Dedicado aos recém casados Rev. Dr. Daniel R. Cabral e Dra. Gabriele Greggersen .

“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine.” (1 Coríntios 13: 01)
“Assim é que o amar e o Amor não é todo ele belo e digno de ser louvado, mas apenas o que leva a amar belamente.” (Platão, O Banquete)

Em Quatro Amores C.S.Lewis faz uma bela distinção e uma das melhores abordagens da Afeição, da Amizade, Eros e Caridade. Nosso trabalho, a nível de introdução, é estabelecer os limites de proximidade, ou ainda, se deve haver realmente limites, entre dois desses amores: Eros e Amizade. Lewis foi sempre muito cauteloso em tratar desse tema que nos é tão comum, suspeito que a causa disso seja que a mera tentativa de descrever a intensidade que pode, em alguns poucos casos, diga-se de passagem, haver entre esses dois amores não é só difícil, mas comprometedor. A amizade deve ser de tal modo valorizada que possa receber a honra de sua grandeza sem a intervenção de Eros. O contrário disso já acontece com frequência em tempos de demasiado romantismo hollywoodiano, mas não deveria, de fato, acontecer. Quem leu a mitologia de J.R.R.Tolkien sabe do vigor que Eros dá a Beren e Luthien no resgate, aparentemente impossível, das Silmarilion. Mas quem não ficou só nos tempos primitivos da Idade Média ou pode acompanhar a super produção de O Senhor dos Anéis, sabe que o paralelo perfeito à essa aparente impossibilidade encontra-se em Frodo Bolseiro e Sam Wise, com duas únicas diferenças, não se tratava de um resgate, mas de uma incumbência de destruição, e não fora Eros o amor que lhes suscitou a força necessária, mas a Amizade; a mesma que fez com que Olga saísse em busca de Policarpo Quaresma na tentativa de salvá-lo da morte na triste história de Lima Barreto; ou ainda a que fez Jonatas amar a Davi e livrá-lo da perseguição de Saul, legando-nos uma das mais belas histórias de amizade já registradas. Podemos ter plena certeza de que às vezes nossas amizades são mais intensas do que nossos outros amores, obviamente não há perigo em afirmar isso, nosso Senhor disse ser nosso Pai, mas também disse ser o nosso amigo (João 15:14).

Há ainda um outro tipo de perigo, a idéia de que todo tipo de amor é, por si só, bom. Pretendo falar mais sobre isso no final deste artigo, mas não dá nem para começar se não estivermos conscientes do perigo em que estamos se todos os nossos amores não dependerem daquela experiência extraordinária de amor que nós chamamos graça e que só a achamos em Cristo Jesus. O único amor sobre o qual podemos solidificar nossa esperança, alegria e paz, é aquele que, para usar as palavras de Paulo, “não passa” (1 Coríntios 13:13).

Feita as devidas observações, passo agora à pergunta principal: pode Amizade conviver junto com Eros?
Antes de fornecer uma resposta, rápida e objetiva, quero conduzi-los à uma história que certamente deve esclarecer um pouco mais as coisas. Antes eu disse que Lewis não compôs algo como um capítulo dedicado à relação entre Amizade e Eros, mas é preciso acrescentar que sua própria biografia nos fornece esse conteúdo. A partir de agora vamos penetrar na emocionante história de amor vivida entre Joy Davidman e C.S.Lewis.

Em Os Quatro Amores Lewis nos lembra da pouca probabilidade de um homem tornar-se amigo de uma mulher, principalmente pelo fato de o gosto dos dois sexos serem, na maioria das vezes, absolutamente diferentes. Mas isso tem se tornado uma realidade cada vez mais restrita ao passado. Em tempos em que a mulher se torna cada dia mais participativa na sociedade, e de forma prática, torna-se mais comum ambos os sexos compartilharem preferências políticas, ambientais, trabalhistas, religiosas e etc. Mesmo na época de Lewis essa mudança já era evidente para o autor. Entretanto, com algumas exceções, o círculo de amigos de Lewis geralmente era composto por homens. Além disso, Lewis sempre fora bastante receoso em sua relação com mulheres que ultrapassa-se os limites da amizade. No capítulo em que ele fala sobre Caridade, descreve uma característica própria de sua personalidade da seguinte forma:

“Sou uma criatura que põe a segurança em primeiro lugar. De todos os argumentos contra o amor, nenhum seduz tão fortemente minha natureza quanto esse: “Cuidado! Isso pode fazê-lo sofrer!”

Talvez tenha sido exatamente esse tipo de pensamento a passar pela sua cabeça quando conheceu Joy Davidman. A principio Joy era apenas mais uma das muitas leitoras de Lewis residentes dos EUA, passou a ser uma correspondente e os dois passaram a compartilhar tanto experiências religiosas como literárias. Joy naquela época era casada, mas a relação com seu marido tornava-se cada vez pior. Com o tempo Joy mudou-se para a Inglaterra com a desculpa de que iria visitar uma amiga e dar continuidade em um livro que estava escrevendo. Em 1998, Douglas Gresham, em entrevista, deu sua opinião sobre o motivo que levou sua mãe à Inglaterra: “Seduzir Lewis”. *

Joy obteve um visto com algumas condições e passou a fazer parte dos Inklings, o seleto grupo literário que incluía tanto Tolkien quanto Lewis. É verdade que naquela época o grupo já não se reunia com tanta frequência, mas, de qualquer forma, as conversas de Joy e Lewis só aumentavam. Nesse interin, Joy fica sabendo que seu marido a traía com sua própria prima, talvez ela realmente nāo esperasse menos de um casamento que infelizmente encontrava-se em frangalhos. Em 1953 Joy volta aos EUA e se divorcia. Quando retorna à Inglaterra, não demora muito tempo, descobre um grave problema de saúde: câncer. Joy está divorciada, com dois filhos, longe de seu país e à beira da morte.

Talvez essa seja a fase em que Lewis e Joy mais se aproximam. É verdade que antes de Joy ficar doente ela já tinha se casado com Lewis, mas era um casamento, para usar as palavras de Tolkien (amigo próximo de Lewis), “estranhíssimo”. Casaram-se para viabilizar a permanência de Joy na Inglaterra, já que o prazo de seu visto havia terminado. Era, portanto, um casamento que não comprometia emocionalmente os dois. Porém, realmente não podemos imaginar outra coisa se não que, aos poucos, o humor e a inteligência de Joy iriam cativar o cauteloso coração de Lewis. O cenário é exatamente esse e a doença de Joy foi a cartada final do destino que decidira unir os dois não só na Amizade, mas também em Eros. Em carta à sua famosa amiga e romancista Dorothy Sayers, Lewis escreve sobre sua mudança de sentimento em relação a Joy fazendo alusão a Thanatos, o deus grego da morte. Ele escreve :

“Meus sentimentos haviam mudado. Dizem que um rival transforma um amigo num amante. Thanatos certamente (dizem) se aproximando, mas em uma velocidade incerta, é um rival eficientíssimo nesse sentido. Nós logo aprendemos a amar o que nós sabemos que devemos perder.”**

A alegria que Lewis e Joy compartilhavam, mesmo está estando doente, nos faz lembrar de Santo Agostinho e da famosa passagem de Confissões em que o bispo de Hipona relata a perda de seu amigo Nebrídio. A tristeza que Agostinho descreve em relação à perda de seu amigo nos leva à consideração de que não devemos depositar nossa felicidade em nada que possamos perder. Foi justamente esse registro primitivo que levou Lewis a escrever uma das máximas mais citadas de Os Quatro Amores:

“Para que o amor seja uma bênção, e não uma dor, ele deve se dirigir ao único Amado que nunca morrerá.”

Mas o que o leitor desatento não percebe é que Lewis cita Agostinho quase em um tom de reprovação – note que ele faz isso, para usar suas próprias palavras, com muita “hesitação”. Após confessar a dívida que tem com Agostinho, Lewis chega mesmo a dizer que tal pensamento é mais um “remanescente das nobres filosofias pagās da formação de Santo Agostinho do que parte de seu cristianismo”. Lewis vira a mesa citando o choro de Cristo sobre o túmulo de Lázaro e a possível perda que o apóstolo Paulo teria se Epafrodito, seu “companheiro de lutas”, partisse dessa para melhor. Paulo não se detém em dizer que tal coisa o levaria a “tristeza sobre tristeza” (Filipenses 2;27). O ponto de Lewis é que, mesmo sabendo que Lázaro poderia morrer, Jesus não o deixou de amar, mesmo sabendo, em sua onisciência, que iria derramar lágrimas sobre sua morte; o apóstolo dos gentios, da mesma forma, não deixou de amar Epafrodito mesmo presumindo sua possível perda e Paulo, diz Lewis, “tem maior autoridade sobre nós do que Santo Agostinho”. Em uma conclusão que deveria ficar registrada como o parágrafo mais estonteante de toda literatura cristã produzida no séc. XX, Lewis nos leva à uma reflexão estarrecedora:

“Nāo há saída pelo método sugerido por Santo Agostinho. Nem por nenhum outro método. Não existe investimento seguro. Amar é sempre ser vulnerável. Ame qualquer coisa e seu coração certamente vai doer e talvez se partir. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, você não deve intregá-lo a ninguém, nem mesmo a um animal. Envolva-o cuidadosamente em seus hobbies e pequenos luxos, evite qualquer envolvimento, guarde-o na segurança do esquife de seu egoísmo. Mas nesse esquife – seguro, sombrio, sem movimento, sem ar -ele vai mudar. Ele não vai se partir – vai se tornar indestrutível, impenetrável, irredimível. A alternativa à tragédia, ou pelo menos ao risco de uma tragédia, é a condenação. O único lugar além do Céu onde se pode estar perfeitamente a salvo de todos os riscos e perturbações do amor… é o inferno.”

