A paciência de Deus com um povo impaciente

A paciência de Deus com um povo impaciente

SÉRIE ÊXODO  |  Estudo 9

Texto básico: Êxodo 32—33

Textos de apoio
– Salmos 86.1-17
– Amós 5.1-17
– Atos 7.35-53
– Colossenses 3.1-17
– 1 Coríntios 6.1-20
– 1 Coríntios 10.1-22

Introdução

Essa passagem é muito dramática. Enquanto Deus instrui Moisés sobre o seu plano de ir habitar no meio do povo, isto é, descer do monte e caminhar junto com o povo pelo deserto em uma tenda, o povo se torna impaciente e resolve agir fazendo o seu próprio Deus. O grande drama do povo é a ausência desse “homem que nos tirou do Egito” (32.1) e a necessidade de deuses ou um deus que os conduzisse.

Talvez seja importante entender que no mundo antigo a presença de um deus era confirmada ou por sua imagem ou por alguma manifestação extraordinária. Milagres ou “sinais” eram realizados justamente para mostrar o poder e a presença da divindade (cf. Êx 4). Uma vez manifestada, era reverenciada. Isso provavelmente explica por que algumas vezes o faraó pediu que Moisés intercedesse por ele e Moisés queria que ele reconhecesse o poder de Deus (9.27-30). Contudo, uma vez que não havia imagens do Deus de Israel e a pessoa que até então representava a presença e o poder divino estava ausente, o povo se sentia sem a proteção de uma divindade e vulnerável. Fazer uma imagem ou fabricar um deus era um ato de autoproteção e de preencher um vazio espiritual, provocado por um sentimento da ausência de Deus.

Além do ato deliberado de idolatria, o povo ressignificou a confissão básica do Êxodo de que o Senhor tinha os tirado da terra do Egito (6.7; 20.1) e declarou “Eis aí os seus deuses, ó Israel, que tiraram vocês do Egito” (32.4, 8). O termo deuses vem da palavra hebraica elohim que pode ser traduzida tanto por Deus quanto por deuses. A diferença é sutil e pode parecer que essa confissão não é diferente de dizer “o Senhor (YHWH) que os tirou da terra do Egito”. Porém, a diferença está na conjugação do verbo. Na nova confissão, o povo declara que os deuses os tiraram do Egito. Essa é uma afronta ao Deus que os tirou do Egito e que os ordenou a não adorar nenhum outro deus nem fazer para si imagens.

Do alto do monte, o Senhor vê o que o povo está fazendo e, irado, manda Moisés descer porque ele ia destruir o povo. Moisés intercede e suplica pela compaixão de Deus. Ele pede para que o Senhor se arrependa da sua ira! (32.12). E Deus se arrependeu “do mal que ameaçara trazer sobre o povo” (32.14). Há pelo menos 45 ocorrências no Antigo Testamento de que Deus “se arrependeu”. Essa expressão denota a compaixão e misericórdia de Deus (veja Jl 2.13; Jn 4.2). Moisés suplicava para que Deus não executasse a sua ira.

Mas estes capítulos não tratam apenas de pecado e idolatria. Também falam de perdão, compaixão e sobretudo da proteção de Deus. Leia os capítulos e assinale as ideias que dizem respeito a perdão e compaixão.

O capítulo pode ser um retrato bem preciso da história do povo de Deus e, de modo geral, da história da humanidade: um povo impaciente, que se apressa a construir sua própria proteção divina, se rebela contra Deus, porém, um Deus compassivo.

Para entender o que a Bíblia fala

1. O povo entendia que foi Moisés quem os tirou do Egito (32.1, 23). Eles fabricam deuses para preencher a ausência de Moisés, porém, mantêm a mesma confissão (32.4, 8). Deus fala para Moisés do povo “que você tirou do Egito” (32.7; 33.1). Moisés suplica a misericórdia de Deus em favor do povo “que tiraste do Egito” (32.11). Você percebe certa ironia nessas palavras? O que o Senhor quer dizer quando fala a Moisés que ele tirou o povo do Egito?

2. Moisés intercede pelo povo. Veja qual é o argumento principal de Moisés no 32.11-13. O que está em jogo, o pecado do povo ou o nome de Deus? Como o pecado do povo envergonha o nome de Deus?

3. O Senhor atendeu à súplica de Moisés, porém, o próprio Moisés, quando viu o que estava acontecendo, também se irou e permitiu a execução dos idólatras (32.27-29).

4. Apesar do pecado do povo, Moisés sobe ao monte “para oferecer propiciação pelo pecado de vocês” (32.30). Moisés está sem dúvida fazendo o papel de sacerdote. Ele desce do monte (32.15) para condenar o povo e sobe para suplicar o perdão (32.31-32). Você percebe alguma relação entre a ação de Moisés e o que Jesus fez?

5. No final desse relato, Moisés pede para Deus lhe revelar “os seus propósitos, para que eu te conheça e continue sendo aceito por ti” (33.13), pede para ver a glória de Deus (33.18). Mas veja a resposta de Deus no 33.19. O que significa isso? Você vê alguma ligação disso com as expectativas das pessoas hoje? As pessoas desejam sinais extraordinários da presença de Deus, mas Deus se compromete a manifestar o seu nome, misericórdia e compaixão. Como podemos entender isso?

6. Deus promete que ele mesmo acompanhará o povo até a terra prometida (o “descanso”, 33.14). Literalmente, no hebraico, diz “a minha face irá” com vocês. No entanto, no 33.20 Deus diz “você não poderá ver a minha face” (tb. v. 23). Isso mostra que a presença de Deus com o povo não será visível. Eles não verão Deus, porém, verão a sua misericórdia e compaixão.

Hora de avançar

Como é difícil confiar na presença e proteção de Deus quando não vemos ou sentimos a presença dele. É uma tentação muito grande criarmos imagens ou artifícios para nos proteger e dar segurança e querer manter a mesma confissão. Essa passagem retrata um sentimento muito humano presente não só em pagãos idólatras, mas mesmo naqueles que foram agraciados pela salvação de Deus.

Pense nisso: A insegurança espiritual nos leva à idolatria. O vazio nos leva a fabricar deuses que nos amparem.

Para terminar

Essa experiência retrata o vazio espiritual do povo. Como lidamos com o nosso vazio espiritual, quando sentimos que Deus está ausente ou distante e que não temos nenhum sinal concreto da sua presença e misericórdia? Quais ‘deuses’ fabricamos para nos proteger?

Certamente vemos com muito espanto, e talvez indignação, como uma geração que presenciou os milagres de Deus no êxodo seria capaz de fazer o que fez. No entanto, não observamos como nós mesmos hoje criamos deuses ou proteções quando sentimos que Deus não está agindo ou “não sabemos o que lhe aconteceu” (32.1). O que podemos aprender disso?

Quando oramos “Santificado seja o teu nome, Venha o teu Reino, Seja feita a tua vontade (Mt 6.10), estamos dizendo também que quando deixamos de fazer a vontade de Deus o nome dele é envergonhado?

Autor do Estudo: pr. Billy Lane

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