As mulheres na vida de Jesus

Os Cristãos da Letra Vermelha

Morf Morford*

(Tradução: Sara Tironi)

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Jesus parece ter tido suas mais produtivas e satisfatórias conversas com mulheres anônimas, isoladas, estigmatizadas e vulneráveis.

Há a “mulher adúltera” (João 8:1-11) e, claro, “a mulher junto ao poço”.

Ambas eram o tipo de pessoa com quem nenhum Rabi respeitável conversaria – e com quem nenhum homem de qualquer status gostaria de ser visto. Além disso, certamente nenhum homem tocaria em uma mulher estranha – principalmente uma considerada “impura” (no caso, a mulher com hemorragia).

A mulher junto ao poço, além de ser mulher, rejeitada por seu próprio povo, e de ter se casado diversas vezes, também era uma samaritana – e como todos sabem, “judeus não se dão bem com os samaritanos” (João 4:9 NVI).

A conversa de Jesus com a mulher no poço é tão satisfatória que Jesus diz uma das mais impressionantes linhas do Novo Testamento: “Tenho algo para comer que vocês não conhecem” (João 4:32 NVI).

Essa mulher, por sua vez, é considerada a primeira evangelista – senão missionária. Sua vida, e a vida de praticamente todos naquele povoado, foi transformada para sempre.

É significativo o fato de que o nome de nenhuma dessas mulheres tenha sido mencionado.

Nomear alguém, de acordo com dados históricos, era para pessoas “importantes” – reis, profetas e líderes. Essas mulheres não eram “importantes” – na verdade, elas eram excluídas, rejeitadas, “impuras” ou inúteis. Elas eram formas de interrupção e distração. As conversas de Jesus com elas foram “acidentais” e “involuntárias”. E muito mais frutíferas do que suas discussões com líderes religiosos – e com seus próprios discípulos.

Eu aprendo bastante com encontros não intencionados. mulher corcovada 001

Eu geralmente escuto mais do que falo.

Pessoas desprezadas, perdidas e despedaçadas falam com economia de sabedoria prática – elas conhecem muito bem as decepções e traições do mundo – e mesmo que elas tentem, não conseguem ignorar sua própria complexidade em meio à sua própria degradação.

Diferente delas, a maioria de nós, que vive uma vida consideravelmente confortável, ainda acredita em (e ainda vive por) mentiras contadas pelo mundo – e por nós mesmos.

A maioria dos “cristãos” que eu conheço sente “orgulho” por não “precisar” de ninguém.

E, a maioria deles, quando eu os pressiono, admite livremente que, não fosse pela promessa do Paraíso ou pela ameaça do Inferno, tampouco “necessitaria” de Deus.

Essas mulheres perdidas e abandonadas sabem melhor. Elas sabem que Deus pode, e que Ele vai alcançá-las, tocá-las e restaurá-las. Pessoas “religiosas” raramente “precisam” de Deus – ou mesmo de qualquer graça humana anônima. “Precisar de Deus”, para muitos de nós, é visto como um sinal de fraqueza. E talvez seja. É uma “fraqueza” que nos permite ser tocados, ou sermos aqueles que tocam os feridos, sem esperar nada em troca.

 

Traduzido de: The Women in Jesus’ Life

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*Morf Morford. A fé não é uma fórmula. Eu não usaria nem a palavra “relacionamento” nem a metáfora de “uma jornada” para descreve-la. Quanto mais velho fico, mais me parece com um processo – um foco determinado em ouvir o eterno, calar os ruídos e distrações, e se aproximar cada vez mais de cada sussurro e cada palavra, para perto da completude – e esvaziamento – do pulsar, das mãos e propósitos do Criador que, assim, nos leva finalmente para o lugar onde nós pertencemos. Sou professor e escritor, o que significa que gosto de ouvir e compartilhar o que vejo e escuto.

