Por Heber Negrão

 

P10_26_08_15_hands-color freeimagesHá algum tempo atrás escrevi um texto falando sobre os quatro papéis essenciais da igreja: querigma, diaconia, martiria e coinonia. Naquele texto vimos que o querigma é a pregação verbal do Evangelho de que Jesus Cristo é o Senhor de todos. Também tratei sobre a diaconia, mostrando que a igreja deve ter uma vida de serviço para o mundo.

Nesta série de artigos vou aprofundar ainda mais no tema da diaconia, explicando como o serviço cristão está estreitamente relacionado ao mandado missionário da igreja. Quero mostrar pelas Sagradas Escrituras e exemplificar com o nosso ministério transcultural que o trabalho missionário não é exclusivamente a pregação verbal do Evangelho, mas também sua demonstração em forma de serviço. Este serviço exerce o importante papel de demonstrar o amor de Deus para os povos não alcançados. Mais importante, no entanto, é entender que o serviço cristão é uma ordenança bíblica.

Vamos ao primeiro artigo de uma série de três.

 

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O serviço cristão é um mandamento bíblico

“Assim como me enviaste ao mundo, eu os enviei ao mundo.” (Jo 17.18). Em sua oração sacerdotal, o Senhor Jesus destaca o modelo de missão que a sua igreja deve seguir: ele mesmo. E depois da sua ressurreição, novamente ele se colocou como paradigma da missão do seu povo: “Paz seja com vocês! Assim como o Pai me enviou, eu os envio” (Jo 20.21). Essa “Grande Comissão” do evangelho de João parece ter passado despercebida, não obstante ela nos mostrar nossa principal referência de missão cristã. Citando John Stott:

Nessas duas sentenças, Jesus faz mais do que traçar um paralelo vago entre sua missão e a nossa. Precisa e deliberadamente, ele fez de sua missão um modelo para a nossa (…). Portanto, nossa compreensão da missão da igreja deve ser deduzida da nossa compreensão da missão do Filho.1

A pergunta que fica é: de que forma o Filho foi enviado pelo Pai? Marcos nos ajuda a respondê-la: “Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10.45). Aqui o evangelista une o conceito de Filho do Homem, um ser exaltado e poderoso apresentado pelo profeta Daniel (Dn 7.13), ao conceito de “Servo Sofredor” apresentado por Isaías (Is 53). Marcos identifica Jesus como o Filho do Homem, que haverá de ser exaltado, mas que primeiramente precisa passar pelo sofrimento e pelo serviço. Antes de tudo, Jesus Cristo foi enviado ao mundo como servo.

Em sua belíssima canção da “kenosis” Paulo canta: “esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens” (Fp 2.7). É exatamente dessa forma que a igreja é enviada ao mundo. Nós estamos aqui para servir aos outros. No início de sua canção, Paulo nos convoca a isso, a ter a mesma atitude de Cristo Jesus.

Pensando no Evangelho que Deus pré-anunciou a Abraão (Gl 3.8), lembramos que somos chamados para ser um povo abençoador assim como Abraão, nosso pai na fé, o foi. Por estarmos em Cristo somos descendentes espirituais de Abraão e herdamos seus mandatos espirituais (Gl 3.29). Assim, somos chamados a ser bênção para os povos da terra. Christopher Wright nos ajuda a entender como isso deve acontecer:

Horizontalmente, o elemento relacional da bênção alcança aqueles que estão ao redor. Gênesis tem vários exemplos de outras pessoas sendo abençoadas mediante o contato com aqueles a quem Deus abençoou. (…) Se vemos a nós mesmos como aqueles que entraram na bênção de Abraão pela fé em Cristo, a comissão abraâmica também se torna a nossa: ‘Seja uma bênção’.2

O que podemos ver por estes textos bíblicos e que Stott e Wright nos ajudam a compreender é que nosso serviço cristão no mundo deve ser tanto um cumprimento da ordenança bíblica quanto uma extensão das bênçãos que recebemos de Deus.

