Agora você já pode adquirir os seguintes livros de minha autoria:

 

Uma reedição de Pedagogia Cristã na Obra de C.S. Lewis, que é um resumo de minha tese de doutorado, Antropologia Filosófica de C.S. Lewis.

O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa e a Bíblia: Implicações para o Educador
Gabriele Greggersen

O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa e a Bíblia: Implicações para o Educador é um resumo de pesquisas realizadas para a obtenção do título de doutora, tendo a linguagem adaptada para o grande público. A tese tratou de uma das sete Crônicas de Nárnia de C.S. Lewis, O Leão, a feiticeira e o guarda-roupa. Como entender essa história como obra literária? No universo dos gêneros literários, vários ensaios são feitos, encarando-a como conto de fadas e literatura infantil, mas a alternativa escolhida é vê-la como parábola cristã.

Em um segundo momento, são analisados e estudados temas teológicos que se encontram nas entrelinhas da história, principalmente, no que diz respeito à imagem de Deus, mas também são abordados temas clássicos da teologia, como o pecado, a graça e a redenção. Em seguida, são abordados temas filosóficos por trás da parábola como a questão da verdadeira realidade, da ética e da razão.

Numa última parte, a crônica é comparada à narrativa bíblica, particularmente da Paixão de Cristo, em busca de alusões e paralelos, mas evitando uma interpretação alegórica da história, que não era absolutamente recomendada pelo autor, que advertia contra esse tipo de abordagem totalitária. Ela tenta estabelecer relações de um para um, dizendo, por exemplo, que Aslam tem que ser Cristo e Edmundo, Adão. Lewis assumia o caráter eminentemente cristão de suas Crônicas, mas nunca escreveu com a intencionalidade explícita de fazer propaganda religiosa, pelo contrário, ele respeitava o leitor não cristão e lhe dava toda a liberdade da dar a sua própria interpretação às histórias.

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E o resultado do meu trabalho de pós-doutoramento, a respeito de Monteiro Lobato:

A Imaginação Ética de Dom Quixote das Crianças
Gabriele Greggersen

O livro volta-se para fãs de Lobato e também de Cervantes, bem como pais e educadores e todos aqueles interessados pela imaginação, a ética e a literatura. O trabalho original, que foi apresentado como pesquisa de pós-doutoramento ao Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo e adaptado ao grande público, é fruto de pesquisas anteriores de Gabriele Greggersen em nível de doutorado, a cerca de C.S. Lewis e as Crônicas de Nárnia, em que ela explorou os temas da imaginação, da realidade e da formação ética, pela via da literatura imaginativa. Elas culminaram com a publicação de Antropologia Filosófica de C.S. Lewis e seu resumo em O Leão, a feiticeira e o guarda-roupa e a Bíblia. Esse temas foram estudados também em um amigo íntimo e de longa data de Lewis, J.R.R. Tolkien, que resultou no livro O Senhor dos Anéis: da fantasia à ética.
Insatisfeita por analisar as relações entre imaginação, ética e literatura apenas em autores anglo-saxões, a autora partiu para a literatura brasileira, de um Malba Tahan, mas principalmente de Lobato. Antes de partir para a análise crítica do livro de Lobato propriamente dito, a autora apresenta uma pesquisa sobre o que vários filósofos pensam sobre a imaginação e temas correlatos como a memória, a mitologia e o amor.
O livro traz o benefício não apenas do resgate do legado de Cervantes e Lobato, mas também da discussão de temas essenciais para o educador e todo aquele leitor, interessado em fazer da literatura um instrumento de formação ética, cidadã e assim, de constituição de um mundo melhor.

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Cleber Santos Oliveira

INTRODUÇÃO                                                                   

A sociedade está em crise. Reduzido pela máquina mercadológica como mero consumidor, o homem secularizado é condicionado ao modelo capitalista, cuja ideologia corrobora para a sua despersonalização e desumanização. Vivemos numa sociedade em que a vida é descartada meramente como mercadoria e as consequências são evidentes: opressão, sofrimento e destruição. Como a luz do farol que indicava um caminho seguro aos navios em dias de baixa visibilidade e os guiavam até o porto, assim também, nesse mar de incertezas e obscuridades, precisamos de luzes que nos capacitem a compreender a realidade e dar-lhe novo sentido. Lentes que nos possibilitem discernir o significado da vida, redescobrir seus valores e reeoncontrar o seu sentido último. Devemos cativar a imaginação. Voltar a vislumbrar a possibilidade de transformar a nossa percepção de mundo. A literatura é um instrumento oportuno porque possibilita ao leitor, por meio de sua compreensão, dar significado à realidade. O presente artigo tem por objetivo refletir sobre a Ética da Virtude, tendo como objeto imediato a obra-prima de C. S. Lewis As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda Roupa. Nosso foco será a Virtude da Reverência segundo as considerações do professor Stan Van Hooft. Para realizar este projeto, vamos dialogar com notáveis escritores, pesquisadores, teólogos e filósofos, dentre os quais: Alister McGrath, Colin Duriez, Devin Brow, Franscis Schaeffer, Gabriele Greggersen, Glauco Maganhães Filho, Ives Gandra M. Filho, Nelly Novaes Coelho, Willian Lane Graig e Stan Van Hooft. C.S. Lewis é reconhecido mundialmente e as suas obras infantis são objetos de discussão e comentários em todo o mundo. As Crônicas de Nárnia são uma obra digna de ser lida porque oferece orientações fundamentais sobre a conduta humana além de oportunizar ao leitor pensar nas questões sérias da vida e da sociedade. Nosso maior objetivo ao tratar sobre Ética da Virtude, vinculado à obra prima de C.S. Lewis é, como um luzeiro, contribuir para uma sociedade mais justa e humana e destacar a importância das histórias como instrumentos de reflexão e conduta.

Palavras-chave: Ética. Moral. Fantasia. Literatura. Filosofia.   

Nossa época terrivelmente materialista e burocrática tem sido muito cruel com a fantasia e a imaginação, duas de nossas faculdades mentais mais estimulantes. Em toda parte, esse modo pacífico e sutil de interagir com a realidade – o prazeroso exercício da fantasia e da imaginação – tem sido sistematicamente desetimulado e desvalorizado. Nossa época terrivelmente utilitarista e desencantada precisa urgentemente dos contos de fadas, das fábulas, dos mitos, das narrativas fantásticas, de tudo o que esteja carregado de poesia, símbolos e arquétipos, ou seja, de energia vital. (OLIVEIRA, Nelson de, 2012, p. 13).

 

E quem disse que a história não é verdadeira?”

(Digory Kirke – o professor)

(As Crônicas de Nárnia:

O Leão, a feiticeira e o guarda-roupa)

 

 

 

 

 

  1. UM HOMEM CHAMADO C. S. LEWIS

Clive Staples Lewis nasceu em 29 de novembro de 1898, na cidade de Belfast na Irlanda do Norte. Foi catedrático de filosofia, crítico literário, renomado palestrante de Oxford e Cambridge e uma das maiores autoridades em literatura inglesa.

Reconhecido como um notável educador (Greggersen, 2010, s/p) e “[…] um incansável leitor de contos de fadas e histórias infantis” (JACOBS, 2015, p. 333) C.S. Lewis e seu irmão Warren cresceram num  ambiente cercado de livros e de belas paisagens. Essa condição o beneficiou para desenvolver sua imaginação e vocação literária (MCGRATH, 2014).

Lewis também é reputado como um dos mais influentes intelectuais cristãos do século XX, porém, os primeiros 30 anos de sua vida foram comprometidos com o ateísmo. Foi nessa época que Lewis enviou uma carta ao amigo Arthur Greeves declarando que não acreditava em Deus e que Jesus Cristo era apenas um grande mestre da moralidade, um “filósofo hebreu” (NICHOLI (2005).  Sobre esse período Mcgrath descreve,

O compromisso contínuo de Lewis com o ateísmo, em 1920, baseava-     se em sua crença de que estava certo, de que era uma “severidade       saudável”, embora ele admitisse que oferecia uma visão “sombria e            sem sentido” da vida. Ele considerava que a retidão intelectual do            ateísmo excedia sua inadequação emocional e existencial. Lewis não           considerava o ateísmo libertador ou excitante; parecia simplesmente    tê-lo aceitado, sem entusiasmo, default, sem quaisquer virtude ou graças particulares (MCGRATH, 2014, p. 22).

                         No entanto a cosmovisão ateísta de Lewis não foi suficiente para dar-lhe explicações sobre as questões fundamentais da vida e para fazê-lo discernir o seu significado, ao invés disso Lewis constatou que “o ateísmo era existencialmente insignificante, não tendo respostas para as questões mais profundas da mente humana ou anseios do coração humano” (MCGRATH, 2014, p. 24). Lewis compreendeu que somente o cristianismo poderia dar sentido e significado à sua vida, que o cristianismo era “a bússola moral e intelectual de seu mundo”(NICHOLI, 2005, p. 48), que somente “a razoabilidade da fé cristã” era capaz de oportunizá-lo a contemplar as coisas de modo maravilhoso, conexa e coerente (MCGRATH, 2014, p. 28) e que somente o cristianismo se encaixava com a Alegria  (Joy), o desejo intenso, “um  desejo não satisfeito, que é em si mais desejável do que qualquer outra satisfação […] e que jamais o trocaria por qualquer outro prazer do mundo”(NICHOLI, 2005, p. 93).

C.S. Lewis finalmente entendeu a verdade desse desejo: “A alegria era ‘um indicador de alguma outra coisa lá fora’, uma placa sinalizadora que apontava para o Criador” (NICHOLI, 2005, p. 93). Passou a considerar o cristianismo como uma lente que amplia a visão a qual o fez enxergar as coisas corretamente e compreender que “se eu encontrar em mim mesmo um desejo que nenhuma experiência neste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é que eu fui feito para outro mundo” (MCGRATH, 2014, p. 31).  Como esclarece McGrath (2014, p. 31):

Uma das razões de Lewis abraçar o cristianismo é que o ajudou    a discernir o sentido da vida. A vida é mais que apenas entender       as coisas: trata-se de ser capaz de lidar com a ambiguidade e a                                       confusão, e de encontrar algo de valor para nos dar direção e sentido.

 

Lewis compreendeu que o Cristianismo tem as respostas para as questões cruciais da vida, entretanto, o caminho da fé cristã não é fácil, ainda que a mensagem da fé cristã seja simples.

 

 

 

 

  1. AS CRÔNICAS DE NÁRNIA

As Crônicas de Nárnia foi publicada entre 1950 a 1956 e reúne sete contos infantis. Nesses contos Lewis tratou sobre algumas peculiaridades fundamentais que abordam além de temas cristãos, aspectos morais, literários e determinadas questões fundamentais da vida (Brown, 2006). Segundo McGrath, Lewis tem a capacidade de explorar surpreendentemente questões filosóficas e teológicas:

As crônicas de Nárnia esclarecem como os seres humanos se veem a        si mesmos, e como enfrentam suas fraquezas e como tentam se tornar      as pessoas que devem ser. Elas tratam da busca de significado e da             virtude, não apenas da busca de explicação e do entendimento. Esse        talvez seja o fator que explica seu forte apelo: as crônicas de Nárnia        falam de escolhas a fazer, de certo e errado, e de desafios a enfrentar.      Todavia, essa visão de benignidade e grandeza não é exposta como          uma argumentação lógica ou raciocinada; é, antes, afirmada e      explorada por meio da narrativa de uma história – uma história que            prende a imaginação (MCGRATH, 2013, p. 284).

