Com a água de um poço: transformação

Com a água de um poço: transformação

Para o próximo mês, agosto, planejo dedicar 15 dias deste blog para as Crianças Sertanejas e os outros 15 dias para as Crianças Ribeirinhas, dois grupos de crianças brasileiras que precisam urgente de nossas atenções. Eu tive oportunidade este anos de visitar tanto as crianças sertanejas como as ribeirinhas e recebi o impacto de suas realidades distintas e estranhamente semelhantes. Vejam abaixo o que escrevi após a minha participação no Primeiro Congresso de Missão Integral do Sertão Nordestino, realizado entre os dias 10 a 13 de julho, em São Mamede, PB.

 

 

Sertão sustentável: afinal de contas, o sertão é rico ou pobre?

 

Até os 9 anos de idade, eu não sabia se era rica ou pobre. Como filha de missionários que elegeram atuar em meio ao povo Pankararu, uma etnia indígena no agreste pernambucano, eu sentia  ambivalência não só com relação ao meu lugar na sociedade, mas também com relação à minha própria “etnia”.  Os ricos tinham água encanada, banheiro dentro de casa, carro e televisão. Sendo assim,  eu era rica apesar de não ter televisão. Mas quando viajávamos para São Paulo, para visitar os parentes e  igrejas, eu descobria uma pobreza imposta no olhar das pessoas, pelas minhas roupas, pelos meus modos, pelos risos provocados pelo meu sotaque.

Até hoje me irrito com aqueles que insistem em ver apenas seca, escassez e miséria quando pronunciam a palavra “sertão”.  E foi por isto que fiz questão de ir ao primeiro Congresso de Missão Integral do Sertão Nordestino, com o tema “Por um Sertão Sustentável”.  O evento foi sediado pela ACEV, denominação com 75 anos de presença no sertão paraibano. Ouvi Gleydice, coordenadora do congresso e responsável por comunicação da ACEV, repetir várias vezes: “Não é possível discutir o sertão na capital!” Esta verdade justifica a decisão dos organizadores de promover o evento em São Mamede, próximo a  Patos, PB, um dos municípios com os menores índices pluviométricos de todo o nordeste. Veja mais sobre a organização do evento e sua programação aqui.

O impacto de um congresso está diretamente ligado à capacidade que os congressistas terão de obter o que foram ali buscar. Neste, a troca foi intensa porque pelo menos 50% dos participantes eram pessoas ligadas ao sertão e envolvidas em ministério integral com muitas demandas e poucos recursos. A riqueza do sertão se fez presente no bom humor de todos, na arte dos repentistas, na hospitalidade sem igual do pessoal da ACEV, nas histórias de resiliência e luta.

Nas mesas redondas e apresentações, discutimos intensamente sobre os problemas vividos pelos adultos, adolescentes e crianças dos vários sertões representados. Reafirmamos unânimes a grande necessidade de a igreja evangélica buscar respostas sustentáveis e focadas para estes problemas. Descobrimos que vamos precisar de boas estratégias, e que para isto, é premente o envolvimento da igreja com todos os segmentos da sociedade, de uma igreja que se abre para fora de si mesma e que  se prepara para o envolvimento inclusive em políticas públicas.

Carlos Queiroz: "O sertão é rico!"

Carlos Queiroz: “O sertão é rico!”

E aqui está outra riqueza do povo nordestino: coragem para encarar grandes desafios, seja na luta contra a desertificação do sertão, na luta contra a corrupção política, na luta contra a exploração abusiva do trabalho, na luta contra a desigualdade histórica e persistente que faz das crianças, mulheres e minorias étnicas, as suas maiores vítimas. 

Fica para mim, ao final, a fala do Pr. Carlos Queiroz: “O sertão não é pobre, ele é rico, nosso subsolo tem água, nossa terra é fértil. Sustentabilidade é possível.” E eu quero ver cada criança sertaneja desfrutando das riquezas do sertão!

Para sair de Tacaratu, meu pai improvisou seu próprio pau de arara. O fusca foi colocado na carroceria do caminhão e os filhos dentro do fusca cercados por todos os nossos pertences. Foram quatro dias de viagem nos quais eu só parei de chorar quando chegamos a Feira de Santana, na Bahia. Não queria sair daquele lugar. Não dá para tirar o sertão do coração do sertanejo, mesmo que o sertão tenha sido adotado por uma filha de missionários sulistas.  Sendo assim, o meu apelo para todo o Brasil é que  tomemos para nós uma parte desta luta, e que o sertanejo seja honrado no seu labor, na sua coragem, ouvido no seu saber, respeitado no seu desejo de permanecer na terra e simplesmente poder ali VIVER!  Acho que Jesus requer isto de todos nós, brasileiros!

Das montanhas de Minas Gerais,

Elsie Bueno  Cunha Gilbert

  1. Querida Elsie, clamamos pelos nossos irmãos nordestinos, e pelas crianças de nosso Amazonas, tão exploradas, tão vitimizadas. A cada dia nos chegam mais notícias de cidades do Amazonas, onde a exploração sexual de crianças e adolescentes está sendo banalizada. Não bastasse Parintins e Coari, outra cidade agora é Barcelos, onde a desculpa para exploração é a pesca esportiva.
    O Bola na Rede, tem açoes programada para Janeiro, nesta cidade. Por favor , orem por nós.
    Em Cristo.
    Wilma

    • Prezada Wilma a Rede Mãos Dadas agradece o seu contato. Estaremos juntos em oração por vocês! Pedimos ao Senhor que abençoe e que ele continue alimentando os nossos corações. Que o desanimo fique bem distante, assim poderemos continuar a nossa caminhada pelos direitos das crianças e adolescentes que precisam de ajuda! Um abraço,

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