negar a tentação de ser VIP, por negar a crença de que “somos especiais”.

O que é isso? Isso é uma boa contribuição que o pensamento cristão ofereceu aos Direitos Humanos, a convicção de que mesmo o Deus encarnando não se colocou como superior ou especial, de que o Deus encarnado não exigiu tratamento VIP e que esse Deus encarnado convida aos seus seguidores a “humildemente considerarem os outros superiores a si mesmos”. Os efeitos dessa postura são tremendos e, felizmente, a história da humanidade é recheada de exemplos de homens e mulheres que seguiram este convite e que fizeram história ao viverem para construir não uma sociedade desigual, mas sim uma sociedade de serviço e fraternidade.

Que este convite seja constante em nosso dia-a-dia e que incluamos em nossas orações um singelo pedido: “Senhor, livrai-nos de querer ser VIP”.

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*Alexandre Brasil é Sociólogo, doutor em sociologia (USP), com pós-doutorado pela Universidade de Barcelona (Espanha), e professor da UFRJ. Foi Secretário Geral Adjunto da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB) e fundador da Rede FALE. Casado com Daniela e pai de Daniel.

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Leia também:

Direito do Consumidor – uma questão de Dignidade

Dignidade – Convite ao Diálogo

E o Oscar não foi para…

 

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Morgan Guyton *

(Tradução: Mozart Archilla)

 

Esse texto se refere a campanha eleitoral para Presidente dos Estados Unidos da América. Contudo, há muitas semelhanças no momento político brasileiro que, sem dúvida, também passa por um período “tóxico”. Dessa forma, trazemos aqui uma reflexão tanto para os que já encerraram sua participação nessas eleições municipais brasileiras, quanto para os que ainda o farão, no segundo turno. 

 

 

Estamos passando pelo que parece ser a campanha presidencial mais tóxica da história dos Estados Unidos. Isto é parcialmente devido a candidatos extremamente impopulares. Parcialmente devido às particularidades do nosso momento na história quando Cristãos brancos pela primeira vez não têm maioria política. Parcialmente devido à natureza viciante e venenosa das ferramentas de mídia social. Seria possível a cristãos que são apaixonados e sinceros pelos nossos pontos de vista político que expusessem esses pontos sem destruir nosso testemunho? Como podemos equilibrar nossa vocação para profetizar a verdade e nossa vocação para construir pontes de maneira pastoral? Como cedermos domínio dos nossos objetivos ao Espírito Santo ao invés do Buzzfeed ou de um dos partidos políticos? Aqui estão sete maneiras de deixarmos de ser tóxicos como cristãos no meio dessa loucura.

 

  1. Baseie-se na oração e observação

 

urna_eletronica_confirmaMeu mentor Brian Zahnd reitera constantemente a importância de ser contemplativo ao invés de reativo, em todos os aspectos das nossas vidas. Isso não significa evitar conflito ou ser tímido ao invés de arrojado. Isso significa em vez de nos deixar irritar, tomar posições a partir de um estado espiritualmente fundamentado. Nós não estamos ancorados espiritualmente sem nos comprometer com práticas espirituais que nos permitam nos entregarmos a Deus. Se pretendemos não ser cristãos tóxicos no nosso clima político, devemos empregar tanto tempo ouvindo a Deus quanto articulando nossa visão. Uma base contemplativa cria as circunstâncias orgânicas para nos comportarmos como Cristo. Situações nas quais somos repulsivos com os outros são geralmente expressões de ansiedade descontrolada e bagagem espiritual com as quais devemos lidar através de oração.

