Rinaldo, sua esposa e filhos em frente a sua primeira casa no sertão

Por Rinaldo de Mattos*

Rinaldo sentado numa cadeira em frente a anciãos indígenas

Casimiro de Abreu escreveu a belíssima poesia “Meus Oito Anos”: “Oh! Que saudades que tenho / Da aurora da minha vida, / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais!”.

Ataulfo Alves escreveu o lindo samba-canção, com o título: “Meus Tempos de Criança”, conhecido também como “A Professorinha”: “Eu daria tudo que eu tivesse, / Pra voltar aos dias de criança /Eu não sei pra que a gente cresce, / Se não sai da gente essa lembrança”.

Sílvio Caldas, em parceria com Wilson Baptista, escreveu o samba: “Meus Vinte Anos”: “A vida para mim tem sido tão ruim / Só desenganos / Ai, eu daria tudo / Para poder voltar / Aos meus vinte anos”.

O meu desejo é bem menor do que tudo isso. Eu não pensaria em voltar aos meus vinte anos, como Sílvio Caldas e Wilson Baptista, nem aos meus tempos de criança, como Ataulfo Alves, e muito menos aos meus oito anos, como Casimiro de Abreu. Bastava-me voltar aos meus 83 anos, completados a 4 de agosto do ano de 2017.

Rinaldo ensinando para indígenas na aldeia

Isto porque, aos meus 83 anos (e a maior parte dos 84), depois de viver décadas com a família entre os Xerente, eu fazia as minhas viagens de Brasília às aldeias no Tocantins sozinho, porque a Gudrun já não podia fazê-las mais. Indo às vezes de avião, às vezes de ônibus e lá, com o apoio dos colegas da equipe, notadamente do querido colega pastor Mário Luiz Moura, eu tinha a oportunidade de dar continuidade ao trabalho, especialmente na ministração de cursos para a liderança das diversas igrejas.

Nas viagens para as aldeias, eu ia na caminhonete do pastor Mário e ele, como bombeiro que foi, tinha todo o cuidado comigo, como idoso. Os amigos e irmãos Xerente não deixavam por menos. Em toda aldeia para onde eu ia, em toda casa onde me hospedava, eles providenciavam a melhor cadeira para eu sentar (lá eles chamam de cadeira de macarrão), me serviam a melhor refeição que podiam e me tratavam com toda distinção, como se eu fosse um ancião Xerente.

Indígenas batizam um parente enquanto Rinaldo e outros indígenas observam

Quanto à parte física, eu fazia as minhas caminhadas nas estradas, fazia meus alongamentos diários, dormia em rede, às vezes dormia em colchonete no chão. Comia de tudo, tomava meus banhos nos ribeirões, até mesmo nos grandes rios como o Tocantins e o Sono, e não sentia o peso da idade. O pastor Mário só não me deixava tomar sol, tomar chuva e carregar peso… Mas, em junho de 2019, dois meses antes de completar 85 anos, quando eu dava uma aula para a liderança da igreja da aldeia Brejo Comprido (Kâwrakurerê, na língua Xerente), adoeci e tive de voltar para Brasília. Exames feitos, foi constatado que eu havia contraído uma pneumonia. Fui hospitalizado, tratado e tudo bem, mas, passados dois meses, contraí nova pneumonia. Aí foi um “baque. Nova hospitalização, mais antibióticos e todo o rigor do tratamento. Fiquei muito fraco. Porém, o mais sério foi que saí de lá com o diagnóstico de que eu estava com insuficiência cardíaca.

Aí o quadro mudou completamente. Eu podia dizer: Rinaldo de Mattos antes da insuficiência cardíaca e Rinaldo de Mattos depois da insuficiência cardíaca. Fraqueza, a qualquer esforço físico e latejamento do coração, que eu chamo de “batedeira”. E agora, o que fazer? Imitar Casimiro de Abreu, Ataulfo Alves, Sílvio Caldas e Wilson Baptista, compondo uma música ou uma poesia com o tema: “Meus Oitenta e Três Anos”? Se eu fosse sonhar como eles sonharam, eu diria: “Ai, eu daria tudo para voltar aos meus oitenta e três anos”.

Mas a vida não é assim: a vida é uma realidade. O relógio de Deus não para e nem volta. Olhando, pois, para a realidade, eu tenho dois pedidos a fazer a Deus. O primeiro, é que ele me devolva a saúde que eu tinha nos meus 83 anos (agora já estou com 86). Se não for possível, que ele me ajude a ser resiliente. Que me dê forças suficientes, física e mental, o tanto quanto possível dentro de um quadro de insuficiência cardíaca, para que eu possa cumprir, mesmo à distância, um papel missionário. Usando a tecnologia da Internet, para continuar colaborando com os irmãos da equipe Xerente, produzindo materiais que eles e os próprios líderes indígenas das igrejas, especialmente estes, possam usar para o crescimento do evangelho junto àquele povo que tanto amamos e para o qual Deus nos chamou. Se possível, ainda, que eu tenha condições de fazer, uma vez ou outra, alguma viagem à aldeia, muito bem acompanhado, é claro, não a trabalho, mas para visitar meus queridos amigos e irmãos Xerente dos quais tenho tantas saudades… O que Deus fizer, eu aceito de bom grado. A Ele toda a glória!

 

Em tempo: Isso não quer dizer que eu não possa fazer uma poesia “Meus 83 Anos” e me candidatar à uma cadeira na Academia Brasileira de Letras…

 

*Rinaldo de Mattos é pastor e missionário aposentado da Junta de Missões Nacionais da CBB e do ministério Xerente, a distância.

 

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Nomes | Rinaldo e Gudrun de Mattos

  1. É isso meu pai, exemplo de vida que junto com a mamãe se dedicaram pra obra do Reino de Deus e ainda nos deram amor, atenção, carinho e muito amor por missões. Deus continue abençoando suas vidas em tudo que fizerem. Louvo a Deus por suas vidas! Priscila

  2. Louvo a Deus por sua vida !! Pastor e missionário Rinaldo de Mattos!!! Q testemunho lindo da fidelidade de Papai!!! Muito obrigado por esse breve relato mas tão significativo para mim meu irmão na jornada da fé!!! Jesus Cristo o abençoe!!! Graça e paz!!!
    Feliz o homem cujo Deus é Senhor!!!🙏🙏🙏

    • Vagna Maria Bandeira Lima carneiro

      Pastor Reinaldo, sempre foi, e será um exemplo para todos nós! Pastor, quero aqui deixar a minha eterna gratidão, por tudo de bom, quê o senhor nos ensinou, e nos ajudou! Não tenho palavras para expressar, tudo aquilo quê o senhor nerece, mas sim, pedir a papai do céu, para continuar derramando chuva de ricas bênçãos sobre o senhor, para quê o senhor possa dar continuidade no seu trabalho aqui na terra, pregando a palavra de Deus, e fazendo as pessoas felizes! Quero awui deixar o meu abraço, e lhes dizer, quê te amamos muito! Ah! Vi aí na foto, nossa bicicleta, do breque para trás! Saudades! Vagna Bandeira

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