A providência divina na vocação
“Será que minhas escolhas estão de acordo com os planos de Deus?”
Por Ricardo Murtada
Se existe uma preocupação que ronda muitos cristãos ao pensar em estudos, trabalho e vida na igreja, é a vocação. Jovens se perguntam se suas escolhas, como um curso universitário, estão de acordo com o chamado de Deus para sua vida. Mas, também, adultos maduros, em alguns momentos, se questionam se seu trabalho, ou até mesmo toda a sua jornada, estão alinhados com a sua vocação.
Compreender a vocação passa, muitas vezes, pelo esforço de alinhar nossas expectativas com aquilo que imaginamos ser a vontade de Deus para nossa vida: “Será que minhas escolhas estão de acordo com os planos de Deus?”.
E algumas pessoas, descontentes com determinadas escolhas, subentendem que elas não refletem o chamado de Deus para sua vida. No meio de tudo isso parece haver muita confusão.
Vou contar um pouco da minha experiência e como tenho encarado minha vocação – apesar de ser algo particular e de não oferecer respostas para dúvidas e angústias, espero que possa ajudar a refletir sobre esse tema.
Quem me conhece sabe que reconheço ser vocacionado para o trabalho como professor. Atuo profissionalmente como professor há quinze anos, e muitas vezes as atividades com as quais me envolvi na igreja estiveram relacionadas à área do ensino. Mas, se no início da adolescência me perguntassem se eu me sentia chamado para ser um professor, a minha resposta seria um grande não!
Tornei-me professor a convite de uma amiga, logo após minha primeira formação acadêmica – segurança do trabalho. No início da minha jornada, apaixonei-me pela tarefa de educar. O jovem Ricardo que detestava apresentar trabalhos na frente da turma se assustaria ao saber que se tornaria professor. Porém, ensinar fazia meus olhos brilharem. Também fui descobrindo que não são só de bons momentos se faz a vida de um professor, que muitas dificuldades apareceram ao longo do caminho. Essas dificuldades me mostraram que eu precisava melhorar e crescer para poder cumprir a tarefa de ensinar.
Minha vida foi se encaminhando para a área da educação também no contexto da igreja. Atuei na maioria dos ministérios da igreja local (até na área de música, em que ficou claro que não nasci para ser cantor) e em todos eles, de alguma maneira, o ensino era não apenas o que fazia meus olhos brilharem, mas também aquilo para o que os irmãos que estavam à minha volta me incentivavam.
Mas o que tudo isso tem a ver com a minha compreensão de vocação?
A descoberta da tarefa de ensino veio junto com a compreensão de que a providência divina encaminha nossa vida, mesmo que não estejamos atentos a isso. Nossa vocação não está restrita a nossa percepção pessoal, mas, muitas vezes, as pessoas ao nosso redor vão enxergar certas características e até nos incentivar para seguirmos determinadas jornadas. A vocação é feita de diversas escolhas, e muitas delas vêm acompanhadas de dificuldades e angústias. Logo, o caminho da vocação não é feito apenas de plenos e bons momentos, e há pessoas que se sentem frustradas com sua própria vocação. A vocação de cada um colabora para o bem da igreja e para a promoção do evangelho. E, como um bom adepto da tradição kuyperiana, compreendo por meio dela que Cristo brilha no escritório, na obra, no chão de fábrica.
Por fim, e mais importante, ser vocacionado exige o esforço de confiar na graça e na providência divina e de lembrar que, mesmo nos momentos mais frustrantes e difíceis, é Cristo quem nos sustenta e, por isso, sustenta a nossa vocação.
- Ricardo Murtada, consultor educacional e de treinamentos, é professor do curso de segurança do trabalho e responsável pelo projeto Filosofia Completa e Descomplicada. Ricardo participa do Programa Amigos da Ultimato. @ricardomurtada.
