Livro da Semana | Cartas entre Freud e Pfister

 

Por Klênia Fassoni

Cartas entre Freud e Pfister (1909-1939) é o livro da Editora Ultimato que mais recebeu visibilidade na mídia secular e o único que teve lançamento em uma Bienal do Livro. Foi publicado em parceria com o Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC).

A última carta é de Pfister. Ela foi endereçada à esposa de Freud, que tinha falecido cerca de 3 meses antes. Nela, Pfister fala sobre a sessão solene realizada pela Sociedade Psicanalítica Suíça em homenagem à Freud: “a mim estava reservado, a partir das 134 cartas que tenho dele, expor aos participantes o pesquisador genial e amigo paterno”.

Algumas das cartas trocadas entre eles mostram que, a certa altura, viviam tempos de incerteza. Freud conviveu com o medo de perder seus três filhos alistados na Primeira Guerra Mundial. Sua filha Sophie morreu, vítima da gripe espanhola, em 1920.

Cartas entre Freud e Pfister constitui um tocante registro da história da psicanálise e dos últimos 30 anos da vida de Freud. Pfister, pastor e pedagogo em Zurique, aproxima-se de Freud por intermédio de Jung.

Abaixo um trecho da resenha de Waldo César, publicada no Jornal do Brasil, Caderno Ideias, em 04/07/1998:

“Freud queixa-se, logo nas primeiras cartas que “os tempos estão muito inquietos”; e mais tarde reclama da velhice e da morte. O pastor tenta reanimá-lo assinalando sua concepção ‘progressista’ da “pulsão da morte”, para ele apenas um declínio da ‘força vital’ (… “mesmo a morte dos indivíduos não pode deter o desenrolar da vontade universal, mas apenas fomentá-la”). A intensidade da época em que viveram, presente incerto e futuro duvidoso, está fortemente dimensionada numa incansável correspondência, fruto de vocações inequívocas voltadas para uma vida mais plena, apesar de divergências tão marcantes. Freud diz a certa altura: ‘Somente gosto de ler suas cartas; tudo nelas é vida, calor, êxito’. E mais uma vez termina com palavras de afeto e respeito, ‘na esperança de que o senhor permaneça fiel’.”

Leia duas das cartas publicadas no livro:

 

PFISTER A FREUD 

Zurique, 18.2.1909 

Excelentíssimo professor!

Sua carta intensificou minha alegria em relação à ciência inaugurada pelo senhor. Foi para mim uma grande satisfação saber, através de sua comunicação, que entendi corretamente a tarefa da psicanálise, de ser, no fundo, um método de cura almas. A diferença (ética) entre sua e minha compreensão talvez não seja tão grande como pareça pela minha posição profissional. A própria ética protestante… retirou do relacionamento sexual a mácula da impureza. A Reforma na essência nada mais é do que uma análise da repressão sexual católica, lamentavelmente uma análise muito insuficiente, por isso a neurose de angústia da ortodoxia eclesiástica e seus sintomas correlatos, os processos de bruxaria, o absolutismo político, a sujeição social nas corporações etc. Nós, modernos pastores evangélicos, sentimo-nos completamente protestantes e somos regidos pela certeza(?) de sermos muito pouco reformados. Estamos procurando um novo campo. Nossa Igreja permite a nós, cidadãos de Zurique, absoluta liberdade. Em questões éticas podemos pensar livremente, sem sermos heróis. Justamente nas cidades, a realidade sexual está coberta de hipocrisia, e por isso, cheia de imundície. Temos plena clareza da horrível e insuportável relação entre a monogamia, a mentira e a epidemia da prostituição… contudo, falta-nos a clareza sobre a possibilidade de se achar um amor realmente livre que não passe pelo matrimônio. Pois a diferença entre amor “livre” e amor “selvagem” é muito oscilante…

Não melhores teorias sobre o casamento, mas somente a melhoria das condições sociais, uma educação e conduta mais saudáveis, nos libertarão do flagelo da neurose e da perversão. Por enquanto não consigo ajudar-me de outra maneira que não seja estabelecendo o ideal do casamento e deixando cada um avaliar segundo sua consciência quanto ele pode desviar-se deste ideal. Segundo o mandamento de Jesus, quanto mais nos abstivermos de julgar e apenas silenciosa e energicamente procurarmos lutar para alcançar o ideal, tanto mais facilitaremos aos fracos a sublimação…

 

FREUD A PFISTER

Viena, 20.2.1909

Excelentíssimo doutor,

Da sua carta obtenho a alegre certeza de que a diferença entre nossas visões somente começa quando moções emocionais passam a influir sobre os processos de pensamento; certeza, portanto,

de que esta diferença somente pode ter a importância de uma útil variação.

No sentido histórico mencionado pelo senhor, penso que também posso me chamar de protestante”, e recordar-me de que meu amigo Professor von Ehrenfels,1 em Praga, cunhou para nós dois o nome de “protestantes sexuais”.

Não creia que ademais me aflijam as zombarias e as incompreensões na literatura. Há dias em que a uniformidade das reações deprime um pouco o meu humor, mas em nenhuma hora desanimo de perscrutar até o final os temas tão valorizados também pelo senhor (espero que não valorizados em demasia).

Quando, no início de março, o senhor receber de mim um pequeno livro,2 considere-o como um sinal da minha alta apreciação pelos seus esforços e sua colaboração.

Seu cordialmente dedicado, 

Freud

 


Notas
  1. Christian Freiher von Ehrenfels (1859-1932), professor de filosofia na Universidade de Praga.
  1. Provavelmente FREUD, Sigmund. Delírios e sonhos no Gradiva de Jensen [Der Wahn und die Träume in W. Jensen’s Gradiva]. Rio de Janeiro: Imago, 1907 (1906). [ESB — Edição Standart Brasileira das obras de Freud no Brasil, v. IX.]

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