Por Marília Moraes Manhães

Coral de Libras da Associação de Pais e Amigos da Saúde Auditiva  no 2º Encontro Autonomia para Pessoa com Deficiência (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

O desejo a Junta de Missões Nacionais da Convenção Batista Brasileira de alcançar os surdos teve seu marco inicial no período de 1991 a 1994, com grande movimento de mobilização nas igrejas batistas, os seminários baseados no livro O Clamor do Silêncio, estratégia para evangelização de surdos[1] e o Manual de sinais bíblicos, que serviram de apoio ao trabalho de evangelização dos surdos nas igrejas batistas e em outras igrejas evangélicas no Brasil. Muitos ministérios com surdos iniciaram e continuaram em várias partes do Brasil. Neste processo as igrejas recebiam os surdos que assistiam os cultos com a tradução para Libras, com atividades sociais voltadas para eles.

No período de 1995 a 2000, novos projetos foram realizados independentemente da Junta de Missões Nacionais por várias pessoas e organizações que desejavam ver o surdo sendo alcançado pelo evangelho. No ano de 1997, observando a necessidade da compreensão bíblica por parte dos surdos, Deus usa o visionário Gilmar Manhães, que forma uma equipe com duas pessoas – o jovem surdo Flávio Milani e a missionária Marília Manhães – com o sonho de implementar o “Projeto da Bíblia em LIBRAS”. Um trabalho o pioneiro, tendo em vista ter sido o primeiro projeto de tradução/ interpretação de vários livros no Novo Testamento da Bíblia Sagrada para língua de sinais no Brasil. Essa produção foi a primeira registrada pelo MEC como obra cultural intitulada a “Bíblia em LIBRAS”[2]. Que atualmente consta com uma coleção de 18 em DVDs, que vêm sendo utilizados como método eficaz para os surdos entenderem as verdades bíblicas e a guardarem em seus corações.

A obra missionária de Missões Nacionais com surdos avança no período de 2004 a 2008, novas produções e parcerias começam a surgir. Os surdos começam seu processo de discipulado formando uma equipe de trabalho e novos surdos e ouvintes são capacitados para esta missão e novas produções são feitas[3].

Um despertamento dos surdos para obra missionária entre os surdos é evidente e no período de 2009 a 2014, Missões Nacionais nomeia seus primeiros dez missionários surdos[4] o que foi um marco na história missionária dos batistas brasileiros. “Meu coração verdadeiramente despertou através da palavra maravilhosa de Deus em Marcos 16. 15[5]. Senti muito mais forte em meu coração o chamado para servir a Deus de forma missionária. Deus falou muito ao meu coração. Nunca mais esquecerei a ordem de Jesus para minha vida”, relata a missionária surda Patrícia Xavier[6].

Novos surdos sentiram o chamado de Deus, podendo entender e “ouvir” em sua própria língua, conforme a Bíblia diz em Atos 2.6, 8 e 11. O processo missiológico do povo surdo passa a ser constituído de significantes e significados, que são narrados pelos missionários surdos e pelos demais indivíduos surdos que têm tido experiências confessionais com Deus, o seu Criador, ocorrendo uma aprendizagem nativa própria do surdo.

O missiólogo Paul Hiebert (1999, p. 62) diz que “todas as pessoas enxergam o mesmo mundo, mas o percebem através de lentes culturais diferentes e nem sempre estão cientes de sua cultura e de como ela dá cor ao que veem”.[7] Assim, fundamenta-se de forma convergente a atuação dos missionários surdos frente ao seu povo trazendo esperança e obedecendo a Grande Comissão deixada por Jesus Cristo em Mateus 28.19 a 20, até que ele venha.

A plantação de igrejas em Libras cria um ambiente contextualizado, de estratégias visuais onde o ensino da Bíblia é transmitidos em língua de sinais, com traços culturais e linguísticos que darão o peno acessibilidade ao evangelho de forma real e significativo de maneira que os surdos venham a responder positivamente ao evangelho.

O acesso dos familiares do surdo à igreja em libras é mais prazeroso e sem estereótipos, pois o modelo apresentado é o modelo linguístico que não acentua a deficiência, sendo um meio de reconstruir os vínculos afetivos e comunicativos dessas famílias. É um ambiente relacional de cuidado uns pelos outros. Igreja em Libras é um avanço na expansão do reino de Deus, no alcance do surdo e na implementação duradoura do Evangelho em sua comunidade.

Notas:

[1] “Figura” O manual de sinais bíblicos” e livro “O Clamor do Silêncio, estratégia para evangelização de surdos”.
[2] “Figura”, A Bíblia em LIBRAS.
[3] “Figura”, “Conhecendo Deus e Fazendo a Sua Vontade”; “Guia Prático para Evangelização de Surdos”; “O Caminho para Salvação”; “O Grande Amor de Deus”; e o folheto “A Escolha”.
[4] Flávio Alan e Patrícia Xavier na cidade de Arapiraca/AL, Josivaldo Beda e Adelina Beda na cidade de Camaçari/BA, Rafael Wagner, em Vila Isabel/RJ, Everson Correa e Ana Kelly, na cidade de Marituba/PA, todos surdos nativos e os seguintes missionários ouvintes bilíngues, são eles: Denise Emiliano, na cidade de Macapá/AP, Marco Aurélio e Gláucia Gomes, no município de Nova Iguaçu/RJ, p. 23. 2012.
[5] O Evangelho de Marcos é um livro da Bíblia contido no Novo Testamento. Retrata a vida de Jesus e destaca-se sobremaneira como o evangelho da ação. No versículo 15, está escrito: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura”.
[6] Manhães, O Clamor do Silencio. Estratégia de evangelização de Surdos, p. 65. 2012.
[7] Hiebert. O Evangelho e diversidade das culturas, p. 62. 1999.

• Marília Moraes Manhães — Pedagogia e Psicopedagogia, especialista em Libras: ensino, tradução e interpretação pela UFRJ. Mestre em Estudos Teológicos pelo Southeastern Baptist Theological Seminary. Atua na Gerência de Evangelismo da Junta de Missões Nacionais da CBB.

A Junta de Missões Mundiais da Convenção Batista Brasileira participa de um projeto de ações ministeriais da Ultimato e, como acontece com outras organizações missionárias, recebe exemplares de Ultimato gratuitamente para distribuir aos missionários vinculados à agência.

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