Nossa equipe missionária entre o povo Tembé é composta de quatro pessoas: Aurélio, Letícia, Sophia (minha esposa) e eu. Nós trabalhamos com um povo que tem certo acesso à cultura envolvente, mas que ainda quer manter suas tradições. Já houve uma equipe de missionários trabalhando entre eles no passado e chegaram, inclusive, a traduzir o Novo Testamento para a língua do povo. Falei um pouco sobre a festa de dedicação do Novo Testamento num dos primeiros textos que escrevi aqui para o blog do Paralelo 10.

Na aldeia que trabalhamos ainda não há uma igreja formada. Na verdade, esse é o grande alvo que estabelecemos para o nosso ministério ali: ver uma igreja genuinamente indígena edificada pelo uso das Escrituras em sua língua materna. Para tanto, nossa principal ferramenta de evangelização, discipulado e plantação de igreja será a porção das Escrituras traduzidas.

Desde as primeiras conversas com a liderança do povo mostramos que o nosso intuito é assisti-los em suas necessidades – vamos desenvolver projetos na área de alfabetização de adultos, saúde, sociolinguística, etnomusicologia. Temos em mente que nosso alvo entre os Tembé é de servi-los. Identificamos essas áreas como pontos em que podemos atuar para que eles tenham um bom desenvolvimento comunitário e cultural.

No entanto, como missionários que somos, explicamos que também queremos ensinar Tupan Ze’eg (“a fala de Deus”, é como eles se referem à Bíblia). Se houver qualquer mudança entre eles, ela será gerada por causa da compreensão da verdade do Evangelho através da ação do Espírito Santo. Por isso desde agora, no início do ministério, nós apontamos para as Escrituras dando-lhe a devida importância para tratar de assuntos da nossa vida diária junto ao povo. Já temos sido abordados por eles com perguntas de vários tipos e nossa resposta sempre tem sido orientada pela Bíblia para eles verem que ela é um livro real e que faz diferença na vida daqueles que a seguem.

Em conversa com um indígena, o nosso colega Aurélio deu uma declaração que daria uma excelente tese apologética. Vou tentar explanar aqui. Ao ser questionado sobre nossa motivação para trabalharmos naquela aldeia, ele disse que nós só fazemos isso porque está escrito na Bíblia que devemos fazer. Deus deu uma ordem a todas as pessoas que pertencem a Ele que preguem o Evangelho, sirvam e amem as pessoas. Ele concluiu dizendo que nós não podemos apenas dar aulas de alfabetização para os adultos e deixar de ensinar Tupan Ze’eg. Tampouco podemos apenas contar histórias bíblicas e não atender o povo em suas necessidades. Nós fazemos as duas coisas, porque ambas estão escritas na Bíblia em forma de mandamento e devemos obedecê-las.

Enquanto ministros da Palavra, devemos ensinar as Sagradas Escrituras de forma relevante e contextualizada. Enquanto servos e povo abençoado por Deus, devemos usar os dons e talentos com os quais Deus tem nos abençoado para servir aquela comunidade. Assim cumpriremos suas ordenanças.

Notas:
1. STOTT, John. A missão cristã no mundo moderno, p. 27.
2. WRIGHT, Christopher. A Missão do Povo de Deus, p. 81.

 

Imagem: Hands Color/Freeimages

 

Héber Negrão é paraense, tem 33 anos, mestre em Etnomusicologia e casado com Sophia. Ambos são missionários da Missão Evangélica aos Índios do Brasil (MEIB) e da Associação Linguística Evangélica Missionária (ALEM). Residem em Paragominas (PA) e trabalham com o povo Tembé.

  1. Sarita dos Santos Carvalho

    Excelente texto… Aproveitando a imagem das mãos “carimbadas”… fazemos um trabalho com crianças de regiões carentes de nossa cidade… Pudemos realizar trabalho com elas durante as férias… Carimbamos uma enorme cruz de papel com as mãozinhas delas! Isso foi marcante… e nos identificou com seu texto! Se pudesse, gostaria de enviar uma das nossas fotos.

  2. NATANAEL C NEGRAO

    Gostei bastante da exposição relacionada com a razão pela qual estão entre os Tembés. Que outros possam também participar de seu ministério através de suas intercessões e de outras maneiras.

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