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Senhor, livrai-nos de querer ser VIP

 

Alexandre Brasil*

 

A gênese do que se entende por Direitos Humanos é identificada por alguns autores como fruto do dissenso; das desigualdades que a sociedade europeia experimentava de forma cada vez mais evidente a partir dos séculos 16 e 17.

Foto de See-ming Lee. Disponível em: https://www.flickr.com/photos/seeminglee/8358545238

Downton Abbey. Foto de See-ming Lee. Disponível em: https://www.flickr.com/photos/seeminglee/8358545238

Essas sociedades se conformaram a partir de uma lógica da diferença, onde os que nasciam em “berço de ouro”, tinham direitos à nobreza e aos outros restavam o serviço e a obediência. São essas situações que vão conformando a sociedade ocidental moderna e que foram dando caldo e condições para a Revolução Industrial graças a criação do chamado exército industrial de reserva, que vimos em nossas aulas na educação básica.

Um exemplo desse diálogo entre conceitos de igualdade que conformaram os direitos humanos e a certeza da diferença, pode ser visto na série britânica de TV Downton Abbey. Ali são retratados o cotidiano de uma família aristocrata e seus criados e os trânsitos possíveis afetivos e sociais que o início do século 20 permitia, diante da afirmação de um Estado de Bem-Estar Social, e após os avanços construídos a partir da Revolução Francesa. As oposições e percepções, tanto dos velhos nobres e criados, como dos novos, juntamente com as tensões daqueles que buscavam manter as tradições são o combustível narrativo desta série.

A busca pela distinção, por ser VIP (Very Important Person e que, em alguns casos, o “P” pode ser lido como Pastor), parece ser algo presente no DNA da humanidade. A tese de doutorado do sociólogo Pierre Bourdieu dedica-se exatamente a explorar e discutir essa presença na sociedade por distinção, de como a diferença é socialmente construída e de que forma, efetivamente, as pessoas ocupam posições, num sentido também geográfico, o que se dá pela reunião de seu capital social e por suas diferentes escolhas e opções. Essas ocorrem diante de um campo de possibilidades e acabam por conformar essas posições em que um dos focos é efetivar a singularidade de cada um. Ser diferente, ser especial.

Parece que essa é uma das buscas centrais do ser humano. Ser VIP, ser especial, ser tratado com distinção. Na vida cotidiana são vários os exemplos desse desejo, desde os carros grandes e possantes que poderiam passar por cima de outros até as pessoas com seus muitos compromissos que esperam atendimento bancário exclusivo ou que sabem que não precisarão enfrentar filas nos aviões graças aos seus programas de milhas. Programas que também as salvam das “classes econômicas” e as colocam em seu devido lugar de “primeira classe”. Isso sem falar das diferenças salarias e do fato de que alguns realmente acreditam que umas pessoas “valem” mais do que outras e que por isso o Brasil amarga a triste realidade de diferenças salarias gigantescas. Isso sem também entrarmos nas diferenças salariais “explicadas” pelo gênero, a qual inexplicavelmente ainda é muito presente na atualidade.

 

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E ainda tem gente que acha que o Marx é ultrapassado ou que não tinha razão e mais ainda, que afirmou coisas que seriam mera propaganda ideológica… esquecem de que “luta de classes” é um conceito produzido por uma área do conhecimento, a qual – igualzinho às outras áreas, sejam elas “duras” ou “moles” – sofre e expressa as limitações e as singularidades da vida humana. Daquilo que não deu conta, outros autores e autoras deram, parte do conhecimento que vai se acumulando e abrindo novas perspectivas. Quando alguém deixar de viajar em um avião porque foi um engenheiro ateu que planejou aquele modelo, vou começar a pensar em considerar as críticas contra as “ateias” ciências sociais.

