arte_cultura_363_portalPor Ebeneser Nogueira

“Toda cultura é manchada pelo pecado, seja ela americana ou africana, britânica ou indiana. Deve ser colocada debaixo do escrutínio da Palavra de Deus e purificada de tudo que não seja cristão…” (Dr. Theodore Williams).

Somos brasileiros. Absorvemos os elementos culturais que sempre nos rodearam desde o nascimento. Gostamos do sol, da informalidade, dos ritmos musicais que impedem nossos corpos de ficarem quietos, da comida variada, deliciosa e abundante encontrada de norte a sul.

Nasci em Recife. Gosto de frevo, maracatu, festas juninas, literatura de cordel e pratos típicos. No entanto, nenhum desses elementos está presente na maioria das igrejas. Cresci num meio evangélico que, de tanto usar piano nos cultos, tornava difícil acreditar que algum anjo pudesse tocar harpa! Na minha adolescência discutia-se ainda sobre o uso da bateria nos cultos e pensava-se que o diabo era o pai do rock (na verdade, ele só tem uma filha: a mentira – ver João 8.44).

Depois de passar a infância e adolescência em uma das chamadas igrejas “históricas”, fui servir no Exército de Salvação, que, apesar da forte influência britânica, respeita a cultura local, quer seja ela africana, americana ou asiática. O internacionalismo do Exército me tirou das costas o peso de “música do mundo”, “ritmo do diabo” e outros rótulos dessa espécie e me devolveu a certeza de que “do SENHOR é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam (Salmos 24.1).

Certamente há elementos culturais de origem pagã que devem ser rejeitados pelos que professam a fé cristã, mas temos de cuidar para não jogar a água suja da banheira com o bebê junto! Muitos dos elementos culturais não têm influência demoníaca ou pecaminosa, servem de referencial para nossa identificação enquanto povo e nos ajudam a contar nossa história.

Observe o que nos diz o Pacto de Lausanne:

“O desenvolvimento de estratégias para a evangelização mundial requer metodologia nova e criativa. Com a bênção de Deus, o resultado será o surgimento de igrejas profundamente enraizadas em Cristo e estreitamente relacionadas com a cultura local. A cultura deve sempre ser julgada e provada pelas Escrituras. Porque o homem é criatura de Deus, parte de sua cultura é rica em beleza e em bondade; porque ele experimentou a queda, toda a sua cultura está manchada pelo pecado, e parte dela é demoníaca. O evangelho não pressupõe a superioridade de uma cultura sobre a outra, mas avalia todas elas segundo o seu próprio critério de verdade e justiça, e insiste na aceitação de valores morais absolutos, em todas as culturas. As missões muitas vezes têm exportado, juntamente com o evangelho, uma cultura estranha, e as igrejas, por vezes, têm ficado submissas aos ditames de uma determinada cultura, em vez de às Escrituras. Os evangelistas de Cristo têm de, humildemente, procurar esvaziar-se de tudo, exceto de sua autenticidade pessoal, a fim de se tornarem servos dos outros, e as igrejas têm de procurar transformar e enriquecer a cultura; tudo para a glória de Deus”.

Quero minha cultura brasileira de volta, quero exalar brasilidade sem culpa! Não sou inglês, norte-americano ou judeu! Sou brasileiro, com todas as cores, ritmos e sabores a que tenho direito.

Não existe cultura perfeita. Jesus, que viveu como judeu, por diversas vezes criticou os costumes judaicos e até mesmo os ignorou. Não acho que a cultura brasileira seja a melhor do mundo, mas é a que eu conheço e amo. Deus não me fez brasileiro para que eu vivesse como inglês! Eu sequer tomo o chá das cinco, e só vi neve na TV!

Os crentes desprezaram elementos culturais por causa da influência de missionários estrangeiros que trouxeram, junto com o evangelho, sua cultura como modelo de vida santa, que foi aceito sem questionamento. É hora de repensar nossa liturgia e comunicar o evangelho na linguagem que o brasileiro entende.

Ebeneser Nogueira, pernambucano, é major no Exército de Salvação e casado com Eliana. Trabalha como editor no Quartel Nacional em São Paulo.

  1. “Nasci em Recife. Gosto de frevo, maracatu, festas juninas, literatura de cordel e pratos típicos. No entanto, nenhum desses elementos está presente na maioria das igrejas. Cresci num meio evangélico que, de tanto usar piano nos cultos,…”

    Cada coisa no seu lugar.
    Faça o inverso. Coloque a música religiosa no frevo, maracatu, etc.. e veja se você consegue entender o que estou falando.

    Cada coisa no seu lugar.
    Se as igrejas, tradicionais ou não, não têm ‘vocação’ para adotar esse tipo de cantoria em seus cultos, é por que rejeitam ou porque há uma propriedade para cada coisa no seu lugar.

    A sensação que fica é que você não conseguiu a inserção entre o que você chama de música popular dentro de um universo liturgico que pede outro tipo de melodia e letra.

