por Cleber Oliveira

As Crônicas de Nárnia foram publicadas entre 1950 a 1956 e reúnem sete contos infantis. Nesses contos Lewis tratou sobre algumas peculiaridades fundamentais que abordam além de temas cristãos, aspectos morais, literários e determinadas questões fundamentais da vida (Brown, 2006). Segundo McGrath, além de algumas pecularidades a cerca da vivência, elas tratam da virtude, não apenas da busca de explicação e do entendimento. Esse talvez seja o fator que explica seu forte apelo: elas  falam de escolhas a fazer, de certo e errado, e de desafios a enfrentar. Todavia, essa visão de benignidade e grandeza não é exposta como uma argumentação lógica ou raciocinada; é, antes, afirmada e explorada por meio da narrativa de uma história – uma história que prende a imaginação (MCGRATH, 2013, p. 284).

Neste mundo imaginativo Lewis conduz o leitor a refletir sobre escolhas, desafios, conduta e fé (MCGRATH, 2013). Para Ditchfield (2003, p. 15) existem “[…] verdades escondidas, mistérios profundos e tesouros espirituais”. Conforme Gabriele Greggersen (2006), autora de livros e diversos artigos sobre Lewis no Brasil, a linguagem didática e acessível de seus contos são elementos que têm cooperado significativamente para as ciências humanas como particularmente para a educação.

O CONTO DE NÁRNIA PARA HOJE

Para o professor Ricardo Gouvêa (s/d, s/a), por meio da literatura distintamente cristã, C.S. Lewis oportuniza o cristão a pensar a sua fé e os valores do Reino até mesmo para aqueles leitores hostis à fé cristã. Na percepção de Greggersen (2006) a imaginação oportuniza compreender melhor a realidade na sua completude. Já Anacker enfatiza que:

As histórias mexem com nossa imaginação porque elas tratam de uma coisa que todos nós achamos extremamente interessante  –  a vida: sentido e propósito, como viver, como não viver, como lidar com o sucesso ou o fracasso, qual é a aparência das pessoas boas e das más, e assim por diante (ANACKER, 2006, p. 135).

 

Nelly Novaes Coelho (2012, p. 124) deixa claro que:

[…] não podemos esquecer que na vida real não existem fadas nem madrinhas que venham realizar por magia aquilo que temos vontade de fazer. Há, na vida, um trabalho a ser realizado, uma luta a ser empreendida por todos nós. E, nesse sentido, a literatura cumpre um papel. Pela imaginação, varinha de condão capaz de revelar o homem a si mesmo, a literatura vai-lhe desvendando mundos que enriquecem seu viver.

 

VIRTUDE EM NÁRNIA

O que é transformador em Nárnia é a sua ética das virtudes. Não é para menos que a pergunta típica do final de um conto de fadas é: “Qual é a moral da história?” E as Crônicas de Nárnia são típicos contos de fada nesse sentido. Todas as crianças desenvolvem seus potenciais para se tornarem adultos virtuosos. De crianças que tinham seus defeitos nessas mesmas áreas, Pedro passou a ser chamado de “o magnífico”; Susana, “ a gentil”; Edmundo, “o justo”; e Lúcia, “a destemida”. E nisso elas são também muito atuais. Sayão destaca a crise moral que enfrentamos hoje e suas consequências (SAYÃO, 2001, p. 52): “a marca do caos manifesta-se no campo da moral. Uma sociedade sem ética torna-se insuportável”. Somos agentes conscientes capazes de diferenciar nossas ações, atitudes ou motivações e distingui-las entre o certo e o errado, bondade e a maldade e atribuir valores aos nossos atos e comportamentos. É na vida cotidiana que desenvolvemos as habilidades necessárias para a tomada de decisões. De acordo com o escritor Robert Banks a vida cotidiana é comumente caracterizada por:

[..] situações regulares em que nos vemos dia afora ou no decorrer da semana, as responsabilidades em andamento que nós temos, ou as atividades com que nos envolvemos; os problemas que com regularidade solicitam nossa atenção; as pressões mais insistentes que sentimos, as coisas sobre que comumente pensamos e falamos, os desejos, valores e crenças que mais nos moldam a existência (BANKS, 2004, p. 54).