A Bíblia é recheada de exemplos dessa busca de diferenciação. O desejo de ser especial e diferente está na decisão de Adão e Eva, queriam “ser igual à Deus”, mas também o encontramos no fratricídio de Caim ou na construção da Torre de Babel. Dando um salto, vemos novamente este desejo como um dos argumentos centrais de Satanás ao tentar Jesus no deserto e questioná-lo com uma variação do bem brasileiro “você sabe com quem está falando?!”. No caso, as formulações iniciais de Satanás foram sutis e começaram instigando uma pergunta que diariamente todos ouvimos “Se você é…”.

“Se você é VIP” não precisa pegar uma fila; “Se você é especial” pode furar uma fila… parece que, de fato, acreditamos que somos. Vendo que esta estratégia sútil não estava dando êxito, Satanás parte, então, para o explícito e oferece os resultados desta distinção, o fato de você ser diferente, ser melhor do que os outros pode te dar acesso a “tudo isto”: dinheiro, sexo e poder. E, de fato, é isso o que importa. Ser diferente para receber tratamento diferenciado!vip-1428267_960_720

A lógica dos Direitos Humanos é negar essa tentação do “Se você é…” ao afirmar a equidade dos seres humanos. É defender que TODOS e TODAS tenham acesso a tudo o que precisam para existir, se desenvolver e contribuir. É a defesa de que terra, casa, trabalho, educação, saúde e liberdade sejam uma realidade no cotidiano de cada pessoa. As opções e caminhos sociais, políticos, econômicos etc. para se garantir esses direitos são outra história e não estão postos e é na busca deles que as sociedades subsistem.

Antes da questão da dignidade humana, forte contribuição que tem no cristianismo importante referência, temos no exemplo do Deus encarnado uma contundente afirmação de que as desigualdades e as diferenças não fazem parte de seu plano para a sociedade. As orientações para a sociedade judaica, o convite à inclusão de viúvas, órfãos, deficientes são a marca de um Evangelho que se caracteriza pelo amor e pela inclusão.

O texto bíblico em Filipenses 2 é contundente em defender uma postura de negação desse desejo de “ser” que paira sobre as nossas cabeças, apresentando o didático e emblemático exemplo de Cristo “que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se”. O convite de Paulo é para que os seguidores de Cristo assumam essa mesma atitude de “esvaziar-se a si mesmo”, de colocar-se numa posição de servo. O convite aqui passa por negar a tentação de ser VIP, por negar a crença de que “somos especiais”.

O que é isso? Isso é uma boa contribuição que o pensamento cristão ofereceu aos Direitos Humanos, a convicção de que mesmo o Deus encarnando não se colocou como superior ou especial, de que o Deus encarnado não exigiu tratamento VIP e que esse Deus encarnado convida aos seus seguidores a “humildemente considerarem os outros superiores a si mesmos”. Os efeitos dessa postura são tremendos e, felizmente, a história da humanidade é recheada de exemplos de homens e mulheres que seguiram este convite e que fizeram história ao viverem para construir não uma sociedade desigual, mas sim uma sociedade de serviço e fraternidade.

Que este convite seja constante em nosso dia-a-dia e que incluamos em nossas orações um singelo pedido: “Senhor, livrai-nos de querer ser VIP”.

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*Alexandre Brasil é Sociólogo, doutor em sociologia (USP), com pós-doutorado pela Universidade de Barcelona (Espanha), e professor da UFRJ. Foi Secretário Geral Adjunto da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB) e fundador da Rede FALE. Casado com Daniela e pai de Daniel.

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Sete dicas para não ser um cristão tóxico durante a campanha eleitoral

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Morgan Guyton *

(Tradução: Mozart Archilla)

 

Esse texto se refere a campanha eleitoral para Presidente dos Estados Unidos da América. Contudo, há muitas semelhanças no momento político brasileiro que, sem dúvida, também passa por um período “tóxico”. Dessa forma, trazemos aqui uma reflexão tanto para os que já encerraram sua participação nessas eleições municipais brasileiras, quanto para os que ainda o farão, no segundo turno. 

