Mas e quando nossos cantinhos se misturam e ninguém quer entender o cantinho de ninguém?

Por Aline Garcia

Eu sempre gostei de receber visitas. Quando era criança, se meus pais me contassem que receberíamos convidados, a empolgação durava o dia todo. Agora, meu entusiasmo é mais limitado. Amo estar com pessoas, mas me anima mais quando são amigos e pessoas próximas. Dividir o meu cantinho, especialmente quando estou cansada, é motivo de murmuração.

Uma vez, reclamei com minha avó sobre visitas que não são próximas e que vão embora tarde da noite. Ela, brincalhona, respondeu:

– Então você vai ter que pedir aquele hino: “Eu no meu cantinho e tu no teu”.

Sempre soube que essa música existia, mas… Essa letra era parte de um hino?

– Vó, que hino é esse? – Perguntei, rindo.

Então, ela cantarolou uma estrofe:

“Ao redor, então, manda a luz raiar,

Pois que muitas trevas há que dissipar.

Para reluzirmos Deus nos acendeu;

Eu no meu cantinho e tu no teu.”

(Hinos e Cânticos – 168. Teu Cantinho)

É claro que o hino não está falando sobre cada um ficar na sua própria casa; fala sobre espalhar a glória de Deus e ser luz onde Ele nos colocou. Mas… E quando os cantinhos se misturam?

A Internet e as redes sociais permitem o acesso aos diferentes contextos e “cantinhos”. E nem sempre concordamos. Será que continuamos sendo luz mesmo na discordância? Será que discutimos por zelo à saúde do corpo de Cristo ou para fazer parte de polêmicas?

Não tenho respostas. Mas quando nos abrimos para o diálogo, fortalecemos a Igreja, mesmo com opiniões divergentes. Paulo alerta aos gálatas sobre a destruição que pode acontecer quando usamos nossa liberdade para atacar o próximo.

“Porque vocês, irmãos, foram chamados para viver em liberdade. Não a usem, porém, para satisfazer sua natureza humana. Ao contrário, usem-na para servir uns aos outros em amor. Pois toda a lei pode ser resumida neste único mandamento: “Ame o seu próximo como a si mesmo”.  Mas, se vocês estão sempre mordendo e devorando uns aos outros, tenham cuidado, pois correm o risco de se destruírem.” (Gl 5.13-17)

O argumento de Paulo é que o Evangelho nos liberta do pecado para que possamos viver uma vida frutífera, inclusive em nossos relacionamentos. Assim, o texto acima mostra que o objetivo da liberdade conquistada por Cristo é o serviço e o amor comunitários.

Ficar na nossa casa e nos limitar à nossa bolha parece a solução para evitar discussões, mas não foi para isso que Jesus nos chamou. A diversidade do corpo de Cristo é um dos presentes para aqueles que seguem a Jesus. Quantos dons, talentos e histórias perdemos ao fecharmos nossa casa às visitas? Temos medo de incomodar, de sermos incomodados. E assim, seguimos nossas vidas e perdemos a sensibilidade de olhar para o próximo e desfrutar da multiforme graça de Cristo.

Que saudades da Aline de antes, que praticava isso com naturalidade, mesmo sem entender as profundas implicações de um coração hospitaleiro. Como Pedro escreve em sua carta, uma vez que Cristo pagou pelos nossos pecados, podemos ser hospitaleiros e amar com sinceridade, fazendo a vontade de Deus.

“Sejam mutuamente hospitaleiros, sem reclamação. Cada um exerça o dom que recebeu para servir aos outros, administrando fielmente a graça de Deus em suas múltiplas formas.” (1Pe 4.1-19)

Que sejamos reconhecidos, não pelas polêmicas e diferenças (ou indiferenças), mas pelo amor. Que o nosso cantinho seja repleto da luz de Cristo e que possamos focar na glória dEle espalhada em todos os cantinhos.

 

Aline Garcia, 23 anos, jornalista, membro da Igreja Evangélica do Bosque (Casa de Oração em SP).

Imagem: Unsplash.

Saiba mais:

A Igreja – Uma comunidade singular de pessoas, John Stott e Tim Chester

Crescimento da Igreja – Profundidade e impacto, Vários autores

As juntas do Corpo de Cristo: onde dores e alegrias se revelam, por Rubem Amorese

 

  1. Melany Isabel Garcia Natale

    Cirúrgica, Aline! Devemos nos amar uns aos outros, não usarmos da nossa liberdade para falar mal dos outros e termos a nossa casa aberta aos demais irmãos com todaca sua diversidade! Uma excelente lição, bom texto para um devocional diário 😇

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