Renan Ramalho

Em um tempo não tão remoto, ouvi o professor Wiclife Costa – com o qual compartilhava meu tempo tanto nas disciplinas universitária do curso de história quanto nas reuniões semanais da Aliança Bíblia Universitária – falar a respeito da importância de refletirmos sobre as coisas ordinárias da vida, pois estas nos acompanham quase que diariamente. Raramente investimos tanta energia nelas quanto em nossas reflexões mais complexas. Há uma tendência de levarmos cada vez mais o pensamento a uma categoria quase folclórica ou de entretenimento. Frequentemente, a impressão que se tem é que quanto mais ininteligível, relativista e pouco real seja uma formulação, mais genial ela é.

Não defendo um superficialismo de ideias, nem desprezo a necessidade de pensar sobre as complexidades da vida. O problema se dá quando há uma romantização de uma retórica irreal.

Que isso tem a ver com a vida cristã? Assim como as ideias e reflexões se tornam quase folclóricas e elegemos campos metafísicos como templos de um panteão ideológicos onde elas possam habitar, longe das tensões e conflitos éticos diários, assim elegemos as reuniões religiosas como locais e tempo de tratarmos sobre as coisas ditas de Deus e lá deixamos os raciocínios mirabolantes sobre o sexo dos anjos, voltando ao mundo vazios. Retiramos Deus completamente do nosso dia-dia, mantendo-o longe das nossas constantes tensões éticas.

No romance "O Dia do Curinga", de Jostein Gaarder, havia um líquido mágico, a bebida púrpura, que despertava em quem o tomava uma intensa experiência sensorial. Nesse momento podia-se perceber a riqueza e a grandiosidade dos eventos naturais, que um dia na nossa infância foram questão de profunda perplexidade, mas cujas repetições tornaram-nos coisas ordinárias. Nessa perplexidade estaria a essência da real filosofia. Pensar filosoficamente teria seu alicerce na sensibilidade ao milagre da existência.

Assim como o mundo é maravilhoso pelo simples fato de existir e manter seu tenso equilíbrio, e nesse observar a realidade com sensibilidade filosófica há grande fonte de sabedoria, também no milagre da existência e na vida cotidiana podemos ver a Deus. E assim como por vezes, devido às repetições do mundo ordinário, nossa sabedoria torna-se infértil e insensível – e é preciso que bebamos da “bebida púrpura” para que ela nos devolva a curiosidade infantil de cada momento – assim também nossa espiritualidade torna-se, por vezes, insensível ao Deus onipresente. Formalizamos momentos para que a espiritualidade se torne ativa e agendamos milagres.

Talvez precisemos da bebida púrpura do Espírito Santo, para de novo conhecermos o Deus de nossa conversão, de quando ainda éramos crianças na fé. Quando mesmo sem conhecermos a diferença entre graça salvífica e graça comum, não tínhamos experimentado a frieza da repetição dos sacramentos. Em nossa ingenuidade preservávamos o prazer de dizer as simples, mas intensas, verdades, como “Jesus te ama” (e te ama cotidianamente).

Renan Ramalho é estudante e abuense, de Natal, RN. Conheça o blog dele clicando aqui.

  1. Muito bom o texto… concordo que temos que trazer Deus em nossos assuntos cotidianos, em nossa vida, afinal!! Falamos com muita naturalidade de tanta menos do que é do Senhor… mudamos de assunto rapidamente ao sair do culto com uma velocidade impressionante… e o sermão, q tinha sido tão tocante nas nossas vidas, já virou página velha!!

  2. Onde está a simplicidade??? Teria perdido o valor o que Jesus disse em Mateus 6.33? Estaríamos buscando o Reino quando demonstramos que sabemos disso ou daquilo de modo mais porfundo? A orientação bíblica é que não nos atenhamos ‘a genealogias intermináveis que mais produzem questões do que edificação’ 1Tm 1.4. E como ficam aqueles que não concluíram estudos na escola (Ensino Fundamental ou Médio) e que não compreendem a linguagem teológica desses encontros? Reuniões feitas em igrejas que entre seus membros há pessoas com pouca ou nenhuma instrução educacional e sem o hábito da leitura de termos científicos de modo constante. Que haja despertamento para quem organiza esses encontros, congressos e afins para instruírem aos pregadores as dificuldades que o povo tem de entender as coisas complexas. Falemos pois de maneira simples: Jesus morreu na cruz para salvar-nos. Ele se importa com os que sofrem. Mas muitas vezes estamos sentados e satisfeitos e o mundo fora geme. Jesus salve os ‘cristãos’.

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