[LIVRO DA SEMANA]

Por John Stott

O Novo Testamento nos promete claramente uma certeza que não é incompatível com a humildade. Mas, infelizmente, está em falta em muitas igrejas cristãs hoje.

 

UMA VEZ QUE abrimos a porta para Jesus Cristo e lhe pedimos que entrasse, é possível ter certeza de que ele entrou? Nós já o aceitamos, mas será que ele nos aceitou? Certas pessoas insistem que nunca se pode saber, e que o máximo que se pode esperar é que o melhor aconteça. Outros advertem que afirmar estar certo disso é pecado de orgulho e presunção. No entanto, saber é muito importante, conforme diz um velho provérbio árabe:

Aquele que não sabe, e não sabe que não sabe, é um tolo: evita-o.
Aquele que não sabe, e sabe que não sabe, é um ignorante: ensina-o.
Aquele que sabe, e não sabe que sabe, está dormindo: acorda-o.
Mas aquele que sabe, e sabe que sabe, é um homem sábio: segure-o.

O Novo Testamento nos promete claramente uma certeza que não é em nada incompatível com a humildade. Onde quer que se abra, ele deixa transparecer um ar de confiança serena e prazerosa que infelizmente está em falta em muitas igrejas cristãs hoje. “Sei em quem tenho crido”, escreveu Paulo a Timóteo, “e estou bem certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia” (2 Timóteo 1.12). As cartas de João, em particular, estão cheias de afirmações sobre o que “sabemos”. Por exemplo: “Sabemos que somos de Deus” (1 João 5.19). De fato, João diz que o seu principal propósito ao escrever a sua primeira carta era dar aos seus leitores bases sólidas sobre as quais pudessem fundamentar sua certeza: “Escrevi-lhes estas coisas, a vocês que creem no nome do Filho de Deus, para que vocês saibam que têm a vida eterna” (1 João 5.13). Isso vai parecer muito estranho para quem pensa que vida eterna é um sinônimo de céu. Mas “vida eterna” significa a vida do novo tempo que Jesus inaugurou. Consiste essencialmente em conhecer a Deus por meio de Jesus Cristo (João 17.3). Ela começa agora e será aperfeiçoada no céu. A certeza cristã refere-se às duas coisas.

 

Existem muitas razões pelas quais precisamos ter essa certeza. Primeiro, se Deus quer que tenhamos e gozemos a vida eterna agora (o que Jesus inegavelmente ensinou), então ele também deve querer que saibamos que a recebemos; afinal, não podemos gozar alguma coisa que não sabemos se temos. Em segundo lugar, as Escrituras muitas vezes nos prometem paz de espírito. Mas, se a nossa consciência ficar nos acusando, e não tivermos certeza do perdão de Deus, nós nunca poderemos estar em paz. Em terceiro, a certeza cristã é uma condição para que ajudemos outras pessoas. Como podemos mostrar o caminho a outros se nós mesmos não o conhecemos?

 

Considerando então que, como filhos nascidos de Deus, temos o direito não só de receber a vida eterna, mas também de saber que a recebemos, como podemos chegar a essa convicção? Assim como o tripé de uma máquina fotográfica, essa segurança se apoia em três suportes, e todos eles precisam estar bem firmes…

Trecho publicado originalmente em Como Ser Cristão, de John Stott
  1. Não sei se Stott tratou desta questão no livro. A pergunta, “UMA VEZ QUE abrimos a porta para Jesus Cristo e lhe pedimos que entrasse, é possível ter certeza de que ele entrou?” aparece no período do Puritanismo inglês.

    Naqueles mais de 3 séculos atrás, os puritanos já começaram a separem-se dos católicos ingleses, e uma das questões fundamentais para eles eram: você tem certeza de que é cristão ou crente? Se sim, quais são os fundamentos de sua certeza.

    Hoje, séculos depois, a pergunta é irrelevante.

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