Como a morte pode nos ajudar a viver melhor?

SÉRIE REVISTA ULTIMATO
Artigo: A pedagogia da morte, Ultimato 391

Texto básico
Eclesiastes 7. 1-8

Textos de apoio
– Gênesis 3. 16-19
– Eclesiastes 3. 19-22
– Lucas 16. 19-31
– 1 Coríntios 15. 51-58
– 2 Timóteo 1. 8-12
– Salmo 90

Introdução

Acredito que todos nós já ouvimos ou lemos algum relato sobre alguém que, tendo conseguido sobreviver a uma enfermidade muito séria ou a algum acidente impressionante, passou a enxergar a vida de maneira completamente diferente. Tudo mudou: a relação com o trabalho e o tempo, os relacionamentos, as prioridades, as “ambições”… De fato, esses relatos apontam para a experiência de que “encarar a morte de frente” produz uma nova atitude diante da vida.

A reflexão sobre a vida, a partir da realidade de que somos mortais, não é algo novo. Há relatos de que isso já acontecia entre os filósofos da Grécia Antiga e em outras culturas. No contexto cristão, podemos lembrar dos monges medievais que costumavam saudar-se com a expressão latina “Memento mori”, que signifca literalmente “lembre-se da morte” (sugerindo “lembre-se de que você é mortal”); ou dos monges cistercienses que todas as noites, encerrando o ofício de “Completas” (o último do dia), cantam a benção: “O Senhor Todo-Poderoso nos conceda uma noite tranquila, e no fim da vida uma morte santa”. Esta “lembrança da morte”, longe de ser algo mórbido, exercita a nossa reflexão sobre as escolhas que temos feito na vida, nos alerta de que a hora da mudança é agora, e nos liberta da vaidosa noção de que somos “imorríveis”.

A Bíblia contém muitos “convites” para que os vivos reflitam sobre a sua mortalidade terrena, destacando-se a chamada “Literatura de Sabedoria” (em especial Jó, Provérbios, Eclesiastes e parte dos Salmos). Neste estudo vamos nos debruçar sobre alguns destes textos, procurando “inclinar” nossos ouvidos e nosso coração para a voz Daquele que nos chama a considerar “quão frágeis somos” (Salmo 39.4) e quão “didáticos” podem ser os funerais (Eclesiastes 7. 2)!

 

Para entender o que a Bíblia fala

1) De acordo com o professor William LaSor, o autor de “Eclesiastes” (tradução grega do hebraico “Coélet” = “Pregador” – ERA , “Mestre” – NVI, “Sábio” – NTLH) tinha como objetivo primordial confrontar as “conclusões” da “sabedoria tradicional” de sua época, cujos mestres haviam “simplificado demais a vida e suas regras”, oferecendo subsídios “superficiais e pouco densos” para um “mundo sitiado por luta, injustiça e morte” (Introdução ao Antigo Testamento, Vida Nova, 1999, pp. 545-546). Analisando nosso texto básico, que “conclusões” do “Pregador” devem ter “escandalizado” os seus contemporâneos, e possivelmente continuam a nos chocar hoje em dia? Por que?

2) Nesta seção de seus escritos, o “Pregador” utiliza uma “fórmula literária” baseada em uma estrutura dupla (“duas linhas de conduta”), com uma coisa sendo “melhor” que a outra. Observe as “experiências, ações e lugares” que o autor qualifica como “melhores”. Por que, em geral, costumamos valorizar mais as coisas que o “Pregador” considera inferiores, e evitar as que ele considera “melhores”? Qual é o critério principal recomendado por ele para definirmos nossas prioridades e experiências (v. 2b)?

3) Nos vv. 1-4 nos deparamos com um “convite” à uma reflexão séria sobre a vida, a partir da realidade implacável da morte! Pense um pouco sobre este “papel pedagógico” da morte, que “os vivos devem levar a sério” (v. 2, NVI). Como a morte pode nos ajudar a viver melhor? O que significa esse “viver melhor”?

4) Na Bíblia, o “coração” representa o “centro decisório” do ser humano, o espaço que abriga os nossos pensamentos, julgamentos e reflexões. Assim sendo, por que o “Pregador” considera que a “tristeza” e “a casa onde há luto” são melhores para o “coração” (vv. 3-4)? E, nesse mesmo sentido, por que o “riso” e “a casa da alegria” poderiam prejudicar o “coração”? Seria o “Pregador” o representante de um Deus mal-humorado e “estraga prazeres”? (Nota sobre o v. 6: “Espinhos eram um combustível usado no mundo antigo, que queimava rapidamente, e facilmente extinguível. Assim, a risada do insensato é como uma chama repentina… acompanhada de muito ruído, mas que logo cessa e se acaba” (Michael Eaton, Eclesiastes e Cantares, Vida Nova, 1989, p. 117).

