Por Maurício J. S. Cunha *

Uma igreja profética, em palavras e obras

Além da questão da não-dualidade do ministério de Jesus (o poder das palavras e das obras), o texto de Lucas nos traz a reflexão acerca da natureza do “profético”. Ainda que reconheçamos em Jesus a plenitude da manifestação dos dons ministeriais (apóstolo, profeta, evangelista, pastor e mestre), o fato é que, aqui, ele é reconhecido como “varão profeta”.

O que caracteriza o profético? Muitas respostas poderiam ser dadas a esta pergunta, mas gosto de pensar o profético como a proclamação do desígnio de Deus, a sua plena vontade. Profetizar é anunciar a antecipação da chegada do Reino, o pleno Governo do Pai.

Temos a tendência de pensar o profetizar apenas como um ato de proferir palavras. Mas Jesus foi reconhecido como profeta de obras e palavras. Assim como a palavra profética é aquela que anuncia o desígnio de Deus, a ação profética é aquela que, por meio de uma intervenção prática, faz cumprir a sua vontade. E Jesus fez isso inúmeras vezes. O seu agir revelava a vontade de Deus, antecipando a chegada da plenitude do Reino. Ao alimentar os famintos, Jesus sinalizava o Reino onde há provisão para todos; ao curar os enfermos, mostrava que no Reino há saúde plena; ao tocar o leproso e falar com a mulher adúltera, corajosamente descortinava um Reino de equidade, justiça e solidariedade; ao denunciar a corrupção das autoridades religiosas, apontava para um Reino de verdade e justiça.

Podemos derivar o conceito de “ação profética” como a ação intencional da Igreja em anunciar e fazer cumprir, de forma prática, o desígnio de Deus para o homem e a sua criação. A meu ver, toda ação de intervenção social cristã deve ser profética, ou seja, deve refletir aquilo que Deus quer e o seu caráter. O conceito de ação profética é muito importante para definirmos o papel de uma igreja relevante na comunidade. Esta é uma igreja que entende e discerne as intenções plenas de Deus para um determinado contexto, e trabalha para vê-las cumpridas. É uma igreja ativa, atenta, serva, prática, contextualizada, corajosa, encarnada e que busca a excelência.

Uma igreja relevante, portanto, discerne o seu contexto e sinaliza o Reino de Deus na comunidade. Cabe a cada comunidade de fé, a cada liderança que esteja seriamente comprometida com a sinalização do Reino, perguntar:
– em meu contexto, e em minha geração, quais são as questões que precisam ser enfrentadas e denunciadas e que ferem a santidade de Deus?
– o que significa ser “sal e luz” nesse contexto?
– quais são as questões que quebrantam o coração de Deus? Quais as injustiças sociais e estruturais que contrariam sua vontade?
– quais são as principais necessidades do povo a quem fomos chamados a servir?
– quais valores comunitários e culturais precisam ser afirmados? Quais contrariam a cosmovisão cristã e precisamos atuar para transformar? Ou seja, o que precisa e o que não precisa ser transformado?
– quais seriam possíveis programas e projetos da igreja que, “indo muito além do politicamente correto”, manifestariam uma intervenção a partir de uma cosmovisão cristã em determinadas esferas da vida social?

Ser uma igreja relevante na comunidade implica em ter respostas específicas para estas perguntas, e, a partir delas, focalizar naquilo que é mais impactante, ou seja, que está relacionado às questões cruciais vividas em cada geração, em cada contexto. Isso não é uma tarefa fácil e requer um esforço intencional, um diálogo crítico com a cultura, uma constante reflexão crítica da nossa prática e acima de tudo uma decisão, baseada numa leitura missiológica das Escrituras centrada no Reino de Deus, com toda a sua abrangência.

Nesse esforço, é necessário muita oração e discernimento. Somos chamados, não a fazer “as coisas do jeito certo”, mas a “fazer a coisa certa”. Nesta caminhada, é fundamental utilizar ferramentas que podem auxiliar cada igreja no exercício do seu serviço à comunidade: modelos de diagnóstico comunitário, desenhos de projetos, ferramentas de monitoramento e avaliação, definição de indicadores, etc. Mas nada disso substitui a essência da Missão: o amor de Deus manifesto de forma prática e incondicional. Amamos simplesmente porque Deus nos amou primeiro, e não para que as pessoas aceitem a nossa mensagem e se convertam.

* Maurício J. S. Cunha é diretor de programas da Visão Mundial e autor do livro O Reino entre Nós, Editora Ultimato.

Leia o texto anterior sobre esse assunto:
Igreja Relevante (parte I)

  1. Edson Nepomuceno Barbosa

    Esta série de artigos sobre a Igeja Relevante é de
    uma profundidade ímpar,aliada a uma singeleza de
    raciocínio,que pode ser transferida facilmente a gru
    pos de diferentes níveis sócio cultural.Obrigado pe-la excelente e pertinente contribuição.Vou multiplicá
    la significativamente em meus vários contatos,so –
    bretudo no ministério a pastores,que lidero.Deus a-bençôe a todos !

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