Neste mundo imaginativo Lewis conduz o leitor a verdadeiras reflexões como escolhas, desafios, conduta e fé além de despertar o reencanto pelo mundo (MCGRATH, 2013). Nas Crônicas encontramos maravilhosas e autênticas fontes de conhecimento “cheias de verdades escondidas, de mistérios profundos e de tesouros espirituais” (DITCHFIELD, 2003, p. 15).

De acordo com Gabriele Greggersen (2006), mestre e doutora em História e Filosofia da Educação e autora de livros e diversos artigos sobre Lewis no Brasil, a linguagem didática e acessível de seus contos são elementos que têm cooperado significativamente para as ciências humanas como particularmente para a educação. Para Greggersen, por trás da aparente simplicidade das histórias de Lewis existe potencial didático para o ensino de conceitos filosóficos universais e atemporais.

 

 

  1. QUAL A IMPORTÂNCIA DO CONTO DE NÁRNIA PARA HOJE?

Diante da decadência do homem moderno e do  declínio espiritual da civilização ocidental haveria boas razões para ler C.S. Lewis?  O que tem a nos dizer um dos maiores pensadores e apologistas cristãos do século XX?

 

São muitas as razões para ler C.S. Lewis. Seus livros, além de edificantes, exploram a verdade concreta, ajudam o leitor a ponderar o crescimento moral e  possibilitam, por meio de sua compreensão, relacioná-los aos aspectos práticos do cotidiano. Para o professor Ricardo Gouvêa (s/d, s/a), por meio da literatura distintamente cristã, C.S. Lewis oportuniza o cristão a pensar a sua fé, a viver uma vida de oração e inspira os Valores do Reino até mesmo para aqueles leitores hostis ao Cristianismo.

É evidente no mundo moderno o “declínio completo da personalidade humana” (DOOYEWEERD, 2010, p. 242). Não é difícil contemplar homens sem faces, indivíduos mercadorias, corpos dilacerados pela fragmentação do sujeito, cuja vida foi reinsignificada como sendo uma vida de consumo, privada de autonomia, meramente como apêndice na esfera do consumo (Mueller Apud Adorno, 2009). Nessa barbárie, o discurso do homem secularizado é condicionado ao modelo capitalista, cuja ideologia corrobora para a sua coisificação, despersonalização e desumanização.

Refém do sistema, privado do exercício da sua autonomia e envolto em uma atmosfera de incertezas, de anulação de direitos e de ocultação da realidade, o homem ainda precisa enfrentar as forças intangíveis reabsorvidas pelos pixels de sua janela eletrônica que, subordinada aos interesses das elites, da utilidade e do lucro funciona como instrumento de domínio, manipulação e sujeição (MININNI, 2008).  Tal é o terror do espírito do mundo atual que tem aterrorizado o homem. É nesse meio tenobroso, povoado de massas manipuláveis, que “o homem se encontra em estado de condições anormais agora” (SCHAEFFER,  2007, p. 69). E a falta de uma reflexão tem afetado de modo substancial o homem moderno. Como bem disse Postman (Apud STOCMAN, 2006, p. 116) “[…] somos um povo a ponto de nos divertir até a morte”. É preciso urgentemente pensar de modo correto, desenvolver o pensamento crítico porque as consequências da falta de reflexão crítica são inimagináveis, que vão desde a exploração do homem pelo homem à manipulação das massas ocasionando repetições irrefletidas de comportamentos numa verdadeira inteligência de rebanho (Sayão, 2001, p. 6), “uma massa passiva, homens sem consciência” (NUNES, 1986, p. 17). É nessa atmosfera que Schaeffer nos faz um alerta crucial: um alerta para a crise de princípios morais:

Não é que o mundo de hoje só tenha padrões morais falsos – não tem padrões morais em qualquer sentido absoluto.  Pensamos imediatamente em padrões morais sexuais, mas não são só os princípios morais sexuais. É toda a moralidade na vida privada e pública. Os homens modernos, na ausência de absolutos, já poluíram todos os aspectos de moralidade, fazendo padrões completamente hedonistas e relativistas. O mundo já os cobriu com seu próprio vocabulário e chamou isso de ética situacional. Cada situação é julgada subjetivamente sem nenhum absoluto ao qual se possa apelar (SCHAEFFER, 2009, p. 71).

É impostergável que precisamos ser resgatados do fundo desse lamaçal e quebrar as algemas que nos prendem nesse “nocivo encantamento da mundanidade” que […] tem saturado tão profundamente nosso pensamento”  (MCGRATH, 2014, p. 65) e que tem gerado nos corações do homem insatisfação, individualismo, negação da identidade e solidão. Mcgrath, (2013) oferece-nos uma saída vital: cativar a imaginação por meio de narrativas encantadoras é fundamental se quisermos destrancar as portas do progresso moral. Na prática a imaginação oportuniza compreender melhor a realidade na sua completude (GREGGERSEN, 2006). A imaginação é a via que nos oportuniza avivar aquele “misterioso encanto” pelo mundo  (CORTELLA, 2009) e a vislumbrar a possibilidade de transformar a nossa percepção de mundo. Bem disse Filho I. (2010, p. 12) que “A admiração traz consigo a curiosidade: o afã de saber, a busca do sentido da existência e o desejo de comprender o que são as coisas”. A curiosidade nos leva a uma atitude filosófica e a imaginação, ao conhecimento da verdade.

Nessa perspectiva a literatura é um instrumento oportuno, porque possibilita ao leitor, por meio de sua compreensão, dar significado à realidade, visto que, de certo modo, ela tem como pressuposto o ato de empreender a tarefa de explorar a verdade como autênticos mananciais de conhecimento.

Para a educadora Coelho (2012, p. 23), a literatura fantástica, quando considerada além de um simples “entretenimento infantil”, revela-se como um verdadeiro manancial de conhecimento do homem. Nesse sentido, passamos a percebê-las como “portas que abrem para verdades humanas ocultas”. Ainda para Coelho (2012, p. 18) “literatura é o ato de relação do eu com o outro e com o mundo. Os tempos mudam incessantemente, porém, a natureza humana permanece a mesma”. A literatura contribui na construção da estrutura do conhecimento e viabiliza a prática de uma reflexão-ação. Conforme esclarece Anacker:

As histórias mexem com nossa imaginação porque elas tratam de uma coisa que todos nós achamos extremamente interessante a vida: sentido e propósito, como viver, como não viver, como lidar com o sucesso ou o fracasso, qual é a aparência das pessoas boas e das más, e assim por diante. As histórias são reais. Histórias marcantes e emocionantes podem ser construídas com base em quase todas as facetas da vida ambições, compromissos supremos, medos, eventos profundos qualquer coisa que mexa com elementos importantes da vida (ANACKER, 2006, p. 135).

 

Para Anacker (2006) as histórias são fundamentais para a constituição do caráter moral, dentre as quais: (a) levantar questões fundamentais acerca da vida e (b) identificar a imagem das pessoas boas e maldosas. Para Anacker as histórias de Nárnia suscitam a imaginação moral e esse é o ponto chave. A imaginação moral pode ser comparada com uma base maciça sobre a qual podemos firmar os nossos pés no caminhar da nossa vida: nas decisões, nas questões fundamentais da vida e nas nossas ações. Firmados sob essa base concreta podemos caminhar com novos enfoques morais.

Para Coelho (2012, p. 124):

[…] não podemos esquecer que na vida real não existem fadas nem madrinhas que venham realizar por magia aquilo que temos vontade de fazer. Há, na vida, um trabalho a ser realizado, uma luta a ser empreendida por todos nós. E, nesse sentido, a literatura cumpre um papel. Pela imaginação, varinha de condão capaz de revelar o homem a si mesmo, a literatura vai-lhe desvendando mundos que enriquecem seu viver. O objetivo último da literatura é a experiência humana, o convívio com ela. Como diz Lotman, a literatura “ajuda o homem a resolver uma das questões psicológicas mais importantes da vida: a determinação do próprio ser.

As histórias praticamente possibilitam o pensar e com as armas da reflexão somos encorajados a exercitar o nosso “ser filosófico” em busca de uma apreensão significativa a respeito da vida: “como viver, como não viver”. Para McGrath (2014, p. 74 ) “As histórias de Nárnia parecem pueris para alguns mas para outros absolutamente transformadoras”. As histórias nessa perspectiva assume uma valiosa fonte de resgate.

 

 

 

 

  1. ÉTICA DA VIRTUDE: O LEÃO, A FEITICEIRA E O GUARDA-ROUPA

Segundo SAYÃO (2001, p. 52) “a marca do caos manifesta-se no campo da moral. Uma sociedade sem ética torna-se insuportável”. Falar sobre Ética é fundamental, dadas as possibilidades de escolha e a capacidade que o ser humano tem de dispor da liberdade (SAYÃO, 2001). Somos sujeitos morais cuja liberdade, consciência e responsabilidade estão diretamente relacionados com a nossa vida ética e ao escopo das virtudes éticas  (CHAUI, 2012). Somos agentes conscientes capazes de diferenciar nossas ações, atitudes ou motivações e distingui-las entre o certo e o errado, bondade e a maldade e atribuir valores aos nossos atos e comportamentos.

Na maioria das vezes praticamos atos morais, logo, a questão ética faz parte do nosso mundo real: do nosso cotidiano. Ainda que a multiforme e complexa variedade de situações, experiências e circunstâncias da vida confere sentido diferente da existência humana de modo que nem todos expliquem a vida cotidiana da mesma forma. O escritor Robert Banks nos ajuda a compreender alguns aspectos da vida cotidiana, que comumente são caracterizados por:

situações regulares em que nos vemos dia afora ou no decorrer da semana, as responsabilidades em andamento que nós temos, ou as atividades com que nos envolvemos; os problemas que com regularidade solicitam nossa atenção; as pressões mais insistentes que sentimos, as coisas sobre que comumente pensamos e falamos, os desejos, valores e crenças que mais nos moldam a existência (BANKS, 2004, p. 54).

Filho I. (2010,  p. 13) argumenta que “O atrativo da Ética está na distinção entre as ações nobres e as ações vis, em que a primeira nos encantam e as últimas nos causam repulsa. No fundo a Ética se resume a escolher bem e a tomar a decisão certa em cada momento”.

Segundo Anacker (2006, p. 141) existe uma crise na ética que é conhecida pelos filósofos. Uma crise que se propagou a partir do início dos tempos modernos. As teorias éticas apresentadas pelos filósofos cerca de três séculos antes pressupunham que o mais importante que nos compete no âmbito da moralidade são as ações, porém, as teorias fundadas em ações não foram aceitas por unanimidade e nesse ínterim o relativismo e o ceticismo moral ganharam espaço juntamente com outros distúrbios intelectuais. Sendo assim, o pensamento dos filósofos tem sido o de reconsiderar a correlação entre moralidade e as ações. Destarte, muitos filósofos começaram a repensar sobre a relação entre a moralidade e as ações o que fez com que vários deles reconsiderassem a “abordagem moral da Antiguidade e da era medieval quando se presumia que a ética tem como interesse central o caráter e a virtude, não as ações ou os deveres específicos (2006, p. 141)”.

