Mulher de fibra: o resgate

Texto básico: Rute 3.1-18

Textos de apoio: Êxodo 21.1-11

Êxodo 22.1-15
Êxodo 23.1-11
Levítico 27.16-27
Ezequiel 16.6-14
Provérbios 31.10-31
Cantares 3.1-5

Introdução

Neste episódio, Noemi coloca em ação o plano constituir um lar à Rute. O plano parece ter dois propósitos claros. Primeiro, visa oferecer um lar a Rute para que ela “seja feliz” (v. 1). O outro é reivindicar o resgate da terra e da descendência conforme o costume da época. Noemi instrui Rute a se apresentar a Boaz quando ele estivesse limpando a cevada (v. 2).

A passagem está cheia de figuras, ironias e insinuações no relato do encontro de Rute com Boaz. Mas o que fica claro é que Rute, orientada pela sogra, ousou apelar para que Boaz exercesse seu dever de resgatar a propriedade e descendência da família.

Para entender o que a Bíblia fala

  1. Noemi declara a Rute que ia procurar encontrar um lar para que Rute fosse feliz. Qual a importância disso? Como você acha que a mulher sem lar e filhos era vista naquela sociedade?
  2. O que você acha da estratégia de Noemi de promover o encontro de Rute com Boaz? Por que será que foi preciso agir dessa maneira?
  3. Como Boaz viu esse gesto de Rute? (v. 10).
  4. O que Rute pede a Boaz? (v. 9) Como Boaz reage ao pedido?
  5. No v. 11, Boaz diz a Rute o quanto o povo via que ela era “mulher virtuosa”. Compare a descrição da mulher virtuosa de Provérbios 31 com Rute. Quais são alguns contrastes entre elas? O que podemos concluir desse qualificativo dado a Rute? (Rute é a única mulher na Bíblia chamada “virtuosa” (heb., ‘eshet hayil). A expressão corresponde à descrição de Boaz como “homem rico e influente” (heb., gibôr hayil, 2.1). O termo hayil tem conotação de força, poder, coragem. Gosto de traduzir a expressão por “mulher de fibra”. No cânon hebraico, o livro de Rute vem logo depois do livro de Provérbios, portanto como que um exemplo da mulher virtuosa de Provérbios 31).

Hora de avançar

Esse relato possui um misto de um encontro amoroso com um negócio familiar. Noemi é a mentora do encontro, pois depois de descobrir que Rute esteve na lavoura de Boaz, sabe que as chances delas saírem daquela situação dependiam do resgatador. Rute desce à eira com o propósito de seduzir Boaz e reivindicar o resgate da propriedade.

O goel, o resgatador, tinha dupla função. Ele era quem deveria resgatar a propriedade de um parente próximo e também quem proveria a continuidade da descendência do falecido chefe de família. Portanto, envolvia casar-se com Rute e comprar de volta a terra da família.

Algumas expressões desse relato requerem explicação:

– “encontrar um lar” (v. 1) – heb., manoah, que significa segurança, descanso (cf. 1.9).

– “conhecer” – A raiz da palavra heb. yadah ocorre 5 vezes no capítulo (v. 3, 4, 11, 14, 18) e é traduzida por “conhecer”, “notar”, “saber” (no v. 14 também o termo heb. nakar, “conhecer”, “reconhecer”). Esse termo tem tanto o sentido de conhecer ou reconhecer, quanto de conhecer sexualmente. O fato de Noemi orientar Rute a não se deixar conhecer por Boaz até depois de ele terminar de comer (v.3), a ir onde ele se deitara e lhe “descobrir os pés” e se deitar (v. 4, 7), e ainda ela ter se deitado até pela manhã aos pés de Boaz (v. 13, 14), e que o termo “pés” é frequentemente usado como eufemismo dos órgãos genitais, insinua que houve relação sexual entre outros. Porém, o texto é claro que Boaz postergou a decisão do resgate até confirmar com o parente mais próximo se ele podia resgatar (v. 12, 13). De todo modo, Boaz entendeu a aproximação de Rute como um pedido para que ele a tomasse por mulher.

– “estender a capa” – simboliza tomar posse, proteger (cf. Ez 16.8-9). Neste caso, um pedido para que Boaz a possuísse como resgatador.

Esse costume pode parecer estranho para nossos padrões modernos. No entanto reflete um princípio muito nobre das relações sociais, econômicas e familiares. A figura do resgatador que era como um padrinho permitia que quando uma família se encontrasse em situação vulnerável e perdesse sua propriedade ou tivesse de se vender como escrava, havia um mecanismo de reaver a propriedade perdida e a liberdade do escravo. Isso permitia também que a terra permanecesse na família por muitas gerações e houvesse trabalho para a família.

Em suma, pretendia prover uma sociedade mais igualitária e justa, e garantir o direito à terra para todos.

Hoje parte do êxodo rural se deve pelo crescimento das grandes propriedades rurais e a inviabilidade de se manter as pequenas propriedades familiares. Isso resulta não só na perda da terra como também na migração para grandes centros urbanos onde nem sempre essa família terá possibilidades de sustento e estabilidade.

Para terminar

  1. Quais são alguns costumes tradicionais de nossa cultura que refletem uma forma de solidariedade e que pudessem ser mais bem valorizados em nossas relações hoje?
  2. Quais são algumas causas de desigualdades em nossa cidade? Como podemos enfrentá-las?

>> Autor do Estudo: Willian Lane

>>  Publicado originalmente pela Rede Evangélica Nacional de Ação Social

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