Livro da Semana  |  A Reforma – o que você precisa saber e por quê

 

A justificação estava no coração da Reforma; era seu elemento essencial.

A partir do momento em que Lutero compreendeu pela leitura de Romanos 1 que a justiça de Deus é uma dádiva totalmente imerecida, percebeu que essa era a verdade mais importante do mundo. A justificação estava no coração da Reforma; era seu elemento essencial.

Para reformadores como Lutero e Calvino, “justificação” queria dizer uma declaração divina de que a justiça de Cristo é atribuída ao que crê somente por causa da graça de Deus (sola gratia). Essa justificação, portanto, é somente pela fé (sola fide) em Cristo, o que significa que toda a glória da salvação é dada somente a Deus e não a nós. “Nada nesse artigo [da fé] pode ser renunciado ou comprometido”, escreveu Lutero, “mesmo que o céu e a Terra e todas as coisas temporais sejam destruídos”. É a convicção, disse ele, “na qual a igreja se apoia ou cai”.

Nem todos compreenderam isso da mesma forma que Lutero, mas sua experiência com Romanos 1 seria o fio condutor da Reforma; e, por meio da Bíblia, essa questão essencial da justificação seria descoberta. Justificação foi o que fez da Reforma a Reforma. E para aqueles que aceitaram que Deus declara livremente justos os pecadores, foi uma doutrina de conforto e alegria. Como disse William Tyndale, “Evangelion (que é o que chamamos o evangelho) é uma palavra grega que significa notícias boas, afortunadas, felizes e alegres, que fazem o coração de um homem feliz e o fazem cantar, dançar e pular de alegria”. Lutero também sentia que por meio da justificação ele “tinha nascido de novo, completamente, e tinha entrado no próprio paraíso através de portões abertos”. E não é de se admirar: o fato de que ele, um pecador falho, era perfeitamente amado por Deus porque estava vestido pela justiça do próprio Cristo havia lhe dado uma confiança espetacular. Como disse ele, aconselhando um amigo:


Quando o demônio joga nossos pecados na nossa cara e declara que merecemos a morte e o inferno, devemos dizer o seguinte: “Admito que mereço a morte e o inferno. E daí? Isso significa que serei condenado à condenação eterna? De forma alguma. Pois eu conheço Aquele que sofreu e cumpriu a compensação em meu lugar. Seu nome é Jesus Cristo, o Filho de Deus. Onde ele estiver, ali também estarei”.

E a importância dessa mensagem não diminuiu ao longo dos anos. Hoje somos bombardeados com a mensagem de que seremos mais amados se nos tornarmos mais atraentes. Pode não ter a ver com Deus, mas ainda é uma religião de obras e que está profundamente arraigada. Por isso, a Reforma tem a boa nova mais resplandecente. Como disse Lutero: “Pecadores são atraentes porque são amados; eles não são amados porque são atraentes”.

Se a justificação somente pela fé é o elemento essencial da Reforma, a autoridade suprema da Bíblia é seu meio. Para obter uma reforma substancial, foi necessária a atitude de Lutero, que as Escrituras são a única base segura para a convicção da fé (sola Scriptura). A Bíblia precisava ser reconhecida como autoridade suprema e autorizada a contradizer e anular todas as outras afirmações, ou ela mesma seria anulada. Em outras palavras, a simples reverência pela Bíblia e o reconhecimento de que ela tem alguma autoridade jamais seriam suficientes para provocar a Reforma. Sola Scriptura era uma chave indispensável para uma mudança profunda e saudável.

A Reforma ainda é relevante?

Se a Reforma fosse apenas uma reação negativa a um problema puramente histórico, então não seria relevante, hoje, para os evangélicos. Contudo, quanto mais de perto se observa, mais claro isso se torna: a Reforma não foi, principalmente, um movimento negativo, um distanciamento de Roma; foi um movimento positivo, um mover-se em direção ao evangelho. E mover-se em direção ao evangelho significa descobrir o cristianismo original, bíblico, apostólico, que àquela altura estava enterrado debaixo de séculos de tradições humanas. É isso que mantém a validade da Reforma nos dias de hoje, pois a igreja deve estar sempre se reformando e constantemente chegando mais perto do evangelho. Isso é sintetizado por duas palavras que escutamos com frequência: “semper reformanda”. Contudo, seu contexto é importante, pois a frase completa em latim diz: Ecclesia reformata et semper reformanda secundum verbum Dei (“Igreja reformada e sempre se reformando de acordo com a Palavra de Deus”). A Reforma não pode acabar. Deve ser uma bandeira evangélica, carregada com humildade e firmeza.

Para os evangélicos, essa é a nossa história. É uma história de testemunhas corajosas e eloquentes da verdade da graça de Deus encontrada em sua Palavra. E assim como essa é nossa história, esse deve ser também nosso padrão. Que Deus nos dê a fidelidade corajosa dos reformadores para trabalharmos juntos em unidade evangélica para a contínua reforma e o crescimento de sua igreja!

 

• Trecho retirado do livro A Reforma – o que você precisa saber e por quêde John Stott e Michael Reeves (Editora Ultimato).

 

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