A falta de um item tão importante para a segurança da higiene sanitária é comum em muitas casas de taipa de Barra de Oitis.

Por Ray Santana

No atual contexto brasileiro, é difícil não encontrar pequenas comunidades que sofram os impactos diretos dos problemas sociais e políticos pelos quais passa o país. Dificuldades estas que já existiam bem antes, mas que agora se veem em meios ao caos.

No Brasil, o espaço de pequenas comunidades de grupos étnicos, como os quilombolas, ainda é alvo de disputas territoriais pela preservação das raízes culturais do povo. No país são mais de 3 mil comunidades quilombolas, de acordo com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). E além da luta pela conquista territorial, ainda existem fatores preocupantes como o desenvolvimento social lento dessas comunidades, que resulta em problemas mais complexos na saúde pública, educação e economia local.

Com pouco mais de 900 habitantes, a Comunidade Quilombola Barra de Oitis, na zona rural do município de Diamante, sertão paraibano, carrega muitos desses problemas. Um dos maiores, senão o maior, é o de saneamento básico. Muitas casas possuem esgotos à céu aberto, descarte incorreto do lixo, que quando não é queimado gera acúmulo em meio a cercas de estacas de madeiras que separam os quintais das casas, algumas ainda de taipa, que nem possuem banheiros.

Uma situação indigna que aos poucos vem tendo a sua realidade transformada através da ACEV / ACEV Social, que através de parcerias com outras instituições nacionais e internacionais, como a Tearfund, Evangelical Action Brazil e Comunidade Atos, tem construído banheiros para cada casa do local. Nessa quarta-feira (29), foram entregues oficialmente 8 banheiros, de um total de 17 construídos em três etapas ao longo de dois anos.

Foi um longo e criterioso processo de seleção das famílias para serem beneficiadas através do Projeto Saneamento Comunitário, que busca resgatar a dignidade das famílias através da construção de banheiros e consequentemente melhorar as condições de higiene sanitária. Os moradores da comunidade passaram por um processo de sensibilização em rodas de conversas, palestras e oficinas voltadas para a importância do saneamento básico, a necessidade do cuidado com a saúde e a preservação do meio ambiente.

“Esse trabalho não é feito só a partir da ACEV, mas é feito com outras igrejas e com a família, que ajuda na construção do banheiro com a mão de obra”, explica o pastor Lindon Carlos Vieira, diretor-executivo da ACEV Social. De acordo com ele, as famílias que recebem o projeto se comprometem a mudar o comportamento em relação à poluição, adotando medidas de preservação do meio ambiente que beneficiem também a toda a comunidade.

Aluísio Delfino de Lima, secretário da Associação Quilombola Barra de Oitis, afirma que assim como outras comunidades da zona rural, Barra de Otis é esquecida pelo poder público. De acordo com ele, cerca de 90% do local é carente, e muitos vivem em situação de extrema pobreza, e os banheiros vêm para regatar a esperança de dias melhores para quem vive em Barra. “As pessoas agora têm mais dignidade, como morador de Barra de Oitis. Muitas vezes o governo tem o recurso, mas não tem a vontade”, afirma.

Outros projetos da ACEV de perfuração de poços, desenvolvimento de plantações agroecológicas voltadas para a agricultura familiar e criação de animais também acabam sendo desenvolvidos ao longo do processo com o propósito de garantir a geração de renda e segurança alimentar da família, já que a fome também é uma realidade vivenciada por muitas famílias da comunidade que por muitas vezes não têm o que comer.

A meta é chegar a 40 banheiros construídos. Cada banheiro custa em torno de R$ 5.580,00, já com toda instalação necessária para o seu funcionamento. O projeto depende da parceria entre a igreja com outras instituições em uma mobilização coletiva. O pastor John Medcraft, presidente da ACEV, explicou na entrega dos banheiros que a igreja está fazendo o que o poder público deixou de fazer, agindo para amenizar a situação da comunidade, e sem barganha religiosa.

Os problemas de saneamento afetam também o abastecimento de água da comunidade

A água que abastece a comunidade vem de um poço amazonas, um tipo de poço cavado manualmente para captar a água do lençol freático mais próxima da superfície. O poço foi perfurado em uma parte mais baixa da comunidade, próximo ao leito de um rio exposto a contaminação por lixo e fezes de animais e humana, com a água sem nenhum tratamento adequando para consumo, que acaba provocando constantemente epidemias na comunidade.

• Ray Santana é jornalista e assessor da ACEV/Brasil

Leia mais:

» Quilombolas cada vez menos invisíveis

» Quilombolas: um desafio para a Igreja

  1. Antonia Leonora van der Meer

    Graças a Deus por esse ministério importante da ACEV, ajudando a restaurar a dignidade e a saúde dos quilombolas da Barra de Oitis. Bom e necessário serviço e bem descrito pelo Ray Santana. Que Deus continue a guiar e abençoar esse serviço.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You may use these HTML tags and attributes:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>