Em 21 de março de 1957 Lewis e Joy celebram uma cerimônia religiosa de casamento feita de improviso no leito do hospital onde Joy estava internada. Aquela cerimônia, diferente do registro civil, tornava o relacionamento mais do que um simples álibe para que Joy permanecesse de forma legal na Inglaterra. A coisa toda se tornou muito mais do que isso, Lewis se entregara à vulnerabilidade do amor.

É claro que, sobre todos os aspectos, Lewis e Joy permaneceram amigos. O encontro da Amizade e Eros nāo precisa arruinar um em detrimento de outro. Lewis retrata Joy como “minha amada, mas, ao mesmo tempo, tudo o que nenhum amigo (e olha que tenho bons amigos) jamais foi para mim” ***. O encontro perfeito nāo coloca em perigo a majestade que carrega os amores, a dádiva consiste justamente em que a combinação torne ainda mais forte as características próprias de cada um dos sentimentos. Os anos de inverno da vida sentimental de Lewis havia chegado ao fim, a primavera dera os seus primeiros sinais.
O período em que esteve próximo de Joy fora, de fato, um dos mais inspiradores da vida literária de Lewis. É nessa época que Lewis escreve “Até que Tenhamos Rostos” (1956), “Lendo os Salmos” (1958) e “Os Quatro Amores” (1960). Principalmente Os Quatro Amores, deixa claro a influência do relacionamento de Joy e Lewis. O romance entre o casal que tinham em comum o gosto pela boa literatura, só podia ser nitidamente compreendido por aqueles que sabiam que havia algo mais que os unia, a busca de Deus. Em uma passagem épica de O Banquete encontramos uma boa sinalização pré-cristā de como o amor pode refletir uma busca que transcende os limites do tempo:

“[…] Depois de ouvir essas palavras, sabemos que nem um só diria que não, ou demonstraria querer outra coisa, mas simplesmente pensaria ter ouvido o que há muito estava desejando, sim, unir-se e confundir-se com o amado e de dois ficarem um só. 0 motivo disso é que nossa antiga natureza era assim e nós éramos um todo; é portanto ao desejo e procura do todo que se dá o nome de amor.”****
Quem seria cético o suficiente para não enxergar o claro significado dessa passagem. O “todo” de Platão pode muito bem ser entendido como o estado natural do homem ligado à Deus, o amor entre um homem e uma mulher é um reflexo da constante busca de retorno à esse estado de plena comunhão com Deus. Há, contudo, duas possibilidades sobre como os nossos relacionamemtos refletem essa busca: podemos estar no caminho certo ou completamente perdidos.
Quem poderia negar que Lewis e Joy estavam na estrada certa, mesmo havendo, a princípio, uma série de circunstâncias negativas e todo um oceano que os separava. No entanto, infelizmente o romance entre Lewis e Joy durou muito pouco, e Joy faleceu de câncer três anos após se casarem no leito do hospital, em 1960. O risco sempre é real e o período de alegria compartilhada com aquela a quem ele havia entregado o seu coração chegou ao fim. Talvez uma das piores experiências de Lewis. Durante seu período de luto escreveu algumas notas que revelam o desespero desse momento, mais tarde foram publicadas sob o título de “A Anatomia de uma Dor”. Essa obra, por si só, daria um novo artigo. Ali, C.S.Lewis lida de forma prática com o problema do sofrimento e expressa o tamanho da sua angústia com a perda de sua amada.

A morte a levou e ensinou Lewis que arriscar é preciso, mas o sofrimento da perda é sempre mais real na prática do que na teoria. Não há muita segurança no amor, mas a possibilidade da perda ou da decepção não deveria desanimar ninguém, apenas fazer refletir sobre se o amor em questão é reflexo de um amor maior ou se, na pior das hipóteses, apenas uma tentativa deseperada de preencher um vazio que só pode estar perfeitamente pleno com a presença e o amor do Criador.

Lewis perdeu Joy, mas dizem que na eternidade nos encontraremos com aquilo que há de eterno em cada pessoa – quem leu O Grande Abismo já aprendeu isso. Talvez possamos imaginar que, ao falecer em 1963, Lewis tenha tido a oportunidade de rever o melhor de Joy no “céu”. Mas, como escreve Lewis (por incrível que pareça, antes da morte de Joy), isso tudo”está distante, no ‘mundo da Trindade’, e não aqui, no exílio, no vale de lágrimas”.*****

Não temos certeza de como são algumas coisas além do nosso campo de vista decaído e temporal, mas podemos ter certeza que se o relacionamento deles tinha alguma coisa de eterno, eles hāo de reencontrá-lo em Cristo. Podemos ter certeza de que todas as história de verdadeira amizade e amor foram desde antes de todos os tempos planejadas por Aquele que sabe e quer que todas as coisas cooperem para o nosso bem. Ele não coloca uma vírgula que não seja necessária e nem um ponto onde não se perceba sua soberania. Ele é o começo e o fim, o Alfa e o Ômega. Todos os amores só são possíveis a medida que refletem o brilho de sua graça.

Com efeito, os filósofos costumam dizer que a beleza nāo está no amor, no simples ato de amar não se encontra a chave para a felicidade. Aqueles que assim acharem morrerão esperando à porta. Mas é no que leva a amar é que se encontra a verdadeira alegria e beleza. É exatamente como disse Platão: “[…] o amar e o Amor não é todo ele belo e digno de ser louvado, mas apenas o que leva a amar belamente.” **** Lewis, sem dúvida, teria dito que isso é uma placa que indica a direção de Cristo, no qual encontramos toda fonte de verdadeira amizade e verdadeiro amor, Ele próprio é a Dádiva do encontro. Sem Ele todas as histórias de amor seriam foscas e sem brilho.

Voltemos agora à nossa pergunta inicial: pode a Amizade conviver junto com Eros? A própria história de Lewis e Joy demonstra que a resposta é sim, mas não um sim definitivo que dispense exceções. Já aprendemos que respostas rápidas para questões complexas, são respostas ruins. Às vezes não precisamos tanto de uma resposta quanto de tempo e talvez o grande segredo que a vida nos ensine sobre esses casos seja o de que é preciso viver um dia após o outro. Joy não obteve respostas rápidas de Lewis e nem tomou decisões precipitadas quando ainda estava nos EUA, e nem Lewis quando ela já havia chegado à Inglaterra. Dentre todas as qualidades do amor, podemos dizer junto com Sāo Paulo, que ele também deve ser paciente além de recíproco. Se tem uma coisa que nós aprendemos na história de Lewis e Joy é que as circunstâncias nunca são capazes de fazer morrer os amores que se encontram enraizados naquele que ressurgiu dentre os mortos. O tempo nunca será um problema se nossos objetivos forem eternos e, como disse um grande pensador, “tudo o que não é eterno é eternamente inútil”.

* Ver McGrath, Alister. A Vida de C.S.Lewis: do ateísmo às Crônicas de Nárnia, cap. 13. Pg. 335.

**Carta a Dorothy L. Sayers, 25 de jun. 1957; The Collected Letters, vol. 3, pg. 861.

*** A Anatomia de uma Dor: Um Luto em Observação. Sāo Paulo: Editora Vida, 2007. Pg.63.

**** Platão. O Banquete (o amor, o belo), versão Kindle.

***** Idem.
Obs.: Todas as citações de Lewis (salvo indicação contrária), inclusive a que se encerra o texto, encontram-se no sexto capítulo de Os Quatro Amores, em que se fala sobre a Caridade.
Sobre o autor:

Filipe Galhardo é editor da Sociedade C.S.Lewis Brasil e Diácono na Igreja Presbiteriana de Jaconé.

Release da Sony oficializa o começo da produção
04/07/2017 – 20:25 – CAMILA SOUSA

Sony divulgou um release que oficializa o começo da produção de The Chronicles of Narnia: The Silver Chair, filme que pretende reviver As Crônicas de Nárnia, para novembro (via Comic Book).