 

  1. Fale e compartilhe com intencionalidade

 

Impulsividade é a raiz de grande parte do mal do nosso mundo. Dispensamos palavras que não foram totalmente raciocinadas. Compartilhamos artigos que não lemos do início ao fim somente pelo título provocativo. Isso acontece porque experienciamos nosso mundo como trincheiras de guerra retórica. Então, por isso, lançamos descuidadamente qualquer coisa que desmoralize ou ataque a credibilidade do lado oposto. A suposição é que sob o peso psicológico de todos os escândalos as pessoas do outro lado vão eventualmente desistir. Vivemos num ciberespaço tóxico onde milhões de pessoas ficam dizendo “VIU?” uma dúzia de vezes ao dia. Como seria ser intencional e não impulsivo com o que falamos e compartilhamos na internet? Eu tenho amigos pastores que são muito mais disciplinados que eu, que literalmente escrevem somente coisas boas, zelosas e inspiradoras no Facebook. Embora ache que alguns de nós são chamados a falar profeticamente, isso não nos permite ser impulsivos. É possível que cristãos façam mais do que tentar constantemente minar o ânimo de nossos oponentes políticos? É possível falarmos de maneira que inspire curiosidade e santificação ao invés de sempre tentarmos expor o porquê de nossos inimigos serem completos idiotas?

 

  1. Lembre-se que Satanás é o acusador

 

urna_eletronica_corrigeA palavra Satanás em hebraico significa literalmente “o acusador”. Apocalipse 12:10 se refere a ele como “o acusador da irmandade”. Um mundo repleto de acusação e cinismo é um mundo que foi conquistado por Satanás. Quando acusamos, estamos contribuindo com o trabalho do inimigo. Isso não significa que devemos fingir que não existe nada de errado com o mundo em que vivemos e ignorar as terríveis verdades que estão em volta de nós; porém, acho que é possível nomear a verdade sem nomear pessoas. Eu posso falar da supremacia branca como fenômeno cultural sem chamar pessoas específicas de racistas e que tenho a clarividência para desconstruir tudo o que dizem e enxergar diretamente suas almas. O cristianismo faz a escandalosa, contra-cultural asserção de que a graça funciona melhor que o desprezo para ajudar as pessoas a se curarem de seus pecados. Isso não significa que pessoas que estão ativamente machucando outros com suas palavras não devem ser desafiadas; porém, Satanás tem o domínio sobre qualquer ambiente onde pessoas se regozijam no prazer doentio de atirar acusações pra lá e pra cá.

 

  1. Ache algo a ser apreciado e respeitado nos seus oponentes

 

Eu me vejo completamente desarmado on-line quando conservadores com os quais discuto demonstram genuinamente se importar com a minha vida. Eu tive problemas de saúde e várias dificuldades pessoais sobre os quais tratei abertamente. Pessoas que notam e se preocupam com essas coisas têm muito mais credibilidade quando me criticam do que os predadores que somente invadem minha timeline quando digo algo que contradiz suas ortodoxias. É claro que credibilidade não deveria ser o objetivo, de qualquer maneira. Como cristãos, nossa meta é encher o mundo de amor, não ganhar discussões políticas. Se vamos falar sobre amor ideologicamente através de frases como “love trumps hate” (o amor ganha do ódio) mas não praticamos o amor quando falamos com nossos oponentes, então somos hipócritas desprezíveis.

 

  1. Não ridicularize esperança ou amor, de onde quer que eles venham

 

Elei›es 2014 - Voto em tr‰nsito no IESB, Asa Sul, Bras’lia.

Elei›es 2014 – Voto em tr‰ansito no IESB, Asa Sul, Bras’lia.

Dois anos após Obama ter sido eleito e ter quebrado algumas promessas, Sarah Palin fez uma das coisas mais mesquinhas de sua carreira: subiu em um palanque e perguntou ao público “How’s that hopey, changey stuff workin’ out for ya?” (e aí, como é que tá aquele negócio de esperança e mudança? Tá funcionando pra vocês?). Há muitas pessoas nesse momento discorrendo sobre como a Hillary Clinton é uma inspiração para suas filhas por estar rompendo barreiras ao ser a primeira mulher nomeada para a candidatura à presidência do país por um dos dois maiores partidos. Tenho certeza que muitos não puderam se conter de alegria com seu discurso oficial na convenção democrata e muitos outros despejaram raiva pelo Twitter, vindo da direita ou da esquerda. Talvez nós possamos nos abster do dever moral de pisotear toda expressão de amor e esperança que não consideramos de origem correta. Talvez não devamos repreender todos que dizem “estou chorando porque minha filha agora sabe que pode ser presidente”. Cristãos jamais devem ridicularizar esperança ou amor. Existem muitas oportunidades para discutirmos ardentemente nossas visões políticas; não precisamos invadir um momento bonito de êxtase pessoal do próximo com escárnio e desdém.