E é no cotidiano que as crianças e seres narnianos desenvolvem as suas qualidades morais e valores transcendentes, ou seja, aqueles que vão além do aqui e agora, como preconiza a ética das virtudes. Moreland e Crag explicam que a ética da virtude:

[…] é teleológica por natureza. O tipo de teleologia (o foco nos objetivos e nos fins) envolvidos na ética da virtude não é semelhante a do utilitarismo. […]  A ética da virtude se concentra no propósito geral da vida em geral, a saber, viver bem e alcançar a excelência e experiência como ser humano.

 

 

TEMA BÍBLICO DA RESTAURAÇÃO EM NÁRNIA

O céu, lá em cima, é a prova de que existem coisas maiores. Deus na Sua providência manifesta a Si mesmo por meio das coisas que criou (Romanos, 1.20). Basta olhar para cima, para o esplendor do céu, para o firmamento iluminado de estrelas para sermos inspirados. Tal perspectiva da magnitude das coisas criadas evoca tanto a admiração, quanto a adoração. Se para alguns as histórias são pueris, para outros “essas histórias evocativas afirmam […] que de fato existe algo lindo e maravilhoso no coração do universo; e que isso pode ser encontrado, aceito e adorado”  (MCGRATH, 2014, P. 74).

Em Nárnia isso é muito claro: os animais falantes como personagens do conto são “em parte um protesto contra as afirmações superficiais do direito da humanidade de fazer o que lhe aprouver com a natureza” (McGrath, 2013, p. 291). Isso se aplica a toda a natureza, mas particularmente à natureza humana, que o homem tem o dever de conhecer. “Conhece-te a ti mesmo” já era uma ordem conhecida nos tempos de Sócrates. E em,  assim, em Nárnia temos a percepção de quem somos e o que não somos. E que precisamos de redenção, da mesma forma que a natureza precisa. De acordo com McGrath, as opiniões sobre as Crônicas se dividem (2014, p. 74 ): “As histórias de Nárnia parecem pueris para alguns, mas para outros absolutamente transformadoras”.

C.S. Lewis acreditava, assim como seu amigo J.R.R. Tolkien, que narrar histórias é o modo mais natural de exprimir espiritualidade e verdade sobre a natureza da realidade (DURIEZ, 2005, p. 117), e que o modelo para todas as boas histórias é o tema bíblico da restauração. Nesse sentido, Aslam, o verdadeiro rei de Nárnia, o filho do grande Imperador do Além-Mar, o Rei dos Animais e da Floresta, o grande leão,“que vem botar tudo nos eixos” (LEWIS, 2011, p.137), aponta para Jesus Cristo, Yeshua HaMashiach (Jesus, o Messias), O REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES (Apocalipse, 19:16) que “entra então na criação para tomar o poder do usurpador e restaurar tudo mediante o sacrifício redentor” (MCGRATH, 2013, p. 291, 292). Ele é o Eterno Filho do Deus Eterno. Ele é o Verdadeiro Redentor, “a saber, verdadeira luz, que vinda ao mundo, ilumina a todo homem” (João 1:9). Pelo seu sacrifício na cruz do Calvário Jesus Cristo veio libertar o homem cativo e devolver ao homem sua imagem e semelhança de Deus. Assim como em Nárnia os narnianos são os beneficiários da virtude de Aslam que preserva, cuida e protege, e faz-nos contemplar as coisas de modo maravilhoso, infundindo em nós “atos de grandeza” e sentimentos de alegria, no Filho de Deus, o Leão da Tribo de Judá, a Raiz de Davi (Apocalipse 5:5), o homem encontra, por meio do arrependimento e da fé em Jesus Cristo (Atos 20.21), a Salvação, a Restauração, a Libertação, a Alegria, a Esperança, a Cura, a Verdadeira Paz e Felicidade: “Uma vida ressucitada, o perdão, a justiça e a aceitação” (Bob Geoge). Jesus é o Verdadeiro Senhor e Rei da Criação! Jesus é o pão da vida! Jesus é o pão vivo que desceu do céu! (João 6:22-59) e que promete a Vida Eterna a todo aquele que crê nEle! (Romanos 6:23).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A literatura de Lewis oportuniza ao leitor a diligência a que Greggersen (2010, s/p) classifica como a busca de algo “que vai além da letra morta”. Há, na vida, um trabalho a ser realizado, uma luta a ser empreendida por todos nós. Nesse sentido, a boa literatura tem um papel importante e As Crônicas de Nárnia tem demonstrado por meio da evidente propagação, aceitação e permanência sua relevância na literatura universal.

