Livro da Semana  | O Teste da Fé

 

Pesquisadores cristãos dizem com frequência que as descobertas científicas revelam mais do poder criativo de Deus. Mas como as pessoas de diferentes tipos de fé trabalham juntas em ciência? Como elas chegam a conclusões confiáveis? Como pode um cientista orar por seu trabalho?

Nos Estados Unidos, a ciência é ensinada e pesquisas são desenvolvidas tanto em universidades seculares quanto cristãs. Deborah Haarsma vive e trabalha em ambos os contextos. Paralelamente à sua pesquisa em astrofísica, ela gasta boa parte do seu tempo ajudando estudantes e outros a relacionarem sua fé com seus estudos científicos.

Pensando a fé

Eu cresci em uma família cristã. A igreja que frequentávamos nutria e desafiava a minha fé. Assumia-se que a Terra fora criada em seis dias, há cerca de 10 mil anos, mas isso não era ensinado como “você precisa acreditar nisso para ser cristão”. Como adolescente e na faculdade, tomei decisões conscientes de assumir a fé cristã. Nessa época, eu não perguntava: “Como ser um cientista e um cristão?”, porque eu ainda não havia escolhido a carreira científica. Minhas perguntas eram: “Por que eu creio?” e “Que carreira eu deveria escolher para servir melhor a Deus?”.

Estudei em uma faculdade cristã1 e seu corpo docente era um exemplo de como ser um cristão inteligente. Eles me mostraram como ser um cristão com toda a minha mente e todo o meu coração. A frase de John Polkinghorne resume tudo: “Não é preciso cometer suicídio intelectual para ser cristão”. Havia um pregador da capela que falava sobre a importância de termos cristãos nas universidades. Ele dizia que precisamos de cristãos em todas as áreas da vida e que ser um cientista em uma universidade seria algo realmente importante. Eu pensei: “Isso é algo que eu posso fazer!”. Eu sabia que era importante compartilhar minha fé cristã com outras pessoas e me questionava sobre ser uma missionária, mas isso me deixava mais desconfortável do que entusiasmada. E aqui estava esse pregador oferecendo-me outra opção, um contexto para o qual eu fui excepcionalmente dotada, para ingressar na academia e ali viver a minha fé. Além disso, considerando a população como um todo, não são muitas pessoas que fazem astrofísica. Para empregar melhor os talentos que Deus me deu, fazia mais sentido praticar a ciência que pratico. Na mesma época, também compreendi que Deus precisa de cientistas na igreja para ajudá-la a compreender a ciência e, assim, vejo isso como o outro lado do meu chamado.

Deborah B. Haarsma

Quando trabalhava no meu PhD, interessei-me pela astrofísica (na faculdade, estudei física de plasmas e não trabalhei com astronomia). Percebi que, se quisesse ser astrônoma, precisaria escavar o problema da idade da Terra e chegar a uma conclusão. No MIT, havia estudantes e líderes em um grupo do movimento cristão estudantil InterVarsity, o que me deu a oportunidade de falar sobre temas de ciência e cristianismo em um nível mais profundo. Eles me recomendaram alguns livros escritos por pessoas de diferentes pontos de vista. Tive de pensar bastante e isso foi definitivamente um processo gradual que tomou alguns anos. Mas não me senti em crise de fé; era simplesmente uma questão que eu precisava trabalhar no contexto das minhas crenças. No grupo da InterVarsity, aprendi dos meus amigos e com eles e esse foi o primeiro lugar em que ministrei uma palestra sobre ciência e fé.

Ao concluir todas as minhas leituras, compreendi que os relatos de Gênesis nos ensinam coisas importantes – há um só Deus; Deus criou o mundo; Deus declarou que tudo era muito bom –, mas que as escalas temporais não eram parte essencial da história. Também entendi que Deus deseja que consideremos com atenção o universo físico e que essa é outra forma pela qual ele se revela a nós. Passei a entender que a Bíblia nos ensina o “quem” e o “porquê” da criação, e que o universo nos ensina sobre o “como” e o “quando”.

O que realmente me deixava em dúvida e desafiava a minha fé não estava no campo da ciência. As questões que me incomodavam mais eram do tipo: “Qual será o destino das pessoas que nunca ouviram sobre Deus?” ou “Por que esse sofrimento acontece e Deus não acaba com ele?”. Trabalhei algumas respostas para essas questões, mas elas continuam retornando.

>>> Série Ciência e Fé Cristã <<<

Casei-me com Loren quando ele estava completando seu PhD e eu estava no meio de meus estudos no MIT. Poucos anos depois, ambos fomos convidados a nos candidatarmos à docência no Calvin College, em Michigan. Há muitas faculdades nos Estados Unidos, incluindo algumas das nossas principais universidades, que foram fundadas como instituições religiosas.

Ao longo do tempo, várias delas abandonaram, em parte ou no todo, suas raízes religiosas. O Calvin College ainda tem essa conexão. Todos os docentes precisam ser cristãos, assinar uma declaração de fé bastante detalhada e ser membros de uma Igreja local. Os estudantes não precisam assinar uma declaração de fé, mas muitos estão na instituição porque desejam que seus estudos tenham impacto sobre sua fé.

O Calvin College tem um forte programa científico, o qual permite que continuemos nossas pesquisas. E isso também proporciona a chance de estudar, com mais profundidade do que alguém que ensina em uma universidade poderia fazer, temas de ciência e fé. Tenho não apenas a permissão, mas também a exigência de mostrar como a ciência se relaciona com a fé cristã em cada disciplina que ensino. Esperamos ser capazes de apoiar cientistas que não têm essa rica oportunidade.


Nota: Trecho retirado do capítulo “Pensando a fé”, por Deborah B. Haarsma, no livro O Teste da Fé, Editora Ultimato.

• Deborah B. Haarsma é professora de Física e Astronomia no Calvin College em Grand Rapids, Michigan. Ela obteve um Ph.D. em astrofísica pelo Massachusetts Institute of Technology e graduação em física e música pelo Bethel College. Deborah estuda galáxias e o universo usando telescópios ao redor do mundo e em órbita. Ela frequentemente dá palestras e escreve sobre astronomia e fé cristã, equipando pastores e igrejas para engajarem-se na ciência. É também presidente da BioLogos.

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