 

  1. Considere criticar de maneira privada

 

Eu respondo de maneira muito diferente quando pessoas me escrevem uma mensagem privada ao invés de me chamar de idiota na minha timeline. Por alguma razão, eu me sinto honrado que pessoas tomaram parte de seu tempo pra me escrever privadamente, mesmo que o tempo gasto para digitar uma mensagem pública seja o mesmo. Demonstra respeito, o que te dá muito mais credibilidade se precisar dizer algo mais crítico. “Fora do registro oficial”, descobrimos que as pessoas não são os pregadores ferrenhos de ideologia que aparentam ser em público. Existem obviamente razões válidas para responder em público como um ato de solidariedade quando pessoas estão machucando com suas palavras; porém, se estamos buscando influenciar outros, a comunicação privada é um meio muito mais eficaz.

 

  1. Programe tempo para conversas na vida real

 

Eu não sei como vocês são a respeito de “dizer” mais através de palavras digitadas no telefone do que na vida real. Eu sou péssimo com isso e isso me torna uma pessoa tóxica. Quando fui ao Wild Goose Festival na Carolina do Norte eu fiquei sem sinal de celular por quatro dias e foi um período de restauração tremendo para mim. Eu realmente acho que a falta de conversa na vida real é uma das principais fontes de toxicidade do nosso mundo. Quando tenho conversas de verdade com cristãos dos quais discordo, é extremamente desconfortável e maravilhoso. É muito mais difícil odiar as pessoas quando você está olhando para o rosto delas. Algumas das conversas que mais me transformaram eu tive com pessoas com as quais havia uma discordância ideológica completa. Meu avô era um texano republicano conservador batista do ramo do petróleo. Ele satisfazia todos os requisitos do estereótipo que meu time adora odiar. E ele foi um dos melhores amigos que tive. As conversas que tivemos nas ruazinhas do sul do Texas foram alguns dos momentos mais preciosos da minha vida. Eu preciso separar mais tempo da minha vida atual para conversas na vida real como aquelas.

 

Traduzido de: Seven Ways to Be an Untoxic Christian During a Toxic Presidential Campaign

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morgan-guyton_avatar*Morgan Guyton é o autor de Como Jesus Salva o Mundo de Nós: 12 Antídotos contra um Cristianismo Tóxico (disponível, em inglês, aqui: How Jesus Saves the World from Us: 12 Antidotes to Toxic Christianity ). Seu blog, Mercy Not Sacrifice (Misericórdia Não Sacrifício) é hospedado pelo Patheos. Ele e sua esposa Cheryl são co-diretores da NOLA Wesley, um ministério da Reconciling United Methodist no campus das Universidades de Tulane e Loyola, em Nova Orleans. ______________________________________________________________________________________________________

 

Leia também:

Os Cristãos da Letra Vermelha.

+ O Capitalismo é compatível com o Cristianismo? 

A idolatria do(de) mercado: contra a teologia política neoliberal.

Os Cristãos da Letra VermelhaRLC_full-name_two-color copy

 

Micah Bales*

(Tradução: Eliezer Silva)

 

Ao chamar seus primeiros discípulos, Jesus causou uma mudança total na vida econômica deles. Simão e André, Tiago e João trabalhavam nos negócios familiares, impulsionados pelo legado da criação que receberam. Seus pais eram pescadores, bem como os pais de seus pais e várias gerações anteriores. A pesca era uma forma de sustento, mas não se reduzia somente a uma fonte de renda, ia muito além. O negócio familiar era fonte de um sentido de lugar, de significado para a vida. Era uma ordem social que permitia a cada membro da família saber exatamente seu devido espaço de atuação.

Somente ao compreendermos esse fato, podemos começar a vislumbrar a natureza radical do convite feito por Jesus a seus primeiros seguidores e amigos: Sigam-me, e eu vos farei pescadores de homens. Jesus ofereceu uma ordem econômica e social totalmente diferente. Seu convite não contemplava redes de segurança, justificativas ou garantias. Os primeiros discípulos abandonaram imediatamente as suas redes, seus meios de subsistência e toda ordem social que lhes deva um sentido de lugar. Eles abandonaram tudo, inclusive toda uma visão de mundo, ao seguir Jesus.

