Perdão: uma das mais necessárias e preciosas provisões de Deus
Quando perdoa, Deus não nega nem justifica o pecado, mas desiste de pôr em execução o merecido julgamento
Sente-se tremendamente mal aquele que, por qualquer instrumento da parte de Deus, de repente se acha em falta e descobre sinais evidentes de pecado e corrupção. Uma tristeza diferente de outras tristezas toma conta de sua alma. A sensação de culpa invade o seu ser e dá a impressão de que veio para ficar. Embora muito incômoda, quase insuportável, essa situação emocional tem o poder de preparar o indivíduo para o perdão – a única solução do problema. Então, ele procura e acha a porta de saída, e obtém uma das mais necessárias e preciosas provisões de Deus: a certeza e a sensação de perdão.
O perdão é completo e definitivo
Perdão é uma palavra rica demais – especialmente quando se refere ao perdão de Deus. Significa algo completo e definitivo. Por meio do perdão, Deus tira a iniquidade (Is 6.7) e “afasta de nós as nossas transgressões” (Sl 103.12). Deus lança para trás de si todos os nossos pecados (Is 38.17) e os sepulta nas profundezas do mar (Mq 7.19). Deus apaga as transgressões e lava completamente o portador delas, deixando-o “mais alvo do que a neve” (Sl 51.1-12). Deus se esquece voluntariamente dos nossos pecados e deles jamais se lembrará (Jr 31.34). O perdão encerra a questão. Daí dizer-se: “Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não atribui iniquidade, e em cujo espírito não há dolo” (Sl 32.2). O pecado deste homem é coberto, não lhe é imputado, e ele é tido por justo.
O perdão é de tal natureza que aquele que foi tornado justo por Deus está a salvo de qualquer acusação (Rm 8.33). O perdão é o ato de Deus que põe fim à situação desastrosa criada pelo pecado. Tem a função de restabelecer o diálogo livre e desinibido entre o homem e Deus.
Graças a Jesus Cristo
Mas o perdão não é barato. É até muito caro. Ele está intimamente ligado à pessoa de Jesus Cristo. O perdão existe e é possível por causa da morte de Jesus. O cristianismo ensina que a morte de Jesus foi uma morte pelo pecado. Ele não teria morrido se não fosse para fazer a expiação do pecado. A morte de Jesus era impossível – ninguém lhe tiraria a vida se ele espontaneamente não a tivesse dado (Jo 10.18). E ele a deu somente por causa do pecado dos outros: Jesus é a “oferta pelo pecado” (Is 53.10). E foi ferido por causa da transgressão alheia que levou sobre si voluntariamente (Is 53.10-12). Ele mesmo declarou que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10.45).
O perdão não prejudica nem a santidade nem a justiça de Deus. Quando perdoa, Deus não nega nem justifica o pecado, mas desiste de pôr em execução o merecido julgamento, porque alguém já o sofreu em sua própria carne.
Mas começa com um tremendo mal-estar
Embora traga inefável bem-estar, o perdão começa sempre com um tremendo mal-estar. Uma vez tocado por Deus – é o espírito quem convence o homem do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8) – e ciente de suas misérias e mazelas, o pecador tem de se abater. Ele precisa romper com a fantasia e cair na realidade. Ele precisa ver a glória de Deus pra enxergar a sua própria desonra. Ele precisa medir a distância que o separa de Deus. Ele precisa sentir-se sujo, malcheiroso, repelente, doente, desgraçado e enganado. Ele precisa parar de pecar. Ele precisa aceitar as regras do jogo, até então deixadas de lado. Ele precisa entrar em crise, em angústia, em desespero. Ele precisa reconhecer que errou o caminho, que perdeu tempo precioso, que esbanjou oportunidades, que se complicou e se distanciou do verdadeiro alvo. Essa é a via normal que cria o ambiente propício ao perdão. O que pode variar é apenas a intensidade da angústia: parece que quanto maior for a corrupção, maior será o sentimento de culpa. A duração da crise é determinada pelo termo em admitir honestamente todo o tamanho da culpa.
Embora produza inefável bem-estar
Entretanto, depois da necessária passagem por esse vale apertado de convicção de pecado e sentimento de culpa, o que se encontra do outro lado é simplesmente animador. “De dia e de noite” – explica Davi – “sentia a mão de Deus pesando sobre mim, fazendo com minhas forças o que a seca faz com um pequeno riacho. O sofrimento continuou até que admiti minha culpa e confessei a Ele o meu pecado” (Sl 32.4-5).
Não é a mudança de padrões de comportamento ou a destruição deles que vai acabar com o sentimento de culpa. Também não se abafa a promotoria do espírito ouvindo outras vozes – Deus se comunica de vários modos e ele sempre se faz ouvir. Portanto, é igualmente inútil tapar os ouvidos. O sentimento de culpa só acaba com o perdão. E o perdão está aí. Não é medida provisória. Não é remendo nem remédio. É cura. É fato. É promessa. É experiência. Assenta-se na misericórdia e na fidelidade de Deus: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9).