Soli Deo Glória!

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANACKER, Gayne J. In: BASHRAM, Gregory e WALL, J. L. [editores] As Crônicas de Nárnia e a Filosofia: O Leão, a Feiteira e a visão do mundo. São Paulo:  Masdras, 2006, p.

BANKS, Robert. A Teologia nossa de cada dia: aplicando os princípios teológicos no cotidiano. Trad. Alípio Correia de F. Neto e Sandra M. Franca. São Paulo,  Editora Vida, 2004.

BÍBLIA SHEDD. Traduzida por João Ferreira de Almeida. – 2. Ed. rev. E atual. No Brasil, – São Paulo: Vida Nova; Brasília: Sociedade Bíblica do Brasil, 1997.

BROWN, Devin. Os Bastidores de Nárnia: Um guia para explorar O Leão, a feiticeira e o guarda-roupa. Trad. Maria Helena Aranha.São Paulo: Hagnos, 2006.

COELHO, Nelly Novaes. O conto de fadas: símbolos – mitos – arquétipos. São Paulo: Paulinas, 2012.

CRAIG, W. L. e MORELAND, J. P. Filosofia e Cosmovisão Cristã. São Paulo: Vida Nova, 2005.

DITCHFIELD, Christin. Descubra Nárnia: Verdades em: As Crônicas de Nárnia de C.S. Lewis. Curitiba: Publicações RBC, 2003.

DURIEZ, Colin. Manual Prático de Nárnia. Trad. Celso R. Paschoa. Osasco, SP: Novo Século Editora, 2005.

FILHO, Glauco Magalhães. Lições das Crônicas de Nárnia. São Paulo: Abba Press Editora e Divulgadora Cultural Ltda, 2008.

FILHO, Ives Gandra Martins. Ética e Ficção: de Aristóteles a Tolkien. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010, p. 13.

Érico Nogueira. – São Paulo: É Realizações, 2010 .

GOUVÊA, Ricardo Quadros. Um convite para ler Lewis.

GREGGERSEN, Gabriele. Pedagogia Cristã na obra de C.S. Lewis. São Paulo: Editora Vida, 2006.

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JACOBS, Alan. In: MACSWAIN, Robert e WARD, Michael. Além do Universo Mágico de Nárnia. Trad. Jeferson Camargo. São Paulo: Martins Fontes – selo Martins, 2015.

LEWIS, C.S. As Crônicas de Nárnia. Trad. Paulo Mendes Campos. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

MACGRATH, Alister. A vida de C.S. Lewis: do ateísmo às terras de Nárnia. Traduzido por Almiro Pisetta. São Paulo, Editora Mundo Cristão, 2013.

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MUELLER, Ênio R. Filosofia à sombra de Auschwitz. Um dueto com Adorno. São Leopoldo : Sinodal/EST, 2009.

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VEITH, G.E. A Alma de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa. Rio de Janeiro: Habacuc, 2006.

 

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