O release cita o já anunciado diretor Joe Johnston (Capitão América: o Primeiro Vingador) e confirma nomes como o designer de produção Andy Nicholson (Gravidade), o compositor Thomas Newman (007 – Operação Skyfall) e a designer Jacqueline West (O Regresso). David Magee (As Aventuras de Pi) cuida do roteiro e Mark Gordon (Steve Jobs) vai produzir.

Já as filmagens devem acontecer por cinco meses, em locações na Nova Zelândia e nos estúdios de Henderson Valley. Não há informações sobre o elenco.

Quarto livro da série criada por C.S. Lewis, e o primeiro sem a presença dos irmãos Pevensie, A Cadeira de Prata se passa 70 anos depois de A Viagem do Peregrino da Alvorada no tempo de Nárnia, o que permite a entrada de um novo elenco. Na trama, Eustáquio volta a Nárnia na companhia de sua amiga Jill Pole.

Por enquanto não há data de lançamento. O longa mais recente da franquia é A Viagem do Peregrino da Alvorada, que chegou aos cinemas em 2010 e arrecadou US$ 415 milhões na bilheteria mundial.

Leia mais sobre As Crônicas de Nárnia

Fonte:

https://omelete.uol.com.br/filmes/noticia/as-cronicas-de-narnia-filmagens-de-novo-longa-devem-comecar-em-novembro/

Stories of the famous writers of Oxford

Clockwise from top: Charles Williams, Owen Barfield, C. S. Lewis, and J. R. R. Tolkien Marc Burckhardt / The Atlantic

In this nearly magical room, amid fire-crackle and clink of glass, you can hear them talking. Pipe smoke is in the air, and a certain boisterous chauvinism, and the wet-dog smell of recently rained-on tweed. You can hear the donnish mumbles of J. R. R. Tolkien as the slow coils of The Silmarillion glint and shift in his back-brain. Now he’s reading aloud from an interminable marmalade-stained manuscript, and his fellow academic Hugo Dyson, prone on the couch, is heckling him: “Oh God, not another fucking elf!” You can hear the challenging train-conductor baritone of C. S. Lewis, familiar to millions from his wartime radio broadcasts; hear the unstoppable spiel of the writer/hierophant Charles Williams, with his twitchy limbs and angel-monkey face; hear the silver stream of ideas and argumentation that is the philosopher Owen Barfield. They are intellectually bent upon one another, these men, but flesh-and-blood is the thing: conviviality is, for them, a kind of passion. The chairs are deep; the fire glows gold and extra fiery in the grate. Lewis’s brother, Warnie, rosy with booze and fellow feeling, serves the drinks. And the walls drop away, and the scene extends itself backwards and forward in time …

Philip and Carol Zaleski’s The Fellowship: The Literary Lives of the Inklings is a mental map, a religious journey, and the biography of a brotherhood. Plenty of distinguished Inklings came and went over the years, padding across the carpets with a Warnie-provided drink in hand, but the Zaleskis zoom in on (and out from) the primary axis of Tolkien, Lewis, Williams, and Barfield, the four among whom the invisible correspondences of thought and affection were strongest. Christians all, these men formed what the Zaleskis call “a perfect compass rose of faith”: Barfield the proto–New Ager, Tolkien the rather prim orthodox Catholic, Lewis the noisy and dogmatically ordinary layman and popular theologian, Williams the ritualistic Anglican with a taste for sorcery.

“The qualifications … are a tendency to write, and Christianity.” Thus explained Lewis in a letter to Williams in March 1936, inviting him to a session of the “informal club” that had begun convening every Thursday night in his rooms at Oxford’s Magdalen College (and then again, still less formally, at the Eagle & Child pub on Tuesday mornings). The letter was a fan letter; the two men didn’t know each other, but Lewis had found himself compelled to inform Williams that reading his fantasy novel The Place of the Lion—in which comfy England is burst upon by unruly celestial essences—had been “one of the major literary events of my life.” Lewis was an Oxford fellow and tutor in English literature, and a relatively fresh-baked believer: after an arduous wrangle of a conversion, he had arrived at the knowledge of a personal God while sitting in Warnie’s sidecar on a motorcycle ride to Whipsnade Zoo. Williams worked in publishing, wrote feverishly, smoked like a chimney, delivered whirling literary-metaphysical lectures, and indulged in the overheated cultivation of female disciples. (One such pupil, we learn from the Zaleskis, was struck smartly on the bottom with a ruler.) Devoutly churchgoing, he was also of high rank in at least one esoteric mystical order and would make sacred signs while traveling on the London Underground. W. H. Auden thought him nearly a saint. To Lewis’s letter, Williams replied immediately that he had been on the verge of writing to Lewis, in praise of his The Allegory of Love. “It has never before happened to me to be admiring an author of a book while he at the same time was admiring me.” (Not a bad example of the loopy Williams prose style, that.) The serendipity, the crossbeams of appreciation, the ardent encounter at the aesthetic, soon to be spiritual, level—a very Inklings moment.

And so it began, and so it went on, with additions and diminutions, until the late ’40s. Reading aloud and commenting upon unfinished work was the group’s primary activity. Lewis’s The Great Divorce, Williams’s All Hallows’ Eve, and—most resonantly for us—Tolkien’s The Lord of the Rings all made their debut in this context. Tolkien, like Lewis, was part of the fabric of Oxford University, a philologist and a professor of Anglo-Saxon, teaching Beowulf by day while tinkering at night, at home, with his own made-up languages. Tinkering is of course quite the wrong word: Tolkien was plunging, spelunking, delving, excavating, as pickax-happy as a dwarf in the Mines of Moria, because in the roots of language—the glowing word-cores, the namings—he had found the roots of story. “For perfect construction of an art-language,” he explained in a talk delivered in 1931, “it is found necessary to construct at least in outline a mythology.” And there it is: the DNA of The Lord of the Rings. It was at this level of thinking that Tolkien met the way-ahead-of-the-curve Barfield, for whom language contained “the inner, living history of man’s soul.” Barfield’s brilliant 1926 book, History in English Words, is a work of philosophical archaeology, tracking and illuminating, via the changing meanings of words, the development of Western mental reality. And for Barfield, all reality was mental reality. “When we study long-term changes in consciousness,” he stated unequivocally, “we are studying changes in the world itself … Consciousness is not a tiny bit of the world stuck on the rest of it. It is the inside of the whole world.” (In Barfield’s old age, his theories would gain him a notable acolyte in Saul Bellow.)

We think of the Inklings as traditionalists, red faces scowling upon modernity. Lewis, in particular, polemicized fruitily against materialism, atheism, 20th-century-man-ism. On the other hand, what more modernist project could there be than Tolkien’s “construction of an art-language,” with the obsessive completeness of its declensions and long-dead kings? Blown sky-high—just like the modernists—by the psychic rupture of the Great War, the Inklings responded not with fragmentation and pessimism but with a redoubled commitment to the world behind the world, freshly visible through this new rip in the fabric. The “intersection of the timeless / With time,” T. S. Eliot called it, and one feels it in the music of the dwarfs that sweeps Bilbo Baggins “away into dark lands under strange moons”; in the “potentialities beyond all knowledge” that bulge and scurry in Williams’s novels; in Lewis’s The Screwtape Letters, that extraordinarily modern primer in everyday spiritual warfare, wherein the devil gets just as personal as God; in what Barfield saw in the shape of the cross, “this intersection of time and eternity, the horizontal and the vertical.”

Who can compare with these writers? In the intensity of their communion, their accelerating effect upon one another, and their impact on posterity, their only real 20th-century rivals are the Beats. And the Inklings would have detested the Beats. Nonetheless, the two core groups can be mapped onto each other with weird precision: Tolkien would be Kerouac, sensitive maker of legends; Lewis, the broad-shouldered preacher-communicator, would be Allen Ginsberg; Charles Williams, kinky magus, would have to be William Burroughs; and the sagacious and durable Owen Barfield, Gary Snyder. (The Inklings had no Neal Cassady, no rogue inspirational sex idol—they were all too grown-up for that.)

But the Beats, bless them, consumed the greater portion of their own energies, with the result that their influence went mainly into rock and roll and advertising, and stayed there. The Inklings, on the other hand, are still gathering steam. Tolkien revived in us an appetite for myth, for the earth-tremor of Deep Story. (See: Game of Thrones, and the pancultural howls of pain at the death of Jon Snow.) Lewis invented Narnia—though the exacting Tolkien regarded it as an incoherent mythology—and he may be, write the Zaleskis, “the bestselling Christian writer since John Bunyan.” As for Williams and Barfield, they hang in the tingling future: for the former I prophesy an H. P. Lovecraft–style cult (with creepy folk music), and for the latter, cosmic vindication. And Warnie serves another round of drinks, and the Inklings, huffing and puffing and hurtling through time and space in their armchairs, have their victory.

