A reflexão de Edesio Sánchez Cetina transcrita abaixo revela o quanto nós precisamos avaliar melhor os heróis e anti-heróis a partir dos relatos da Bíblia. O texto foi retirado do livro Para Falar de Criança: Teologia, Bíblia e Pastoral para a Infância.

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Uma análise cuidadosa da narrativa mostrará que há dois tipos de personagens ao longo da história: os “heróis” e os “anti-heróis”. Os segundos se definem a partir de indivíduos e condutas que buscam manter as regras do jogo do status quo e de resolver os problemas pela via “mundo real”. Com eles como “ajudantes”, Naamã nunca alcançará a cura nem a restauração. Os primeiros, isto é, os “heróis” se definem a partir de indivíduos e condutas marcados pelo paradigma ou imagem da infância que vão, obviamente,  contra as regras e parâmetros do status quo. Em outras palavras, uns são “as crianças”, e os outros, “os adultos”. Entre esses “adultos” temos o rei da Síria e o rei de Israel; entre as “crianças”, a menina escrava, o profeta e os servos de Naamã. Naamã, na narrativa, começa do lado “adulto”, mas termina do lado “infantil”; diferentemente dele, Geazi começa como “criança”, mas termina como um anti-herói  “adulto”.

É bem eloquente constatar e comparar a conduta dos dois reis da narrativa. O rei da Síria – como seria de se esperar nesta narrativa – nos deslumbra com a insolência do poder e da riqueza desmedida: dá ordens precisas a Naamã, dá ordens precisas ao rei de Israel e envia Naamã com uma quantidade desproporcional de ouro, prata e roupas finas (vv.5, 6). O rei de Israel, por sua vez, ao receber a carta de seu colega se enche de angústia, o terror o invade e fica totalmente nulificado; sua conclusão não pode ser outra: ele procura um motivo para se desenteder comigo! (v.7). Ambos detêm o poder e têm o controle de seus respectivos povos, mas nesta narrativa o rei de Israel só pensa em si mesmo, em salvar a pele e, como consequência, não tem a capacidade de se lembrar – ou pelo menos de se informar – que há profeta em Israel (v.8).

Ética das criançasSe comparamos a situação de vida da menina e a do rei de Israel, podemos concluir que ambos sofrem a consequência do poder avassalador e devastador do rei da Síria. Entretanto, ambos agem de maneira diferente diante desta situação. O rei de Israel segue as regras do jogo do status quo e, por não ter coragem de enfrentar o poder hegemônico da Síria, refugia-se na segunda saída, a do “salve-se quem puder”, a do individualismo, a da falta de solidariedade, a do medo e da apatia. A menina, por sua vez, não apela às regras do status quo, não “perde a cabeça” diante de situações de angústia e adversidade, nem se fecha em sua dor e aflição, mas perdoa, pensa no outro e vai diretamente na fonte da solução do problema que vive “o inimigo”.

Entra em cena o profeta Eliseu. É um dos heróis da história e aparece com a imagem de “menino”. É importante considerar, sobretudo na pessoa de Eliseu, que a metáfora do menino nos relatos bíblicos não é a do apático, nem a do “deixado pra trás”, nem muito menos a do pusilânime ou covarde – como é o caso do rei de Israel. Sabe o que tem ao seu alcance e, dentro de suas possibilidades e habilidades, as utiliza para seguir adiante; não em seu favor, mas tomando o caminho da solidariedade e da justiça: Envia o homem a mim, e ele saberá que há profeta em Israel (v.8). A esse respeito, vale a pena citar aqui as palavras de Walter Wink acerca de Jesus e sua atitude diante do poder e grandeza:

Jesus não condena ambição ou a aspiração; antes muda os valores aos quais estão vinculados: “Se alguém quiser ser o primeiro, será o último, e servo de todos”. Jesus não recusa o poder, apenas quando ele é usado para dominar outros. Jesus não recusa a grandeza, antes a encontra na identificação e solidariedade com o necessitado (…) Jesus não renuncia o heroísmo, apenas o expressa ao renunciar aos poderes da morte e ao confrontar, desarmado, o poder inamovível das autoridades (op.cit.: 7)

Quando Naamã chega, com todo seu poderio econômico, na casa do profeta, Eliseu não se deixa deslumbrar nem pelo ouro nem pela prata ou pelas roupas finas. Mas ainda, nem sequer se incomoda em sair para receber dignatário. Envia seu assistente – que é, sem dúvida, Geazi – para lhe dar as instruções do que deveria fazer se quisesse recobrar a saúde. Obviamente que Naamã se enfurece por essa humilhação e desacato. Quão diferente é a conduta de Eliseu com relação a do rei Israel! Se o rei de Israel se enche de pavor  e fica petrificado diante da carta do rei e da presença de Naamã em seu palácio, Eliseu, por sua vez, não apenas recebe a Naamã com o fim de ajudá-lo a recobrar sua saúde, como o obriga, e o aparato imperial, a “jogar” seguindo os critérios da “terceira via” e não as do status quo.

Mas Naamã ficou indignado e saiu dizendo: “Eu estava certo de que ele sairia para receber-me, invocaria de pé o nome do Senhor seu Deus, moveria a mão sobre o lugar afetado e me curaria da lepra. Não são os rios Abana e Farfar, em Damasco, melhores do que todas as águas de Israel? Será que não poderia lavar-me neles e ser purificado?”. Então, foi embora dali furioso (vv. 11, 12).

Não, Eliseu não joga o jogo do sistema, e os servos de Naamã o sabem muito bem (v. 13). Eles, como a menina anônima e Eliseu, operam com outras regras. Assim, com muito respeito mas com firmeza, levam seu senhor a submeter-se às regras do jogo do reino de Deus, das crianças, da terceira via. E aqui, precisamente, começa a grande mudança na vida de Naamã – podemos dizer sem dúvida alguma, sua conversão!

  1. Sou uma pessoa simples,inculta,mas muitas coisas passaram pela minha cabeça,tendo em vista a importancia que Jesus dá a criança e diz que se quisermos entrar no Reino dos Ceus,teremos que ser como crianças. O exercício de interpretação que o articulista faz, para mim, lança luz sobre a vida humana,vai além, sobre a vida cristã e me faz pensar na forma que hoje nós os cristãos no relacionamos com o mundo pós moderno, de nos rendermos ao sucesso, aos numeros,à fama,ao dinheiro,etc,etc. O povo evangélico tem que deixar de ser “gospel” e voltar a ser “cristão”. Tem que deixar de ser adulto e voltar a ser criança.

    • Prezado Ivaldo a Rede Mãos Dadas agradece o seu contato. Concordamos plenamente com o senhor, para ser “cristão” tem que ser criança. Pois somente as crianças as puras. “Qualquer, porém, que fizer tropeçar a um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e fosse afogado na profundeza do mar. É inevitável que venham escândalos, mas ai do homem pelo qual vem o escândalo!” (Mt. 18: 6,7).

      Um forte abraço!

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