Por Héber Negrão

Foto: http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/galeria/2003-04-19/19-de-abril-de-2003

Durante dez dias estive na aldeia do povo Ka’a a convite de um casal de missionários[1] para fazer pesquisas na área de etnomusicologia. Eles vivem à margem de um rio no estado do Pará e têm contato consideravelmente recente com a sociedade não indígena, remontando aos idos dos anos 80.

Os missionários já desenvolvem um trabalho entre eles há mais de trinta anos e em janeiro de 2012 um grupo de pastores de outra etnia visitou este povo e batizou mais de 140 indígenas Ka’a. Desde então, a igreja cresceu e chegou até a enviar algumas famílias cristãs para fazer um curso bíblico para poderem assumir a liderança de sua igreja local.

Com o desenvolvimento da igreja, viu-se a necessidade de uma liturgia adequada à cultura do povo. Os missionários queriam que a igreja começasse a cantar músicas para louvar ao Senhor em seu próprio sistema musical. Foi com esse objetivo que o missionário etnomusicólogo João e eu fomos convidados a visitar aquela aldeia.

O povo Ka’a tem músicas instrumentais e cantadas e elas são executadas apenas durante suas festas. Elas estão relacionadas aos animais da floresta, que possuem donos. Esses donos são as almas de pessoas que morreram e tiveram suas almas migradas para os animais, principalmente os predadores. O nosso desafio era compor canções que soassem como as músicas dos Ka’a, mas sem gerar associação com as canções das festas e com estas almas. Dessa forma, nós gravamos algumas de suas canções tradicionais e analisamos a sua composição: ritmo, melodia, fraseado, intervalos recorrentes etc.

Um tempo atrás os missionários haviam traduzido algumas canções brasileiras para a língua do povo e passaram a cantá-las em todos os cultos. Nossa estratégia foi usar as letras traduzidas destas canções e substituir a melodia ocidental por uma melodia que lhes fosse familiar, de acordo com seu próprio estilo musical baseado no resultado da nossa análise. E deu muito certo.

Quando cantamos para eles a primeira música que fizemos eles começaram a sorrir de satisfação e dizer: “muito bom, muito bom”. Perguntamos se aquelas novas canções soavam como as canções do seu povo. Apesar de reconhecerem a letra com outra melodia, eles disseram: “é assim mesmo, isso parece com a nossa música”. Assim, aquela antiga canção: “Eu tenho gozo, gozo no meu coração”, passou a ser cantada no estilo musical deles: “Estou alegre, estou alegre. Jesus é bom”.

Também aproveitamos a oportunidade para compor duas canções para as crianças cantarem na escola da aldeia. Uma delas falava sobre obedecer aos pais e aos professores e a outra ensinava que devemos cuidar do nosso corpo. Os professores ficaram animados com mais uma ferramenta para usarem na educação escolar.

Todas as noites nós recebíamos a visita de vários indígenas, na casa dos missionários. Ensinávamos as músicas que compusemos ao longo do dia e depois cantávamos com eles. Aquele momento também era um tempo de aconselhamento dos cristãos com os missionários. Uma das senhoras estava com seu filho muito doente e toda noite a missionária fazia uma oração pedindo pelo restabelecimento da criança. No outro dia, ouvimos um belo testemunho desta mãe. Alguém havia lhe dito para levar seu filho ao pajé, ao que ela respondeu: “Não. Só existe um único Deus verdadeiro.” Aproveitamos este fato para criar uma nova canção. Sem dúvida será uma importante ferramenta de ensino para aquela igreja.

Nós percebemos que nosso objetivo havia sido alcançado quando vimos um grupo de crianças cantar uma música tradicional Ka’a e as músicas compostas por nós. Eles cantavam a canção tradicional bem baixinho, quase sussurrando, demonstrando medo das almas predadoras. E quando elas a cantavam as músicas da igreja, elas o faziam com todo vigor, cantando bem alto.

Percebemos então que as novas canções não estavam mais associadas às almas predadoras e ainda assim soavam como Ka’a. Agora elas podiam cantar livremente, sem medo, para o único Deus verdadeiro.

[1] O nome dos missionários foi omitido e nome da etnia é pseudônimo para proteção dos missionários que trabalham na área.

Foto: http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/galeria/2003-04-19/19-de-abril-de-2003

Héber Negrão é paraense, tem 32 anos, mestre em Etnomusicologia e casado com Sophia. Ambos são missionários da Missão Evangélica aos Índios do Brasil (MEIB) e da Associação Linguística Evangélica Missionária (ALEM). Residem em Paragominas (PA) e trabalham com o povo Tembé.

  1. Sandra Francisco

    Que trabalho lindo! Parabéns. É isso mesmo, a cultura tradicional e suas identidades dos povos necessita ser valorizada.

  2. Ueslane Cordeiro

    Belíssima descrição. Li imaginando a cena dessas crianças louvando ao verdadeiro Deus! Que Ele continue abençoando sua vida, família e ministério!

  3. Heber,
    Parabéns pela matéria. Sua capacidade descritiva me fez ver os indígenas cantando as musicas e as crianças também. Conexão em tempo real=missão integral: Unindo o que temos de melhor com profissionais ao chamado no reino.

  4. sizinia monte alto salum

    Fiquei muito feliz com as noticias de vcs. Que Deus continue usando-os grandemente, conte com as nossas orações. Um abraço saudoso, Sizínia.

    Estou curiosa para escutar as músicas!!!!!!

  5. Antonia Leonora van der Meer

    Parabéns por esse lindo ministério, que ajudou o povo a poder adorar a Deus com sua própria música, e assim sentir que não se trata da religião dos “brancos”, mas é o Jesus Cristo que veio a eles e também pertence a eles.

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