 

 

Estamos passando pelo que parece ser a campanha presidencial mais tóxica da história dos Estados Unidos. Isto é parcialmente devido a candidatos extremamente impopulares. Parcialmente devido às particularidades do nosso momento na história quando Cristãos brancos pela primeira vez não têm maioria política. Parcialmente devido à natureza viciante e venenosa das ferramentas de mídia social. Seria possível a cristãos que são apaixonados e sinceros pelos nossos pontos de vista político que expusessem esses pontos sem destruir nosso testemunho? Como podemos equilibrar nossa vocação para profetizar a verdade e nossa vocação para construir pontes de maneira pastoral? Como cedermos domínio dos nossos objetivos ao Espírito Santo ao invés do Buzzfeed ou de um dos partidos políticos? Aqui estão sete maneiras de deixarmos de ser tóxicos como cristãos no meio dessa loucura.

 

  1. Baseie-se na oração e observação

 

urna_eletronica_confirmaMeu mentor Brian Zahnd reitera constantemente a importância de ser contemplativo ao invés de reativo, em todos os aspectos das nossas vidas. Isso não significa evitar conflito ou ser tímido ao invés de arrojado. Isso significa em vez de nos deixar irritar, tomar posições a partir de um estado espiritualmente fundamentado. Nós não estamos ancorados espiritualmente sem nos comprometer com práticas espirituais que nos permitam nos entregarmos a Deus. Se pretendemos não ser cristãos tóxicos no nosso clima político, devemos empregar tanto tempo ouvindo a Deus quanto articulando nossa visão. Uma base contemplativa cria as circunstâncias orgânicas para nos comportarmos como Cristo. Situações nas quais somos repulsivos com os outros são geralmente expressões de ansiedade descontrolada e bagagem espiritual com as quais devemos lidar através de oração.

 

  1. Fale e compartilhe com intencionalidade

 

Impulsividade é a raiz de grande parte do mal do nosso mundo. Dispensamos palavras que não foram totalmente raciocinadas. Compartilhamos artigos que não lemos do início ao fim somente pelo título provocativo. Isso acontece porque experienciamos nosso mundo como trincheiras de guerra retórica. Então, por isso, lançamos descuidadamente qualquer coisa que desmoralize ou ataque a credibilidade do lado oposto. A suposição é que sob o peso psicológico de todos os escândalos as pessoas do outro lado vão eventualmente desistir. Vivemos num ciberespaço tóxico onde milhões de pessoas ficam dizendo “VIU?” uma dúzia de vezes ao dia. Como seria ser intencional e não impulsivo com o que falamos e compartilhamos na internet? Eu tenho amigos pastores que são muito mais disciplinados que eu, que literalmente escrevem somente coisas boas, zelosas e inspiradoras no Facebook. Embora ache que alguns de nós são chamados a falar profeticamente, isso não nos permite ser impulsivos. É possível que cristãos façam mais do que tentar constantemente minar o ânimo de nossos oponentes políticos? É possível falarmos de maneira que inspire curiosidade e santificação ao invés de sempre tentarmos expor o porquê de nossos inimigos serem completos idiotas?

 

  1. Lembre-se que Satanás é o acusador

 

urna_eletronica_corrigeA palavra Satanás em hebraico significa literalmente “o acusador”. Apocalipse 12:10 se refere a ele como “o acusador da irmandade”. Um mundo repleto de acusação e cinismo é um mundo que foi conquistado por Satanás. Quando acusamos, estamos contribuindo com o trabalho do inimigo. Isso não significa que devemos fingir que não existe nada de errado com o mundo em que vivemos e ignorar as terríveis verdades que estão em volta de nós; porém, acho que é possível nomear a verdade sem nomear pessoas. Eu posso falar da supremacia branca como fenômeno cultural sem chamar pessoas específicas de racistas e que tenho a clarividência para desconstruir tudo o que dizem e enxergar diretamente suas almas. O cristianismo faz a escandalosa, contra-cultural asserção de que a graça funciona melhor que o desprezo para ajudar as pessoas a se curarem de seus pecados. Isso não significa que pessoas que estão ativamente machucando outros com suas palavras não devem ser desafiadas; porém, Satanás tem o domínio sobre qualquer ambiente onde pessoas se regozijam no prazer doentio de atirar acusações pra lá e pra cá.