Para Anacker essa forma de tratamento da moralidade é denominada ética da virtude e representa um grande avanço na Filosofia. Cabe destacar que foi o filósofo ateniense Aristóteles que desenvolveu a Ética da Virtude em sua obra Ética a Nicômaco cujo objetivo era orientar seu filho Nicômaco quanto ao modo de agir em sua vida para alcançar a excelência moral e a felicidade (FILHO, G. 2010).

Mas o que é Ética da Virtude? Ética da Virtude, de acordo com o Dicionário de Filosofia de Cambridge (2011, p. 305), são “concepções ou teorias de moral nas quais as virtudes exercem papel principal ou independente. Assim, é mais do que simplesmemente a descrição das virtudes oferecida por determinada teoria”.  Moreland e Crag explica que a ética da virtude:

[…] é teleológica por natureza. O tipo de teleologia (o foco nos objetivos e nos fins) envolvidos na ética da virtude não é semelhante a do utilitarismo. […]  A ética da virtude se concentra no propósito geral da vida em geral, a saber, viver bem e alcançar a excelência e experiência como ser humano. Nesse sentido, a ética da virtude é profundamente ligada ao conceito de vida como um todo e à ética da pessoa. Dada a compreensão do propósito da vida e do desenvolvimento humano ideal, bem como do viver habilidoso que seja parte desse propósito, a ética da virtude é a tentativa de esclarecer a natureza da pessoa boa e como alguém se desenvolve à luz desse conceito tão elevado. Em outras palavras, a ética de virtude objetiva definir e desenvolver a boa pessoa e a boa vida, e as virtudes são traços de caráter que capacitam as pessoas a alcançar a eudemonia ou felicidade, não de bem-estar, de excelência e experiência na vida. (MORELAND E CRAG 2005, p. 555).

Para os filósofos Moreland e Crag (2005, p. 555) a correspondente harmonia entre as concepções da vida moral com o contexto das adequadas potencialidades para o desenvolvimento humano, quais sejam: “o propósito da vida, a boa pessoa, o caráter e a virtude”, justificam a amplidão de partidários dessa teoria ética.

Segundo Duriez (2005, p. 113) “Um elemento principal nas Crônicas é a busca”. No movimento de busca a personagem das histórias de fantasias se põe numa  jornada e é nesse movimento que ele se depara com situações desfavoráveis, contradições, dramas, mas também com provisões, oportunidades, atos de heroísmo e coragem. É aqui, nessa seção, que empreenderemos a nossa jornada em Nárnia com a finalidade de “discernir níveis mais profundos de significado e valor naquilo que já conhecemos” (MCGRATH, 2013, p. 292). Nossas análises serão baseadas nas considerações de Hooft (2013, p.213-220) sobre o que ele entende como “Algumas Virtudes Importantes” com foco na Virtude da Reverência.

Conforme MCGRATH (2014), quando C.S. Lewis escreveu As Crônicas de Nárnia sua intenção era, além de proporcionar o prazer encantador da leitura, também promover uma experiência para o leitor pensar sobre algumas questões importantes acerca da vida. Segundo McGrath a originalidade fundamental das histórias de Nárnia consiste, sobretudo, em permitir que o leitor compreenda e interprete as “narrativas concorrentes” do mundo em que vive. Para McGrath (2014, p. 73) “Lewis queria que entendêssemos que vivemos em um mundo modelado por histórias – por narrativas que nos dizem quem somos e o que realmente importa”. Nesses termos a fantasia de Lewis, longe de ser uma forma de escapismo ou uma literatura alienante, é uma obra que expande a consciência do leitor,  amplia a relação do indivíduo com o mundo, e cria a oportunidade para pensar certo.  Assim, para Filho. B. (2008, p. 26) “A verdadeira fantasia nunca deve ser associada ao escapismo, pois ela não é uma fuga, mas um aprofundamento no mundo real, tanto de seu terror como de sua beleza”.

Conforme Hooft  (2015, p. 213), a virtude da Reverência é:

uma virtude que podemos compreender à luz do conceito aristotélico de “contemplação: a atividade de pensar acerca das coisas eternas exercida por esse aspecto do nosso ser que olha para além das vicissitudes e contingências dessa vida mundana a fim de encontrar significado e compreensão em uma realidade de maior valor.

O mundo é o campo da virtude da reverência. O céu, lá em cima, é a prova de que existem coisas maiores. Deus na Sua providência manifesta a Si mesmo por meio das coisas que criou (Romanos, 1.20). Basta olhar para cima, para o esplendor do céu, para “o firmamento iluminado de estrelas” (PAINE, 2008, p. 49), para sermos inspirados. Segundo Hooft, aqueles que creem contemplam a beleza divina. Tal perspectiva da magnitude das coisas criadas evoca tanto a admiração, quanto a adoração.  Se para alguns as histórias são pueris, para outros “essas histórias evocativas afirmam […] que de fato existe algo lindo e maravilhoso no coração do universo; e que isso pode ser encontrado, aceito e adorado” (MCGRATH, 2014, P. 74). Segundo McGrath (2013, p. 291) em Nárnia isso é muito evidente: os animais falantes como personagens do conto são “em parte um protesto contra as afirmações superficiais do direito da humanidade de fazer o que lhe aprouver com a natureza”, nesse sentido, em Nárnia temos a percepção de quem somos e o que não somos.

Foi a admiração da magnitude da existência que levou Chesterton a reverenciar o universo e as coisas que nele há:

Existe por trás de todas nossas vidas um abismo de luz, mais ofuscante e mais penetrante do que qualquer abismo de escuridão: é o abismo da realidade, da existência, do fato de as coisas realmente existirem, e do de nós mesmos sermos inacreditavelmente, e, às vezes, incredulamente, reais (PAINE apud CHESTERTON,  2008, p. 103).

As aventuras dos irmãos Pevensie começaram na manhã seguinte em que chegaram de Londres para ficarem na casa do professor Digory Kirke, por causa da guerra e dos ataques aéreos. Assim, colocaram-se a explorar a casa, porque não podiam brincar lá fora visto que chovia muito e “da janela, quase não se viam as montanhas, nem os bosques, nem sequer o riacho do quintal” (LEWIS, 2011, p. 104). Num determinado momento os quatros irmãos entraram a expiar uma determinada sala “onde só existia um imenso guarda-roupa, daqueles que têm um espelho na porta (LEWIS, 2011, p. 105)” e uma mosca morta no parapeito da janela. Para Pedro não havia nada ali! Decerto, todos decidiram sair da sala. Todos, menos Lúcia. Lúcia não saiu da sala porque “Para ela, valia a pena tentar abrir a porta do guarda-roupa, mesmo tendo quase certeza de que estava fechada à chave. Ficou admirada ao ver que se abriu facilmente…” (LEWIS, 2011, p. 105).

O sentimento de admiração e apreciação é a virtude da reverência, posto que “A pessoa reverente procura contemplar as coisas que lhe inspiram admiração, ser sensível à beleza e à grandiosidade das coisas…” (HOOFT 2015, p. 215). Lúcia atribuiu beleza ao guarda-roupa. Para ela aquele móvel era um objeto belo que a deixou encantada. De acordo com Éttienne Gilson “Não há oposição entre o útil e o belo, já que é possível que a beleza seja útil – o que em certo sentido, ela sempre é”. Por utilidade compreende-se a funcionalidade do guarda-roupa. Tal apreensão despertou em Lúcia a pretensão de entrar dentro do guarda-roupa: “Lá dentro [Lúcia] viu dependurados compridos casacos de peles. Lúcia gostava muito do cheiro e do contato das peles. Pulou para dentro e se meteu entre os casacos, deixando que eles lhe afagassem o rosto” (LEWIS, 2011, p. 105). A atitude de admiração de Lúcia assinala sua virtude de atitude. Segundo Gilson (2010, p. 28) “o belo se reconhece por ser objeto de admiração. A palavra admirar significa ‘voltar o olhar na direção de’; admiração é a reação espontânea do homem, sensibilidade e inteligência, à percepção de todo o objeto cuja apreensão agrada por si mesma”. Lúcia se entregou àquele sentimento de alegria e de desfrute, como resultado de seus sentimentos adequados. Como assinala Gilson (2010, p. 33) “O prazer do belo ora engendra o desejo, ora o coroa; em todo o caso, a experiência do belo engendra o desejo e se coroa de prazer”.

Quando Lúcia entrou em Nárnia conheceu o Sr. Tumnus, um fauno, e é na relação de amizade entre eles que existe um sentimento harmônico e de afeição. Esse vínculo concorda com Hooft (2015), na medida em que se caracteriza pelo simples regozijo da companhia do outro pontuado por Hooft como “sentimentos de afeição das pessoas reverentes”. Segundo Hooft (2015) para ornamentar nossos relacionamentos é importante que haja o sentimento adequado de apreciação ao outro.

– “Acham que ela está louca? – perguntou, calmamente, o professor. – Podem ficar descansados: basta olhar para ela, ouvi-la um instante para ver que não está louca” (LEWIS, 2011, p. 123).  No diálogo entre o professor e os irmãos Pevensie podemos analisar o que Hooft considera como atitude de virtude o compromisso com a dignidade da pessoa humana em resposta a um julgamento. Nesse sentido, a pessoa reverente considerará a dignidade da pessoa humana, demostrará importância e lhe dará auxílio. Encontramos uma virtude no professor Kirke, a qual Hooft (2015, p. 217-218) assinala como “O conhecimento e julgamento da situação presente”. Durante uma empolgante conversa entre eles o professor foi questionado sobre a possibilidade de existir um outro mundo, e ele respondeu: “É muito provável – disse o professor, tirando os óculos para limpá-los. – Eu gostaria de saber o que estas crianças aprendem na escola! – murmurou para si mesmo (LEWIS, 2011, p. 124). Kirke sabe do que se trata. Ele esteve em Nárnia. Aqui ressalta mais uma vez sua virtude de atitude cuja conduta descreve ao que Hooft denominou “ação do agente em resposta ao julgamento”. Nesse sentido Hooft (2015, p. 217) ajuda-nos a compreender esse conceito quando explica que “o pensamento pragmático e instrumental torna mais difícil para nós vermos o ambiente natural como sendo inerentemente valioso […] é difícil acreditar em entidades para quais não há provas”. Estavam diante de Digory Kirke, “homem de meia idade (um famoso professor dado a viagens)”(LEWIS, 2011, p. 97). Era evidente que o Lúcia esteve em Nárnia: “ – Lógica! – disse o professor para si mesmo. – Por que não ensinam mais lógica nas escolas? (LEWIS, 2011, p. 123). Quando lemos a conversa entre eles, fica evidente o motivo do “protesto” do professor em defesa da Lúcia com base nos argumentos logicamente certos do pensamento.

