O estudo do livro do profeta Jeremias foi um dos que mais marcou a minha formação pastoral durante o tempo do seminário. Além de me deixar estimulado pelo profundo conhecimento de hebraico que o professor possuía, a mensagem ali revelada é empolgante. Mostra o soberano agir de Deus na vida de um de seus servos e como aquele profeta desempenhou adequadamente o seu ministério.

Jeremias exerceu seu ministério no período que antecedeu o cativeiro babilônico e se estendeu até alguns poucos anos depois da destruição de Jerusalém por Nabucodonosor. Porém, Jeremias não foi levado como escravo para a Babilônia. É importante registrar que, ao contrário do que muitos cristãos pensam, o livro de Jeremias não obedece a um registro cronológico. Um leitor desavisado pode cometer erros graves de interpretação, pois a primeira parte do livro é o resumo dos discursos e profecias do profeta, e a segunda parte apresenta as mesmas profecias e discursos inseridos nos fatos e episódios em que foram proferidos. Com o propósito de ajudar a leitura cronológica, oferecemos o quadro a seguir classificando os escritos segundo os reis de Judá:

 

Reinado de Josias Reinado de Jeoaquim Reinado de Zedequias
1.1-92.1-6.3011.1-8,18-23

17.19-27

12.1-6

22.10-12

22.1-9,13-237.1 a 8.326.1-24

18.1-23

19.1 a 20.18

13.1-17

25.1-38

36.1-32

45.1-5

35.1-19

14.1 a 15.21

16.1 a 17.18

9.2-26

10.17-25

11.9-17

12.7-17

22.24-3013.18-2724.1-10

29.1-32

27.1 a 28.17

23.9-40

23.1-8

10.1-16

21.1-14

34.1-7

37.1-10

34.8-22

37.11-21

38.1-28

39.15-18

32.1 a 33.25

39.1-14

40.1 a 41.18

30.1 a 31.40

42.1 a 44.30

 

Do capítulo 46 ao 51 encontramos as mensagens dirigidas as nações, e no capítulo 52 um resumo dos fatos históricos da queda de Jerusalém. Voltando a nossa atenção para a proposta de identificar o profeta Jeremias como um servo que soube adequadamente modelar sua vida para ser fiel a missão que recebera, destacamos cinco ações:

1. Deus mostra o campo ministerial e Jeremias aprende

Antes do início do seu ministério, Jeremias se deparou com o chamado vocacional. Ele deveria ter sido um sacerdote, mas o Senhor tinha outros planos. No seu chamado, ele aprendeu que não estava em condições de barganhar com Deus, nem mesmo quando o assunto era a sua própria vida (Jr 1.1-4). Também foi claramente exposta a importância que Deus dá ao que Ele ordena. A amendoeira era uma planta conhecida como a “vara de acordar”, pois é a primeira a colocar suas flores após o inverno. Daí o paralelo simbólico que o Senhor fez: “Viste bem, porque eu velo sobre a minha palavra para a cumprir” (Jr 1.11-12).

Fato marcante e digno de destaque é a quantidades de vezes que o próprio Deus utiliza cenas do cotidiano do povo para melhor se fazer compreendida a Sua Palavra, o que levou o profeta a aprender e também utilizar meios visuais contemporâneos nas suas pregações, tonando-as uma espécie de “sermão ilustrado”. Como exemplo, apresentamos: (1) O cinto enterrado na beira do rio  – Jr 13; (2) Os vasos do oleiro – Jr 18; (3) A botija quebrada – Jr 19; (4) Os cestos de figos – Jr 24. Entretanto, em se tratando de ministério, Deus expôs ao profeta uma adequada compreensão da realidade do povo (Jr 2 a 5), afinal, o povo de Israel era o seu público alvo principal. O Senhor mostrou a Jeremias o seguinte: Deus é Deus de Seu povo, mas este se tornou infiel (cap 2); Deus exigirá responsabilidade individual (cap 3);  Deus alerta contra os falsos pregadores (cap 4); A depravação de todos (cap 5).