Fonte: http://buff.ly/2rp3u4H

Agora você já pode adquirir os seguintes livros de minha autoria:

 

Uma reedição de Pedagogia Cristã na Obra de C.S. Lewis, que é um resumo de minha tese de doutorado, Antropologia Filosófica de C.S. Lewis.

O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa e a Bíblia: Implicações para o Educador
Gabriele Greggersen

O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa e a Bíblia: Implicações para o Educador é um resumo de pesquisas realizadas para a obtenção do título de doutora, tendo a linguagem adaptada para o grande público. A tese tratou de uma das sete Crônicas de Nárnia de C.S. Lewis, O Leão, a feiticeira e o guarda-roupa. Como entender essa história como obra literária? No universo dos gêneros literários, vários ensaios são feitos, encarando-a como conto de fadas e literatura infantil, mas a alternativa escolhida é vê-la como parábola cristã.

Em um segundo momento, são analisados e estudados temas teológicos que se encontram nas entrelinhas da história, principalmente, no que diz respeito à imagem de Deus, mas também são abordados temas clássicos da teologia, como o pecado, a graça e a redenção. Em seguida, são abordados temas filosóficos por trás da parábola como a questão da verdadeira realidade, da ética e da razão.

Numa última parte, a crônica é comparada à narrativa bíblica, particularmente da Paixão de Cristo, em busca de alusões e paralelos, mas evitando uma interpretação alegórica da história, que não era absolutamente recomendada pelo autor, que advertia contra esse tipo de abordagem totalitária. Ela tenta estabelecer relações de um para um, dizendo, por exemplo, que Aslam tem que ser Cristo e Edmundo, Adão. Lewis assumia o caráter eminentemente cristão de suas Crônicas, mas nunca escreveu com a intencionalidade explícita de fazer propaganda religiosa, pelo contrário, ele respeitava o leitor não cristão e lhe dava toda a liberdade da dar a sua própria interpretação às histórias.

http://www.editoraprismas.com.br/produto/7865855/A-Imaginacao-Etica-de-Dom-Quixote-das-Criancas

 

E o resultado do meu trabalho de pós-doutoramento, a respeito de Monteiro Lobato:

A Imaginação Ética de Dom Quixote das Crianças
Gabriele Greggersen

O livro volta-se para fãs de Lobato e também de Cervantes, bem como pais e educadores e todos aqueles interessados pela imaginação, a ética e a literatura. O trabalho original, que foi apresentado como pesquisa de pós-doutoramento ao Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo e adaptado ao grande público, é fruto de pesquisas anteriores de Gabriele Greggersen em nível de doutorado, a cerca de C.S. Lewis e as Crônicas de Nárnia, em que ela explorou os temas da imaginação, da realidade e da formação ética, pela via da literatura imaginativa. Elas culminaram com a publicação de Antropologia Filosófica de C.S. Lewis e seu resumo em O Leão, a feiticeira e o guarda-roupa e a Bíblia. Esse temas foram estudados também em um amigo íntimo e de longa data de Lewis, J.R.R. Tolkien, que resultou no livro O Senhor dos Anéis: da fantasia à ética.
Insatisfeita por analisar as relações entre imaginação, ética e literatura apenas em autores anglo-saxões, a autora partiu para a literatura brasileira, de um Malba Tahan, mas principalmente de Lobato. Antes de partir para a análise crítica do livro de Lobato propriamente dito, a autora apresenta uma pesquisa sobre o que vários filósofos pensam sobre a imaginação e temas correlatos como a memória, a mitologia e o amor.
O livro traz o benefício não apenas do resgate do legado de Cervantes e Lobato, mas também da discussão de temas essenciais para o educador e todo aquele leitor, interessado em fazer da literatura um instrumento de formação ética, cidadã e assim, de constituição de um mundo melhor.

http://www.editoraprismas.com.br/produto/7865855/A-Imaginacao-Etica-de-Dom-Quixote-das-Criancas

 

Em São Paulo, você pode adquirir os livros com desconto em:

Colégio Luterano São Paulo – Rua Prof. Vilalva Júnior, 73 – São Paulo, SP. Tel.: (11) 2915-7966.

Cleber Santos Oliveira

INTRODUÇÃO                                                                   

A sociedade está em crise. Reduzido pela máquina mercadológica como mero consumidor, o homem secularizado é condicionado ao modelo capitalista, cuja ideologia corrobora para a sua despersonalização e desumanização. Vivemos numa sociedade em que a vida é descartada meramente como mercadoria e as consequências são evidentes: opressão, sofrimento e destruição. Como a luz do farol que indicava um caminho seguro aos navios em dias de baixa visibilidade e os guiavam até o porto, assim também, nesse mar de incertezas e obscuridades, precisamos de luzes que nos capacitem a compreender a realidade e dar-lhe novo sentido. Lentes que nos possibilitem discernir o significado da vida, redescobrir seus valores e reeoncontrar o seu sentido último. Devemos cativar a imaginação. Voltar a vislumbrar a possibilidade de transformar a nossa percepção de mundo. A literatura é um instrumento oportuno porque possibilita ao leitor, por meio de sua compreensão, dar significado à realidade. O presente artigo tem por objetivo refletir sobre a Ética da Virtude, tendo como objeto imediato a obra-prima de C. S. Lewis As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda Roupa. Nosso foco será a Virtude da Reverência segundo as considerações do professor Stan Van Hooft. Para realizar este projeto, vamos dialogar com notáveis escritores, pesquisadores, teólogos e filósofos, dentre os quais: Alister McGrath, Colin Duriez, Devin Brow, Franscis Schaeffer, Gabriele Greggersen, Glauco Maganhães Filho, Ives Gandra M. Filho, Nelly Novaes Coelho, Willian Lane Graig e Stan Van Hooft. C.S. Lewis é reconhecido mundialmente e as suas obras infantis são objetos de discussão e comentários em todo o mundo. As Crônicas de Nárnia são uma obra digna de ser lida porque oferece orientações fundamentais sobre a conduta humana além de oportunizar ao leitor pensar nas questões sérias da vida e da sociedade. Nosso maior objetivo ao tratar sobre Ética da Virtude, vinculado à obra prima de C.S. Lewis é, como um luzeiro, contribuir para uma sociedade mais justa e humana e destacar a importância das histórias como instrumentos de reflexão e conduta.

Palavras-chave: Ética. Moral. Fantasia. Literatura. Filosofia.   

Nossa época terrivelmente materialista e burocrática tem sido muito cruel com a fantasia e a imaginação, duas de nossas faculdades mentais mais estimulantes. Em toda parte, esse modo pacífico e sutil de interagir com a realidade – o prazeroso exercício da fantasia e da imaginação – tem sido sistematicamente desetimulado e desvalorizado. Nossa época terrivelmente utilitarista e desencantada precisa urgentemente dos contos de fadas, das fábulas, dos mitos, das narrativas fantásticas, de tudo o que esteja carregado de poesia, símbolos e arquétipos, ou seja, de energia vital. (OLIVEIRA, Nelson de, 2012, p. 13).

 

E quem disse que a história não é verdadeira?”

(Digory Kirke – o professor)

(As Crônicas de Nárnia:

O Leão, a feiticeira e o guarda-roupa)

 

 

 

 

 

  1. UM HOMEM CHAMADO C. S. LEWIS

Clive Staples Lewis nasceu em 29 de novembro de 1898, na cidade de Belfast na Irlanda do Norte. Foi catedrático de filosofia, crítico literário, renomado palestrante de Oxford e Cambridge e uma das maiores autoridades em literatura inglesa.

Reconhecido como um notável educador (Greggersen, 2010, s/p) e “[…] um incansável leitor de contos de fadas e histórias infantis” (JACOBS, 2015, p. 333) C.S. Lewis e seu irmão Warren cresceram num  ambiente cercado de livros e de belas paisagens. Essa condição o beneficiou para desenvolver sua imaginação e vocação literária (MCGRATH, 2014).

Lewis também é reputado como um dos mais influentes intelectuais cristãos do século XX, porém, os primeiros 30 anos de sua vida foram comprometidos com o ateísmo. Foi nessa época que Lewis enviou uma carta ao amigo Arthur Greeves declarando que não acreditava em Deus e que Jesus Cristo era apenas um grande mestre da moralidade, um “filósofo hebreu” (NICHOLI (2005).  Sobre esse período Mcgrath descreve,

O compromisso contínuo de Lewis com o ateísmo, em 1920, baseava-     se em sua crença de que estava certo, de que era uma “severidade       saudável”, embora ele admitisse que oferecia uma visão “sombria e            sem sentido” da vida. Ele considerava que a retidão intelectual do            ateísmo excedia sua inadequação emocional e existencial. Lewis não           considerava o ateísmo libertador ou excitante; parecia simplesmente    tê-lo aceitado, sem entusiasmo, default, sem quaisquer virtude ou graças particulares (MCGRATH, 2014, p. 22).

