Festas de ano-novo são apreciadas por muitos. Talvez a marca principal dessas celebrações seja a esperança. É quando tudo se renova, em termos de oportunidades e possibilidades. É o ano das realizações que se apresenta; é quando consertaremos o que estava torto ou errado. Ano-novo é tempo de resoluções, de retomar projetos engavetados. E nos alegramos com essa estrada nova à nossa frente. Ano novo é aventura.

Festas de ano-novo também são evitadas por muitos. Talvez porque sejam marcadas pelo desencanto. É quando temos que admitir que falhamos em tantas coisas. Pior é quando nos damos conta de que já não é a primeira vez. É quando verificamos que, mais uma vez, deixamos de lutar pelos projetos e resoluções que fizemos na última virada. É quando nos vemos menores, porque tudo o que nos propusemos se mostrou ingênuo e inconsequente. Já nem acreditamos mais nessa perspectiva de renovação. Vai para a mesma categoria de confiabilidade do papai-noel e do coelhinho da páscoa. Crescemos. Ano-novo é comércio.

Este ano temos um componente a mais na balança da esperança versus desencanto. Temos a constatação de que estamos vivos. Somos sobreviventes! Sobrevivemos ao mais terrível flagelo que assolou o mundo nos últimos tempos. Esse pensamento tem o potencial de unir esperançosos e desencantados. Estar vivo já não é tão normal, se pensarmos no que vimos à nossa volta. Não bastassem os fatos naturais da vida e da morte, fomos aterrorizados pelo medo de sermos os próximos. Como se a morte estivesse andando pela nossa vizinhança, a escolher em que porta bater; que família visitar; a quem agarrar e levar para um hospital, numa decisão inapelável.

Por essa perspectiva, mesmo os desencantados poderiam dizer um “ufa!”, e pensar no que vai fazer com essa nova oportunidade. Ganhou um prêmio, ganhou uma “vida”, como se diz nos jogos de computador, para usar como quiser. Com poderes de realização; poderes que podem ser usados com esperança ou deixados de lado, pelo desânimo.
Há de ficar claro, para muitos, que sua sobrevida pode ser recebida com ações de graças. Ou não. Com nova energia. Ou com a sensação de que a mudança no calendário é apenas uma convenção. De 2021 para 2022, que diferença faz? Sim, estou vivo; e daí?

Há de ficar claro para os mais sábios, mesmo dentre os “realistas desencantados”, que aquilo que fizer com o 2022 que recebeu de graça será responsabilidade sua. Está em suas mãos. Se estes últimos tempos têm sido difíceis, em 2022 já não precisa pensar assim, porque o novo ano lhe abre uma janela de vida.

Pensando com o apóstolo Paulo, poderíamos dizer que, em 2022, quando a humanidade abre as janelas do ano bom, ela pode ser dividida em dois tipos de coração: aquele que, tendo recebido um ano novo pra viver, alegra-se e dá graças; e aquele que “não acredita em festas de ano-novo”.

Esse tipo de coração, ao ler este texto, há de pensar que escolhi e recomendo o caminho da alienação. Que preferi a atitude do avestruz.

Alienação, talvez. Mas não a do avestruz. Uma alienação que propõe o seguinte:
“Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus” (Cl 3:1-3).

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