[Livro da Semana]

Deixem Que Elas Mesmas Falem

Uma socialite de Telavive conta como se afastou da vida mundana

Nasci e fui criada em Jope. Foi aqui que Perseu, segundo a lenda, montado no cavalo alado Pégaso, matou o monstro marinho e salvou a princesa Andrômeda, acorrentada na orla do mar, e com ela se casou. Conheço toda a história da cidade, que tem mais de 1500 anos. A tribo de Dã chegava perto daqui. Nós somos o único porto natural desde a baía de Haifa até a fronteira do Egito. Estamos a quarenta e cinco quilômetros ao sul de Cesareia e cinquenta e seis a noroeste de Jerusalém. Por aqui passou, vindo do Líbano, toda a madeira de cedro e cipreste que o rei Salomão usou para construir o templo de Jerusalém. O rei de Tiro despachava essa madeira pelo mar, em jangadas, e daqui ela seguia para Jerusalém. Salomão tinha uma leva de trinta mil homens cortando madeira no Líbano e mais setenta mil que cuidavam do transporte dela e de outros materiais de construção. Muitos anos depois, na época de Esdras e Neemias, outra vez a madeira usada na reconstrução do templo passou por Jope, com permissão de Ciro, rei da Pérsia, sob cujo domínio estávamos na época.

Ateliê de costura

Há muitos anos tenho um ateliê de alta costura. Já vesti as mulheres mais elegantes da cidade. De vez em quando vinha uma encomenda de fora. Eu mesma era uma socialite – gostava de trajes nem sempre decentes, mas sempre dispendiosos, com muito ouro e pérolas distribuídos pelas mãos e orelhas. Eu pintava meu rosto em volta dos olhos e fazia penteados complicados e demorados. Participei durante anos da alta sociedade de Jope. Era na verdade uma vida vazia, tola e ridícula. Nossas emoções dependiam de festas black-tie, de conversas fúteis, de roupa e de badalação mútua.

Certa ocasião, li a história de Jezabel, esposa do rei Acabe. Fiquei simplesmente assustada e perturbada com a morte daquela mulher voluntariosa e inescrupulosa. O que mais me impressionou foi o seu fim trágico. Quando foram enterrá-la, não acharam dela senão a caveira, os pés e as palmas das mãos. Os cães a haviam comido, depois de ter sido atropelada pelos cavalos de Jeú. Foi a partir daí que comecei a pensar seriamente na futilidade da vida que estava levando.

Pouco depois chegaram a Jope alguns helenitas que haviam abraçado o cristianismo em Jerusalém e de lá foram obrigados a fugir por motivos religiosos. Eles me anunciaram as boas novas relacionadas com a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, que eu conhecia de nome, por causa das curas que Ele operara. Só posso atribuir a Deus a capacidade que tive de entender a mensagem deles e rever toda a minha vida, dando-lhe outra direção. Fiquei sabendo que o nome técnico dessa transformação radical de mente, de alvo e de conduta é conversão – uma volta a Deus.

Boas obras

Não me desfiz do meu ateliê de costura. Mas ele também se “converteu”, se assim posso me expressar. Passei a costurar para as viúvas e mulheres pobres. Ainda sirvo ao Senhor fazendo túnicas e vestidos bonitos, bem feitos, mas, lógico, não extravagantes. Eu mesma mudei por completo todo o meu guarda-roupa. Agora sinto-me realizada. É gostoso repartir. O próprio Jesus explicou: “Mais bem-aventurado é dar que receber”. Sinto que Deus me deu o dom da assistência, da dedicação às obras do amor fraterno. Não me sinto diminuída porque não me tornei uma missionária, ou por não falar em línguas estranhas nem realizar curas. Dom é sempre dom. Eu sou um membro do corpo, e não o corpo todo.

Por falar em missões, estou convencida de que “onde abundou o pecado superabundou a graça”. A mais grave desobediência ao clamor missionário aconteceu aqui em Jope há cerca de oito séculos. Foi quando o profeta Jonas deixou de ir a Nínive, capital da Assíria, prestes a ser destruída, e tomou o navio para Társis, do outro lado do Mediterrâneo. Em compensação, porém, foi aqui – não longe da minha casa – que o apóstolo Pedro teve a visão do lençol que o deixou convencido de que deveria ir a Cesareia, entrar em casa de incircuncisos e também a eles anunciar o evangelho. Isso redundou na conversão do centurião Cornélio e de vários parentes e amigos íntimos, bem como na quebra de muitos preconceitos. Tanto ao profeta como ao apóstolo, Deus disse: “Vai”. Mas Jonas não foi, senão depois da amarga experiência no ventre do grande peixe.

“Ele me apresentou viva”

Meu nome em grego é Dorcas e em aramaico é Tabita. Dorcas quer dizer gazela – aquele animal famoso pelo brilho e doçura de expressão dos grandes olhos. Papai me deu esse nome por causa de meus olhos. Mas, há cerca de dez anos, os grandes olhos dessa gazela se fecharam. Vítima de uma enfermidade muito grave, passei a não ver mais nada, nem o mar, nem o porto, nem os irmãos. Eu estava morta, com o coração parado, o pulmão parado, o sangue parado, o cérebro parado. Lavaram-me e puseram o meu corpo no cenáculo. Dois homens foram buscar o apóstolo Pedro em Lida, cidade vizinha. Quando ele chegou, todas as viúvas o cercaram, chorando e mostrando-lhe túnicas e vestidos que eu lhes havia feito. Pedro se lembrou da ressurreição da filha de Jairo e ordenou que todos se retirassem. Então ele se ajoelhou e orou. Depois, voltando-se para o meu corpo, disse-me: “Tabita, levanta-te”. Aí eu abri os grandes olhos, como meu pai dizia, e, cravando-os em Pedro, assentei-me. Nesse momento o apóstolo me estendeu a mão e me levantou. Em seguida, chamou os crentes que ali estavam, especialmente as viúvas, e me apresentou viva!

A notícia do que aconteceu comigo se espalhou por toda a Jope e muitos creram no Senhor.

Depois que tudo passou, lembrei-me da caveira, dos pés e das palmas das mãos de Jezabel e estremeci toda.

#LivrodaSemana
• Trecho retirado de Deixem Que Elas Mesmas Falem, de Elben César

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