                         No entanto a cosmovisão ateísta de Lewis não foi suficiente para dar-lhe explicações sobre as questões fundamentais da vida e para fazê-lo discernir o seu significado, ao invés disso Lewis constatou que “o ateísmo era existencialmente insignificante, não tendo respostas para as questões mais profundas da mente humana ou anseios do coração humano” (MCGRATH, 2014, p. 24). Lewis compreendeu que somente o cristianismo poderia dar sentido e significado à sua vida, que o cristianismo era “a bússola moral e intelectual de seu mundo”(NICHOLI, 2005, p. 48), que somente “a razoabilidade da fé cristã” era capaz de oportunizá-lo a contemplar as coisas de modo maravilhoso, conexa e coerente (MCGRATH, 2014, p. 28) e que somente o cristianismo se encaixava com a Alegria  (Joy), o desejo intenso, “um  desejo não satisfeito, que é em si mais desejável do que qualquer outra satisfação […] e que jamais o trocaria por qualquer outro prazer do mundo”(NICHOLI, 2005, p. 93).

C.S. Lewis finalmente entendeu a verdade desse desejo: “A alegria era ‘um indicador de alguma outra coisa lá fora’, uma placa sinalizadora que apontava para o Criador” (NICHOLI, 2005, p. 93). Passou a considerar o cristianismo como uma lente que amplia a visão a qual o fez enxergar as coisas corretamente e compreender que “se eu encontrar em mim mesmo um desejo que nenhuma experiência neste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é que eu fui feito para outro mundo” (MCGRATH, 2014, p. 31).  Como esclarece McGrath (2014, p. 31):

Uma das razões de Lewis abraçar o cristianismo é que o ajudou    a discernir o sentido da vida. A vida é mais que apenas entender       as coisas: trata-se de ser capaz de lidar com a ambiguidade e a                                       confusão, e de encontrar algo de valor para nos dar direção e sentido.

 

Lewis compreendeu que o Cristianismo tem as respostas para as questões cruciais da vida, entretanto, o caminho da fé cristã não é fácil, ainda que a mensagem da fé cristã seja simples.

 

 

 

 

  1. AS CRÔNICAS DE NÁRNIA

As Crônicas de Nárnia foi publicada entre 1950 a 1956 e reúne sete contos infantis. Nesses contos Lewis tratou sobre algumas peculiaridades fundamentais que abordam além de temas cristãos, aspectos morais, literários e determinadas questões fundamentais da vida (Brown, 2006). Segundo McGrath, Lewis tem a capacidade de explorar surpreendentemente questões filosóficas e teológicas:

As crônicas de Nárnia esclarecem como os seres humanos se veem a        si mesmos, e como enfrentam suas fraquezas e como tentam se tornar      as pessoas que devem ser. Elas tratam da busca de significado e da             virtude, não apenas da busca de explicação e do entendimento. Esse        talvez seja o fator que explica seu forte apelo: as crônicas de Nárnia        falam de escolhas a fazer, de certo e errado, e de desafios a enfrentar.      Todavia, essa visão de benignidade e grandeza não é exposta como          uma argumentação lógica ou raciocinada; é, antes, afirmada e      explorada por meio da narrativa de uma história – uma história que            prende a imaginação (MCGRATH, 2013, p. 284).

Neste mundo imaginativo Lewis conduz o leitor a verdadeiras reflexões como escolhas, desafios, conduta e fé além de despertar o reencanto pelo mundo (MCGRATH, 2013). Nas Crônicas encontramos maravilhosas e autênticas fontes de conhecimento “cheias de verdades escondidas, de mistérios profundos e de tesouros espirituais” (DITCHFIELD, 2003, p. 15).

De acordo com Gabriele Greggersen (2006), mestre e doutora em História e Filosofia da Educação e autora de livros e diversos artigos sobre Lewis no Brasil, a linguagem didática e acessível de seus contos são elementos que têm cooperado significativamente para as ciências humanas como particularmente para a educação. Para Greggersen, por trás da aparente simplicidade das histórias de Lewis existe potencial didático para o ensino de conceitos filosóficos universais e atemporais.

 

 

  1. QUAL A IMPORTÂNCIA DO CONTO DE NÁRNIA PARA HOJE?

Diante da decadência do homem moderno e do  declínio espiritual da civilização ocidental haveria boas razões para ler C.S. Lewis?  O que tem a nos dizer um dos maiores pensadores e apologistas cristãos do século XX?

 

São muitas as razões para ler C.S. Lewis. Seus livros, além de edificantes, exploram a verdade concreta, ajudam o leitor a ponderar o crescimento moral e  possibilitam, por meio de sua compreensão, relacioná-los aos aspectos práticos do cotidiano. Para o professor Ricardo Gouvêa (s/d, s/a), por meio da literatura distintamente cristã, C.S. Lewis oportuniza o cristão a pensar a sua fé, a viver uma vida de oração e inspira os Valores do Reino até mesmo para aqueles leitores hostis ao Cristianismo.

É evidente no mundo moderno o “declínio completo da personalidade humana” (DOOYEWEERD, 2010, p. 242). Não é difícil contemplar homens sem faces, indivíduos mercadorias, corpos dilacerados pela fragmentação do sujeito, cuja vida foi reinsignificada como sendo uma vida de consumo, privada de autonomia, meramente como apêndice na esfera do consumo (Mueller Apud Adorno, 2009). Nessa barbárie, o discurso do homem secularizado é condicionado ao modelo capitalista, cuja ideologia corrobora para a sua coisificação, despersonalização e desumanização.

Refém do sistema, privado do exercício da sua autonomia e envolto em uma atmosfera de incertezas, de anulação de direitos e de ocultação da realidade, o homem ainda precisa enfrentar as forças intangíveis reabsorvidas pelos pixels de sua janela eletrônica que, subordinada aos interesses das elites, da utilidade e do lucro funciona como instrumento de domínio, manipulação e sujeição (MININNI, 2008).  Tal é o terror do espírito do mundo atual que tem aterrorizado o homem. É nesse meio tenobroso, povoado de massas manipuláveis, que “o homem se encontra em estado de condições anormais agora” (SCHAEFFER,  2007, p. 69). E a falta de uma reflexão tem afetado de modo substancial o homem moderno. Como bem disse Postman (Apud STOCMAN, 2006, p. 116) “[…] somos um povo a ponto de nos divertir até a morte”. É preciso urgentemente pensar de modo correto, desenvolver o pensamento crítico porque as consequências da falta de reflexão crítica são inimagináveis, que vão desde a exploração do homem pelo homem à manipulação das massas ocasionando repetições irrefletidas de comportamentos numa verdadeira inteligência de rebanho (Sayão, 2001, p. 6), “uma massa passiva, homens sem consciência” (NUNES, 1986, p. 17). É nessa atmosfera que Schaeffer nos faz um alerta crucial: um alerta para a crise de princípios morais:

Não é que o mundo de hoje só tenha padrões morais falsos – não tem padrões morais em qualquer sentido absoluto.  Pensamos imediatamente em padrões morais sexuais, mas não são só os princípios morais sexuais. É toda a moralidade na vida privada e pública. Os homens modernos, na ausência de absolutos, já poluíram todos os aspectos de moralidade, fazendo padrões completamente hedonistas e relativistas. O mundo já os cobriu com seu próprio vocabulário e chamou isso de ética situacional. Cada situação é julgada subjetivamente sem nenhum absoluto ao qual se possa apelar (SCHAEFFER, 2009, p. 71).

É impostergável que precisamos ser resgatados do fundo desse lamaçal e quebrar as algemas que nos prendem nesse “nocivo encantamento da mundanidade” que […] tem saturado tão profundamente nosso pensamento”  (MCGRATH, 2014, p. 65) e que tem gerado nos corações do homem insatisfação, individualismo, negação da identidade e solidão. Mcgrath, (2013) oferece-nos uma saída vital: cativar a imaginação por meio de narrativas encantadoras é fundamental se quisermos destrancar as portas do progresso moral. Na prática a imaginação oportuniza compreender melhor a realidade na sua completude (GREGGERSEN, 2006). A imaginação é a via que nos oportuniza avivar aquele “misterioso encanto” pelo mundo  (CORTELLA, 2009) e a vislumbrar a possibilidade de transformar a nossa percepção de mundo. Bem disse Filho I. (2010, p. 12) que “A admiração traz consigo a curiosidade: o afã de saber, a busca do sentido da existência e o desejo de comprender o que são as coisas”. A curiosidade nos leva a uma atitude filosófica e a imaginação, ao conhecimento da verdade.

Nessa perspectiva a literatura é um instrumento oportuno, porque possibilita ao leitor, por meio de sua compreensão, dar significado à realidade, visto que, de certo modo, ela tem como pressuposto o ato de empreender a tarefa de explorar a verdade como autênticos mananciais de conhecimento.