A Lógica é o organon (instrumento) para distinguir o raciocínio correto do incorreto; a lógica é o instrumento que nos fornece elementos para a avaliar argumentos e é ferramenta fundamental do pensamento e da linguagem, para a realização do conhecimento e do discurso, ou seja, para pensar e falar bem sobre a realidade. De acordo com Sproul (2002, p. 43), a lógica “é ferramenta suprema” e a “razão disso é que a lógica é essencial ao discurso inteligível. O que é ilógico é ininteligível; não só é entendido, mas também não pode ser entendido” Para o professor Kirke […] Só há três possibilidades: ou Lúcia está mentindo; ou está louca; ou está falando a verdade. Ora, vocês sabem que ela não costuma mentir, e é evidente que não está louca. Por isso, enquanto não houver provas em contrário, temos de admitir que está falando a verdade” (LEWIS, 2011, p. 123).

Para Hooft “[…] a forma de julgamento apropriada à reverência é aquela da disponibilidade e da sensibilidade para com o maravilhoso e o numênico. É intuitiva e de mente aberta”. Mente aberta não está distanciado da lógica, pelo contrário, pressupõe análise crítica da realidade contrária à instrumentalização colonizadora do pensamento, estabelecida pelo racionalismo. Para Hooft (2015, p. 218) “a virtude da reverência depende de sermos um tanto quanto menos racionais […]”.

Sobre “os vícios e falhas correspondentes da virtude”, Hooft esclarece:

Os vícios ou falhas correspondentes da virtude da reverência são a ignorância, a insensibilidade, o filistinismo, a grosseria, a crueza, a superficialidade, a falta de cultura, o racionalismo econômico, a insensibilidade, a falta de apreciação, a alienação, o individualismo, o vazio espiritual, a hubris (incluindo aquelas formas de nacionalismo, o que afirmam que ‘Deus está do nosso lado’) e a falta de qualquer senso de importância relativa das coisas (HOOFT, 2015, p. 220).  

Em Edmundo destacam-se: a insensibilidade, a grosseria e o individualismo. Vejamos algumas passagens que denotam essas características: (a) “Decidiu humilhar Lúcia” (b) “Ele, a cada momento se tornava mais maldoso…”, (c) portava-se “como cavalo com os mais novos…” e (d) fingia que não conhecia o bosque.  Cabe destacar o que diz o narrador mais à frente: Não pense que Edmundo era tão ruim a ponto de desejar ver o irmão e as irmãs transformados em estátuas de pedra. O que ele queria simplesmente era comer manjar turco, ser príncipe […] e vingar-se…”. E depois de ser resgatado por Aslam diz que a aparência dele era “bem melhor do que antes. Com uma aparência melhor até do que no tempo em que entrou para a escola e começou a seguir pelo caminho mau. […]” e “foi armado cavaleiro…” (LEWIS, 2011, p. 183). É indispensável destacar que “um vício de um homem é compreendido quando comparado com outro homem, porque enquanto alguns são direcionados pela falta, outros são direcionados pelo excesso” (AQUINO, 2013, p. 75). Mais tarde, Edmundo recebe o título de o justo.

Segundo Duriez (2005, p. 117)

Igualmente ao seu amigo J.R.R Tolkien, Lewis acreditava que narrar histórias é o modo mais natural de exprimir espiritualidade e verdade sobre a natureza da realidade.  […].

[…] Para Lewis (assim como seu amigo J.R.R. Tolkien) o modelo para todas as boas histórias é o tema bíblico da restauração de uma primitiva queda no pecado e perversidade, restauração essa que envolve sacrifícios.

Para finalizar faremos uma breve reflexão sobre Aslam “a alma de toda a série de As Crônicas de Nárnia” (VEITH, 2006, p. 58).

“–  Aslam?! – exclamou o Sr. Castor. – Então não sabem? Aslam é o rei” (LEWIS, 2011, p.137).

Aslam é o verdadeiro rei de Nárnia, o Filho do grande Imperador do Além-Mar. O Rei dos Animais e da Floresta, o grande leão,“que vem botar tudo nos eixos” (LEWIS, 2011, p.137). Com a sua vinda a primavera surgirá e o reinado da Feiticeira sobre Nárnia “sufocante, limitante e escuro” (BROWN, 2006, p. 245) sucumbirá ante o seu glorioso poder.

Aslam simboliza Jesus Cristo que “entra então na criação para tomar o poder do usurpador e restaurar tudo mediante um sacrifício redentor” (MCGRATH, 2013, p. 291, 292). O redentor que trouxe a libertação do homem cativo, pelo seu sacrifício e amor (Veith Apud Schakel, 2005) e devolver ao homem sua imagem e semelhança de Deus.

O Leão de Nárnia é objeto de admiração. O canto criativo do Leão em O Sobrinho do Mago deixa-nos em maravilhosa perplexidade diante do poder e da força do Criador. Aslam inspira admiração e paz (Hooft, 2015, p. 214). O rei de Nárnia inspira-nos ideais de “verdade, justiça e beleza”, faz-nos contemplar as coisas de modo maravilhoso e infunde em nós “atos de grandeza” e sentimentos de alegria. Aslam é o objeto de reverência.

Segundo Brown (  p. 242)

Enquanto Edmundo, prisioneiro da feiticeira, é conduzido mais e mais pelo meio da lama, Nárnia, em contraste, é libertada da prisão da feiticeira e vai do degelo para a plena primavera. O nevoeiro “de branco passou a dourado” e abre caminho para que o céu azul olhe “entre as copas das árvores” (119). Um passarinho sozinho chilreia, outro responde mais adiante, e logo há “música da passarada” de todas as direções (119). Os malmequeres substituem os flocos de neve. Por fim, abetos, carvalhos, faias e olmos, todas as árvores “voltam à vida” (120).

 

Nárnia e os narnianos são os beneficiários da virtude de Aslam. Aslam é aquele que preserva, cuida e protege. É Aslam quem restaura, recupera e cura. É o Grande Leão que liberta e resgata. É o Rei que traz de volta a vida!

“[…] um sol muito puro clareou a escuridão,

e o mundo por um instante transformou-se”.

(AKHMÁTOVA, 2008, p. 117)

Por fim, Hooft (2015, p. 219) nos diz sobre a “significância moral da virtude”.

A avaliação objetiva e imparcial da virtude da reverência não produz resultados claros. Não é tão fácil dizer por que nós aprovamos moralmente a reverência quanto o é dizer porque aprovamos moralmente a honestidade, por exemplo. Nós de fato a admiramos, embora talvez mais frequentemente menosprezemos a sua ausência, mas é difícil dizer por quê. Talvez a necessidade de se ter a virtude a fim de se ver por que se deveria tê-la. Se você for um racionalista instrumental e desencantado, poderá considerar o numênico uma tolice e tanto. Você poderá pensar que os valores transcendentes são meramente produtos de ideologias, que a arte e os patrimônios históricos são simplesmente recursos a serem explorados pela indústria turística, que a religião é o ópio das massas, o ambiente natural é uma pedreira a ser minada pelo lucro, que as outras pessoas são recursos humanos, que os idosos são um problema de saúde, e que o silêncio é nada mais do que uma pausa do trabalho. Essas visões não são imorais enquanto tais. Elas não envolvem injustiça óbvia (embora possam levar à exploração), mas são tão terrívelmente empobrecidas, e um mundo baseado nelas seria desumano. Assim, a virtude da reverência deveria ser moralmente aprovada.

 

 

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A literatura de Lewis viabiliza a prática de uma reflexão-ação. Oportuniza ao leitor a diligência a que Greggersen (2010, s/p) classifica como a busca de algo “que vai além da letra morta”, uma busca que o leva aos mananciais de conhecimento.  Uma busca que o convida a ir além, a transcender os condicionamentos, barreiras e estereótipos.  Semelhante ao homem que contempla um fragmento de um mapa anexado num quadro e questiona sobre as bandas para além daquelas limitações.             É isso que    C. S. Lewis faz: nos impulsiona a avultar a nossa perspectiva de reflexão e divisar a natureza da literatura como possibilidade e instrumento de um pensar questionador crítico e significativo. Decerto, pensar é não se deixar estagnar; é um movimento que conduz nas trilhas de uma profunda reflexão e ponderação. E é disso que precisamos: de homens e mulheres que pensem nas questões sérias da vida e da sociedade e que assumam um posicionamento crítico e reflexivo em nossos dias.

Se de acordo com Bezzerra (2013, p. V)  [..]“ a maior vitalidade de uma obra se mede por sua capacidade de ampliar-se na recepção e por sua duração no tempo”, As Crônicas de Nárnia demostra sua força, dimensão e magnitude pela evidência de sua propagação, aceitação e permanência, haja vista o número de leitores apaixonados pela obra que cresce a cada ano, as extraordinárias produções cinematográficas sobre os contos e sua notória receptividade, conforme aponta Greggersen (2010), em organizações educacionais como uma obra de leitura obrigatória em vários cursos de instituições de ensino nos Estados Unidos e indicada para fazer parte do currículo de algumas escolas e universidades. Enfim, As Crônicas de Nárnia são uma boa história que transforma o leitor e renova a sua mente.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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Porque amanhã vamos nos encontrar

Vou-me embora para Nárnia

(paráfrase em Manuel Bandeira).

Vou-me embora para Nárnia,
Lá sou amigo de aslam
Lá Aslam é o justo Rei.
Lá terei a casa que quero
Nas terras férteis que escolherei.

Vou-me embora pra Nárnia,
Aqui não sou feliz.
Lá a existência é eterna
É uma alegria permanente.
Cultivarei belos jardins,
Viverei sempre contente
Montarei em cavalos alados
E pelo céu eu voarei.
Tomarei banho de rio,
Grandes peixes pescarei.
Vou me embora para Nárnia.
Lá sou amigo de Aslam
Lá, Aslam é o grande Rei.

Vou-me embora para Nárnia
E nas tardes calma
Com a alma cheia de luz,
Na grande mesa sentarei
E radiante de alegria
histórias para todos contarei.

Lá em Nárnia há pão para todos.
Em Nárnia Aslam é o Rei.
Vou-me embora para Nárnia,
Foi Aslam quem me chamou
Não posso recusar o convite
Daquele que um dia me salvou.
Vou-me embora para Nárnia .
Lá sou amigo do Eterno Rei
E diante do seu trono
coroado de alegria
eu me prostrarei!
Vou-me embora para Nárnia .

Zeferino Alvaro de Andrade

Tolkien e C. S. Lewis

Tolkien e C. S. Lewis

by Eduardo Stark

Antes do grande sucesso de O Senhor dos Anéis, as únicas pessoas que realmente se interessavam em saber mais sobre o mundo da Terra-média eram Christopher Tolkien e o C.S. Lewis. Ambos tiveram o privilégio de escutar o próprio autor lendo e apresentando comentários aos manuscritos.

Pelo fato de Lewis ter essa proximidade há certa presunção de que o Tolkien teria sido influenciado por ele. Mas isso não corresponde ao que realmente aconteceu. Mesmo sendo amigos, e debatendo sobre as histórias da Terra-média, Tolkien não sofreu influência do autor de Crônicas de Nárnia.

