sombra_e_gua_fresca

Acho que a aposentadoria não chega às pessoas do mesmo modo. Seja por conta da situação delas, antes de se aposentar (profissão, hobbies, família, amigos, clube, igreja etc.), seja por sua personalidade.

Muitos jamais poderão se aposentar, chegada a idade legal, por causa do valor da pensão a que terão direito. Sem falar no famigerado “fator previdenciário” e nas reduções da pensão, ao longo do tempo. A legislação brasileira é cruel com os idosos.

Outros, terão uma passagem menos drástica, por conta da profissão que exerciam. Paul Tournier (cujo livro É Preciso Saber Envelhecer tem inspirado estes textos), que era médico e psiquiatra, continuou a fazer o que gostava; apenas com uma redução de carga. Há, também, aqueles que investiram em um plano de complementação de aposentadoria, sejam servidores públicos ou da iniciativa privada. Esses poderão parar, sem grandes perdas salariais.

Alguns esportistas conseguirão se transformar em técnicos, professores ou “cartolas”, em sua área. Outros, profissionais liberais ou autônomos, não terão esse marco de tempo muito rígido. Mas restará, ainda, um grande contingente que, uma vez vencidas as prorrogações, se verão, finalmente, na situação de parar definitivamente, a atividade formal ou profissional.

Com uma personalidade “orientada por objetivos”, as vontades e os sonhos nunca tiveram muita atenção em minha vida. Eram os embates imediatos e os projetos que contavam. Isso faz da pessoa uma realizadora, se consegue conduzir bem essas lutas.

Agora que voltou ao Éden, e sendo perguntado pelo Senhor o que vai fazer dele, as dificuldades resultantes dessa configuração de personalidade aparecem.

— O que você deseja fazer, daqui em diante? — pergunta o Senhor.

— O que há para fazer? Quais são as opções? — respondo, fugindo do verbo “desejar”, sempre problemático a quem foi soldado a vida toda.

— Qualquer coisa. Você é livre para escolher o que mais desejar. Agora poderá realizar seus sonhos.

— Desejar? como assim? Sonhos?

Diante da dificuldade, pode surgir a solução de continuar a fazer o que fazia antes. Entretanto, também não é tão simples. Tem o lance da motivação. Antes, na batalha pela vida; na busca por sustento, realização, segurança e significado, sucesso, reconhecimento, sei lá, havia coisas a realizar, sacrifícios a enfrentar, investimentos de curto e longo prazo, avaliações de utilidade, pertinência e custo/benefício ligados ao que se fosse empreender. A motivação estava meio que embutida na necessidade. Mas e agora, no Éden, onde o “não fazer nada” é possível? Será desejável? Seria bom?

Conheci alguns colegas de trabalho que sonharam a vida toda com uma casinha na praia. Uma vila de pescadores, sossego e nada mais. Dois deles voltaram com menos de um ano. Com prejuízos bem grandes. Disseram que é uma ilusão; as coisas não são bem assim; no final, a realidade é bem mais difícil e menos romântica.

Parece que agora precisaremos de novas razões para fazer as coisas. Por exemplo: quando resolvi aprender uma nova língua, havia toda uma gama de utilidades ligadas a isso: valorização do currículo profissional, carreira, salário, promoções, novas oportunidades de emprego ou negócios etc. E hoje? Por que motivo eu me lançaria a aprender uma nova língua?

Talvez por conta da parte do aprimoramento pessoal? Ou pelo simples prazer de aprender? Talvez para viabilizar viagens ao exterior? Sem falar na pergunta utilitária, agora acrescida de dramaticidade: isso é o melhor que posso conceber para ocupar este último tempo de vida que me é dado? Sim, tudo o que se pensa nesse momento, tem um quê de “o que você faria se soubesse que vai morrer daqui a uma semana?”. Agora, você não pode mais errar. Ou não?

Exemplifico ainda com o simples ato de ler um bom livro. Nunca gostei muito de ler (sim, é verdade). Mas li bastante porque precisava. Precisava do resultado da leitura. Não há meio melhor de aprender e saber. E o saber acaba desembocando em salário, em relações sociais e até em identidade pessoal. Tudo muito prático, muito ligado a segurança e sobrevivência. Entretanto, agora que, em grande parte, não dependo mais desses mecanismos de segurança financeira e social, por que continuaria a ler livros técnicos ou científicos, mesmo dentro de minha antiga área profissional? Então, passei a adotar uma máxima que aprendi recentemente: “livro é como namorado: se começar a dar muito trabalho, fecha e sai para outro”.

Imagine que eu tenha sido, de fato, orientado por objetivos. Mas que, ao mesmo tempo, tenha sido motivado por aqueles objetivos que poderiam me render os melhores benefícios. Essa motivação terá sido reforçada ao longo de toda a minha vida profissional pela necessidade de apresentar resultados. A mim mesmo (pelas gratificações psicológicas  e funcionais das realizações) e aos meus “clientes”, sejam eles o chefe, a esposa, a família, ou o pastor. Entretanto, agora, no Éden, sou confrontado pela consciência de que não preciso mais fazer essas coisas. Mas então, o que farei? Será que terei que enfrentar a pergunta sobre o que desejo, sobre meus sonhos? Tudo para evitar que o mato cresça na minha parte do jardim?

O fato é que os fatores de motivação precisam mudar. Já mudaram, em parte, porque alguns antigos fatores já não movem mais o moinho, como as missões que meu chefe me passava. É preciso encontrar novas inspirações e novos desafios. Essa é uma situação de quem consegue se aposentar cedo, ainda com energias. Inspirações que me inspirem e desafios que me desafiem, bem entendido. Senão, nada feito. E o “pijama assassino” está à espreita.

Bem, sei que isso é muito pessoal. Quase incomunicável. Como dormir com um barulho desses? Para pensar.

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