Para a educadora Coelho (2012, p. 23), a literatura fantástica, quando considerada além de um simples “entretenimento infantil”, revela-se como um verdadeiro manancial de conhecimento do homem. Nesse sentido, passamos a percebê-las como “portas que abrem para verdades humanas ocultas”. Ainda para Coelho (2012, p. 18) “literatura é o ato de relação do eu com o outro e com o mundo. Os tempos mudam incessantemente, porém, a natureza humana permanece a mesma”. A literatura contribui na construção da estrutura do conhecimento e viabiliza a prática de uma reflexão-ação. Conforme esclarece Anacker:

As histórias mexem com nossa imaginação porque elas tratam de uma coisa que todos nós achamos extremamente interessante a vida: sentido e propósito, como viver, como não viver, como lidar com o sucesso ou o fracasso, qual é a aparência das pessoas boas e das más, e assim por diante. As histórias são reais. Histórias marcantes e emocionantes podem ser construídas com base em quase todas as facetas da vida ambições, compromissos supremos, medos, eventos profundos qualquer coisa que mexa com elementos importantes da vida (ANACKER, 2006, p. 135).

 

Para Anacker (2006) as histórias são fundamentais para a constituição do caráter moral, dentre as quais: (a) levantar questões fundamentais acerca da vida e (b) identificar a imagem das pessoas boas e maldosas. Para Anacker as histórias de Nárnia suscitam a imaginação moral e esse é o ponto chave. A imaginação moral pode ser comparada com uma base maciça sobre a qual podemos firmar os nossos pés no caminhar da nossa vida: nas decisões, nas questões fundamentais da vida e nas nossas ações. Firmados sob essa base concreta podemos caminhar com novos enfoques morais.

Para Coelho (2012, p. 124):

[…] não podemos esquecer que na vida real não existem fadas nem madrinhas que venham realizar por magia aquilo que temos vontade de fazer. Há, na vida, um trabalho a ser realizado, uma luta a ser empreendida por todos nós. E, nesse sentido, a literatura cumpre um papel. Pela imaginação, varinha de condão capaz de revelar o homem a si mesmo, a literatura vai-lhe desvendando mundos que enriquecem seu viver. O objetivo último da literatura é a experiência humana, o convívio com ela. Como diz Lotman, a literatura “ajuda o homem a resolver uma das questões psicológicas mais importantes da vida: a determinação do próprio ser.

As histórias praticamente possibilitam o pensar e com as armas da reflexão somos encorajados a exercitar o nosso “ser filosófico” em busca de uma apreensão significativa a respeito da vida: “como viver, como não viver”. Para McGrath (2014, p. 74 ) “As histórias de Nárnia parecem pueris para alguns mas para outros absolutamente transformadoras”. As histórias nessa perspectiva assume uma valiosa fonte de resgate.

 

 

 

 

  1. ÉTICA DA VIRTUDE: O LEÃO, A FEITICEIRA E O GUARDA-ROUPA

Segundo SAYÃO (2001, p. 52) “a marca do caos manifesta-se no campo da moral. Uma sociedade sem ética torna-se insuportável”. Falar sobre Ética é fundamental, dadas as possibilidades de escolha e a capacidade que o ser humano tem de dispor da liberdade (SAYÃO, 2001). Somos sujeitos morais cuja liberdade, consciência e responsabilidade estão diretamente relacionados com a nossa vida ética e ao escopo das virtudes éticas  (CHAUI, 2012). Somos agentes conscientes capazes de diferenciar nossas ações, atitudes ou motivações e distingui-las entre o certo e o errado, bondade e a maldade e atribuir valores aos nossos atos e comportamentos.

Na maioria das vezes praticamos atos morais, logo, a questão ética faz parte do nosso mundo real: do nosso cotidiano. Ainda que a multiforme e complexa variedade de situações, experiências e circunstâncias da vida confere sentido diferente da existência humana de modo que nem todos expliquem a vida cotidiana da mesma forma. O escritor Robert Banks nos ajuda a compreender alguns aspectos da vida cotidiana, que comumente são caracterizados por:

situações regulares em que nos vemos dia afora ou no decorrer da semana, as responsabilidades em andamento que nós temos, ou as atividades com que nos envolvemos; os problemas que com regularidade solicitam nossa atenção; as pressões mais insistentes que sentimos, as coisas sobre que comumente pensamos e falamos, os desejos, valores e crenças que mais nos moldam a existência (BANKS, 2004, p. 54).

Filho I. (2010,  p. 13) argumenta que “O atrativo da Ética está na distinção entre as ações nobres e as ações vis, em que a primeira nos encantam e as últimas nos causam repulsa. No fundo a Ética se resume a escolher bem e a tomar a decisão certa em cada momento”.

Segundo Anacker (2006, p. 141) existe uma crise na ética que é conhecida pelos filósofos. Uma crise que se propagou a partir do início dos tempos modernos. As teorias éticas apresentadas pelos filósofos cerca de três séculos antes pressupunham que o mais importante que nos compete no âmbito da moralidade são as ações, porém, as teorias fundadas em ações não foram aceitas por unanimidade e nesse ínterim o relativismo e o ceticismo moral ganharam espaço juntamente com outros distúrbios intelectuais. Sendo assim, o pensamento dos filósofos tem sido o de reconsiderar a correlação entre moralidade e as ações. Destarte, muitos filósofos começaram a repensar sobre a relação entre a moralidade e as ações o que fez com que vários deles reconsiderassem a “abordagem moral da Antiguidade e da era medieval quando se presumia que a ética tem como interesse central o caráter e a virtude, não as ações ou os deveres específicos (2006, p. 141)”.

Para Anacker essa forma de tratamento da moralidade é denominada ética da virtude e representa um grande avanço na Filosofia. Cabe destacar que foi o filósofo ateniense Aristóteles que desenvolveu a Ética da Virtude em sua obra Ética a Nicômaco cujo objetivo era orientar seu filho Nicômaco quanto ao modo de agir em sua vida para alcançar a excelência moral e a felicidade (FILHO, G. 2010).

Mas o que é Ética da Virtude? Ética da Virtude, de acordo com o Dicionário de Filosofia de Cambridge (2011, p. 305), são “concepções ou teorias de moral nas quais as virtudes exercem papel principal ou independente. Assim, é mais do que simplesmemente a descrição das virtudes oferecida por determinada teoria”.  Moreland e Crag explica que a ética da virtude:

[…] é teleológica por natureza. O tipo de teleologia (o foco nos objetivos e nos fins) envolvidos na ética da virtude não é semelhante a do utilitarismo. […]  A ética da virtude se concentra no propósito geral da vida em geral, a saber, viver bem e alcançar a excelência e experiência como ser humano. Nesse sentido, a ética da virtude é profundamente ligada ao conceito de vida como um todo e à ética da pessoa. Dada a compreensão do propósito da vida e do desenvolvimento humano ideal, bem como do viver habilidoso que seja parte desse propósito, a ética da virtude é a tentativa de esclarecer a natureza da pessoa boa e como alguém se desenvolve à luz desse conceito tão elevado. Em outras palavras, a ética de virtude objetiva definir e desenvolver a boa pessoa e a boa vida, e as virtudes são traços de caráter que capacitam as pessoas a alcançar a eudemonia ou felicidade, não de bem-estar, de excelência e experiência na vida. (MORELAND E CRAG 2005, p. 555).

Para os filósofos Moreland e Crag (2005, p. 555) a correspondente harmonia entre as concepções da vida moral com o contexto das adequadas potencialidades para o desenvolvimento humano, quais sejam: “o propósito da vida, a boa pessoa, o caráter e a virtude”, justificam a amplidão de partidários dessa teoria ética.

Segundo Duriez (2005, p. 113) “Um elemento principal nas Crônicas é a busca”. No movimento de busca a personagem das histórias de fantasias se põe numa  jornada e é nesse movimento que ele se depara com situações desfavoráveis, contradições, dramas, mas também com provisões, oportunidades, atos de heroísmo e coragem. É aqui, nessa seção, que empreenderemos a nossa jornada em Nárnia com a finalidade de “discernir níveis mais profundos de significado e valor naquilo que já conhecemos” (MCGRATH, 2013, p. 292). Nossas análises serão baseadas nas considerações de Hooft (2013, p.213-220) sobre o que ele entende como “Algumas Virtudes Importantes” com foco na Virtude da Reverência.

Conforme MCGRATH (2014), quando C.S. Lewis escreveu As Crônicas de Nárnia sua intenção era, além de proporcionar o prazer encantador da leitura, também promover uma experiência para o leitor pensar sobre algumas questões importantes acerca da vida. Segundo McGrath a originalidade fundamental das histórias de Nárnia consiste, sobretudo, em permitir que o leitor compreenda e interprete as “narrativas concorrentes” do mundo em que vive. Para McGrath (2014, p. 73) “Lewis queria que entendêssemos que vivemos em um mundo modelado por histórias – por narrativas que nos dizem quem somos e o que realmente importa”. Nesses termos a fantasia de Lewis, longe de ser uma forma de escapismo ou uma literatura alienante, é uma obra que expande a consciência do leitor,  amplia a relação do indivíduo com o mundo, e cria a oportunidade para pensar certo.  Assim, para Filho. B. (2008, p. 26) “A verdadeira fantasia nunca deve ser associada ao escapismo, pois ela não é uma fuga, mas um aprofundamento no mundo real, tanto de seu terror como de sua beleza”.

