Por Lucinea de Campos

 

Viçosa, abril de 2019.

 

Querida Luíza,

 

O mês de abril está celebrando a quaresma.

Percebi que todas as quaresmeiras e arbustos que dão flores roxas e azuis estão floridos.

Parecem não querer ficar de fora num momento tão significativo e assim oferecem o que tem de melhor.

Lembrei-me da citação de um tal poeta desconhecido: “As flores não têm a mesma sorte, umas enfeitam a vida e outras enfeitam a morte”.

Se as flores roxas estão por aí, assim também as flores amarelas do fedregoso1 para não esquecer Van Gogh e nem o mistério no nascimento do Moisés, neto do Emmanuel, nosso amigo comum.

Elas me dizem que ainda é tempo de ser feliz.

Campos verdejantes foi o que vi nas caminhadas solitárias que fiz por aí.

Cafezais carregados de grãos sinalizando prosperidade e manhãs acompanhadas do líquido escuro que me anima e reúne amigos para um dedo de prosa.

Tardes quentes e intercaladas com pancadas rápidas de chuvas tipicamente outonais.

Noites enfeitadas por luas enormes e estrelas à vontade, tanto assim que muitas simplesmente caíam me permitindo pedidos aparentemente absurdos antes que eu perca de vez a inocência.

E junto com tudo isto, a aceitação da solidão e o entendimento do ditado “antes só que mal acompanhada”.

Algumas perdas e lágrimas, o que é inevitável, casando perfeitamente com Eclesiastes 3:2… há tempo para tudo.

Assim percebo a grandeza e a presença de Deus na roseira do jardim, que há uma semana estava amarelo alaranjada e, agora, amarelo desbotada.

Então é tempo de mudanças, mudar é preciso.

Enquanto isto vou temperando a vida e a comida. Com cominho, açafrão, hortelã pimenta e outros temperos que curam e dão alegria. Porque nesta vida aprendi que resiliência não é algo fácil e sim necessário.

Reflito sobre estas coisas durante o cozimento da sopa que vai alimentar o corpo cansado e doente do meu vizinho, o qual ao recebê-la me cobre com tantas bênçãos que deixo algumas caírem pelo caminho para que alguém mais as aproveite.

É tempo de abençoar, então anoto mais alguns nomes no meu caderninho de orações.

 

Viçosa, junho de 2019.

 

Continuo esta carta somente agora tanto que maio passou a galope marcado por novas experiências quando se trata de viver e não somente sobreviver.

Dia desse me lembrei que o dia dos namorados está próximo e que mais este ano estarei sozinha. A solidão neste sentido me parece algo definido em minha vida e seria bom; penso …. se lá no fundo eu não esperasse mais nada.

Nossa, este assunto novamente! (risos)

O frio chegou adiantado. Estou saindo de casa empacotada e voltando com uma bolsa de roupas.

De manhã o nariz de todos da Equipe Ultimato está escorrendo. Resolvemos esta questão comendo e bebendo tudo o que há de bom no inverno e nem tanto no verão.

Cada comida no seu tempo certo. Continuo cozinhando estando feliz ou triste, a cozinha me consola e inspira.

Os ventos de uma crise sopram aqui na Ultimato querendo nos amedrontar e sim, ficamos um pouco abalados, nada que nos impeça de fazer a nossa festa caipira. E assim nos tornamos resilientes. Esta palavra de novo.

Estarei me tornando repetitiva?

Peço que ore por mim e meus filhos e os anseios que eles têm.

O mais novo faz 19 anos dia 19 de junho. Tudo 19.

O mais velho terminou mais esta internação, sinto que ele está um pouco mais amadurecido. Ore por um trabalho para ele por favor. Os tempos andam difíceis.

Agradeço muito sua atenção e amizade.

Desejo que tudo caminhe da melhor forma possível para você.

Amo você.

Paz.

Nota:
1. Fredegoso, árvore de flor amarelo forte

 

 

Lucinea de Campos trabalha na Editora Ultimato há 13 anos.
Gosta de ler, escrever, cozinhar e conhecer pessoas.

 

 

 

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