Livro da Semana  |   Teologia Para o Cotidiano

Os imprevistos estão sempre presentes na vida humana. Eles têm um lado bom: provam a tenacidade, a capacidade de resistência, a sabedoria, a perseverança, a paciência e o espírito de iniciativa do homem.

É certo que a maior parte dos imprevistos podem ser interpretados ora como provação, ora como tentação. Porém, é necessário deixar uma margem para os imprevistos que Deus mesmo levanta e coloca no caminho de seus servos, para alterar-lhes a rota ou a estratégia.

Por mais previdente que seja, o homem está sempre sujeito a imprevistos. Não é possível prever tudo. Há buracos que o homem não enxerga – ou não admite. São buracos abertos, por meio dos quais os malfadados imprevistos emergem e causam embaraços, senão completa paralização ou desastroso retrocesso.

Os imprevistos estão sempre presentes na vida humana. Vêm de todos os lados. São uma presença incômoda. Muitas parábolas de Jesus mencionam os imprevistos dos homens. Talvez a mais convincente seja a do rico insensato, que arrazoava consigo mesmo: “Tens em depósito muitos bens para muitos anos: descansa, come e bebe, e regala-te” (Lc 12.19). Embora tão seguro de tudo, naquela mesma noite, o homem morreu.

Outro tremendo exemplo de imprevisto é o estranho e maldoso surgimento do joio no meio do trigal. O dono da terra semeou apenas o trigo. O joio foi semeado à noite, a mando do inimigo, sem ninguém saber, com o intuito de atrapalhar o trigal (Mt 13.24-30).

Os imprevistos não estão apenas nas parábolas. Eles têm presença marcante na história de cada pessoa e na história da própria civilização humana.  Um dos imprevistos mais dramáticos aconteceu na noite de núpcias de Jacó – ele estava certo de que a mulher com quem havia se casado era a amada Raquel, por quem havia trabalhado sete anos. Mas, pela manhã, depois de haver coabitado com a jovem, Jacó percebeu que era Lia, e não Raquel (Gn 29.21-25)

Para Deus não há imprevistos

Porque é onisciente, porque está acima de tudo e porque controla todas as coisas nos céus, na terra e debaixo da terra, para Deus não pode haver imprevistos. A própria Queda era conhecida previamente por Deus. Antes mesmo da criação do mundo, já havia provisão para o homem caído: nos planos de Deus, o Cordeiro foi morto “desde a fundação do mundo” (Ap 13.8). A tríplice negação de Pedro, a traição de Judas, os açoites, o escárnio, a crucificação e a própria ressurreição ao terceiro dia não foram imprevistos para Jesus. Ao contrário, com certa antecedência, ele “expunha claramente” esses futuros acontecimentos aos discípulos, preparando-lhes o espírito (Mc 8.31). Aliás, todos esses incidentes já haviam sido anunciados pelos profetas, desde Davi, com mil anos de antecedência.

Os imprevistos são uma limitação imposta aos homens. Deus está fora de qualquer tonalidade de imprevisto.

Provado pelos imprevistos

Os imprevistos têm um lado bom: eles provam a tenacidade, a capacidade de resistência, a sabedoria, a perseverança, a paciência e o espírito de iniciativa do homem. É preciso saber lidar e até mesmo conviver com os imprevistos. Há pessoas que se servem dos imprevistos para explicar e justificar suas omissões e seus fracassos. Outros, no entanto, estão sendo fortalecidos pelos imprevistos. Aprendem a interpretar os imprevistos e a ir em frente a despeito deles. Não se entregam ao desânimo. Não abandonam a luta, o ideal e a caminhada proposta. Tais homens sabem enfrentar os imprevistos, mesmo que eles apareçam no momento mais impróprio e ameacem destruir impiedosamente tudo o que foi amealhado até então.

É certo que a maior parte dos imprevistos podem ser interpretados ora como provação, ora como tentação. Porém, é necessário deixar uma margem para os imprevistos que Deus mesmo levanta e coloca no caminho de seus servos, para alterar-lhes a rota ou a estratégia de ação. Por causa de uma enfermidade física, Paulo pregou o evangelho na Galácia (Gl 4.13). A primeira grande perseguição à igreja forçou os discípulos a recuperar o mandato missiológico de espalhar o evangelho por toda parte do mundo antigo (At 8.4). Há de se descobrir a natureza e o propósito dos imprevistos com uma boa dose da “sabedoria que desce lá do alto” (Tg 3.12-18).

Vitória, alegria e recompensa

Os imprevistos não são obstáculos obrigatoriamente intransponíveis. É o caso do chefe da sinagoga de Cafarnaum que deixou a filha de 12 anos à morte com a mãe e foi em busca de Jesus para que ele impedisse o desfecho próximo. Jesus se dispôs a ir com Jairo para curar a sua filha, mas a multidão compacta o comprimia e a caminhada tornou-se vagarosa, embora houvesse pouco tempo para socorrer a menina. Se isso não bastasse, ainda houve outro sério imprevisto, não para Jesus, mas para o pai da criança: uma certa mulher dentre a multidão também queria ser curada e tomou o precioso tempo de Jesus. Havia doze anos que ela sofria de uma teimosa hemorragia, embora tivesse padecido à mão de vários médicos e dispendido todos os seus bens com eles. Jairo compreendeu a situação, mas se perguntou: “Será que vai dar tempo?”. Nesse instante, chegaram alguns de sua casa para lhe dizer: “Tua filha já morreu; por que ainda incomodas o Mestre?”. Jairo, todavia, não dispensou Jesus e foi por este fortalecido em sua fé: “Não temas, crê somente”.

A história teve um epílogo extraordinariamente feliz, pois Jesus arrancou a menina da morte e lhe restituiu a vida (Mc 5.21-43). Há muita vitória, muita alegria e muita recompensa quando o homem vai sempre em frente, a despeito dos imprevistos!

Texto publicado originalmente em Teologia para o Cotidiano, Editora Ultimato.

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