A linguagem da arte

A linguagem da arte

SÉRIE REVISTA ULTIMATO| Estudo 1

Artigo: A parábola e o lava pés, de Gladir Cabral, Ultimato 419 

Introdução

Manifestações artísticas possuem linguagens próprias e variadas quando buscam oferecer reflexões a respeito de algum tema. O artigo base deste estudo ilustra várias linguagens empregadas no tema do bem comum. Há ocasiões que a arte incentiva e promove o bem comum e há outras que ela denuncia os caminhos que prejudicam o bem comum. Saber que a arte se ocupa com este assunto abre perspectivas interessantes aos artistas cristãos. Este estudo visa promover uma reflexão sobre o uso de algumas linguagens da arte no texto bíblico.

1- A arte para imaginar o bem comum

O tema do bem comum está presente em muitas manifestações artísticas. Leia a parte do artigo onde o autor apresenta seu entendimento sobre ele. 

  • Leia Sl 144.12-15. Esta poesia transmite aspirações sobre o bem comum ao imaginar o ideal de vida comunitária no antigo Israel. Quais aspectos do bem comum são sonhados neste texto?
  • A ideia de bem comum sugerido nesta poesia bíblica combina com o entendimento do autor do artigo?

2- A arte para denunciar o prejuízo ao bem comum

O artigo comenta o emprego da arte para denunciar a perda do bem comum. Veja a seguir dois exemplos da Bíblia.

  • A poesia alegórica do profeta Isaías critica a hipocrisia da sociedade da sua época, comparando-a um corpo cheio de feridas. Explore essa alegoria em Is 1.5-6 e Is 1.21-23. Que imagens ele utiliza para descrever a enfermidade do corpo social da nação?
  • Faça uma relação desta alegoria de Isaías com a teatralidade da cura de um cego realizada por Jesus, conforme relatada em Jo 9.5-7. Observe e explore o modo como essas duas diferentes linguagens tratam do extremos da doença e da cura.

3- A sátira como arma na arte retórica

A sátira é um gênero que faz uso do humor, da ironia e do exagero para falar dos vícios e das falhas humanas. Não se trata de insulto, nem de piada. Sua intenção é denunciar situações erradas.

  • Leia Am 3.14 a 4.3. Onde está o elemento de sátira na retórica do profeta?

Um pouco do contexto deste evento. No tempo do profeta Amós (760 a 750 a.C.) havia prosperidade econômica sob o governo de Jeroboão II no reino de Israel (reino do norte). Porém boa parte dos camponeses era explorada, se endividava e acabava escravizada. A região de Basã (atual Colinas de Golã) era conhecida pela fertilidade agrícola e pela produção de um gado gordo, forte e saudável.

  • O que a sátira elaborada por Amós comunica a respeito da opressão e do distanciamento de Deus numa situação de prosperidade material?
  • A mensagem de Amós é sobre a vida ética que enaltece a pessoa de Deus. É possível que aquele que se diz cristão hoje e busca uma aproximação de Deus necessite rever seus valores éticos? Medite nisso com base em Tg 1.26-27.

4- A experiência sensível e as linguagens da arte

O artigo base desta aula faz menção à parábola contada pelo profeta Natan ao rei Davi. Menciona também a cerimônia do lava pés encenada por Jesus junto aos discípulos. Essas referências lembram que a arte oferece linguagens alternativas para transmitir ideias, conhecimentos e juízos de valores.

A parábola de Natan

  • Leia 1Sm 12.1-13. Pense no interesse e na reação de Davi à história, enquanto estava desconectado da verdade sobre sua própria vida.
  • As histórias didáticas, como é o caso da parábola de Natan, conduzem os ouvintes ao campo da experiência sensível. Elas ajudam a quebrar a rigidez cognitiva e produzem uma nível de compreensão que o discurso direto muitas vezes não alcança.

