Achei nas redes sociais o texto abaixo, retirado de alguma publicação do século passado (Reader’s Digest?), sob o título “O Sentido de Ir à Igreja”. Diz o artigo:

Um frequentador de uma igreja escreveu a seguinte mensagem para um jornal:

“Eu tenho ido à igreja por 30 anos e durante este tempo devo ter ouvido umas 3.000 pregações. Mas, com exceção de uma ou outra, eu não consigo lembrar da maioria delas. Por isso, acho que estou perdendo meu tempo e os que pregam também estão desperdiçando o deles.”

Essa matéria gerou uma grande discussão, resultando em uma sábia resposta de um leitor, igualmente divulgada, nos seguintes termos:

“Estou casado há mais de 30 anos e durante esse tempo minha esposa deve ter cozinhado umas 9.000 refeições. Mas, com exceção de uma ou outra, eu não consigo me lembrar da maioria delas. Mas de uma coisa eu sei: todas elas me nutriram, me alimentaram e me deram a força necessária para fazer minhas atividades. Sem essas refeições, eu e nossos filhos estaríamos desnutridos, fracos, desanimados e mortos. Da mesma maneira, se eu não tivesse ido à igreja para alimentar minha vida, minha alma e a da minha família, estaríamos hoje mortos espiritualmente”.

Portanto, não deixe de estar em comunhão na sua igreja. Encorajemo-nos uns aos outros.

Em que pese a graça da argumentação, vê-se que esta se limita às pregações. Pode ser que o texto  tenha sido recortado de um contexto maior, não sei. Mas proponho breve reflexão sobre ele, na forma como me chegou.

É claro que o sermão é o ponto alto do culto, mas, hoje em dia, o argumento tropeçaria na multidão de sermões disponíveis online, em áudio e vídeo, e deixaria de fora, além do aprendizado presencial em classes bíblicas, também toda a dinâmica do “sentar-se à mesa”: irmãos reunidos pelo Pai para um banquete. Não me refiro apenas à Santa Ceia; entendo que todo fenômeno de pertencimento e participação em uma igreja local seja um simbólico e profundo sentar-se à mesa.

A longo deste ano, a classe de Vida, Adoração e Comunidade, em nossa igreja, tem buscado, coletivamente, uma resposta bíblica para essa questão (por que preciso ir à igreja?). E temos aprendido que toda a Bíblia; todo o plano de Deus revelado, do Gênesis ao Apocalipse, fala de relacionamentos: pertencimento, comunhão, dons, funções no corpo, serviço altruísta, afetos, misericórdias, santidade, perdão etc. Comunidade: esse é, afinal, “o mistério oculto aos antigos” e revelado em Pentecostes.

Aprendemos que fomos criados para nos relacionar com um Deus trinitário. Um Deus de amor que nos fez amorosos; um Deus de afetos que nos fez afetivos e afetuosos; um Deus misericordioso que nos fez capazes de misericórdia. Sim, de “ternos afetos e misericórdias”. A tal ponto que, ao sermos expulsos desse ambiente, passamos a vagar pela terra, à busca do “lugar onde tu habitas”. E a promessa do retorno se materializou, em Pentecostes, na forma de um corpo, do qual a cabeça seria o Filho eterno. A família de Deus seria, afinal, ainda que temporariamente imperfeita, o anelado “colo de Deus”.

Com efeito, ela seria a resposta divina ao antigo desafio cósmico: “poderão os irmãos viver em harmonia e união, entre si e com o Pai? Em família?” (Jó 1 – Ef 3:11) O inimigo diz que não: “porque são meus; são filhos da individualidade, da privacidade e da autonomia rebelde, e têm sérias restrições ao que és e fazes”. Mas o próprio Deus responde: “sim, é possível; e assim será, ali onde meu nome for invocado em espírito e em verdade”. E o Filho vem, e ora, e pede ao Pai a restauração daquela proximidade original — “A fim de que todos sejam um” (Jo 17:20).

Entendo que haja todo sentido em ir à igreja, em pertencer a uma comunidade de fé, para aprender e praticar essas coisas. Pois, na qualidade de filhos adotivos, tornarmo-nos parte e agentes do ministério da reconciliação. Gente reconciliada pelo poder do sangue de Cristo, para oferecer ao mundo o que ele quase desistiu de procurar.

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