J.R.R. Tolkien havia iniciado seus primeiros escritos relacionados ao seu mundo secundário muito antes de conhecer C.S. Lewis. Ele entendia aquele universo como algo privado e decorrência de seu entretenimento pessoal. Sendo assim, Tolkien se sentia desconfortável quando alguém “tentava” intervir em alguma coisa de sua obra, sugerindo alguma mudança ou pedindo que se acrescentasse algo.

O fato de C. S. Lewis ter lançado as Crônicas de Nárnia primeiro que o Senhor dos Anéis gerava a impressão para o público geral que o Tolkien havia se inspirado no seu amigo, quando na verdade o que aconteceu foi o contrário.

Enquanto Tolkien terminou o Senhor dos Anéis em 1948 e enviou uma cópia para leitura ao C. S. Lewis na metade de 1949, o mesmo começou a escrever o primeiro livro de Crônicas de Nárnia logo após a leitura dos escritos do Tolkien. Contudo, o livro de Lewis foi escrito em pouco tempo. Era bem mais fino, menos complexo e, portanto, mais fácil de ser publicado.

Tolkien demorou doze anos para terminar O Senhor dos Anéis (e ainda não considerava bom o suficiente), Lewis começou na metade de 1949 e terminou no mesmo ano, publicando a obra no ano seguinte (1950). Enquanto que o Senhor dos Anéis demorou mais cinco anos até que fosse publicado.

Mas como seria possível analisar se ocorreu ou não influências entre os autores¿ Se apresentasse apenas argumentos, ainda que lógicos e com base no que está posto nas obras, não seria algo que corresponderia a realidade. Isso por que afirmar que um autor foi influenciado por outro requer um entendimento do que se passava na mente dele no momento em que estava escrevendo. Por ser algo muito subjetivo devemos recorrer às declarações dos próprios autores sobre suas influências.

Em vários trechos de cartas tanto do Tolkien quanto do C. S. Lewis, há referências sobre quem influenciou quem. Os trechos parecem se comunicar entre si. É como se o Tolkien estivesse falando com o C. S. Lewis a respeito do mesmo assunto e com a mesma opinião formada.

C. S. Lewis, escritor e amigo de Tolkien

C. S. Lewis, escritor e amigo de Tolkien

As declarações de Tolkien sobre Lewis ter influenciado

C.S. Lewis foi importante como um expectador da origem da obra. Tolkien precisava de um ‘apoio moral’ para continuar sua obra. Afinal ele tinha seus trabalhos como professor, a vida pós-segunda guerra mundial, e as constantes mudanças do mundo tornavam tudo mais cansativo.

Dessa forma, Tolkien reconhecia em Lewis um amigo que pudesse ‘desabafar’ sua criatividade e mostrar o material escrito. Foi por isso que afirmou em carta que:

…foi apenas por seu apoio e por sua amizade que consegui lutar até o fim do trabalho. – Carta 149 – Para Rayner Unwin – 9 setembro de 1954

Pelo fato de C. S. Lewis ter conhecido suas histórias antes de publicar as Crônicas de Nárnia, Tolkien acreditava que isso implicou em ‘apropriação’ de várias expressões e termos naquela obra. Ele cita como exemplo a palavra “Numinor”:

C. S. Lewis é um velho amigo e colega meu, e de fato devo ao seu encorajamento o fato de que, apesar dos obstáculos (incluindo a guerra de 1939!), perseverei e eventualmente terminei O Senhor dos Anéis. Ele ouviu a história ser lida em voz alta, pedaço por pedaço, mas nunca a viu impressa até que sua trilogia foi publicada. Sua Numinor derivou-se, de ouvido, de Númenor, e realmente tinha intenção de se referir à minha obra e outras lendas minhas (não-publicadas) que ele ouvira. Carta 227 E. C. Ossen Drijver 5 de janeiro de 1961.

Não se trata de um plágio, pois Lewis deu um significado diferente ao que Tolkien criou. Mas nota-se nas cartas que há um certo desconforto por parte de Tolkien em relação às Crônicas de Nárnia. Aliás, ele declarava abertamente que não gostava nem um pouco dessa série de livros do Lewis.

Em grande parte dos escritos de C.S. Lewis, o professor Tolkien apresentava discordâncias de ideias. Como pode ser visto no seguinte trecho da Carta 224:

Acabei de receber um exemplar do último livro de C.S.L: Studies in Words. Ai! Sua tolice cansativa está se tornando um estilo permanente. Estou profundamente aliviado por saber que não sou mencionado”. Carta 224 para C. Tolkien, 12 setembro 1960

Frequentemente C.S. Lewis citava o Tolkien em algum trabalho acadêmico ou mesmo livros. E as vezes isso era para Tolkien objeto de constrangimento quando discordava de alguma ideia. Lewis não costumava informar antes de publicar algo que iria citar algo o Tolkien.

Em outra carta, mais uma vez Tolkien nega ter influência de seu amigo com relação ao conteúdo de sua obra. Dessa vez ressaltando o tipo de influência que sofreu de Lewis:

Lewis era um homem impressionável, e isso era estimulado por sua grande generosidade e capacidade para amizade. A dívida impagável que tenho para com ele não foi “influência” como é comumente compreendida, mas puro encorajamento. Por muito tempo ele foi meu único público. Apenas a partir dele tive noção de que meu “material” poderia ser mais do que um passatempo particular. Se não fosse por seu interesse e avidez incessante por mais, eu jamais teria concluído O S. dos A….” Carta 276 para Dick plotz 12 setembro de 1965

Novamente Tolkien ressalta a importância de C.S. Lewis no processo de incentivar a obra, ressaltando como foi essencial essa participação de seu amigo:

Se não fosse pelo encorajamento de C.S.L., não creio que teria terminado ou oferecido para publicação O Senhor dos Anéis. Carta 282 para Clybe S. Kilby. 18 dezembro de 1965

Ainda, em entrevista para o The Telegraph, Tolkien dá detalhes de como era esse incentivo de C.S. Lewis:

Ele costumava insistir na minha leitura em voz alta de passagens que eu havia terminado, e então ele fazia sugestões. Ele ficava furioso quando eu não as aceitava. Uma vez ele disse: “Não adianta tentar influenciar você. Você não é influenciável!”. Mas isso não era bem verdade. Sempre que ele dizia: “Você pode fazer melhor do que isso. Melhor Tolkien, por favor!”Eu costumava tentar. (Entrevista The Man who undertands Hobbits telegraph 1966).

Por todas essas considerações, Tolkien afirmou em várias oportunidades que C.S. Lewis contribuiu sim com a sua obra, mas não quanto ao conteúdo, ele participou dando incentivo ao seu amigo para que continuasse escrevendo.

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As declarações de C.S. Lewis sobre Tolkien ter sido influenciado

Em várias oportunidades Lewis apresenta sua dificuldade em tentar influenciar Tolkien. A primeira referência sobre isso está na Carta para Charles A. Brady, datada de 5 de janeiro de 1957:

…quanto a qualquer pessoa influenciar Tolkien, você poderia também (para adaptar o Rei Branco) tentar influenciar um bandersnatch.

Bandersnatch é um personagem criado por Lewis Caroll, autor de Alice no País das Maravilhas, que é descrito como astuto, feroz e muito rápido. Ou seja, Tolkien dificilmente seria influenciado por alguém.

A segunda referência pode ser lida na Carta para Charles Moorman, de 15 de maio de 1959:

Ninguém jamais influenciou Tolkien – você pode também tentar influenciar um bandersnatch. Ouvimos sua obra, mas apenas podemos afetá-lo com encorajamento. Ele tem só duas reações à crítica: Ou começa toda a obra novamente desde o início ou então não faz absolutamente nenhuma observação.

Novamente C.S. Lewis compara Tolkien a um bandersnatch, para mostrar a dificuldade que é influenciar seu amigo. Assim como Christopher Tolkien, Lewis teve a possibilidade escutar e ler as obras de Tolkien ainda na sua gestação. Mas o autor de O Hobbit não se deixava influenciar. Ele era altamente crítico de seu próprio trabalho. Isso devido a sua forma de lidar com situações de forma peculiar.

Esse perfeccionismo gerou vários e vários manuscritos que se amontoaram em seu escritório. Coube ao seu filho organizar todos de uma forma coerente e foi assim que surgiu a maioria dos livros póstumos que conhecemos atualmente. Tal como a série de doze volumes chamada “The History of Middle” e livros como O Silmarillion, Os Filhos de Húrin, Contos Inacabados e Beren e Lúthien.

Em uma de suas últimas cartas escritas, para Francis Anderson, em 23 de setembro de 1963, C.S. Lewis novamente reafirma que não influenciou Tolkien, mas dessa vez tenta explicar as razões do por que suas obras tem certa semelhança.

Eu não acho que Tolkien me influenciou, e estou certo de que eu não o influenciei. Isto é, não influenciei o que ele escreveu. Meu encorajamento contínuo, levado ao ponto de irritar, influenciou-o muito ao escrever com essa gravidade e extensão. Em outras palavras, agi como parteiro e não como pai.

E nessa mesma carta, Lewis explica que essas comparações e semelhanças podem se dar especialmente por dois fatores:

As semelhanças entre sua obra e a minha são devidas, eu acho à: (a) natureza – temperamento e, (B) a fontes comuns. Nós dois estamos embebidos em mitologia nórdica, contos de fadas de George MacDonald, Homero, Beowulf e romances medievais. Além disso, claramente, nós dois somos cristãos (ele, um C.R.).

Lewis cita alguns autores e obras que eram comuns entre ele e Tolkien, demonstrando que sua base literária seria praticamente a mesma que a do seu amigo.

O fato de Tolkien dizer não ser influenciável, não quer dizer que ele negue todas as fontes que teve contato antes de criar sua própria mitologia. Em carta para L.M. Cutts, em 26 de outubro de 1958, Tolkien explica uma de suas fontes:

… se assim posso dizer, com humildade, a religião cristã (que eu professo) é, de longe, a mais poderosa fonte suprema, num plano inferior: o meu interesse linguístico é a força mais poderosa …

Tolkien reconhecia suas fontes e livros que se inspirou ao criar sua mitologia própria. Porém, ele enfaticamente dizia que não sofreu influência de Lewis e este reafirmava a mesma ideia.

CONCLUSÃO

C.S. Lewis influenciou Tolkien no sentido formal e não material. Ou seja, ele deu apoio psicológico, mas não alterou o conteúdo da obra. Isso devido ao perfeccionismo de Tolkien e o fato de ser a escrita um passatempo particular do autor. A amizade entre os dois produziu longos debates literários, políticos e religiosos e o fruto disso foi o constante incentivo de Lewis para que Tolkien concluísse sua obra máxima O Senhor dos Anéis.

Fonte: http://tolkienbrasil.com/noticias/diversas/j-r-r-tolkien-e-influencia-de-c-s-lewis/

Leia artigo de Filipe Galhardo:

Ele [C.S.Lewis] era centrado em Cristo, um cristão de tendência da grande tradição, cuja estatura, uma geração após sua morte, parece maior do que qualquer um jamais pensou enquanto ele ainda estava vivo, e cujos escritos cristãos são agora vistos como tendo status de clássicos… Eu duvido que alguém tenha conseguido compreendê-lo completamente”.                – John Stott

“Acredito que muitos que acham que nada acontece quando sentam ou se ajoelham com um livro devocional nas mãos achariam que o coração canta espontaneamente enquanto estão trilhando o árduo caminho da teologia.”                            – C.S.Lewis.

