As juntas do Corpo de Cristo: onde dores e alegrias se revelam
Ao nos revelar o mistério da igreja — do qual foi investido como ministro — o apóstolo Paulo nos conclama a viver de modo coerente com esse discernimento. Pede-nos que nos esvaziemos da antiga regência, na qual nosso “eu”, nossas coisas, nosso tempo, nossos direitos, nossa vida tinham a primazia, submetendo-nos, voluntariamente, a uma nova ordem, trazida por um novo Rei — aquele que se esvaziou dos seus interesses e direitos para se deixar reger pelas necessidades do mundo.
Por semelhante modo, roga-nos que busquemos a humildade, a mansidão e a atenção às necessidades dos outros. A regência, então, migra do egoísmo para o altruísmo. É assim que, esvaziados de nós mesmos, seremos capazes de usar bem os dons que o Espírito nos dará para a edificação e maturidade do Corpo. E também nos habilitaremos a seguir a verdade em amor. Nestes versos, Paulo está nos falando de uma caminhada comunitária, pela qual conheceremos a verdade sobre Deus — e também sobre nós mesmos. E compreenderemos mais profundamente o amor de Cristo.
Paulo sabe que essa busca por santidade encontra seu ponto nevrálgico quando um membro se aproxima do outro. É quando ele utiliza a metáfora das juntas e revela que a articulação é o local do crescimento:
de quem todo o corpo, bem-ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor (Ef 4,16)
Vejo aqui uma trilogia que aprofunda a reflexão sobre a maturidade da Igreja local:
- As dores e alegrias pessoais (história, formação, índole, aptidões, capacidades, pecados, virtudes etc.), que levo para um encontro;
- As dores e alegrias pessoais que o outro traz para o encontro;
- O ponto nevrálgico, de alegria e dor, de bênção e desafio: a junta, onde eu e o outro nos encontramos. É também ali que a imaturidade se revela, e onde o amor é testado.
A “justa cooperação de cada parte” revela-se a chave para o crescimento do corpo de Cristo. Entendo, então, que minha busca por santidade já não se limita às minhas devocionais do quarto, onde falo ao meu Pai que vê em secreto; essa busca agora precisa contemplar (e até planejar) os “momentos da junta”, da articulação. Preciso de um coração que me permita, com a ajuda do Espírito, experimentar “a primazia do outro”. E assim, a exemplo do meu Mestre, amar o meu irmão “de tal maneira” que me disponha a dar — a me dar — a ele, no temor de Cristo (Ef 5:21); como ao Senhor.