Nos nossos dias, o desafio de Jesus não é menos crítico. Ele nos convida para um modo de vida radicalmente distinto de nossas suposições cotidianas, de modo que temos grandes dificuldades em captar exatamente o que está em jogo. O caminho do discipulado de Jesus não nos permite simplesmente incorporar seus ensinamentos numa ordem social pré-existente. A boa-nova do Reino de Deus – que é nossa missão, caso a aceitemos – atua nos empurrando para fora da zona de conforto, da mesma forma que atuou na vida dos primeiros discípulos de Jesus há muito tempo atrás lá na costa do mar da Galiléia.

 

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Naturalmente, muitos de nós não subsistimos da pesca. E mesmo os que vivem dessa atividade econômica, provavelmente não atuam num negócio familiar passado de geração em geração. Nós não vivemos numa economia pré-moderna de camponeses, ferreiros, sacerdotes e governadores imperiais. Graças a Deus.

No entanto, nós vivemos dentro de uma dada ordem econômica, em grande parte inquestionável e que define nossas vidas, tanto quanto os negócios familiares e os laços econômicos que eram tão importantes para os primeiros cristãos. Vivemos dentro de uma nova ordem mundial, tão pervasiva e poderosa que na maioria das vezes não é sequer notada. É simplesmente a realidade.

Hoje nossas vidas estão integradas na ordem econômica e social do capitalismo global. E do mesmo modo que o poder romano e sua economia imperial era uma realidade praticamente inquestionável no mundo antigo, hoje a dominação moderna da economia global neo-liberal é uma realidade praticamente inquestionável para todas as pessoas. Ame ou odeie, é apenas como as coisas são.

Mas será mesmo? E se houver um poder maior do que Wall Street, maior que o capitalismo de consumo, bem como todo o aparato violento necessário para sustentá-lo?

Os cristãos podem discutir indefinidamente sobre a correta definição do capitalismo, e se pode ser visto como algo benigno ou uma ameaça. Sem dúvida, se trata de uma conversa necessária, apesar de não chegar no cerne da questão. O ministério de Jesus não era focado na formação de uma sociedade de debates. Seu foco foi na construção de um movimento, uma família.

Hoje ele nos convida para esta nova ordem social, esse novo modo de vida. A família de Deus está no meio de nós e nos desafia a reavaliar o que valorizamos, o que deve ser honrado e como devemos viver nossas vidas. Jesus continua à beira-mar, nos chamando a largar nossas redes e segui-lo.

Qual é a forma e o significado desse chamado em termos concretos? Será que devemos largar nossos empregos? Laços sociais? Todos os conceitos sobre quem e o quê deve ser valorizado? Que forma assume o ato de se arrepender (isto é, mudar todo nosso modo de vida) no contexto de um capitalismo global que ameaça tornar nosso precioso planeta inabitável? Que emaranhado de redes que somos chamados a jogar fora e qual é o caminho, a comunidade, a família que irá substituí-lo?

O tempo para uma abordagem meramente religiosa para essas questões se esgotou. Somente uma mudança de corações não é suficiente quando nossas vidas permanecem tão profundamente enraizadas nos pressupostos e na economia do império global. É urgente e necessário um convite para uma reavaliação radical e determinada de tudo, nos encaminhando a uma mudança integral em nossas vidas na busca por uma existência verdadeiramente abundante, que Jesus nos promete.

Mas em primeiro lugar: larguemos nossas redes e sigamos a Jesus.

 

Traduzido de: Is Capitalism Compatible With Christianity (Red Letter Christians)

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micah-bales_avatar_1425396237-80x80* Micah Bales é escritor, professor e líder Cristão de trabalhos de base na igreja local em Washington, DC. Ele é membro fundador do movimento Friends of Jesus, uma comunidade Anabatista; e também foi organizador do movimento Occupy. Para ler mais sobre seu trabalho, acesse o links  www.micahbales.com, ou siga Micah no Twitter.