2. O uso de mensagem ilustradas

Levou milênios para que a ciência médica viesse a descobrir que a visão é o sentido pelo qual o nosso cérebro recebe o maior número de informações e o meio mais efetivo para guardar informações. A visão de uma cena, uma paisagem e até mesmo uma fisionomia é fator de melhor e mais duradouro armazenamento de informações em nossa mente. Não foi sem propósito que Deus deu sinais e manifestações visuais ao seu povo. O profeta Jeremias entendeu e aprendeu não só a necessidade missionária de se fazer bem compreendido, mas também usou esses instrumentos no exercício de sua missão para fazer gravar a verdade. O melhor exemplo que podemos destacar são os canzis simbólicos (Jr 27 e 28). Obedecendo a ordem de Deus, Jeremias fez para si uma canga e tiras de couro que eram utilizadas nos bois para puxar carroças e as colocou em seu pescoço. Sua pregação ocorria no meio do povo e dizia que os israelitas deveriam se submeter ao julgo do rei da Babilônia, pois o Senhor havia determinado isto. Ele pregou assim na cidade por cinco meses (Jr 27.1 e 28.1). Foi quando o sacerdote Hananias lhe tirou a canga, a quebrou e fez uma mensagem profética contrária a pregação de Jeremias (Jr 28.10-11). O que fazer? Como contra-argumentar? O texto nos leva a entender que o profeta foi buscar orientação em Deus (Jr 28.12) e o próprio Deus ordenou outra forma visual: Agora a canga deveria ser de ferro (Jr 28.14).

Acredito que muitos meios visuais podem ser utilizados no nosso presente tempo para a pregação do evangelho e das verdades das Escrituras Sagradas. Eis o que proponho:

– O primeiro instrumento visual deve ser a vida pessoal e a vida familiar do pregador.

– Uso de ilustrações visuais reais e não apenas relatadas verbalmente durante a pregação. Por exemplo: (1) A mensagem do profeta Joel pode ser ensinada através de uma pequena planta e uma faca que vai impondo na planta os danos das pragas, à medida que a profecia é exposta; (2) Utilização de vídeos, testemunhos e até cenários como ilustração.

– O uso de instrumentos visuais criativos para evangelização tais como o “evangecube”, “a sua vida é uma folha de papel” e muitos outros (procure por “evangelização criativa” no Youtube).

3. Colocar a vida na missão

Desde o começo, Jeremias sabia que o chamado de Deus não era uma proposta para apenas uma área ou atividade de sua vida, mas um projeto para a vida como um todo. A missão ministerial do profeta não foi fácil. Ele recebeu de Deus instruções para denunciar a idolatria do povo, a corrupção dos sacerdotes, as mensagens falsas preferidas em nome de Deus e ainda que o Senhor destruiria a cidade de Jerusalém através do império babilônico. É fácil perceber que ele não foi uma pessoa que teve seus sermões elogiados. Acredito que denunciar o pecado é um dos ministérios mais árduos. Entretanto, se estamos consciente da missão para a qual fomos chamados, assim como Jeremias, nossa vida será moldada para obedecer a Deus e cumprir a missão. Colocar a vida na missão implica em não fazer a obra do Senhor relaxadamente (Jr 48.10). Por causa disso, e por sua fidelidade para com o Senhor, Jeremias viveu seus mais de quarenta anos ministeriais sem desfrutar de muito conforto, prestígio popular, reconhecimento religioso e várias vezes correu risco de morte (Jr 37.20; 38.6). Não defendo a ideia de que a vida missionária é sempre de sofrimentos e perdas. Todavia, o missionário que não estiver disposto a passar pelo sofrimento por amor a Cristo, não conhece a sua vocação. Seguir a Jesus é projeto de vida, e cumprir a missão é moldar a vida para obedecer ao chamado de Deus. Indago e me incluo: Quanto de nossa existência foi e está dedicada ao cumprimento da missão que o Deus Eterno nos deu?

4. Não desprezar o lugar da emoção

Alguns comentaristas chamam Jeremias de “o profeta chorão”. É verdade que ele, através do livro de Lamentações, chora e se entristece muito com o que estava para acontecer e com o que aconteceu com o seu próprio povo. Ele teve a oportunidade de presenciar o cumprimento de parte de suas mensagens proféticas. Considerando que seus sermões apontavam para o castigo de Deus, como vivenciar isto sem fazer as emoções aflorarem? Como ver pessoas sofridas, outras levadas escravas, milhares mortas e a cidade queimada e saqueada e o templo destruído (Jr 52) e não ser tomado pela emoção? Sim, ele chorou e lamentou a idolatria e desobediência do povo e de seus líderes e sentiu profunda tristeza ao viver o cumprimento do juízo divino sobre pecadores não arrependidos.