Conforme Hooft  (2015, p. 213), a virtude da Reverência é:

uma virtude que podemos compreender à luz do conceito aristotélico de “contemplação: a atividade de pensar acerca das coisas eternas exercida por esse aspecto do nosso ser que olha para além das vicissitudes e contingências dessa vida mundana a fim de encontrar significado e compreensão em uma realidade de maior valor.

O mundo é o campo da virtude da reverência. O céu, lá em cima, é a prova de que existem coisas maiores. Deus na Sua providência manifesta a Si mesmo por meio das coisas que criou (Romanos, 1.20). Basta olhar para cima, para o esplendor do céu, para “o firmamento iluminado de estrelas” (PAINE, 2008, p. 49), para sermos inspirados. Segundo Hooft, aqueles que creem contemplam a beleza divina. Tal perspectiva da magnitude das coisas criadas evoca tanto a admiração, quanto a adoração.  Se para alguns as histórias são pueris, para outros “essas histórias evocativas afirmam […] que de fato existe algo lindo e maravilhoso no coração do universo; e que isso pode ser encontrado, aceito e adorado” (MCGRATH, 2014, P. 74). Segundo McGrath (2013, p. 291) em Nárnia isso é muito evidente: os animais falantes como personagens do conto são “em parte um protesto contra as afirmações superficiais do direito da humanidade de fazer o que lhe aprouver com a natureza”, nesse sentido, em Nárnia temos a percepção de quem somos e o que não somos.

Foi a admiração da magnitude da existência que levou Chesterton a reverenciar o universo e as coisas que nele há:

Existe por trás de todas nossas vidas um abismo de luz, mais ofuscante e mais penetrante do que qualquer abismo de escuridão: é o abismo da realidade, da existência, do fato de as coisas realmente existirem, e do de nós mesmos sermos inacreditavelmente, e, às vezes, incredulamente, reais (PAINE apud CHESTERTON,  2008, p. 103).

As aventuras dos irmãos Pevensie começaram na manhã seguinte em que chegaram de Londres para ficarem na casa do professor Digory Kirke, por causa da guerra e dos ataques aéreos. Assim, colocaram-se a explorar a casa, porque não podiam brincar lá fora visto que chovia muito e “da janela, quase não se viam as montanhas, nem os bosques, nem sequer o riacho do quintal” (LEWIS, 2011, p. 104). Num determinado momento os quatros irmãos entraram a expiar uma determinada sala “onde só existia um imenso guarda-roupa, daqueles que têm um espelho na porta (LEWIS, 2011, p. 105)” e uma mosca morta no parapeito da janela. Para Pedro não havia nada ali! Decerto, todos decidiram sair da sala. Todos, menos Lúcia. Lúcia não saiu da sala porque “Para ela, valia a pena tentar abrir a porta do guarda-roupa, mesmo tendo quase certeza de que estava fechada à chave. Ficou admirada ao ver que se abriu facilmente…” (LEWIS, 2011, p. 105).

O sentimento de admiração e apreciação é a virtude da reverência, posto que “A pessoa reverente procura contemplar as coisas que lhe inspiram admiração, ser sensível à beleza e à grandiosidade das coisas…” (HOOFT 2015, p. 215). Lúcia atribuiu beleza ao guarda-roupa. Para ela aquele móvel era um objeto belo que a deixou encantada. De acordo com Éttienne Gilson “Não há oposição entre o útil e o belo, já que é possível que a beleza seja útil – o que em certo sentido, ela sempre é”. Por utilidade compreende-se a funcionalidade do guarda-roupa. Tal apreensão despertou em Lúcia a pretensão de entrar dentro do guarda-roupa: “Lá dentro [Lúcia] viu dependurados compridos casacos de peles. Lúcia gostava muito do cheiro e do contato das peles. Pulou para dentro e se meteu entre os casacos, deixando que eles lhe afagassem o rosto” (LEWIS, 2011, p. 105). A atitude de admiração de Lúcia assinala sua virtude de atitude. Segundo Gilson (2010, p. 28) “o belo se reconhece por ser objeto de admiração. A palavra admirar significa ‘voltar o olhar na direção de’; admiração é a reação espontânea do homem, sensibilidade e inteligência, à percepção de todo o objeto cuja apreensão agrada por si mesma”. Lúcia se entregou àquele sentimento de alegria e de desfrute, como resultado de seus sentimentos adequados. Como assinala Gilson (2010, p. 33) “O prazer do belo ora engendra o desejo, ora o coroa; em todo o caso, a experiência do belo engendra o desejo e se coroa de prazer”.

Quando Lúcia entrou em Nárnia conheceu o Sr. Tumnus, um fauno, e é na relação de amizade entre eles que existe um sentimento harmônico e de afeição. Esse vínculo concorda com Hooft (2015), na medida em que se caracteriza pelo simples regozijo da companhia do outro pontuado por Hooft como “sentimentos de afeição das pessoas reverentes”. Segundo Hooft (2015) para ornamentar nossos relacionamentos é importante que haja o sentimento adequado de apreciação ao outro.

– “Acham que ela está louca? – perguntou, calmamente, o professor. – Podem ficar descansados: basta olhar para ela, ouvi-la um instante para ver que não está louca” (LEWIS, 2011, p. 123).  No diálogo entre o professor e os irmãos Pevensie podemos analisar o que Hooft considera como atitude de virtude o compromisso com a dignidade da pessoa humana em resposta a um julgamento. Nesse sentido, a pessoa reverente considerará a dignidade da pessoa humana, demostrará importância e lhe dará auxílio. Encontramos uma virtude no professor Kirke, a qual Hooft (2015, p. 217-218) assinala como “O conhecimento e julgamento da situação presente”. Durante uma empolgante conversa entre eles o professor foi questionado sobre a possibilidade de existir um outro mundo, e ele respondeu: “É muito provável – disse o professor, tirando os óculos para limpá-los. – Eu gostaria de saber o que estas crianças aprendem na escola! – murmurou para si mesmo (LEWIS, 2011, p. 124). Kirke sabe do que se trata. Ele esteve em Nárnia. Aqui ressalta mais uma vez sua virtude de atitude cuja conduta descreve ao que Hooft denominou “ação do agente em resposta ao julgamento”. Nesse sentido Hooft (2015, p. 217) ajuda-nos a compreender esse conceito quando explica que “o pensamento pragmático e instrumental torna mais difícil para nós vermos o ambiente natural como sendo inerentemente valioso […] é difícil acreditar em entidades para quais não há provas”. Estavam diante de Digory Kirke, “homem de meia idade (um famoso professor dado a viagens)”(LEWIS, 2011, p. 97). Era evidente que o Lúcia esteve em Nárnia: “ – Lógica! – disse o professor para si mesmo. – Por que não ensinam mais lógica nas escolas? (LEWIS, 2011, p. 123). Quando lemos a conversa entre eles, fica evidente o motivo do “protesto” do professor em defesa da Lúcia com base nos argumentos logicamente certos do pensamento.

A Lógica é o organon (instrumento) para distinguir o raciocínio correto do incorreto; a lógica é o instrumento que nos fornece elementos para a avaliar argumentos e é ferramenta fundamental do pensamento e da linguagem, para a realização do conhecimento e do discurso, ou seja, para pensar e falar bem sobre a realidade. De acordo com Sproul (2002, p. 43), a lógica “é ferramenta suprema” e a “razão disso é que a lógica é essencial ao discurso inteligível. O que é ilógico é ininteligível; não só é entendido, mas também não pode ser entendido” Para o professor Kirke […] Só há três possibilidades: ou Lúcia está mentindo; ou está louca; ou está falando a verdade. Ora, vocês sabem que ela não costuma mentir, e é evidente que não está louca. Por isso, enquanto não houver provas em contrário, temos de admitir que está falando a verdade” (LEWIS, 2011, p. 123).

Para Hooft “[…] a forma de julgamento apropriada à reverência é aquela da disponibilidade e da sensibilidade para com o maravilhoso e o numênico. É intuitiva e de mente aberta”. Mente aberta não está distanciado da lógica, pelo contrário, pressupõe análise crítica da realidade contrária à instrumentalização colonizadora do pensamento, estabelecida pelo racionalismo. Para Hooft (2015, p. 218) “a virtude da reverência depende de sermos um tanto quanto menos racionais […]”.

