Capítulo 29:

E Jó continuou a sua fala e disse:

“Ah! Se eu pudesse voltar meses atrás, para os dias em que Deus me protegia! Naquele tempo, Deus iluminava o meu caminho, e com a sua luz eu podia andar na escuridão. Naqueles dias, eu estava bem de vida, e a amizade de Deus era a proteção do meu lar. O Todo-Poderoso estava comigo, e os meus filhos viviam ao meu redor.
Em casa sempre havia leite à vontade e também azeite, tirado das oliveiras plantadas entre as pedras. Quando eu saía para a reunião do tribunal e me assentava entre os juízes, os moços me viam e abriam passagem, e os idosos se punham de pé. As pessoas mais importantes paravam de falar e ficavam em silêncio. As autoridades se calavam; não diziam mais nada.

“Quem me ouvia falar me dava parabéns; os que me viam falavam bem de mim, pois eu ajudava os pobres que pediam ajuda e cuidava dos órfãos que não tinham quem os protegesse. Pessoas que estavam na miséria me abençoavam, e as viúvas se alegravam com o meu auxílio. A minha justiça e a minha honestidade faziam parte de mim; eram como a roupa que eu uso todos os dias. Eu era olhos para os cegos e pés para os aleijados.
Era pai dos pobres e defensor dos direitos dos estrangeiros. Eu acabava com o poder dos exploradores e livrava das suas garras as vítimas.

“Eu pensava assim:

‘Vou viver uma vida longa e morrer em casa, com todo o conforto. Serei como uma árvore de raízes que chegam até a água, uma árvore que todas as noites é molhada pelo orvalho. Todos só falarão bem de mim, e eu serei sempre vigoroso e forte.’

Todas as pessoas me davam atenção e em silêncio escutavam os meus conselhos. Quando acabava de falar, ninguém discordava. As minhas palavras entravam na cabeça deles como se fossem gotas de água na areia. Todos as esperavam ansiosos, como se espera a chuva no tempo de calor. Eu sorria para aqueles que tinham perdido a esperança; o meu rosto alegre lhes dava coragem. Eu era como um chefe, decidindo o que eles deviam fazer; eu os dirigia como um rei à frente do seu exército e os consolava nas horas de aflição.

Capítulo 30:

“Mas agora homens mais moços do que eu zombam de mim. Os pais deles não valem nada; eu não poria essa gente nem com os cachorros que cuidam do meu rebanho. De que me serviria a força dos seus braços? São homens magros, enfraquecidos de tanto passar fome e miséria. À noite, na solidão de lugares desertos, eles têm de roer raízes secas. Pegam ervas e cascas de árvores e se alimentam de raízes que não servem para comer. São expulsos do meio das pessoas, que os espantam, aos gritos, como se eles fossem ladrões. Têm de morar em barrancos medonhos, em cavernas ou nas rochas. Uivam no meio das moitas e se ajuntam debaixo dos espinheiros.
Raça inútil, gente sem nome, são enxotados do país.

“Mas agora essa gente vem e zomba de mim; para eles eu não passo de uma piada. Sentem nojo de mim e se afastam e chegam até a me cuspir na cara. Deus me enfraqueceu e me humilhou, e por isso, furiosos, eles se viram contra mim. Essa raça de gente ruim me ataca, me faz correr e procura acabar comigo. Eles não deixam que eu fuja, procuram me destruir, e ninguém os faz parar. Entram por uma brecha da muralha e no meio das ruínas se jogam contra mim. Eu fico apavorado. A minha honra foi como que varrida para longe pelo vento; a minha prosperidade passou como se fosse uma nuvem.

“Agora já não tenho vontade de viver; o desespero tomou conta de mim. De noite os ossos me doem muito; a dor que me atormenta não pára. Deus me agarrou pela garganta com tanta violência, que desarrumou a minha roupa.
Ele me atirou na lama; eu não valho mais do que o pó ou a cinza. “Ó Deus, eu clamo pedindo a tua ajuda, e não me respondes; eu oro a ti, e não te importas comigo. Tu me tratas com crueldade e me persegues com todo o teu poder.
Fazes com que o vento me carregue e numa tempestade violenta me jogas de um lado para outro. Bem sei que me levarás à Terra da Morte, o lugar de encontro marcado para todos os vivos. Por que atacas um homem arruinado, que não pode fazer nada, a não ser pedir piedade? Por acaso, não chorei com as pessoas aflitas? Será que não tive pena dos pobres? Eu esperava a felicidade, e veio a desgraça; eu aguardava a luz, e chegou a escuridão.

“O meu coração está agitado e não descansa; só tenho vivido dias de aflição. Levo uma vida triste, como um dia sem sol; eu me levanto diante de todos e peço ajuda. A minha voz é um gemido triste, como os uivos do lobo ou os gritos do avestruz. A minha pele está ficando preta, e o meu corpo queima de febre. (NTLH)

Reflexão

Sim, a passagem hoje foi longa: dois capítulos inteiros. Por isso, vou ser breve nesta reflexão…

Como pastor eu preciso ouvir as pessoas. Eu sou uma pessoa naturalmente impaciente. Portanto, eu precisava aprender, ao longo dos anos, a ser paciente e ouvir. Não é fácil e continuo na aprendizagem. Bastam os meus próprios desafios e dificuldades…

Noutro dia, eu precisava exercer novamente o dom de ouvir. A pessoa perto de mim estava mais que esgotada. Estava desistindo da fé. Tudo parecia uma farça justamente porque, para ela, não “funcionou”, ou seja, ela continuava infeliz e se sentia oprimida. Pior, tudo isto dentro dum contexto público de reunião de oração. Ouvimos, oramos, ousamos alguma palavrinha mas a sua reação permaneceu, o que parecia “atrapalhar a paz” dos outros participantes. Eu não tinha uma boa resposta para a pessoa e acredito que a pessoa nem queria…

Esta é a sensação que tive novamente quando li os dois capítulos acima de Jó (se bem que Jó deixava claro que, apesar de tudo, inclusive toda a sua chateação bem explícita, ele não estava desistindo da sua fé). Os dois capítulos pertencem um ao outro e precisam ser lidos juntos. Não há alterativa. Para esta leitura é necessário fazer algo que, como crentes, somos pouco acostumados a fazer: ouvir (neste caso, ler) com paciência. Responder o quê? Não sei. Talvez na hora certa o Espírito Santo de Deus sopre alguma palavra de sabedoria para repassar mas por enquanto é necessário só ouvir e assimilar a sóbria verdade que a vida cristã se faz de grandes alegrias e profundas tristezas e decepções. Creremos somente nos bons momentos?

Oração

Querido e majestoso Pai. Graças te damos pelas alegrias que traz nas nossas vidas. Independentemente das circunstâncias te louvamos como Deus, Criador, Pai, e Consolador. Mantenhas-nos próximo de ti. Em nome de Jesus. Amém

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