 

  1. Ache algo a ser apreciado e respeitado nos seus oponentes

 

Eu me vejo completamente desarmado on-line quando conservadores com os quais discuto demonstram genuinamente se importar com a minha vida. Eu tive problemas de saúde e várias dificuldades pessoais sobre os quais tratei abertamente. Pessoas que notam e se preocupam com essas coisas têm muito mais credibilidade quando me criticam do que os predadores que somente invadem minha timeline quando digo algo que contradiz suas ortodoxias. É claro que credibilidade não deveria ser o objetivo, de qualquer maneira. Como cristãos, nossa meta é encher o mundo de amor, não ganhar discussões políticas. Se vamos falar sobre amor ideologicamente através de frases como “love trumps hate” (o amor ganha do ódio) mas não praticamos o amor quando falamos com nossos oponentes, então somos hipócritas desprezíveis.

 

  1. Não ridicularize esperança ou amor, de onde quer que eles venham

 

Elei›es 2014 - Voto em tr‰nsito no IESB, Asa Sul, Bras’lia.

Elei›es 2014 – Voto em tr‰ansito no IESB, Asa Sul, Bras’lia.

Dois anos após Obama ter sido eleito e ter quebrado algumas promessas, Sarah Palin fez uma das coisas mais mesquinhas de sua carreira: subiu em um palanque e perguntou ao público “How’s that hopey, changey stuff workin’ out for ya?” (e aí, como é que tá aquele negócio de esperança e mudança? Tá funcionando pra vocês?). Há muitas pessoas nesse momento discorrendo sobre como a Hillary Clinton é uma inspiração para suas filhas por estar rompendo barreiras ao ser a primeira mulher nomeada para a candidatura à presidência do país por um dos dois maiores partidos. Tenho certeza que muitos não puderam se conter de alegria com seu discurso oficial na convenção democrata e muitos outros despejaram raiva pelo Twitter, vindo da direita ou da esquerda. Talvez nós possamos nos abster do dever moral de pisotear toda expressão de amor e esperança que não consideramos de origem correta. Talvez não devamos repreender todos que dizem “estou chorando porque minha filha agora sabe que pode ser presidente”. Cristãos jamais devem ridicularizar esperança ou amor. Existem muitas oportunidades para discutirmos ardentemente nossas visões políticas; não precisamos invadir um momento bonito de êxtase pessoal do próximo com escárnio e desdém.

 

  1. Considere criticar de maneira privada

 

Eu respondo de maneira muito diferente quando pessoas me escrevem uma mensagem privada ao invés de me chamar de idiota na minha timeline. Por alguma razão, eu me sinto honrado que pessoas tomaram parte de seu tempo pra me escrever privadamente, mesmo que o tempo gasto para digitar uma mensagem pública seja o mesmo. Demonstra respeito, o que te dá muito mais credibilidade se precisar dizer algo mais crítico. “Fora do registro oficial”, descobrimos que as pessoas não são os pregadores ferrenhos de ideologia que aparentam ser em público. Existem obviamente razões válidas para responder em público como um ato de solidariedade quando pessoas estão machucando com suas palavras; porém, se estamos buscando influenciar outros, a comunicação privada é um meio muito mais eficaz.