 

  • Por: Filipe Galhardo Sant’anna

Em 13 de novembro de 354, nascia em Tagaste um dos mais imponentes personagens da era cristã, o pensador que marcou a passagem da tradição patrística para a medieval, Agostinho de Hipona, um dos maiores filósofos de todos os tempos. Cerca  de quatro anos antes nascia na Britânia seu principal oponente teológico,  o monge ascético Pelágio, um dos principais mestres da moral cristã do seu tempo. Esses dois gigantes, Agostinho e Pelágio, travaram o mais importante debate a respeito do livre-arbitrio e da graça de Deus. Enquanto Pelágio defendia que a salvação poderia ser alcançada por nossos próprios esforços, através do livre-arbitrio, Agostinho argumentava que nossa salvação depende necessariamente de Deus e da sua soberana graça. Os concílios eclesiásticos deram a vitória a Agostinho, mas, por incrivel que pareça, quase toda a Idade Média se mostrou semi-pelagiana. O debate voltou a ganhar visibilidade em uma nāo menos acalorada disputa no século 15, dessa vez entre o então monge agostiniano Martinho Lutero e o já famoso doutor da Igreja Herasmo de Hoterdan, o tema do debate era, uma vez mais, soberania e livre arbítrio. Lutero defendia “A justificação somente pela fé”, já Erasmo, tal como Pelágio,  atribuia muito poder ao nosso livre arbítrio, defendendo que depende também dos méritos a nossa salvação.  O duelo marcou a divisão da Igreja entre protestantes e católicos e mais uma vez acontece uma transição histórica, da Idade Média para a Moderna.

A discussão parece nunca ter chegado ao fim e os gigantes irão continuar duelando, no entanto, no século XX ouvimos uma voz menos clerical, mas não menos lúcida.

Em 29 de Novembro de 1898 nascia em Belfast, na Irlanda do norte, Clive Staples Lewis, filho de Albert J.Lewis (1863-1929) e Florence Augusta Hamilton (1862-1908). Lewis veio a se tornar um dos maiores escritores do século passado, seu talento tornou-se evidente ainda na infância, na casa de seus pais Lewis podia encontrar pilhas e mais pilhas de livros em quase todos os cômodos, foi o que lhe permitiu o encontro com um universo sem fim de escritores. Toda essa variada literatura formaram em Lewis um pensador cuja visão de mundo encontra poucos paralelos na história. Os filósofos gregos lhe deram a frieza e a precisão do argumento bem articulado; os medievais, uma arguta e penetrada  imaginação,  talvez uma das mais brilhantes do século XX; os grandes romancistas como Shakespeare lhe incutiram uma criatividade poucas vezes vista.
Seu futuro já era de se esperar, tornou-se um notável erudito em literatura, lecionando nas universidades de Oxford e, mais tarde, Cambridge. Em 1930 converteu-se do ateísmo ao teísmo e deste ao cristianismo, ganhando notoriedade com a publicação de diversos livros e artigos na área da crítica literária e teologia, além de emblemáticos romances como a Trilogia Cósmica e O Grande Abismo que, além de serem histórias fantásticas, refletem com bastante expressão seus conceitos teológicos – isso para não mencionar as famosas Crônicas de Nárnia no gênero infantil. Lewis faleceu no ano de 1963, deixando um vasto legado literário. Desde sua morte até os dias atuais doutores de diferentes partes do mundo debruçam-se sobre suas obras no anseio de acompanhar o raciocínio do mestre. Neste breve texto – na condição de admiradores e não de doutores – iremos analisar a importância de toda a sua erudição literária e filosófica para a teologia. Recuperando o equilíbrio epistemológico de Lewis e retornando à antiga discussão sobre as doutrinas do Livre-arbitrio, Providência e Soberania Divina e de que modo se deve harmoniza-las. No entanto, antes de se passar ao conteudo propriamente dito, há pelo menos uma advertência a ser feita. Queria deixar bem claro que eu mesmo estou bastante consciente de que Lewis está muito mais pra crítica literária do que pra teologia , fica evidente que nesta área do conhecimento poderíamos usar outros nomes de muito maior expressão teológica, como Agostinho ou Tomás de Aquino. No entanto, dei a preferência a C.S.Lewis e isso, assim espero, é fácil de explicar. Quando Lewis se tornou cristão já era um literato formado, com graduações em inglês, história antiga e filosofia, além do que já lecionava na prestigiosa  Oxford. Mas foi somente a partir da sua conversão ao cristianismo que tudo o que ele aprendera começou a aganhar vida, foi o que mais tarde ele chamou de “reavivamento intelectual”, era a passagem para além da sua própria personalidade.

Dessa experiência em diante Lewis nāo abdicou do acumulo de suas informações, mas aos poucos todas elas foram se harmonizando e formando um todo literalmente fantástico, a descoberta da teologia cristã foi para Lewis, em suas próprias palavras, “o despertar de um sonho”. Essa foi a transição de um escritor secular quase anônimo a um verdadeiro gigante da apologética cristã, cujo tamanho da compreensão do que é de fato o cristianismo o tornou um dos autores cristãos de comovisāo mais ampla dos últimos tempos. Acho que, por esse motivo, pode ser uma boa darmos uma olhadela em suas opiniões.
Providência O Livre-arbítrio como argumento apologético e The Great Divorce: no tempo e fora do tempo

“O  mal  moral  tem  sua  origem  no  livre-arbítrio  de nossa  vontade.’’                             – Agostinho, Sobre o  Livre-arbítrio.

“Liberdade: o dom por meio do qual nos assemelhamos mais ao nosso Criador e somos nós mesmos partes da realidade eterna. Entretanto você só pode vê-la pelas lentes do tempo […].” C.S.Lewis, The Great Divorce.

“[…]Mas a natureza eterna desse ser vivo não podia ser atribuída em toda a sua plenitude ao que é engendrado. Então, pensou em compor uma imagem móbil da eternidade, e, ao mesmo tempo em que organizou o céu, fez da eternidade que perdura na unidade essa imagem eterna que se movimenta de acordo com o número e a que chamamos tempo.”                         -Platão, Timeu.

Dizem-nos que falar sobre  livre-arbítrio é sempre se arriscar a ser polêmico ou desnecessário. Polêmico até posso admitir, mas desnecessário jamais. A matéria é de interesse totalmente prático, afinal todos nós fazemos distinção ética do que é certo e do que é errado, e desse ponto de vista os seres humanos são, não sem motivos, classificados como intelectual e moralmente responsáveis diante de suas ações. No entanto, essa perspectiva parece incluir a existência do livre-arbitrio como indispensável à natureza. Mas há muitas controvérsias dentro da filosofia, da metafísica e da teologia que parecem por em dúvida essa indispensabilidade. Como nosso assunto é teologia na obra de C.S.Lewis, vamos abordar a controvérsia dentro dos limites teológicos. O grande desafio que sempre se ergueu aos teólogos foi o de conciliar o conceito de liberdade com a clássica doutrina da onipotência e soberania divina,  a harmonia dessas doutrinas normalmente resulta em uma grande complicação: o problema do sofrimento.
Usarmos C.S.Lewis é uma boa oportunidade de vermos pelas lentes de alguém que começou a desenvolver seus pensamentos sobre o livre-arbítrio a partir de suas experiências com o sofrimento que começaram na sua mais tenra infância.

Em 23 de Agosto de 1908 morre Florence Augusta Lewis. A abrupta perda da mãe para o câncer torna a infância dos irmãos Lewis um tanto dolorosa, acrescenta-se a isso o temperamento um tanto ruim do pai Albert e uma deficiência na mão do ainda muito novo Jack – modo como C.S.Lewis era conhecido entre parentes e amigos. A dor da perda e o temperamento ruim do pai – agravado pela morte da esposa – tornam-se fator preponderante para o abandono da religião cristã na qual foi criado C.S.Lewis, mais tarde a leitura de escritores materialistas foi apenas uma fagulha em uma lenha que já estava a muito tempo incendiada. Anos depois, em seu caminho de volta ao cristianismo, uma das suas primeiras publicações foi justamente um livro cujo título era: O Problema do Sofrimento.  Nele, Lewis lida com o problema de conciliar um Deus bom e todo poderoso com a existência do sofrimento, afinal, por que um Deus bom e soberano permitiria a dor de suas criaturas?

A resposta de Lewis a essa pergunta é que o sofrimento não é causado diretamente por Deus – apesar de ser usado por Ele – mas por suas criaturas dotadas de livre-arbítrio. O argumento de Lewis – levando em consideração a doutrina da queda- distingue:
1) O bem simples que vem de Deus;
2) O mal simples produzido por criaturas rebeldes;
3) A exploração do mal por parte de Deus, para seu propósito redentor, que produz
4) O bem complexo para o qual contribuem o sofrimento aceito e o pecado de que nos arrependemos.’1
É claro que os amplos argumentos de Lewis a respeito do sofrimento não poderiam caber em um tão pequeno texto, nem é a minha intenção. Apenas pretendo deixar claro ao leitor que o livre-arbítrio na obra de Lewis normalmente surge nesse contexto apologético.

Além do que, o assunto é  sem dúvida parte fundamental de seu pensamento, sua mente em termos teológicos pode chegar a surpreender muita gente que espera encontrar em Lewis mais um cristão liberal.  O livre-arbítrio em sua obra ganha contornos bem ortodoxos. Embora ele admita livre-arbítrio depois da queda – diferente de como pensavam os reformadores no século 16 – em O Problema do Sofrimento ele dá uma extraordinária contribuição ao diferenciar o livre-arbítrio do primeiro homem e a liberdade da posteridade. Com toda a sua fantástica capacidade imaginativa Lewis infere do relato de Gênesis e da tradição patrística que o homem paradisíaco não só possuía plena autoridade sobre as feras, mas sobre a sua mente e tudo o mais que lhe dizia respeito, de fato, sobre o próprio organismo, plenamente de acordo com Tertuliano,  segundo o qual, como resultado do pecado, “todo o nosso ser havia sido alterado, deixando sua saúde original e caindo em um estado de rebelião contra o criador” ‘2 . O primeiro homem seria, pois, uma espécie própria que entrou em extinção com o advento da Queda, deste modo, ele escreve: “Assim, o espírito humano, de senhor da natureza humana passou a simples hóspede em sua própria casa, ou até mesmo um prisioneiro” ‘3. Essa distinção de Lewis mostra com clareza sua proximidade com o pensamento tradicional a respeito do pecado e bastante afinidade mesmo com Lutero e sua ideia de livre-agência. Para Lutero o homem se torna, depois da Queda, escravo; para Lewis, prisioneiro. Não há diferença, pois, em que os dois admitem uma vontade escrava ou aprisionada – embora Lewis tenha sido enfático ao não concordar com a ideia de depravação total defendida pelos calvinistas ‘4.
Nota-se, portanto, como já fora dito, que o livre-arbítrio na obra de Lewis quase sempre surge como argumento apologético, seja pra dar solução ao problema do sofrimento, seja para não fazer com que, no final das contas, Deus seja acusado de criar o mal. Em suas palavras:” A doutrina da Queda pelo livre-arbítrio afirma que o mal gera o combustível ou a matéria-prima para o segundo e mais complexo tipo de bem. O mal não é uma contribuição de Deus, mas do homem.” ‘5.
Além disso, o pensamento de Lewis acerca da liberdade também lança fora o perigo do fatalismo, o problema da origem do pecado e a dificuldade de se entender as passagens bíblicas acerca da responsabilidade do homem. Mesmo que não concordemos com Lewis, devemos admitir que esse argumento foi usado pela maioria dos Pais da Igreja na tarefa apologética. No entanto, não se pode confundir esse pensamento acerca do árbitro com o de Pelágio ou Erasmo, que o relacionavam quase sempre a termos soteriológicos. Não temos em C.S.Lewis mais um humanista preocupado em defender salvação por méritos, mas uma mente incansável em defender a fé que é comum a todos, o cristianismo puro e simples.
***
Em The Great Divorce, no entanto, o tema é abordado em um contexto mais doutrinário, além de filosófico. Nesta obra C.S.Lewis se vale uma vez mais de seu incomparável talento para fábulas e alegorias.