Lembro-me da história recente de uma missionária presbiteriana na Índia, que com sua emoção abriu uma porta para a evangelização. Ela presenciou a morte da vaca de sua vizinha, animal que era considerado sagrado e por isso fora criado dentro de casa. A senhora chorava incontrolável e desesperadamente dizendo: “meu deus morreu!” A missionária emocionou-se com o desespero e chorou junto com a senhora, mesmo sabendo que vaca não era deus algum. Após alguns dias, a senhora indiana procurou a missionária e disse: “o meu deus morreu e eu estou sem deus. Ouvi dizer que o seu Deus é eterno, Ele me aceita?”. A identificação emocional do profeta Jeremias com o seu povo mostra que ele foi sensível à desgraça da nação de Israel. Seus sermões não estavam cheios de repulsa e discriminação contra o povo, nem tão pouco buscavam exaltação da sua santidade de vida ou publicação de sua comunhão com o Senhor. Não há problema de chorar ou se emocionar quando se prega. Não é errado se deixar sentir a dureza do impacto do juízo de Deus na vida de algumas pessoas. No cumprimento da missão em nosso tempo, a igrejas e também as pessoas não cristãs, via de regra, estão abertas para quem delas se aproxima com empatia.

 

5. O lugar para a palavra de esperança

Deus nunca enviou seus servos para missões sem esperança. Mesmo sabedor que o Senhor traria o castigo sobre os israelitas, Jeremias também sabia que Deus era bondoso e misericordioso, e isto significava esperança. Nos capítulos 30 a 33 de Jeremias encontramos o “Livro da Esperança”. O Senhor anunciou a “restauração espiritual do seu povo” (30), a “Nova Aliança” (31 e 32), e o “retorno a Jerusalém” (33). Independente da situação, da desgraça gerada pelo pecado ou juízo que se imponha nessa vida, Deus sempre tem uma mensagem de convite ao arrependimento e de esperança. O servo missionário tem sempre uma mensagem divina de esperança firmada na graça bondosa do Senhor. Isto significa ter a visão missionária de Deus no meio de um mundo onde o pecado deixa suas marcas desastrosas nas pessoas e nas estruturas sociais, políticas e econômicas.

Jeremias foi um missionário contextualizado à sua cultura e povo. Entretanto, a sua principal característica ministerial foi a obediência a Deus e uma vida modelada para cumprir a missão e agradar ao Senhor, mesmo quando não agradava a si mesmo. O relato sagrado registra que o Senhor tomava conta do seu servo e respondia às suas orações (Jr 32; 39.11-12); relata que ele sofreu por ser fiel; registra que ele foi poupado do cativeiro; registra que o profeta moldou sua vida para servir a Deus até o fim.

Como somos carentes de missionários como Jeremias! Que o Senhor seja misericordioso e perdoe nossas distrações missionárias, os desvios não autorizados e as muitas vezes que moldamos a vida para nós mesmos.

___________
Sérgio Paulo Ribeiro Lyra é pastor e coordenador do Consórcio Presbiteriano para Ações Missionárias no Interior. Autor do livro “Cidades para a Glória de Deus” (Visão Mundial). É missiólogo e professor do Seminário Presbiteriano em Recife (PE).

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  1. Ola Juliana,

    No que se refere a realidade fora de Israel havia tres grandes potências: Assíria, Egito e Babilônia. Essa última era bem progressista, militarizada com carros de guerra e a sua capital foi a primeira a atingir 300.000 habitantes. A Babilônia derrotou os outros dois imérios e tornou-se a maior da época. Jeremias morava em Jerusalém e ele viveu tres períodos distintos. No ´primeiro a cidade gozava de riqueza, paz e prosperidade e o templo do Senhor na cidade fazia com os juseus achassem que Jerusalém nunca seria destruida. No segundo período o exérxito da Babilônia cercou Jerusalém e uma grande fome se instalou por alguns anos. No terceiro período o rei Nabucodonosor invadiu a cidade, levou cativo os mais instruidos, espalhou o povo entre várias nações e deixou na cidade pobres e velhos. Jeremias decidiu ficar na cidade. Ressalto que o rei da babilnika ordenou saquear e destruir toda a cidade, inclusive o templo. Foi nesse contexto que ele viveu.

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