Não que eu tenha já encontrado a chave dos sonhos, mas a vida vai ensinando que sem espera não há felicidade que se encontre, bem que se ache, valor que dure, significado com significante. A espera é esta linha de aço que vai costurando os retalhos do caminho e fazendo da vida um artesanato, e de nós, aprendizes de artesão. A espera nos convida à contemplação dos moinhos. Entra água, bate o pilão, mói o milho, faz-se o mingau, e só então nutre-se a alma. Muita água quebra o pilão e não se faz a maisena. Pouca água anestesia o pilão, anestesia a vida, pois não há pão. Espera é constância, nem muito, nem pouco.

Espera é contemplar as galinhas no terreiro. Galinha “botadeira” põe seus ovos cuidadosamente em seu ninho, dia após dia. Depois, exila-se de tudo por 21 dias. 21 dias sem comida, sem bebida, sem as amigas do “puleiro”. 21 dias de proteção constante aos seus bens mais preciosos. 21 dias de calor terno. 21 dias que separam meras clara e gema de uma vida autônoma. Contemplar galinhas “botadeiras” é aprender constância, paciência, renúncia, proteção. O sonho não se faz na agitação e no barulho de um galinheiro. Contemplar galinhas nos faz ver que é a constância do calor da mãe, nem muito nem pouco, que gera os pintinhos. Quando eu era criança, roubei um ovo de um ninho e o coloquei dentro do forno ligado do fogão. Não deu certo. O ovo cozinhou. Muito calor mata a vida. Pouco calor não gera a vida que sonhamos. O que vai gerando a vida não é a pressa, mas o suor do dia-a-dia, a renúncia de estar entre amigos, de sentar-se sozinho e chorar, de sentar-se sozinho e estudar e trabalhar, a renúncia do imediato, a renúncia dos holofotes, a proteção dos sonhos contra chuva, vento e calor, contra inveja, ganância e competição.

A espera nos ensina a desconfiar de muito barulho. Milhões de árvores crescendo não emitem som algum. Uma só árvore caindo pode-se ouvir de longe. A espera é que, no final, mostra que as muitas palavras e pirotecnias de alguém não passavam de barulho de um motosserra.

A espera e o escorrer da vida separam colegas de amigos. O tempo separa os amigos daqueles que são uma só alma vivendo em corpos separados. No final, descobre-se que estamos cercados de muitos colegas, poucos amigos, e raríssimos amigos de alma. No viver da vida podemos nos ferir, mas podemos também ser a cura.

Espera é ter ovos, trigo, açúcar, sal, óleo e fermento à mão e não poder comer o pão agora, simplesmente porque o fermento ainda não levedou a massa e a lenha ainda não está quente o suficiente. Para certas coisas, o tempo parece não passar. Às vezes, dá vontade de comer pão asmo (matsá).

Espera é viver feliz enquanto o pão não fermenta e aproveitar para limpar a casa, esvaziar as gavetas de coisas antigas e sem mais importância, abrir as janelas, colocar o lixo para fora, trocar os panos-de-prato da cozinha, regar as plantinhas do jardim da sacada, levantar o sofá e tirar os ciscos debaixo, trocar as fotos dos painéis, ler uma página de um livro bom, tagarelar com o vizinho de janela, parar um segundo para contemplar o aguaceiro que cai lá fora e vê-lo arrancar da terra o “cheiro de chuva”. O mesmo cheiro que revelará o novo broto da samambaia já dada por quase morta.

A espera vai virando esperança e esperar vai virando esperançar. Quando nos dermos conta, o pão terá crescido, terá sido assado e o poderemos saborear com a casa limpa, a janela limpa, o chão limpo, com a chuva chovendo, as samambaias brotando…

Esperançar é ver novos dias em cor, inda que a matiz à frente se nos afigure como cinza. Esperança é quando faz-se canção no silêncio. Esperança é ver, inesperadamente, paz em meio às nossas guerras e ver o céu, como um pálio aberto, se encher de estrelas. Esperança é transbordar em meio às contrariedades e render-se à doce poesia da vida que nos ensina que até mesmo o sal ressalta-lhe o sabor. Esperança é ver até mesmo nas linhas não escritas da nossa vida um motivo para agradecer e recomeçar.

Esperançar é aprender a conjugar a esperança: Eu esperanço. Tu esperanças. Ele esperança. Nós esperançamos. Vós esperançais. Eles esperançam. Esperançar é esse verbo intransitivo, que, como tal, independe de objeto. Esperançar é ser impermeável às vicissitudes e revezes da vida. Quem “esperança”, nunca “esperança” num objeto, pois quem “esperança” nisso, na verdade, não “esperança”, apenas “espera”. A “espera”, porém, é permeável às ondas altas e marés intempestivas.

A esperança nos faz fortes, ainda que fracos; enxergando, ainda que cegos; ouvindo a música da vida, ainda que surdos; crendo, ainda que não querendo crer… Esperança que incomoda como um zumbido ou como aquele mosquitinho chato que lhe perturba pela manhã, quando já não há mais motivos aparentes para levantar da cama e abrir as janelas do quarto e da alma. Esperançar é querer e decidir recomeçar, ainda que tudo em volta mostre suas contrariedades.

Dizem que “quem acredita sempre alcança”. Pode até ser, mas quem “esperança” não se desespera, mesmo quando não alcança. Quem “esperança” avança, mesmo quando não há mais confiança.

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Áquila Mazzinghy é ex-assistente editorial da Ultimato. É professor de Direito Internacional e Direitos Humanos em São Paulo, Belo Horizonte e Porto Velho

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