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Por Elben M. Lenz César

Não conheci Rubem Alves pessoalmente. Confesso com um pouco de vergonha que nunca li os seus livros, embora tenha sido leitor de seus artigos na Folha de São Paulo. Tenho a forte impressão de que a Igreja Presbiteriana do Brasil, da qual ele foi pastor e da qual eu sou pastor há 58 anos, influenciada pelo pavor da ameaça comunista na época da Revolução, não conseguiu enfrentar o problema com mais sabedoria e mais amor, o que motivou sua retirada do ministério e talvez da fé.

Apesar da ausência desses vínculos com Rubem Alves, passei por um momento de abatimento quando soube da morte dele. Não queria que ele morresse sem voltar atrás na negação da obra salvífica de Jesus Cristo. Tirei dos meus guardados a carta aparentemente atrevida que mandei para ele ano e meio antes de seu falecimento e a reli com muita tristeza. Eis o teor da carta, com data de 12 de janeiro de 2012:

“Mui caro Dr. Rubem Alves,

Tenho comigo o recorte de seu artigo Despedida, publicado na Folha de São Paulo de 1° de novembro do ano passado. Tenho também o recorte do bonito artigo Além do cotidiano, de Marina Silva (4 de novembro).

Como membro de uma família de pastores presbiterianos (avô, pai, tios, primos, sobrinhos e genro), sendo eu também pastor presbiteriano, e sabendo que o prezado amigo por alguns anos exerceu o pastorado da Igreja Presbiteriana de Lavras – encho-me de ousadia para pedir-lhe que escreva pelo menos mais um artigo, apesar da ‘Despedida’. Pode ser na Folha de São Paulo ou em qualquer outro jornal ou revista.

Não fique aborrecido comigo, mas peço permissão para sugerir um artigo no qual o senhor reconsidere sua posição religiosa cristã, caso isso aconteça primeiro na sua alma e na sua mente. O senhor tem muitos leitores e admiradores que poderiam se beneficiar com esse texto pós-despedida. Muitos deles acham-se confusos e sedentos de água viva.

Não me esqueço de sua entrevista à IstoÉ de 20/12/2000, p. 90: ‘Hoje, as  ideias centrais da teologia cristã em que acreditei nada significam para mim: são cascas de cigarras vazias. Não fazem sentido. Não as entendo. Não as amo’.

Tenho a meu favor que sou quatro anos mais velho que o amigo…

Abraços,

Elben M. Lenz César”

Em setembro do ano passado, mandei-lhe outra carta, desta vez bem curta: “Gostei muito de seu artigo sobre a eutanásia, publicado no Informativo do Instituto Camiliano da Pastoral da Saúde”. Esse texto de Rubem Alves me influenciou a escrever o artigo Vida longa, vida alongada e vida eterna, publicado na edição de novembro/dezembro de 2013 de Ultimato.

Não sei o que teria passado na mente do querido pedagogo, escritor, teólogo, poeta e psicanalista em seu leito de dor e morte. Teriam vindo à tona com toda força aqueles momentos quando ele celebrava a Santa Ceia na Igreja Presbiteriana de Lavras e, depois de levantar o cálice cheio de vinho, repetia as palavras de Jesus: “Este cálice é o meu sangue, minha nova aliança com vocês” (1 Coríntios 11.25)?

• Elben M. Lenz César é redator-fundador da revista Ultimato.

  1. Lamento esse artigo de Elben.

    Rubem Alves não merecia um puxão de orelha teologico póstumo de um homem, cidadão, professor que nunca se meteu em encrencas (eu o conheci pessoalmente na casa de Abílio Coelho em Campinas, SP.) que fez enormes contribuições teológicas.

    Sua tese de doutorado no Union de Nova York é um marco histórico. Seguiram-se outros livros.

    A rigor, a IPB não tinha estofo para tratar um homem brilhante como Alves e tantos outros.

    Nenhuma palavra mais dura contra a IPB de Elben, da qual é ministro há 58 anos, que pintou e bordou nos tempos da ditadura contra figuras de escol.

    Será que Elben não conhece os relatos de como o Presbitério fez e tratou Rubem Alves?

    Elben declara nunca ter lido livro algum de Rubem Alves, artigos na Folha sim.

    O que é que lhe dá o direito de chamar uma pessoa a um pedido de acerto de contas sobre certos pontos centrais da dogmática cristã, sobretudo por não ter privado com ele de intimidade alguma?

  2. Daquilo que li entre os escritos de Rubem Alves, fiquei com a sensação de que Deus deu a ele uma habilidade incrível com as palavras, e uma sensibilidade profunda para as questões humanas. Ele conseguia colocar em palavras aquilo que pouca gente consegue, e com muita beleza! Os leitores encantavam-se com o que ele escrevia, com a beleza expressa em palavras… Talvez ele tenha se apaixonado demais por essas habilidades e pelo resultado delas, pela maneira como conseguia olhar o mundo e pelo que conseguia ver. Talvez ele tenha se impressionado demais com isso, ao ponto de não reconhecer mais o Deus que deu a ele tudo… Ele ficou com os dons, mas perdeu-se do doador deles. E a beleza, em todas as suas formas, sempre nos atrai, nos fascina, nos seduz. E quem é que ousa discutir com um poeta, que põem a beleza em palavras? Seus leitores são facilmente seduzidos. O problema é que a beleza nem sempre anda de mãos dadas com a verdade. Rubem Alves foi seduzido por seu próprio olhar. Um olhar contagiado pela visão de mundo de seu tempo, que elege o relativismo como guia e, em nome da beleza de uma ideia, descarta com facilidade a razão.

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