Por Héber Negrão

Este é o meio de transporte dos indígenas no Médio Rio Xingu

Este é o meio de transporte dos indígenas no Médio Rio Xingu

Durante um mês estivemos fazendo um estágio missionário num belíssimo lugar no Médio Rio Xingu, estado do Pará. Lá eu e minhas colegas de turma de linguística fomos expostos a diversas situações que poderemos encontrar no campo missionário. De nossos instrutores, recebemos noções básicas de pesca, remo, cozinha rústica, saber como andar na mata, como tratar peixes e caças, fazer massa de cimento para assentar pisos e rebocar paredes. Enfim, foi um treinamento bem prático, indispensável para o candidato a missões transculturais.

Também tivemos um tempo de convivência em duas aldeias indígenas onde os missionários responsáveis pelo estágio têm atuado. Eles são tradutores da Bíblia e atualmente estão envolvidos na tradução do livro de Atos. Passamos uma semana morando nas aldeias fazendo pesquisas antropológicas, conhecendo o povo, participando de suas atividades diárias. Também aproveitamos o tempo para contar histórias bíblicas para crianças e adultos da aldeia.

Como fruto de anos de trabalho missionário hoje nós temos irmãos indígenas ali naquelas aldeias. Eles ajudam os missionários na Tradução das Escrituras e são verdadeiramente convertidos, tendo seus corações voltados para Cristo.

Gostaria de apresentar a vocês duas experiências que tive com meu irmão em Cristo, Kaworé. Certa ocasião ele me chamou para pescar. Foi um dia de muito aprendizado para mim que nunca havia pescado antes. Saímos de barco pelo rio e passamos a maior parte da manhã sem pegar nada, debaixo de sol e chuva. Pouco antes do almoço ele conseguiu fisgar um tucunaré – umas dos melhores peixes daquela região – e quando segurou o bicho dentro do barco gritou: “Glória a Deus, já temos nosso almoço”. Talvez não pareça grande coisa para nós, mas para ele era a provisão de Deus para a refeição da sua família naquele dia. E o fato de ele ter agradecido ao Senhor por isso é tão significativo quanto nossos momentos de oração à mesa. Demonstra verdadeira espiritualidade.

Antes de voltar para casa, eu disse que gostaria de deixar alguns presentes com o Kaworé. Uma vez que ele estaria fora da aldeia, em viagem para a cidade, perguntei com quem eu poderia deixar suas encomendas. Ele me disse para deixar com sua mãe, mas depois de pensar um instante mudou de opinião. “Deixa com o Iori” respondeu. Ao perguntar quem era Iori, ele me disse: “É um irmão na fé”. Esse fato me deixou muito intrigado. O que leva um indígena a preferir confiar suas coisas a um “irmão na fé” do que a um parente consanguíneo – ainda que este seja sua própria mãe?

Fatos como esses que presenciei – e muitos outros já vividos por estes irmãos – nos mostram que pode haver uma conversão genuína entre os indígenas. Não pensem que estou sendo muito óbvio ao afirmar isso. Muitas pessoas não acreditam que é possível que indígenas, ribeirinhos, ciganos e povos das sociedades mais simples possam compreender o Evangelho e vivê-lo verdadeiramente. Mas, graças a Deus a Bíblia, como um livro “supra cultural” que é, transforma pessoas de todas as eras, de todas as culturas e de todas as línguas.

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Héber Negrão é paraense, tem 31 anos, mestre em Etnomusicologia e casado com Sophia. Ambos são missionários da Missão Evangélica aos Índios do Brasil (MEIB), com sede em Belém, PA.

 

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