Sobre “os vícios e falhas correspondentes da virtude”, Hooft esclarece:

Os vícios ou falhas correspondentes da virtude da reverência são a ignorância, a insensibilidade, o filistinismo, a grosseria, a crueza, a superficialidade, a falta de cultura, o racionalismo econômico, a insensibilidade, a falta de apreciação, a alienação, o individualismo, o vazio espiritual, a hubris (incluindo aquelas formas de nacionalismo, o que afirmam que ‘Deus está do nosso lado’) e a falta de qualquer senso de importância relativa das coisas (HOOFT, 2015, p. 220).  

Em Edmundo destacam-se: a insensibilidade, a grosseria e o individualismo. Vejamos algumas passagens que denotam essas características: (a) “Decidiu humilhar Lúcia” (b) “Ele, a cada momento se tornava mais maldoso…”, (c) portava-se “como cavalo com os mais novos…” e (d) fingia que não conhecia o bosque.  Cabe destacar o que diz o narrador mais à frente: Não pense que Edmundo era tão ruim a ponto de desejar ver o irmão e as irmãs transformados em estátuas de pedra. O que ele queria simplesmente era comer manjar turco, ser príncipe […] e vingar-se…”. E depois de ser resgatado por Aslam diz que a aparência dele era “bem melhor do que antes. Com uma aparência melhor até do que no tempo em que entrou para a escola e começou a seguir pelo caminho mau. […]” e “foi armado cavaleiro…” (LEWIS, 2011, p. 183). É indispensável destacar que “um vício de um homem é compreendido quando comparado com outro homem, porque enquanto alguns são direcionados pela falta, outros são direcionados pelo excesso” (AQUINO, 2013, p. 75). Mais tarde, Edmundo recebe o título de o justo.

Segundo Duriez (2005, p. 117)

Igualmente ao seu amigo J.R.R Tolkien, Lewis acreditava que narrar histórias é o modo mais natural de exprimir espiritualidade e verdade sobre a natureza da realidade.  […].

[…] Para Lewis (assim como seu amigo J.R.R. Tolkien) o modelo para todas as boas histórias é o tema bíblico da restauração de uma primitiva queda no pecado e perversidade, restauração essa que envolve sacrifícios.

Para finalizar faremos uma breve reflexão sobre Aslam “a alma de toda a série de As Crônicas de Nárnia” (VEITH, 2006, p. 58).

“–  Aslam?! – exclamou o Sr. Castor. – Então não sabem? Aslam é o rei” (LEWIS, 2011, p.137).

Aslam é o verdadeiro rei de Nárnia, o Filho do grande Imperador do Além-Mar. O Rei dos Animais e da Floresta, o grande leão,“que vem botar tudo nos eixos” (LEWIS, 2011, p.137). Com a sua vinda a primavera surgirá e o reinado da Feiticeira sobre Nárnia “sufocante, limitante e escuro” (BROWN, 2006, p. 245) sucumbirá ante o seu glorioso poder.

Aslam simboliza Jesus Cristo que “entra então na criação para tomar o poder do usurpador e restaurar tudo mediante um sacrifício redentor” (MCGRATH, 2013, p. 291, 292). O redentor que trouxe a libertação do homem cativo, pelo seu sacrifício e amor (Veith Apud Schakel, 2005) e devolver ao homem sua imagem e semelhança de Deus.

O Leão de Nárnia é objeto de admiração. O canto criativo do Leão em O Sobrinho do Mago deixa-nos em maravilhosa perplexidade diante do poder e da força do Criador. Aslam inspira admiração e paz (Hooft, 2015, p. 214). O rei de Nárnia inspira-nos ideais de “verdade, justiça e beleza”, faz-nos contemplar as coisas de modo maravilhoso e infunde em nós “atos de grandeza” e sentimentos de alegria. Aslam é o objeto de reverência.

Segundo Brown (  p. 242)

Enquanto Edmundo, prisioneiro da feiticeira, é conduzido mais e mais pelo meio da lama, Nárnia, em contraste, é libertada da prisão da feiticeira e vai do degelo para a plena primavera. O nevoeiro “de branco passou a dourado” e abre caminho para que o céu azul olhe “entre as copas das árvores” (119). Um passarinho sozinho chilreia, outro responde mais adiante, e logo há “música da passarada” de todas as direções (119). Os malmequeres substituem os flocos de neve. Por fim, abetos, carvalhos, faias e olmos, todas as árvores “voltam à vida” (120).

 

Nárnia e os narnianos são os beneficiários da virtude de Aslam. Aslam é aquele que preserva, cuida e protege. É Aslam quem restaura, recupera e cura. É o Grande Leão que liberta e resgata. É o Rei que traz de volta a vida!

“[…] um sol muito puro clareou a escuridão,

e o mundo por um instante transformou-se”.

(AKHMÁTOVA, 2008, p. 117)

Por fim, Hooft (2015, p. 219) nos diz sobre a “significância moral da virtude”.

A avaliação objetiva e imparcial da virtude da reverência não produz resultados claros. Não é tão fácil dizer por que nós aprovamos moralmente a reverência quanto o é dizer porque aprovamos moralmente a honestidade, por exemplo. Nós de fato a admiramos, embora talvez mais frequentemente menosprezemos a sua ausência, mas é difícil dizer por quê. Talvez a necessidade de se ter a virtude a fim de se ver por que se deveria tê-la. Se você for um racionalista instrumental e desencantado, poderá considerar o numênico uma tolice e tanto. Você poderá pensar que os valores transcendentes são meramente produtos de ideologias, que a arte e os patrimônios históricos são simplesmente recursos a serem explorados pela indústria turística, que a religião é o ópio das massas, o ambiente natural é uma pedreira a ser minada pelo lucro, que as outras pessoas são recursos humanos, que os idosos são um problema de saúde, e que o silêncio é nada mais do que uma pausa do trabalho. Essas visões não são imorais enquanto tais. Elas não envolvem injustiça óbvia (embora possam levar à exploração), mas são tão terrívelmente empobrecidas, e um mundo baseado nelas seria desumano. Assim, a virtude da reverência deveria ser moralmente aprovada.

 

 

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A literatura de Lewis viabiliza a prática de uma reflexão-ação. Oportuniza ao leitor a diligência a que Greggersen (2010, s/p) classifica como a busca de algo “que vai além da letra morta”, uma busca que o leva aos mananciais de conhecimento.  Uma busca que o convida a ir além, a transcender os condicionamentos, barreiras e estereótipos.  Semelhante ao homem que contempla um fragmento de um mapa anexado num quadro e questiona sobre as bandas para além daquelas limitações.             É isso que    C. S. Lewis faz: nos impulsiona a avultar a nossa perspectiva de reflexão e divisar a natureza da literatura como possibilidade e instrumento de um pensar questionador crítico e significativo. Decerto, pensar é não se deixar estagnar; é um movimento que conduz nas trilhas de uma profunda reflexão e ponderação. E é disso que precisamos: de homens e mulheres que pensem nas questões sérias da vida e da sociedade e que assumam um posicionamento crítico e reflexivo em nossos dias.

Se de acordo com Bezzerra (2013, p. V)  [..]“ a maior vitalidade de uma obra se mede por sua capacidade de ampliar-se na recepção e por sua duração no tempo”, As Crônicas de Nárnia demostra sua força, dimensão e magnitude pela evidência de sua propagação, aceitação e permanência, haja vista o número de leitores apaixonados pela obra que cresce a cada ano, as extraordinárias produções cinematográficas sobre os contos e sua notória receptividade, conforme aponta Greggersen (2010), em organizações educacionais como uma obra de leitura obrigatória em vários cursos de instituições de ensino nos Estados Unidos e indicada para fazer parte do currículo de algumas escolas e universidades. Enfim, As Crônicas de Nárnia são uma boa história que transforma o leitor e renova a sua mente.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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Porque amanhã vamos nos encontrar

Vou-me embora para Nárnia

(paráfrase em Manuel Bandeira).

Vou-me embora para Nárnia,
Lá sou amigo de aslam
Lá Aslam é o justo Rei.
Lá terei a casa que quero
Nas terras férteis que escolherei.

Vou-me embora pra Nárnia,
Aqui não sou feliz.
Lá a existência é eterna
É uma alegria permanente.
Cultivarei belos jardins,
Viverei sempre contente
Montarei em cavalos alados
E pelo céu eu voarei.
Tomarei banho de rio,
Grandes peixes pescarei.
Vou me embora para Nárnia.
Lá sou amigo de Aslam
Lá, Aslam é o grande Rei.

Vou-me embora para Nárnia
E nas tardes calma
Com a alma cheia de luz,
Na grande mesa sentarei
E radiante de alegria
histórias para todos contarei.

Lá em Nárnia há pão para todos.
Em Nárnia Aslam é o Rei.
Vou-me embora para Nárnia,
Foi Aslam quem me chamou
Não posso recusar o convite
Daquele que um dia me salvou.
Vou-me embora para Nárnia .
Lá sou amigo do Eterno Rei
E diante do seu trono
coroado de alegria
eu me prostrarei!
Vou-me embora para Nárnia .

Zeferino Alvaro de Andrade