wp-1479396910549.jpg A trama se passa em um sonho, aonde o narrador-escritor se vê em uma viagem inacreditável, atravessando Céu e Inferno. Nesta viagem inesperada C.S.Lewis encontra-se com George Mcdonald, pastor presbiteriano e escritor escocês do século XIX, que tornar-se seu guia, além de mestre. Juntos eles tiram conclusões significativas sobre tudo o que veem, em especial trataremos aqui do diálogo fictício elaborado por Lewis que encontra-se nos dois últimos capítulos deste mesmo livro. Ali Lewis desenvolve de forma bastante profunda o seu pensamento acerca da Liberdade e do Tempo e estabelece uma relação fundamental entre os dois temas. Lewis parte do pressuposto platônico de que Deus é eterno e nāo se condiciona ao tempo por Ele criado, dada as devidas diferenças, o mesmo ponto de vista foi abraçado tanto por Santo Agostinho como por São Tomás, e em Lewis os argumentos são lançados exatamente nesses fundamentos e suas conclusões a respeito de nossa liberdade devem ser vistos sob esse aspecto, ou seja, Deus é atemporal e nós não, logo as postulações feitas a partir do ponto de vista divino não são as mesmas que se enquadram em nosso limite de tempo e espaço.
Portanto, o livre arbítrio e a soberania divina que antes eu disse serem parte conflitantes da filosofia e da teologia, ganham dentro desse panorama uma explicação plausível: para nós, que estamos no tempo e sujeito às suas peculiaridades, torna-se seguro de se dizer sobre a difícil questão da liberdade, mesmo com respeito a salvação ou condenação eterna: “A escolha dos caminhos está à sua frente. Não há nada restrito. Qualquer homem pode escolher a morte eterna e os que fizerem essa opção vão tê-la” ‘6. Isso, levando em consideração a nossa percepção temporal, nesse sentido, a Liberdade só pode ser vista ou percebida através do Tempo, que funciona como uma espécie de lente: “uma cena de momentos que se seguem uns aos outros e você, em cada momento, fazendo alguma escolha que poderia ter sido diferente”. Mas se formos abordar a coisa do ponto de vista de Deus e analisarmos doutrinas como a da Predestinação ou o Universalismo nos colocaremos, inevitavelmente, de um ponto de vista fora do tempo, perdendo assim o conhecimento da liberdade que temos por experiência.
Boa parte das aparentes contradições da Bíblia em relação ao livre-arbítrio e a soberania são solucionadas se tão simplesmente levarmos em consideração que pelo menos duas perspectivas diferentes podem estar sendo empregadas, a de Deus que é atemporal e a do homem cuja vida se limita ao movimento dos números do nosso relógio, que possui apenas 24hs.

E toda discussão teológica que trate de Livre-arbítrio e Soberania, deve considerar a realidade experimental além da teológica. Filósofos e teólogos dissertam sobre coisas profundas que muitas vezes estão além da nossa compreensão, mas isso não quer dizer que negligenciam a verdade. Um pastor fala com propriedade da Soberania de Deus e o carpinteiro, sentado no banco da Igreja, sabe que é livre para fazer escolhas, ambos estão certos e Deus não deixou de ser Deus. No argumento de C.S.Lewis podemos compreender Livre-arbítrio e Predestinação sem precisar acender uma fogueira e procurar um herege, é tudo uma questão de percepção. Mas essas coisas devem ficar um pouco mais claras no próximo tópico.

Um Deus Atemporal: os primeiros passos na doutrina da Providência

“Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso” Apocalipse: 01-08

“A folha pendente da árvore não cai, nem os dois pardais vendidos por um asse caem, nem qualquer outra coisa acontece sem a providência e a vontade de Deus, quer se considere isso um detalhe ou se permita como detalhe.”                                                          – Luis Molina, Concórdia 4.53.3.17

“Se Deus dirigi realmente o curso dos acontecimentos, Ele então governa o movimento de cada átomo a cada momento. Nem um pardal cai por terra sem sua permissão.  A “naturalidade” dos eventos naturais não consiste, de alguma forma, em estar fora da providência de Deus, mas consiste em sua interligação mútua dentro de um espaço-tempo comum, de acordo com o padrão estabelecido das “leis”.”                   – C.S.Lewis, Sobre as Providências.

“Todo esse problema de predestinação, livre-arbítrio e mérito encontra-se na questão da providência.” – Ulrich Zuínglio

A Bíblia diz que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, mas até que ponto podemos classificar a palavra ‘todas’?

Nós sabemos que certamente se refere não só às coisas boas, mas também aos sofrimentos, as perdas e às dores, enfim, todas as coisas. Mas dentro de nossa perspectiva temporal em qual período ou tempo elas se organizam em nosso favor? Todas as coisas que nos cercam no nosso presente, ou também inclui o nosso passado e futuro?

Todas essas perguntas e as respostas que delas devem vir pertencem à doutrina da providência e a melhor maneira de aborda-la do ponto de vista cristão é levando em consideração as passagens da Bíblia. As escrituras nos ensinam que Deus não está sujeito ao tempo e é sobre esse fundamento que C.S.Lewis constrói seus argumentos, eles podem  ser vistos no segundo apêndice do livro Milagres, sob o título: A respeito das providencias especiais; e no capítulo cinco de Cristianismo Puro e Simples.
Como já dizia o reformador alemão Ulrich Zuínglio, boa parte do problema filosófico e teológico envolvendo o livre-arbítrio e a soberania encontra-se na questão da providência ‘8. A primeira coisa que deve nortear a nossa mente é que Ele, nosso Senhor, é o Alfa e o Ômega e tudo que provém dEle não se sujeita à nossa noção de espaço e tempo, na obra de Lewis nāo é diferente, ele nos ensina: “todos os eventos físicos e todos os atos humanos estão presentes para Ele num eterno Agora. […] Deus, neste sentido, não criou o universo há muito tempo, mas ele o cria neste minuto, a cada minuto.’’

 C.S.Lewis nos fornece uma imagem ainda mais didática. Imaginemos que eu encontre uma folha e nela uma linha preta ondulada que segue de uma extremidade à outra e que eu, deliberadamente, resolva escrever outras linhas – vermelha, por exemplo. Vamos imaginar então que a primeira linha, que já estava escrita, seja consciente. Mas ela não tem consciência ao longo de todo o seu trajeto, mas em cada ponto de seu percurso. Ela, de fato, movimenta-se da esquerda para a direita e retém o ponto A apenas como memória ao alcançar B, incapaz de tornar-se consciente de D até deixar C. Vamos atribuir a essa linha preta livre-arbítrio, de forma que foi ela mesmo que escolheu sua forma ondulada especial e a direção que está a seguir. Apesar de ela não saber o que fazer em F até deixar o ponto E, eu, que estou com o papel na mão e sei todo o seu percurso, escrevo as linhas vermelhas de modo a considerar todo o trajeto da linha preta, de forma que ela irá sempre encontrar com minhas linhas vermelhas ao longo de sua trajetória. Em resumidas palavras, essa é a forma como Lewis enxerga o cenário da atuaçāo da Providência, a linha preta representa uma criatura dotada de livre-arbítrio, as vermelhas os acontecimentos materiais e o autor do desenho representa Deus. É claro que o exemplo de Lewis seria mais real se o autor das linhas vermelhas também tivesse criado tanto o papel quanto o próprio padrão utilizado e, aliás, também deveríamos levar em conta outras centenas de milhares de linhas pretas e não uma apenas.    O conjunto de linhas pretas e o entrelaçamento com as linhas vermelhas deveriam formar um desenho artisticamente impressionante, de modo que, na composição do todo, as linhas pretas dependeriam da formação das linhas vermelhas. A liberdade de arbítrio previamente concebida pelo provedor das providências é, grosso modo, o cenário da atuaçāo divina.’9
Mas essa é apenas uma imagem que nos introduz à doutrina propriamente dita. Aprendemos que as coisas que cooperam para o nosso bem emanam de Deus e não se limitam ao nosso ponto de vista do tempo.Uma grande parte de nossas orações, se forem devidamente analisadas, exigem uma intervenção de Deus que antecede não só o nosso ato de fé como muitas vezes o nosso próprio nascimento, noutras os fundamentos precisariam ser lançados antes da fundação do mundo. Embora numa sucessão temporal pareça impossível, para Deus, que olha da eternidade, tanto quem faz a oração quanto o milagre ao qual pede já estavam tão presentes na criação do mundo como estão agora e estarão daqui a um milhão de anos. Deste modo “ao meio-dia podemo-nos tornar causas parciais de um evento ocorrido às 10 da manhã” ’11.

A Providência funciona como mediadora entre o conceito que temos de liberdade e soberania justamente no ponto em que dela inferimos que Deus é atemporal e que intervém em nossas vidas de acordo com seus planos e propósitos. Suas intervenções chegam a nós em um determinado tempo, mas fluem dEle da eternidade. Poderíamos dizer que Ele conduz todas as coisas através de sua Providência para a realização de seus planos. Lembremos do exemplo das linhas pretas e vermelhas na composição de um desenho completo redigido com maestria. Nós continuamos livres e Ele soberano. É claro que nós já aprendemos que nossa liberdade tornou-se restrita pela nossa própria natureza corrompida e que mesmo C.S.Lewis admite que tornamo-nos escravo desta. E é precisamente por isso que a Soberania por meio da Providência precisa atuar. Falando em uma linguagem bíblica, se Deus não nos chamar, nós não iremos a Ele. Foi o que aconteceu particularmente na conversão de Lewis.
Se a doutrina da Providência permiti-nos segurança na oração, com respeito a obra redentora de Jesus Cristo, Lewis sentiu na pele que dela – a Providência por meio da Redenção – não podemos esperar a tão desejável “independência” de nossa vontade, qualquer segurança ou o mínimo de estabilidade. “Há armadilhas por toda a parte” ’12 diz Lewis em sua autobiografia. Foi muito provavelmente tendo esses pressupostos em mente que ele registrou em “Surpreendido pela Alegria” o modo como Deus usou o apologista cristão G.K.Chesterton na sua conversão: “Parece até que a Providência, ou uma causa segunda de uma espécie bem obscura, supera nossas inclinações quando decide aproximar duas mentes” ’13. Chesterton viria a se tornar peça fundamental no dramático processo da conversão de C.S.Lewis, mas esse assunto já faz parte do próximo tópico.