 

  1. Programe tempo para conversas na vida real

 

Eu não sei como vocês são a respeito de “dizer” mais através de palavras digitadas no telefone do que na vida real. Eu sou péssimo com isso e isso me torna uma pessoa tóxica. Quando fui ao Wild Goose Festival na Carolina do Norte eu fiquei sem sinal de celular por quatro dias e foi um período de restauração tremendo para mim. Eu realmente acho que a falta de conversa na vida real é uma das principais fontes de toxicidade do nosso mundo. Quando tenho conversas de verdade com cristãos dos quais discordo, é extremamente desconfortável e maravilhoso. É muito mais difícil odiar as pessoas quando você está olhando para o rosto delas. Algumas das conversas que mais me transformaram eu tive com pessoas com as quais havia uma discordância ideológica completa. Meu avô era um texano republicano conservador batista do ramo do petróleo. Ele satisfazia todos os requisitos do estereótipo que meu time adora odiar. E ele foi um dos melhores amigos que tive. As conversas que tivemos nas ruazinhas do sul do Texas foram alguns dos momentos mais preciosos da minha vida. Eu preciso separar mais tempo da minha vida atual para conversas na vida real como aquelas.

 

Traduzido de: Seven Ways to Be an Untoxic Christian During a Toxic Presidential Campaign

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morgan-guyton_avatar*Morgan Guyton é o autor de Como Jesus Salva o Mundo de Nós: 12 Antídotos contra um Cristianismo Tóxico (disponível, em inglês, aqui: How Jesus Saves the World from Us: 12 Antidotes to Toxic Christianity ). Seu blog, Mercy Not Sacrifice (Misericórdia Não Sacrifício) é hospedado pelo Patheos. Ele e sua esposa Cheryl são co-diretores da NOLA Wesley, um ministério da Reconciling United Methodist no campus das Universidades de Tulane e Loyola, em Nova Orleans. ______________________________________________________________________________________________________

 

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Os Cristãos da Letra Vermelha.

+ O Capitalismo é compatível com o Cristianismo? 

A idolatria do(de) mercado: contra a teologia política neoliberal.

A babá na manifestação e o filme “Que horas ela volta?”

 

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Babá com criança. Brasil. Fotografia de Albert Henschel (1827-1882)

Começo com um aviso aos navegantes: esse texto não tem interesse em discutir as manifestações que tem acontecido no Brasil. Não entenda nessas parcas linhas temos como objetivo um ataque ou defesa delas. Combinado?

Causou balbúrdia na internet o retrato de uma babá carregando uma criança num carrinho de bebê enquanto os pais se deslocavam para uma manifestação. Em primeiro lugar, devo confessar que achei lamentável o uso da foto da babá na manifestação nas redes sociais. Foi no mínimo falta de respeito o usar da imagem sem sua expressa autorização, tudo isso sem falar dos estereótipos vomitados no debate.

Em segundo lugar, possivelmente esse fato só tenha acontecido porque em ainda hoje no Brasil pobre e preto apenas importa quando é para defender “meu ponto de vista”. E isso serve tanto para os “defensores da babá“, quanto para aqueles que acham o patrão é um “cara joinha que até paga dobrado no fim de semana“. Nesses momentos, parece que baixa um espírito de Abdias Nascimento ou do Martin Luther King. Todos se tornam grandes militantes do movimento negro, embora saibamos que são silentes contra o extermínio da juventude negra nas periferias de nossas cidades.

A imagem traz a tona as relações de poder em nossa sociedade. Lembrei do caso da disputa judicial entre uma sócia de um um clube que obrigava as babás a se vestirem de branco como forma de distinção em relação aos patrões. Na época, Anna Muylaert, diretora do Filme “Que horas ela volta?“, manifestou sua opinião:

 

Quando eu vi essa notícia (das babás sendo obrigadas a usar brancos pelos clubes), fiquei sem palavras. É uma regra extremamente autoritária, anacrônica, para marcar a divisão social. É algo que mantém o estigma da escravidão[1].

 

Na mesma matéria, ela aponta a hipocrisia sobre o tema: “Aplaude Que horas ela volta? no Facebook, mas em casa reclama que a empregada não sabe fazer estrogonofe”.