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Leia também:

+ Os Cristãos da Letra Vermelha.

+ A idolatria do(de) mercado: o homem todo para o dinheiro (todo).

+ A idolatria do(de) mercado: contra a teologia política neoliberal.

 

 

Sobre desestrutura e encontros; cuidado e amor

 

Por Priscila Vieira*

 

IMG_1321Exaustão. Maravilhamento. Espanto. Amor. Ternura. Fome. Medo. Preocupação. Dor… Algumas sensações que me tomaram nos primeiros dias com a bebê. A minha sensibilidade à flor da pele gerou até piada. As profissionais de saúde que visitam as mães e os recém-nascidos[1] são treinadas para identificar sinais de depressão na mulher. Quando contei a minha mãe as perguntas que a enfermeira tinha feito, recebi uma resposta enérgica, espirituosa, de fino sutil senso de humor:

– Depressão pós-parto?!! Você está sofrendo de emoção pós-parto!

Ambas rimos. Uma boa expressão para o tumulto emocional daqueles dias. Eu chorava, emocionada. Porque minha bebê era (e é) perfeita, linda, saudável. De cansaço e exaustão. De dor para amamentar (bico machucado; duas ou três mastites). De impotência e frustração, quando o choro dela prosseguia sem fim. Porque eu queria protege-la do mundo ao redor, até da poluição do ar. Porque em uma das mastites fiquei cinco horas no hospital, longe dela, e tudo que eu pensava é que tinha que amamenta-la (mesmo com a dor). Porque as pessoas ao meu redor eram tão cuidadosas e amáveis. Porque em tudo eu via Deus.

Quem queira explicar objetivamente o que acontece nessa fase, aos modos do que chamamos ‘racional’ na nossa era, esqueça. É de outra coisa que se trata. Por isso, desestrutura encabeça a minha sopa de palavras. E que sabor teve esse prato! Tantas aventuras misturadas, tantos temperos exóticos – à minha experiência até então. Eu degustei cada minuto daquela fase. Lambuzei as mãos, lambi o prato.

 

Desestrutura

A noção da maternidade e do parto como desestrutura espiritual chegou a mim através do livro da Laura Guttman[1]. Por espiritual a autora indica a dimensão profunda da experiência. Somos mais que corpos grávidos. Somos inteiras e, naqueles momentos, nossa integridade abarca o bebê. Eu, cristã, conectei imediatamente a noção à minha própria formação e experiência de espiritualidade. Topei o desafio de viver a gravidez, o parto e o que depois viesse nessa dimensão. Se há desestrutura, Deus estará nela. Assumi, simplesmente. Meu parto fugiu às possibilidades de previsão, foi confuso, bizarro e de beleza singular (leia o relato aqui).

E então foi uma mulher feliz, exausta e sobretudo desestruturada que se viu com um bebê nos braços, que demandava alimentação a cada três horas. Além dos demais cuidados. A desestrutura é como o parto: integral. O corpo é um estranho no pós-parto. Havia me habituado à gravidez; agora era necessário lidar com o útero vazio. Sentir as contrações de seu re-aninhamento. Pois quando deixa de ser ninho do bebê, o útero se (re)aninha em nosso corpo. Lidar com a dor na região pélvica e períneo; lidar com dores nas costas. As minhas foram intensas (ainda estou lidando com elas, um ano e meio após o fim da gravidez). As emoções oscilavam do inexorável sublime ao desespero. Preocupação com o bem-estar do bebê; com a fome, a sede, a amamentação. Amamentar é um aprendizado, uma novidade que exige convicção, paciência, serenidade. Na maior parte das vezes, solicita, mais uma vez (após o parto!), convívio com a dor.

 

– Dor

Dói. Pré, durante, pós: ter um filho é uma experiência permeada pela dor. Mesmo para aquelas que tiveram um parto sob controle e bebês saudáveis. Eu não disse que a sopa era apenas gostosa; disse que me fartei de todos os sabores.