5) O v. 8 nos apresenta mais uma “sentença proverbial” do “Pregador”. Para ele, o “fim das coisas é melhor que o seu início” (NVI). Mas, entre uma coisa e outra, há muitas lutas e provações “debaixo do sol”… Por isso, qual a importância da “paciência” neste processo? E, ao contrário, se escolhermos a “arrogância”, que tipo de pessoas nos tornaremos?

 

Para pensar

 “A transitoriedade da vida nos chama da distração e da procrastinação para as coisas que importam de fato. Ela nos avisa que não há tempo ilimitado para refletir nas questões mais importantes, aquelas que não morrem com a morte. A oportunidade é agora.

A certeza de que a morte vai chegar deve nos levar a “colocar a casa em ordem”. Isso pode significar rever nossa escala de valores, valorizar os relacionamentos, fazer as pazes com o passado, perdoar, pedir perdão, viver com mais leveza e alegria.

Levar a morte a sério nos livra da insensatez de viver como se fôssemos eternos. E pode nos livrar também da tristeza de viver como se a realidade estivesse circunscrita ao aqui e agora.”

(A pedagogia da morte, Ultimato 391, p. 19)

 

“Como nos preparar então para morte? Vivendo cada dia com plena consciência de sermos filhos de Deus, cujo amor é mais forte do que a morte. As especulações e preocupações sobre os últimos dias de nossas vidas são inúteis, mas fazer de cada dia uma celebração do amor que Deus tem por nós como seus filhos e filhas nos permitirá viver nossos últimos dias, sejam eles curtos ou longos, como dias de parto. Por meio deles deixamos as entranhas deste mundo e nascemos para a plenitude dos filhos de Deus.”

(Henri Nouwen, em Aquí y Ahora: Viviendo em el Espíritu, San Pablo, 1995, p. 148. Tradução minha)

 

“O livro de Eclesiastes descreve muitas oscilações de humor e de sentimentos, mas enfatiza principalmente a futilidade da vida humana, presa ao tempo e ao espaço, ignorando ou negando a realidade de Deus. Se a realidade está restrita ao tempo – o breve espaço de tempo da vida humana, com sua injustiça e sofrimento, e se a vida começa com o nascimento e termina com morte e dissolução, como a vida dos animais, então tudo realmente é ínútil e “nada faz sentido”!

Se a realidade está restrita ao espaço, e o esforço do homem debaixo do sol é inútil e sem nenhuma perspectiva acima ou além do sol, então novamente “nada faz sentido” e “tudo é inútil, é correr atrás do vento”!

Somente Deus pde dar significado à vida, porque só ele pode suprir o que está faltando. Deus adiciona eternidade ao tempo, e transcendência ao espaço. É por isso que “o temor do Senhor é o princípio da sabedoria”, pois a sabedoria começa com um humilde reconhecimento da realidade de Deus.”

(John Stott, em A Bíblia toda, o ano todo, Ultimato, 2007, p. 86)      

 

“E agora, José?”

1. Que diferença haveria em sua vida se você valorizasse mais as “experiências” que o “Pregador” considera melhores do que outras no texto que estudamos?

2. “Disse Jesus: ‘Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim, não morrerá eternamente. Você crê nisso?’” (João 11. 25-26). De que forma a fé (confiança) nestas palavras de Jesus podem “arejar” e vitalizar sua esperança diante da certeza de sua mortalidade terrena? E que efeitos esta “esperança” provocará em sua vida presente (relacionamentos, trabalho, posses…)?

 

Eu e Deus

Mostra-me, Senhor, o fim da minha vida
e o número dos meus dias,
para que eu saiba quão frágil sou.
Deste aos meus dias o comprimento de um palmo;
a duração da minha vida é nada diante de ti.
De fato, o homem não passa de um sopro.
Sim, cada um vai e volta como a sombra.
Em vão se agita,
amontoando riqueza sem saber quem ficará com ela.
Mas agora, Senhor, que hei de esperar?
Minha esperança está em ti.
Livra-me de todas as minhas transgressões;
não faças de mim um motivo de zombaria dos tolos.
Tu repreendes e disciplinas o homem por causa do seu pecado;
como traça destróis o que ele mais valoriza;
de fato, o homem não passa de um sopro.

(Salmo 39. 4-8, 11, NVI – Nova Versão Internacional)

 

Autor: Reinaldo Percinoto Junior

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