NA VARANDA COM GABRIELE GREGGERSEN

Se você é fã de C. S. Lewis ou curte literatura fantástica, provavelmente já deve ter lido algo assinado por ela, que é autora de “Antropologia Filosófica de C. S. Lewis” (Editora Mackenzie), de “O Senhor dos Anéis: da imaginação à ética”, (Editora Ultimato) e mais de uma dezena de artigos publicado no portal Ultimato sobre Lewis. Além de tradutora, pedagoga, mestre e doutora em História e Filosofia da Educação, também é teóloga.

Mas, sem muita cerimônia. Prepare um café ou um chá e venha para a varanda com Gabriele Greggersen, jogar conversa fora. É com ela que Ultimato lança “Na Varanda com o Autor”, uma série de entrevistas com autores e colunistas da revista e do portal Ultimato.

Ah! E não vamos conversar sobre Nárnia…

Ultimato – Alguma pessoa ou livro, em especial, influenciou sua aproximação da leitura e da escrita?

Gabriele Greggersen – Gosto muito de ler, mas meu gosto pelos bons livros foi despertado apenas no período da minha primeira faculdade, que foi de pedagogia. Nesse período, conheci excelentes autores, tanto cristãos quanto não cristãos – se é que é possível separá-los de forma tão rígida. Poucos sabem, por exemplo, que Paulo Freire foi cristão católico e costumam acusá-lo de desviar os estudantes cristãos da fé –, e às vezes tinha dificuldades em conciliá-los. C. S. Lewis foi um autor que me ajudou a fazer isso: a ser uma cristã leitora, sem ser uma leitora necessariamente de obras apenas cristãs. Ele me ajudou também a achar a razão da minha fé, que Paulo tanto nos exorta para estarmos prontos a apresentar. E, com isso, fui preservada de perdê-la em meio aos autores ditos não cristãos – que me agradavam – os quais a desafiavam.

Nascida em Cascavel (PR), Gabriele mora atualmente no Rio de Janeiro (Foto: Arquivo pessoal)

Mas para falar de outros autores, pois sou suspeita com relação a esse, por motivos óbvios, vou citá-los como vierem à minha mente: apóstolo Paulo e autores da Bíblia, Josef Pieper, Luigi Giussani, Julián Marías, Marx e Engels, Gramsci, Makareko, Freud, Kapra, Kosik, Victor Frankl, Rudolf Otto, George Snyders, Paulo Freire, Santo Agostinho, Santo Tomás, Platão e Aristóteles, Dietrich Bonhoeffer, John Stott, John Piper, Martinho Lutero, João Calvino, Rubem Alves, Timothy Keller e tantos outros, sem falar dos autores clássicos da literatura mundial e brasileira.

Todos eles despertaram, alimentaram e aguçaram em mim o gosto pela leitura e escrita e me tornaram a escritora que sou.

Ultimato – Quando a inspiração para escrever não vem…

G. G. – Eu dou uma corrida na praia e vou ouvir música ou assistir um filme ou conversar com amigos. Orar também ajuda bastante…

Ultimato – O que os adultos devem ler para as crianças?

G. G. – Eles devem ler o que gostavam de ler quando crianças. Recomendo que leiam a literatura que também seria apreciada por adultos, e não é “coisa de criança”, pois a “coisa” que a gente acha que seja “para criança” normalmente é ridícula e intragável tanto para criança, quanto para adulto.

E esses são os clássicos, provados pelo tempo, não apenas contos de fada e a mitologia/folclore, mas também as obras infantis de grandes autores como C.S. Lewis, J.R.R. Tolkien, Lewis Carrol, Mark Twain, Andersen, Antoine de Saint-Exupéry, James Barrie, na literatura mundial; e, na brasileira, Monteiro Lobato, Malba Tahan, Ziraldo, Lygia Bojunga, Ana Maria Machado, Tatiana Belinsky, Ruth Rocha, Clarice Lispector, Cecília Meireles, Raquel de Queiroz, Marina Colasanti. Mas jamais deve-se esquecer o ingrediente básico que é (além do mais puro prazer, imaginação e alegria) o discernimento necessário a toda literatura, quer infantil, quer adulta.

Ultimato – Que conselho você gostaria de ter recebido na sua juventude?

G. G. – Viva mais e leve tudo menos a sério. Mas nem todos os jovens precisam desse conselho.

Ultimato – O que mais a anima e o que mais a incomoda no meio evangélico?

G. G. – O que mais me anima é ver a imagem de Cristo refletida de formas tão coloridas e multiformes nos cristãos, individualmente e quando estão reunidos, que é um espetáculo à parte, principalmente, quando as pessoas demonstram legítimo amor umas pelas outras.

O que me incomoda, particularmente na igreja brasileira, é o que chamo de preguiça mental: a falta de leitura, a falta de hábito do raciocínio lógico e do debate. Parece que as pessoas querem tudo mastigado e pronto: fórmulas mágicas; a pergunta do “como”, que sempre pede uma receita de bolo (quem é que já não foi numa palestra instigante em que, na hora da abertura para perguntas, se é que alguém pergunta alguma coisa, ou alguma coisa inteligente, alguém vem com essa).

Penso que esse defeito leve a inúmeros outros males: os vários tipos de preconceito e formas de exclusão; as superstições e crenças heréticas na igreja; o “Maria vai com as outras” e os modismos; a fofoca e maledicência; o orgulho e soberba (pois quem pensa direito sabe que não valeria nada sem Deus e que esse é o pecado capital que levou à Queda da humanidade e do próprio Diabo); e finalmente todas as formas de corrupção (os corruptos não são, no fundo, os mais burros espécimes da raça humana, como a política brasileira está cansada de demonstrar?)

Gabriele com o esposo Daniel Rangel Cabral Jr. (Foto: Arquivo pessoal)

Ultimato – Como você lida com o envelhecer?

G. G. – Com naturalidade. Está certo que às vezes a gente entra em pânico com a ideia de um dia ser uma pessoa idosa, e ser tratada como tal (o que é mais pavoroso), mas são raros. Na maioria das vezes, sou tomada pela convicção de que cada idade tem a sua beleza e encanto e momento certo para acontecer. Sempre fui precoce, de modo que em muitas coisas já penso feito uma idosa; mas em outras, pareço uma criança. Então, o que penso é que sempre se tem que cuidar do equilíbrio entre o ancião e sábio em si mesmo, e a criança, a quem pertence o Reino de Deus.

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