A maternidade, no entanto, é absolutamente sobre Vida. Experiência mística radical de sermos cocriadoras com o autor principal, soberano, o próprio Deus. É um mistério. Ele cria através de nós; cria em nós. E então a maternidade me ensina de forma nova algo que já sabia. Vida embrenha-se com a dor. Felicidade e amor embrenham-se com a dor. Não entendo. Guardo no coração, como aprendi com Maria, mãe de Jesus.

É fato que a exaustão nos faz esquecer, por momentos, a potência da Vida que carregamos nos braços, dias e noites a dentro e à fora. “Uma pessoa sem dormir é outra pessoa”, ouvi de uma amiga, mãe de uma linda bebê, nascida três meses antes da minha. Na minha casa, o pós-parto foi vivido na proporção três adultos para um bebê. É muito mais do que boa parte das mulheres sonha ter. E ainda assim, em meio aos cuidados do bebê, manter básicos como a rotina alimentar dos adultos era um desafio.

Como experiência de dor, há um segredo para caminhar sem que feridas fiquem abertas, especialmente por essa fase de transição do pós-parto: encontros. Deixar-se afetar pelo outro. E misturar-se a ele/ ela. Sim, os próximos são o caminho necessário para que haja Vida.

 

Encontros

unspecified-5Há uma mística que envolve o encontro da mãe com o bebê. Um encontro que é ao mesmo tempo a primeira vez e uma renovação. O encontro se deu organicamente, no útero, na placenta, no cordão umbilical. Naquele momento, se dá nos olhos, na pele, no seio e no peito, nos lábios, mil beijinhos. Infelizmente, nem todas as mulheres e nem todos os bebês conseguem viver esse encontro logo após o parto. Mas, em algum momento, essa mística acontece. E quando ela chega, a dor dissipa-se no sublime.

Outro encontro fundamental para mim foi conhecer a face pai-cuidador do meu marido. “Camadas que se revelam”, descreveu uma amiga, mãe de dois meninos. Não foi imediato. Levou talvez alguns dias, talvez algumas horas. Um efeito do pós-parto é a sublimação do tempo, que passa de modo diferente e não linear para as mães com seus bebezinhos. O fato é que logo meu marido era (e é) a pessoa em que mais confiava para cuidar da minha filha. E para cuidar de mim. Foram tantos lanchinhos na cama durante a madrugada, tantas garrafas de água, tanta preocupação, tanta atenção. Eu me vi nas mãos dele, naqueles dias em que me sentia tão forte para algumas coisas e tão fraca para outras; eu não desejava estar em outro lugar.

O reencontro com minha mãe. Eu e minha mãe temos uma história de encontros; e reencontros. Na fase de espera pelo bebê no final
da gravidez e da chegada da Aurora, nos reencontramos como mulher. A maternidade carrega uma potência de dissolução das individualidades; mães se identificam e, se não resistirem, se fundem. Então eu, que já fora uma com ela, gestada em seu
útero; passara 35 anos me desenvolvendo como alguém diferente dela; agora estava ali, novamente, em um ponto de unidade, momentos de coexistência sobreposta. Dependente de seus cuidados, alimentada pelo seu afeto, segura com sua presença. Um reencontro maduro, sem necessidade de igualar; um reencontro em momentos de dor e de alegria tal, que só a Vida é capaz de produzir.

O encontro com Deus. Se são os hormônios, abençoados sejam eles! Atravessei no pós-parto uma fase espiritual transformadora. Na profundidade, na intimidade, nos recônditos que só a oração toca; a oração do silêncio, sem palavras. A mãe com um bebezinho é um ser intensamente instintivo. Tudo ao redor é notável pois qualquer coisa pode ameaçar. E esses instintos constantemente encontram Deus. Em meio à exaustão, ao sono, às dores. Nas mamadas diurnas e, especialmente, nas noturnas. Nos primeiros passeios exibindo orgulhosamente meu rebento; notando de forma única o vívido colorido das flores que desabrochavam (era primavera!); observando com interesse profundo outros bebês, outras crianças. A maternidade me levou o tempo devocional que habituava ter antes. Mas, reafirmo, temporalidade nessa fase é outra. Eu sentia que meramente ao pensar em alguém, estava intercedendo por essa pessoa. Sentia Deus ali, comigo naquele fluxo afetivo por aquela amiga, aquela mãe, aquele familiar que emergia em meu coração; abençoando a mim, abençoando à pessoa querida que ali, em mim, se fazia presente. Minha interioridade nunca foi tão vasta, expandida. Meus sensores nunca foram tão aptos ao inefável.

