Por Klênia Fassoni

Há alguns anos lutamos com maritacas no bairro onde se localizam a casa da minha mãe e o escritório da Editora Ultimato. Elas são uma praga. No sentido científico da palavra. Segundo entendidos, o desequilíbrio ambiental provocou um aumento de sua população. Tão bonitinhas, elas acabaram se tornando indesejáveis – pelo barulho que fazem e pelo perigo que são para os telhados e para as instalações elétricas. É inacreditável o poder que elas têm de ultrapassar barreiras, furar telhas e até quebrar concreto, além de desencapar e cortar fios.

A recente temporada de chuvas trouxe-nos a decepção de ver goteiras no telhado – recém reformado – do antigo escritório do meu pai (Elben César, fundador da Ultimato). Nossa inclinação é culpar as maritacas.

Por causa das goteiras, algumas Bíblias molharam. Felizmente, não eram exemplares da coleção especial destinada às exposições bíblicas. Entre as danificadas estavam Bíblias anotadas à mão pelo meu pai (ele trocava de Bíblia, em média, a cada dois ou três anos). Ele nunca leu uma Bíblia numa plataforma digital, embora tenha se beneficiado de centenas de consultas online da Bíblia, todas elas impressas para ele. (Recentemente demos um fim nobre a uma dezena de cópias do livro de Tiago impressas em diferentes versões – elas foram parar nas mãos de alguém que pesquisava a relação entre fé e obras.)

Comumente, faço consultas online da Bíblia. Mas para proveito devocional uso Bíblias impressas de diferentes versões, algumas das quais estão comigo há 20 anos; as digitais – no meu caso – não se prestam a isso.

Reverendo Wesley Hill, professor de Novo Testamento no Western Theological Seminary, em Michigan, Estados Unidos, é entusiasta da Bíblia impressa: “Como professor do seminário, estou exigindo o livro físico em sala de aula”. E acrescenta: “A igreja deve fazer o mesmo”.

Ele justifica sua posição aplicando a pergunta geral – “Que práticas o uso desta tecnologia substituirá?” – às Bíblias online: “O que podemos perder –  e o que podemos encorajar outros a perder, esquecer ou marginalizar – se abandonarmos o hábito de ler Bíblias de papel?”. Para ele, o uso da versão impressa permite muito mais facilmente fazer conexões com o cânone: “O manuseio de uma Bíblia física me ensinou, em um nível subconsciente, a ler as Escrituras como uma biblioteca de livros cujas vozes díspares podiam ser ouvidas como se estivessem falando lado a lado sobre o mesmo assunto”.

Educadores e cientistas sociais reconhecem algumas vantagens da leitura do material impresso em relação ao digital, tais como: melhor absorção do conteúdo; menos fatores de distração e consequentemente, maior concentração; uma experiência de leitura mais agradável e mais prazerosa.

Estas são boas razões para o uso da Bíblia impressa. Eu acrescentaria o aspecto afetivo. Dificilmente vamos nos ligar emocionalmente a uma Bíblia numa plataforma digital. A Bíblia física – bem (e muito) usada – tem o potencial de ativar as emoções e, sobretudo, as memórias. Posso registrar nela os fatos importantes, posso ver em suas páginas o registro do meu progresso e das minhas lutas espirituais, posso resgatar experiências decorrentes de leituras anteriores, posso relembrar as ‘revelações’ recebidas por meio do Espírito Santo.

Quem sabe seria um bom alvo para todos em 2022: ler a Bíblia na versão impressa?


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