Deus Compellegal Intrare: Surpreendido pela Soberania

“Dê-me graças [Ó Senhor] para fazer o que ordenas, e ordena-me a fazer o que tu queres! Ó santo Deus (…) quando teus mandamentos são obedecidos, é do Senhor que recebemos o poder de obedecê-los’’ – Santo Agostinho (Tagaste, 13 de novembro de 354 – Hipona, 28 de agosto de 430)
“A dureza de Deus é mais suave que a suavidade dos homens, e sua coerção é nossa libertação.”       – C.S.Lewis, Surpreendido pela Alegria.”

Bom, neste momento iremos analisar, de uma forma mais especifica, como Lewis veio a acreditar em Jesus Cristo e de que forma isso se deu. Do ateísmo ao teísmo e deste ao cristianismo, em quais circunstancias se realizou aquilo que, para muitos, parecia impossível: a queda de um dos mais empedernidos ateus do século XX.
Desde a mais tenra infância Lewis nunca lidou muito bem com a ideia de qualquer autoridade que roubasse sua privacidade ou sua segurança, alguns de seus biógrafos relacionam isso ao relacionamento ruim que ele teve com o pai. Quando ainda era ateu, a ideia de um Deus pessoal, como ensinava o cristianismo, lhe causava desprezo, “nenhuma palavra do meu vocabulário despertava ódio mais profundo do que a palavra interferência”. O Antigo e o Novo Testamento “colocavam no centro o que a mim parecia ser um Intruso transcendental” ’14.
Lewis, de fato, ansiaria em se manter o mais longe possível dessa fé, não queria nada, de nenhuma espécie, roubando sua liberdade. Apesar de isso ser um motivo emocional e pessoal, Lewis fez de tudo para que seu intelecto também criasse anticorpos à essa crença, com a leitura de escritores materialistas ele, de fato, vinha conseguindo se manter em defesa durante um bom tempo. O que ele não contava é que, fizesse o que fizesse, quanto mais ele se aprofundava em suas áreas de pesquisa acadêmica – que incluíam história, filosofia, literatura inglesa e medieval – mais ele se deparava com escritores que, apesar de serem muito inteligentes, tinham um leve defeito, eram crentes. E todos os materialistas começaram a parecer meio “raquíticos” em comparação a autores cristãos como Dante e Milton, além dos mais contemporâneos como George Mcdonald e G.K. Chesterton. Lewis chegou mesmo a dizer, anos mais tarde, que “um jovem que deseja continuar sendo um ateu convicto jamais poderá ser suficientemente cauteloso quanto às suas leituras. Há armadilhas por toda parte.” ’15
O Deus que se apresentava, de forma bastante inconveniente, através das leituras de Lewis, também se manifestaria através de suas novas amizades na universidade de Oxford e por muitos outros meios. Foi nesta mesma universidade que Lewis viria a conhecer Owen Barfild que atacou com bastante contundência a incoerência lógica de seu ateísmo. Ao entrar para a Faculdade de Inglês no Magdalen College, em Oxford, Lewis conheceu mais dois cristãos, Hugo Dyson e J.R.R. Tolkien. Estes homens tornaram-se amigos íntimos dele e o influenciaram profundamente. Os tempos de incrédulo estavam chegando ao fim, Lewis se sentia exatamente como uma presa que se põe em desespero na fuga de seu predador natural, era um período que iria delinear uma grande transição. Uma verdadeira mudança de paradigmas estava prestes a acontecer, no período entre 1928 e 1931 duras e contundentes provas em favor da existência de Deus e da veracidade da Bíblia começavam a imergir de onde Lewis menos esperava, a presa estava prestes a ser alcançada, mas “antes de Deus fechar o cerco sobre mim”, relembrou Lewis em Surpreendido pela Alegria, “foi-me oferecido aquilo que hoje me parece um momento de escolha absolutamente livre. […] Senti, ali e então, que me era dada a possibilidade de escolha. Eu poderia abrir a porta ou deixá-la trancada; poderia tirar a carapaça ou conservá-la. […] Escolhi abrir, tirar a carapaça, afrouxar as rédeas. Digo “escolhi”, mas não me parecia realmente possível fazer o contrário.” ’16
É neste ponto paradoxal que desejava chegar, enfim a tênue linha que separa liberdade humana e soberania divina, uma divisória que necessariamente não existiu para Lewis. Até aqui acompanhamos alguns traços biográficos a partir de Surpreendido pela Alegria, mas antes de avançarmos no assunto veremos que em O Regresso do Peregrino soberania também é um tema corrente.  

Essa  foi a primeira publicação de Lewis depois de convertido, a trama descreve a busca de John – protagonista da saga alegórica- para chegar à ilha encantada, reflexo da busca do próprio Lewis “por uma experiência particular recorrente” que mais tarde ele veio a chamar de alegria. No caminho da ilha John encontra diferentes tipos de filosofias, a maioria delas afirmava que tal ilha, de fato, não existia. Outras afirmavam que existia, mas seria impossível, ou pouco recomendável, o caminho que leva até ela. John, no entanto, não podia conceber duas coisas: que a ilha, de fato, não existisse e que o Proprietário – alegoria de Deus -, do qual fugira a vida inteira, fosse real. Mas não havia mais saída. As alegorias da Razão, da Sabedoria e da história mostravam a John a ilusão de todas as filosofias que negavam a existência da Ilha e do Proprietário. Jhon reluta em acreditar, mas diante da incapacidade de continuar sua jornada com as próprias forças ele se inquieta cada vez mais e “na amargura de sua alma, ele olhou para cima novamente, dizendo: Ajuda, ajuda, eu quero ajuda!” e então ele percebe “eu estava orando!”[…] “Em apenas uma noite, o Proprietário – chame-o pelo nome que quiser – tinha voltado a fazer parte do seu mundo e  havia o ocupado, preenchendo-o plenamente, sem deixar livre um espaço se quer. (…) E todas as coisas apontavam para uma única palavra: Capturado.” ’17
A experiência de Lewis foi semelhante, ou melhor, idêntica. Sua conversão ao cristianismo não se deu de forma imediata, mas após muito relutar. A fuga de Lewis desse Ser transcendental que lhe roubava a privacidade foi um longo e dramático processo, uma fuga que teve um desfecho inevitável, bastante similar ao de Jhon: “Aquilo que eu temia tanto pairava afinal sobre mim. Cedi enfim […] admitindo que Deus era Deus, ajoelhei-me e orei: talvez, naquela noite, o mais deprimido e relutante dos convertidos de toda a Inglaterra.” Ele se auto descreveu como “o Filho Pródigo que afinal caminhava para casa com as próprias pernas. Mas quem é que pode respeitar de fato o Amor que abre os portões ao pródigo que é arrastado para dentro esperneando, lutando, ressentido e girando os olhos em torno, à procura de uma chance de fuga? As palavras compelle intrare, forçá-los a entrar, foram tão violentadas por homens impiedosos que chegamos estremecer diante delas; mas, entendidas de forma correta, determinam a profundidade da misericórdia divina. A dureza de Deus é mais suave que a suavidade dos homens, e sua coerção é nossa libertação.” ’18
Como podemos ver, em suas duas auto biografias, Lewis tinha um conceito de soberania muito forte, mesmo Agostinho um dos maiores defensores da graça soberana se acautelou em usar a palavra coerção com referencia à ação de Deus em nossa conversão. Ele porém, tal como Agostinho, acreditava, em algum nível, na liberdade e no arbítrio do homem. Como ele entedia isso já foi dito no primeiro tópico desse texto, é tudo uma questão de percepção temporal. Ele nunca esteve disposto a fazer uma escolha entre o fatalismo e o humanismo. Como ele mesmo diria, nem o Norte e nem O Sul. Jack (como costumava ser chamado pelos amigos) estava ciente de um caminho em que a soberania e a liberdade se encontravam, tornando-se doutrinas diferente de um mesmo credo. Talvez ele visse essa aparente contradição entre teoria e pratica, como Ranson – o personagem principal de sua Trilogia Cósmica. 

Em Perelandra, Elwin Ranson se vê diante da responsabilidade de enfrentar o Não-Homem – aquele que instigava a Queda no Gênesis mitológico de Vênus. Ranson nota que enfrentar o Não-Homem lhe parecia literalmente impossível, mas de alguma forma ele sabia que iria ser feito. Isso já tinha acontecido antes com ele, e “o mesmo acontecia agora […] poderia implorar, chorar ou se rebelar, poderia amaldiçoar ou adorar, cantar como um mártir ou blasfemar como um demônio. Não fazia a menor diferença. […] O ato futuro já estava ali, fixo e inalterável, como se ele já o tivesse executado. […] Talvez fosse possível dizer que o poder da escolha tinha sido simplesmente afastado e substituído por um destino inflexível. Por outro lado, talvez se pudesse dizer que Ranson tinha sido libertado […] para uma liberdade inexpugnável. Por mais que se esforçasse, Ranson não conseguia ver nenhuma diferença entre essas duas formulações.” ’19
Essa é provavelmente a forma como o próprio Lewis via o assunto. Ranson carregava muitos traços de seu criador. Talvez depois de convertido, experimentado e estudado nas doutrinas teológicas, ele enfim tenha chegado à mesma conclusão que seu personagem de ficção cientifica. Talvez Lewis pudesse dizer o mesmo de si próprio quando disse que para Ranson enfim “A predestinação e a liberdade eram aparentemente idênticas.” e que  “Ele já não conseguia ver o menor significado nos muitos argumentos que ouvira sobre o assunto.” ’20

Referências:
Sobre o Livre-arbítrio:
‘1- O Problema do Sofrimento, editora Vida. pg.126
‘2- Sobre os Espetáculos, 2. Ver  Justo González, Uma breve história das doutrinas cristãs, editora Hagnos, pg.116.
‘3- O Problema do Sofrimento, editora Vida. pg. 94
‘4- Ibid., pg 77. Aonde  se lê sobre a Depravação Total: “Não creio nessa doutrina”.
‘5- Ibid., pg 96
‘6- O Grande Abismo, editora Vida. pg.143
‘7- Ibid.
Sobre a Providência:
‘8- Ver Teologia dos Reformadores, pg.124
‘9- Sobre a Providência, editora Vida. pg.268-269.
’10- Ibid. pg. 270.
’11- Ibid. pg.272.
’12- Surpreendido pela Alegria, editora Ultimato.  pg. 171
’13- Ibid. pg. 170
Sobre a Soberania:
’14- Surpreendido pela Alegripe, editora Ultimato. pg.155
’15- Ibid. pg. 171
’16- Ibid. pg. 198-199
’17- O Regresso do Peregrino,Icthus Editorial. pg. 223-224/ 229-230
’18- Surpreendido pela Alegria, editora Ultimato. pg. 202-204
’19- Perelandra, Martins Fontes. pg.198
’20- Ibid. pg.199.

Livre-arbítrio, Providência e Soberania na vida e obra de C.S.Lewis