Conteúdo oferecido na seção “Nomes” edição 384 de Ultimato.

Obituários em tempos de Covid-19
Por Elsie C. Gilbert
Quando um ente querido morre, todos nós queremos – não precisamos – observar o luto. O lamento e o choro se dão porque uma vida se foi e com ela todas as suas experiências, desejos, conquistas, amores, e muita sabedoria acumulada! Nunca mais um outro ser humano dará os mesmos passos, se alegrará pelas mesmas coisas, amará da mesma forma. É uma perda imensurável e a nossa alma sabe disso.

Por mais de 20 anos ele foi o homem de confiança da Missão Novas Tribos e Asas de Socorro em Manaus para o transporte de missionários, voluntários e visitantes. Fidelidade e confiança o descrevem. Buscava pontualmente os missionários no aeroporto e os levava para Puraquequara, um bairro mais afastado dessa capital. Tinha as chaves e senhas necessárias para acomodar os viajantes nas duas bases missionárias a qualquer hora do dia ou noite. Mas além de taxista, ele foi filho, irmão, esposo, pai, avô e amigo.

Leia abaixo o depoimento de Fábio Moreira, filho do Sr. Josias, publicado originalmente no site Inumeráveis – um memorial dedicado à história de cada uma das vítimas do novo coronavírus no Brasil.

Josias Luiz Pinto Moreira – “O Chico”
10/01/1953 – 15/05/2020

 

Sr. Josias era taxista e por 30 anos prestou serviços para os missionários da Missão Novas Tribos do Brasil e Asas de Socorro em Manaus.  “Ele era da nossa total confiança. Tinha as chaves do portão, das casas de hospedagem, trazia os missionários, abria a porta, fazia o trabalho completo,” conta Eunice B. C. Menezes que lamenta a perda não de um taxista, mas de um amigo fiel. Sr. Josias faleceu em Manaus, vítima da Covid-19, aos 67 anos de idade.

 

“A maior faculdade que um homem pode fazer é o por favor, obrigado e com licença.” Foi assim que criou dois filhos, com humildade, empatia e educação.

 

“Eu já fiz duas faculdades, não terminei a terceira porque faltou tijolos”, brincava.

 

Sempre piadista, gostava de fazer rir, inventava estórias das mais absurdas. O chamavam de Chico, era presença bem quista onde fosse, sinônimo de bom humor e diversão. Todo bom piadista é essencialmente um bom mentiroso, mente por amor à arte. Era também muito teimoso.

 

Sempre se orgulhou de cumprir todos os compromissos financeiros, sociais, sempre pontual. Dizia ele: “O homem não é obrigado a prometer nada, mas uma vez feita a promessa, cumpra-a, mesmo que dê prejuízo”.

 

Não admitia desonestidade e assim criou seus filhos. Tratava todos muito bem, às vezes ouvia ciumenta reclamação: “Trata melhor os de fora do que os dentro”. A verdade é que tratou a todos bem.

 

De origem humilde, sempre batalhou duro pelo sustento da família. Fez muita coisa, foi empregado, motorista, comerciante e, por fim, trabalhou como taxista por 35 anos. Sustentou os dois filhos e uma família unida com sua esposa Maria José.

 

Por ser simpático, honesto e correto criou clientela fiel. Com pouco estudo, ao lado da esposa, proporcionou aos dois filhos fazer faculdade, especialização, pós-graduação e mestrado. Mais do que isto, proporcionou amor e ensinamentos necessários para a vida.

 

Como avô? Era derretido! Brincava de “Serra, serra, serrador. Quantas tábuas já serrou?”, da mesma forma que fizera com os dois filhos 30 anos atrás. Os netos eram a maior alegria da vida.

 

O Chico plantou boas sementes, continuaremos a gerar bons frutos pai.

• Fabio Moreira de Almeida, 37 anos, esposo de Elaine e pai de Teodoro (9 anos) e Helena (2 anos). É analista de sistemas e mora em Florianópolis, SC. Aguarda uma oportunidade de visitar Manaus e compartilhar do luto presencialmente com sua família.

  1. Beatriz Pinho Tavares

    Conheci o Sr Josias em julho de 2019, quando fui a Manaus, numa viagem missionária com Asas de Socorro e a Rede Mãos Dadas. Ele nos buscou no aeroporto e nos levou no dia de nossa partida. Como o trajeto era longo, foi bastante tempo de conversa. E posso dizer que ele era tudo isso que está escrito. Foi muito bom conhecê-lo e mesmo com a sua partida eterna, posso dizer que ele deixou muito dele em nós. Meu abraço solidário a toda a família.

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