Por fim, como espera-se de encontros com Deus, encontrei-me, reencontrei-me com as pessoas ao redor. Como esquecer as lindas emoções que vieram junto com o primeiro buquê que recebi, ainda no mesmo dia do nascimento, na maternidade? (E que vieram junto com um lanchinho… porque, falemos a verdade, o pós-parto e a amamentação são sentidos fundamentalmente no estômago!). Churrasco, já na segunda semana de vida do bebê. Comida trazida pronta, à porta de casa, por mulheres do grupo de compartilhar. Vivências de comunhão. Aprender a aceitar, a receber, a deixar-se cuidar.

 

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Cuidado

Quando comecei a ler e a ouvir outras mulheres sobre o pós-parto, pensava que ter um filho era sobre cuidar. Engano. Ter um filho é também sobre receber cuidados. Abençoadas as mulheres nessa fase. Estou certa que o Deus da Vida, em sua misericórdia, oferece forças extras e envolve em seu próprio cuidado amoroso, seu próprio colo aquelas mulheres que enfrentam sozinhas um momento tão rico, tão exaustivo, que nos reduz ao mesmo tempo que nos expande. Assim também as mulheres que enfrentam nessa fase desafios extras, questões de saúde física e emocional, delas próprias, do bebê, de algum ente querido próximo. (Amém!)

Cada gesto cuidadoso que me chegava era acolhido no mais profundo da alma. Lembro-me do momento em que percebi o privilégio do que vivia. Nunca havia me sentido tão cuidada (claro que eu chorei ao pensar nisso)! Todo aquele afeto compunha um ninho em que eu me sentia plena. Em meio ao cansaço, eu estava perfeitamente feliz. Ser cuidada em um momento tão especial foi das vivências mais amorosas que já tive. Em minha desestrutura, sentia-me diluída, a ponto de confundir-me com os outros ao meu redor, de quem eu cuidava (especialmente a bebê), de quem eu recebia cuidados. Diluída na oração, que emergia anterior à palavra e se estendia pelas fraldas trocadas, pelas muitas sonecas interrompidas, pelas caminhadas, banhos de claridade (da bebê), banhos acelerados (meus) e preocupações mil. Ouso dizer: o pós-parto me trouxe sabores e cheiros, largos e densos pedaços de Amor. Sensorial e nutritivo, isso me transformou.

 

Eu era uma quando pari. Era outra, que viveu o pós-parto. Sou outra que redige esse texto no agora. Busco reintegrar essas todas-que-sou-eu. Daqueles dias, guardei no coração, como Maria, mãe de Cristo, fazia com o que estava além de sua compreensão: a desestrutura abre espaço ao divino; o encontro pode ser hibridismo instintivo; amar, ser cuidada, ser amada, cuidar são expressões de sentidos tão profundamente próximos que suas raízes se confundem (talvez porque se alimentam da mesma Fonte). Dor, amor e cuidado em meio à desestrutura; encontros, metamorfose: assim, a vida inicia; assim ela se sustenta. E segue, abundante…

 


13775438_1174288965967380_3751878068644688898_n*Priscila Vieira é doutora em Comunicação e Cultura pela ECO/UFRJ, e Pós-doutoranda na School of Arts do Birkbeck College, na Universidade de Londres. Foi fundadora do grupo base da Aliança Bíblica Universitária (ABUB) em Ponta Grossa (PR) e membro da Rede FALE. É International Partner da Allsouls, Langham Place, onde frequenta o Aroma – estudo bíblico de/para/com mulheres.

 

 


Referências:

[1] Em casa, serviço gratuito do Sistema Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS). Durante as primeiras semanas, mãe e bebê recebem várias visitas das parteiras.

[2] GUTMAN, Laura. A maternidade e o encontro com a própria sombra. Rio de Janeiro: Best Seller, 2010.

 

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