O lava pés

  • Leia Jo 13.1-17 e pense nos sentimentos que foram acionados por essa experiência.
  • O lava pés foi uma lição de humildade, mas ao invés de pregar sobre o assunto, Jesus o encenou. Não houve discurso direto, porém o toque de suas mãos, a economia de palavras e a situação de desconforto tornaram-se memórias vivas para os discípulos. Por meio deste evento Jesus produziu uma experiência sensível.
  • Ele empregou uma linguagem que se aproxima da artes cênicas. Seus gestos simbólicos possuem relação com o que hoje se conhece como teatro imersivo, utilizado para gerar nos participantes uma conexão vivencial.
  • No grego o Novo Testamento, hypokrités significava literalmente “ator”, “artista de teatro”. Ao dizer que Jesus encenou o lava pés não se sugere que ele o fez com um ator. Jesus de fato viveu aquele momento com sinceridade. Naquela ocasião, o Rei dos Reis foi humilde ao lavar os pés de seus seguidores.

As ideias mais importantes desta aula

  • O bem comum é uma expectativa da salvação, e o testemunho cristão inclui o zelo pelo bem comum.
  • A visão do bem comum pode ser transmitida por meio de manifestações artísticas. Elas não apenas apontam para ele, mas também criticam aquilo que o prejudica.
  • A arte possui uma linguagem própria e indireta. Ela provoca reflexões quando o discurso direto não é tão eficaz nos resultados. 

Para pensar

  • O discurso direto não é a única maneira de se comunicar algo, especialmente quando se trata de do ensino de novas atitudes.
  • Manifestações artísticas precisam ser compreendidas a partir das experiências sensíveis que produzem.

SUGESTÃO DE ESTUDO ADICIONAL

A linguagem da arte: sentir para compreender

Um dos casos mais extremos do uso da linguagem indireta da arte foi conduzida pelo profeta Ezequiel entre os judeus exilados na Babilônia. Por algum tempo o profeta passou a levar uns apetrechos até um local público e movimentado. Ali ele montava uma encenação na qual se mantinha imóvel numa certa posição por longos períodos. Usava o local também para suas refeições, cozida com um combustível malcheiroso e segundo uma dieta bem restrita.

  • Leia sobre isso em Ez 4.1-12. O que você acha deste modo de o profeta se comunicar? Por quantos dias ele insistiu nessa atuação e o que ela anunciava?
  • O objetivo de Ezequiel era que os exilados, olhando para a severidade daquele exílio e para a destruição da cidade sagrada, percebessem a gravidade do pecado cometido.

Um pouco do contexto deste evento

O profeta Ezequiel foi levado para a Babilônia junto com o primeiro grupo de exilados. Outros grupos foram também levados ao exílio na sequência. Enquanto isso, reinava em Jerusalém o rei Zedequias. Ele fora colocado nesse cargo pelos babilônicos a fim de garantir a cobrança de pesados impostos junto à população na região.

  • Aqueles que viviam no exílio nutriam a esperança ilusória de que o cativeiro seria curto e que Jerusalém permaneceria intacta.
  • Por cerca de 4 anos o profeta Ezequiel anunciou as mensagens de Deus entre os exilados até que, ao final desse tempo, Jerusalém foi completamente destruída, como predito pelo profeta.

A arte empregada para quebrar a resistência cognitiva

O povo não conseguia mais prestar atenção nas pregações convencionais. O discurso direto esbarrava numa barreira cognitiva.

  • A performance do profeta criava uma conexão vivencial: os expectadores podiam ver e sentir cheiros. E podiam perceber o sofrimento físico do profeta, que passava muito tempo numa situação bem desconfortável. Além desta, Ezequiel realizou outras performances.
  • A linguagem utilizada por Ezequiel se denomina, atualmente, de performance artística, ou arte de instalação viva.

 

Conclusão

A arte como linguagem: Ezequiel soube usá-la como suporte para a mensagem. Os transeuntes não podiam simplesmente ignorar a encenação do profeta. Certamente paravam para olhar e se perguntavam O que é isso?

 

Este é um roteiro de aula para Escola Bíblica baseada no artigo A parábola e o lava pés, de Gladir Cabral, publicado na edição 419 (maio/junho de 2026) da Ultimato. Contém considerações adicionais ao artigo.

Autor do estudo: Délio Porto, engenheiro e professor universitário aposentado, presbiteriano, reside em Viçosa, MG.

 

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