    Moro aqui perto de você, acho que seu raciocínio foi como se diz, muito maracatu.

  2. Excelente publicação. Uma verdadeira interpretação sobre os impedimentos às culturas. O ilustre escritor soube interpretar muito bem a maneira cristã de viver as manifestações culturais. ” Examinai de tudo e ficai com coque bom”. Fui enriquecido com essa leitura, muito obrigado!
    Rev. Jairo Miranda

  3. O texto tem uma contribuição singular sobre a questão cultural na vida cristã. Se os cultos não absorveram a “cultura local”, é por uma questão histórica e dogmática. Logo, nada impede um ministério evangelístico dentro de um contexto que envolve tais elementos culturais. Por exemplo, há lugares nesse país que o evangelho se propaga no ritmo, na dança, daquela região. Tudo seja para honra e glória do Senhor. Somos brasileiros, logo, viveremos como brasileiros, mesmo inseridos num contexto que agrega inúmeras manifestações culturais, sociais. Abraços

  4. José Claudio Oliveira

    Concordo plenamente com a observação feita pelo autor. Acho o questionamento bastante atual, importante é relevante, principalmente ao vermos algumas igrejas ditas cristãs adotando rituais judaicos, contrariando o próprio evangelho. Por anos fiz parte de uma comunidade cristã que fazia evangelismo através de artes, teatro e dança como ferramentas para a divulgação da Palavra de Deus. Nós aprentavamos na praia, em praças e escolas, sempre usando diversos tipos de ritmos e argumentos cênicos, sempre com temas evangelísticos; rock, samba, música baiana, louvores e hinos tradicionais; e isso sempre facilitou conseguir ter acesso e ganhar a atenção e o interesse de jovens e adultos, locais ou turistas. Concordo que há lugar para cada coisa, mas não há barreiras para o poder de Deus! E já está mais do que no tempo de todas as coisas maravilhosas que Deus nos deu como nação voltarem a glorifica-lo em todo tempo e lugar!

  5. Eu tendo a discordar um pouco do texto do irmão Ebeneser e a concordar com o Eduardo: cada coisa no seu lugar. Acredito que o princípio de forma-função, tão caro à Bauhaus, se aplica também na liturgia. Uma vez o Rev. Augustus Nicodemus comentou que até se pode tomar sopa num urinol (desde que esteja bem limpo), mas não convém. Não foi pra isso que ele foi projetado. Da mesma forma, pode-se de fato utilizar qualquer ritmo nas nossas celebrações, mas nem sempre convém, porque cada situação pede uma abordagem. Existe uma confusão conceitual sobre a inserção de ritmos nacionais na liturgia dos nossos cultos. Infelizmente, gostem os nacionalistas ou não, a identidade protestante passa por uma estética, que foi herdada dos missionários e não há nada de errado nisso em si. Depois de muito refletir, eu chego à conclusão que retornar ao canto dos velhos hinos e recuperar as características da nossa liturgia (ainda que de forma “repaginada”) em nossos cultos tem muito pouco a ver com doutrinas bíblicas, com dogmas ou com os catecismos históricos. Tampouco com conservadorismo ou retrocesso. Nem tem a ver com frieza espiritual como querem alguns. Não adianta buscar justificativa para o uso dos hinos nos textos bíblicos porque eles não necessariamente defendem um estilo de música em detrimento de outro.
    Também é ilusório tentar defender ou condenar a hegemonia da cultura ocidental, notadamente anglo-americana, de onde vem a matriz da maioria das igrejas evangélicas e protestantes no Brasil: diante da diversidade cultural existente hoje no mundo e de como a Igreja se espalhou dentre tantas culturas e tradições distintas, esse argumento soa no mínimo etnocêntrico e contradiz a própria Palavra. Tampouco se justifica esse clamor nacionalista antropofágico porque ele nem sempre tem critérios de qualidade muito claros. Eu acredito que seja saudável a Igreja Evangélica brasileira não perder de vista nossa hinódia porque ela nos identifica. Apesar de termos a mesma fé, sem uma identidade que tenha visualidade (traduzida também numa sonoridade) não nos reconheceremos enquanto um grupo com origens, tradições e crenças comuns, que se entende como uma parte da Igreja de Cristo na Terra. Essa identidade nos ajudará a enfrentar ideias e conceitos espúrios e nos trará senso de pertencimento e segurança emocional e doutrinária. Essa identidade passa necessariamente por um conjunto de elementos estéticos, simbólicos e culturais dos quais a tradição, os hinos e a liturgia são partes importantes.

  6. Acredito que o autor citou a liturgia de sua congregação para mostrar como as pessoas lidam com a cultura em especial a música. Da mesma forma poderia falar de cinemaou outras manifestações culturais. A questão para mim não é inserção de músicas, ou ritmos incomuns nos cultos. Porém, da idéia existente de atribuir pecaminosidade onde não existe.

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