Para que não tem a sorte de assistir o filme de Muylaert, ele trata justamente do abismo social em que são colocados a “criadagem” na pela elite brasileira. Revela o desconforto de como uma empregada é objetificada ao ponto de ter como tarefa principal mimar os patrões em situações corriqueiras. Esses sequer levantam-se para pegar água, retirar o prato ou mesmo pegar a sobremesa. Na geografia do lar burguês, o lugar a “funcionária do lar“ transita entre a cozinha e seu pequeno quartinho insalubre cheio de quinquilharias. Entrar na piscina? Nem imagina essa situação sob hipótese alguma.

O filme nada mais é que um retrato desconfortável da realidade do povo pobre e negro, que ainda hoje, como fruto de nossa secular estrutura classista e racista, gera essa tipo de distorção no campo do trabalho. No país onde persiste o famigerado “elevador social“, vale a crítica de Darcy Ribeiro(1996):

“uma efetiva condição de inferioridade, produzida pelo tratamento opressivo que o negro suportou por séculos sem nenhuma satisfação compensatória; a manutenção de critérios racialmente discriminatórios que, obstaculizando sua ascensão à simples condição de gente comum, igual a todos os demais, tornou mais difícil para ele obter educação e incorporar-se na força de trabalho dos setores modernizados. As taxas de analfabetismo, de criminalidade e de mortalidade dos negros são, por isso, as mais elevadas, refletindo o fracasso da sociedade brasileira em cumprir, na prática, seu ideal professado de uma democracia racial que integrasse o negro na condição de cidadão indiferenciado dos demais.” (O povo brasileiro, pag. 120) [2]

 

Babá com o menino Eugen Keller, em Pernambuco, 1874. Fotografia de Albert Henschel (1827-1882)

Babá com o menino Eugen Keller, em Pernambuco, 1874. Fotografia de Albert Henschel (1827-1882)

Se é para lutar pela dignidade do povo negro e pobre, o façamos não quando nos convêm. Muitos querem instrumentalizar o negro e o pobre, mas na hora de levantar a voz contra o genocídio da juventude negra se cala ou acha que isso é coisa de quem “defende bandidinho“. Pobreza e Negritude não devem ser usadas como mera justificativa para nossas “cruzadas online“, mas devem ser temáticas que precisam ser encaradas como pauta de promoção de cidadania e na defesa de direitos.

Por fim, já passou do tempo de agir como se houvesse democracia racial no Brasil ou que mulheres pobres e negras “escolheram“ ser babá ou empregada doméstica. Nada contra esses trabalhos, mas sabemos que no Brasil eles são ocupados por gente que sequer teve a possibilidade de sonhar com outras possibilidades. E por favor, não pense que elas querem ser babás porque é um sonho. Acredite, não é. Inclusive até hoje desconheço gente rica e abastada que tenha desejo incontrolável de ter como “vocação“ para vida toda ser babá. Em que lugar, além dos debates frívolos das redes sociais, está em nossa agenda de Missão essas pessoas invisíveis? Nossas teologias evangélicas estão dispostas a aprofundar a reflexão sobre Trabalho, Etnia e Gênero?

Meu desejo é que Deus no livre das de fazer do pobre apenas uma tese para nossos embates virtuais. Que esses sejam incluídos em nossas ações por Justiça e Equidade. Deus nos conduza para seus braços e para abraçar os pobres e esquecidos desse Mundo. Amém.

 

Por Caio Marçal*

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*Caio Marçal é Cearense, casado com a Viviane e mora em Belo Horizonte. É Formado em Teologia e graduando em Pedagogia pela Universidade do Estado de Minas Gerais. Atualmente é secretário de Mobilização da Rede FALE e membro da Igreja Batista da Redenção.

[1] Ver no link : http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/02/160128_clubes_babas_anna_muylaert_mdb

[2] RIBEIRO, Darcy.. FrontLog, 1996.