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Edevanete Oliveira, ou apenas Nete, tem uma trajetória impressionante. Sua avó era indígena e morava em uma tribo, no meio da floresta, sem nenhum contato com o homem branco. Um dia, sua avó foi capturada e levada como escrava para uma fazendo. Os anos se passaram e Nete nasceu, filha de uma indígena e um soldado do exército.

Quando criança, Nete viveu em um seringal em Periperi, na divisa entre o Brasil e o Peru. Hoje, o dia a dia de Nete é bem diferente do seu passado. Ela mora em uma cidade grande, estuda na universidade e termina este ano sua Graduação em Enfermagem, mas a vida ribeirinha ainda a fascina. Nete sonha em voltar para o seu povo e ajudar àqueles que vivem como um dia ela viveu.

A vida no seringal

“Morávamos às margens do rio Moura. Éramos ao todo 18 crianças. Andávamos cerca de duas horas para chegar à escola, três horas para chegar à igreja. Tudo era difícil, mas tudo era uma aventura. Fazíamos farinha, andávamos na floresta. Havia muitas crianças na família. Plantávamos de tudo. Tomate, pimenta, mandioca, café, cana de açúcar. Tínhamos galinha e pato. Não havia luz elétrica e o colchão era feito de capim, mas eu dormia maravilhosamente ali. Minha avó sempre foi muito esforçada. Apesar de não termos nada, tínhamos tudo.

Meu pai morreu em um acidente de carro de pau de arara, que transportava mais de 50 pessoas em sua carroceria. No seringal, havia uma igreja. Nesta igreja, aceitei a Jesus como Salvador. Fui batizada no rio Moura. Lembro-me do vestido de bolinha com o qual estava vestida no dia.”

O começo da vida missionária

“Quando crescemos, fomos todos para a cidade continuar os estudos. Tinha uns treze anos na época.

Na cidade, em Cruzeiro do Sul, comecei a ficar incomodada com as pessoas que moravam nos outros bairros onde não havia igreja. Comecei, então, com uma grupo de adolescentes, ir a pé para os bairros distantes. Era adolescente, mas a timidez não era mais forte que o desejo de alcançar estas pessoas com a Palavra de Deus.

Não tínhamos estrutura, só um violão, mas a Palavra de Deus transforma em todos os sentidos. Faz diferença em meio ao caos. Semeamos a Palavra e o Espírito de Deus faz o resto. As crianças, com as quais compartilhamos um dia sobre o amor de Deus, são hoje líderes locais.

Em Cruzeiro do Sul, conheci missionários de Asas de Socorro. Através deles, vi que existia uma realidade além da qual eu conhecia. Havia muitos outros lugares no Brasil, com os quais eu nem sonhava existir, Envolvi-me ainda mais com missões e vi que era para isso que precisava me preparar.

Minha visão se alargou. Fui então para o Seminário e vivi anos muito difíceis em Manaus, mas uma família missionária de Asas de Socorro me adotou e foram os pais que eu não tinha na cidade.”

A universidade e a volta às origens

“Depois de um tempo, achava que iria morar na África, mas dentro de mim havia algo muito forte que me impulsionava de volta às minhas origens. Conheci então outra missionária de Asas de Socorro e ela me incentivou a fazer um curso profissionalizante. Fui instigada a estudar mais incentivada a fazer o curso técnico de enfermagem.

Quando comecei a estudar, parecia que tinha nascido para isso. Fiz o curso técnico e voltei para Manaus para trabalhar em um barco-hospital que atende comunidades ribeirinhas. Na primeira vez que pisei na comunidade, falei: ‘Senhor, é isto que eu quero: voltar às origens’.

A Palavra do Senhor faz a pessoa voltar ao começo, nos reestrutura e transforma. Estou terminando minha graduação em enfermagem. Quando vou ao hospital fazer meu estágio, oro antes e peço a Deus para me usar.

Um dia, uma moça veio para mim e falou: ‘queria que você estivesse todos os dias aqui para nos falar deste Deus no qual você crê e que nos dá esperança’. As palavras de Deus dão esperança, por isso, devemos pregar em tempo e fora de tempo.”

Edevanete Oliveira é bolsista da UniEvangélica, universidade também parceira de Asas de Socorro. Nete voltará para o local onde nasceu, a fim de servir a seu povo. A neta de uma indígena escrava vai continuar sua impressionante trajetória.

 

Nota:
Texto publicado originalmente no informativo “Visão do Alto” nº 45, de Asas de Socorro.

  1. maria celia del valle

    nete! que saudade! voce tem sido uma benção naquele barco. quando voce volta?

  2. JOSÉ LAULETTA JR

    Tremendo é constatar a cada instante que o “IDE” do Nosso DEUS é um imperativo para todos nós, privilegiados por conhecer a Palavra Resgatadora e Tranformsdora. Coisa maravilhosa, né? Devemos ter ousadia para exercer a Misericórdia de DEUS. Pois “O sábio enobrece o aflito!”
    jOSÉ lAULETTA jR. Araçariguama SP

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