capa_IgrejaEvang_RC_ebookIgreja Evangélica: Identidade, Unidade e Serviço, do bispo Robinson Cavalcanti, é o segundo título da série “45 Anos” e celebra a vida e o legado do nosso colunista por quase três décadas, um ano após a sua morte.

A série “45 Anos” reúne uma seleção de títulos em formato digital dedicados à celebração de datas especiais em 2013 e coloca à disposição dos leitores parte do acervo da revista Ultimato e a contribuição dos seus autores, no ano em que comemora 45 anos de publicação ininterrupta.

Para receber o seu livro (e-book) graciosamente, acesse Igreja Evangélica: Identidade, Unidade e Serviço.

  1. Finalmente recebi e acabo de ler as 60 páginas. O saudoso Robinson tem enorme capacidade de síntese. Vou debruçar nos próximos dias sobre o conjunto do escrito.

    Em princípio Robinson segue as linhas tradicionais sobre as quais sempre primou, e o faz com coerência.

    1. É um tradicionalista histórico arejado. TRADICIONALISTA porque sua análise deita raízes na firme herança Protestante que já passa dos 500 anos.

    2. HISTÓRICO porque amarra tudo à herança que vem do rico passado Protestante com enfoque maior na sua tradição episcopal (inglesa, anglicana): a Inglaterra (anglicana), os Estados Unidos (imperialista e rico em seitas), a África (Lausanne é a bola da vez) e a America Latina (potencial) são fontes inspiradores.

    3. AREJADO porque dispensa uma leitura com um pé no passado, olho no presente e futuro sem repetir o que foi por simples repetir.

    Robinson carece (seu pensamento nas 60 páginas) de alguns pilares, porém.

    1. Nunca foi homem (estudioso, scholar) de correntes e ideias que marcaram a história do Cristianismo pós-século XVI. Sempre em passant, a Europa continental (e sua contribuição à teologia) parece que nunca existiu; figuras de destaque (Stott) recebem um tratamento especial como político (no melhor e mais fino sentido dessa expressão: Lausanne é sua ‘cria’), mas Stott nunca foi um pensador de escol.

    2. Quando migra seu pensamento para os Estados Unidos, Robinson nunca fala sobre a contribuição (evangélica) em seu mérito, mas como contraponto ao ‘importado’ de lá. Nomes de destaque e formativos do pensamento teológico evangélico americano simplesmente parecem não existir.

    3. Se alguém torna-se um Protestante e desejasse saber mais sobre as raízes do Protestantismo brasileiro, Robinson ajuda, com certeza. Em uma sopa cultural brasileira, o falecido pastor e pensador Protestante ajuda a colocar ordem.

  2. Robinson tinha um fino senso de humor, IDENTIDADE, UNIDADE, SERVIÇO que o pessoal de ULTIMATO elaborou para “… papel e a importância da identidade, da unidade e da missão da igreja…”. Adoçou para o marketing.

    Fino humor…

    “O quadro fracionado [evangélicos], confuso e divergente do protestantismo brasileiro não faz prever a criação de uma barca [a Igreja Anglicana é uma flotilha teológica], onde caibam todos os bichos, mas de uma frotilha, onde o nosso barco, de início modesto, pretende estar aberta aos evangélicos, crentes e éticos, comprometidos com a identidade e a unidade sonhada pelo Senhor da Igreja [diplomata o Bispo. Sabe muito bem que essa ‘unidade’ é sonho, desejo, quiçá devaneio, nenhuma chance de ser histórica. Não o foi nem nos EUA, umbilicalmente ligada à velha Inglaterra religiosa].”

    Todavia…

    Não há um único momento nestes mais de 500 anos de história (e tradição) Protestante onde a unidade tenha existido. De que unidade, portanto, fala Robinson? (tratarei disso mais à frente). Enquanto a Comunidade Anglicana passa de meio milênio de história e tradição, aqui não temos mais do que um século, se tanto.

    Ao longo de 60 páginas ‘unidade’ entra e sai sem definição clara e distinta e sem precisão como, por exemplo, na própria Igreja Anglicana: unidade eclesial, cabeça com primado, largueza teológica fundada sob documentos históricos com destaque litúrgico para um deles, ‘Book of Common Prayer’.

    A ‘Anglican Communion’, por exemplo, é outra característica típica dessa unidade e vai varando os séculos.

    Só os ingleses mesmo, com uma tradição milenar fundada em seu domínio econômico e político por séculos, onde o sol não se punha sob seus domínios, poderia criar uma igreja urbi et orbi com as características da Igreja Católica.

    Abusando da linguagem, como Dom Robinson o fez com ‘igreja = flotilha’, eu diria que a Anglican Communion está mais para o formato de um MacDonald: o mesmo sanduíche aqui tem o gosto, cheiro, e características na China. As diferenças, pequenas, apenas enriquecem com a língua da atendente. Aqui o português, lá o mandarim.

    É admirável que um bispo que criticou, enquanto em vida, o ‘império americano’, usa a linguagem, ainda que decadente hoje, de um outro império (teológico) e de colorido britânico, para falar de unidade.

    É preciso um bispo Anglicano, multifacetado por um colorido nas vestes e teologia episcopal com cores esquerdizantes na cabeça para falar em unidade naquilo que se convencionou chamar de America Latina onde, segundo Roberto DaMatta, o Brasil é essa sociedade e sistema cultural visto e interpretado pela via do carnaval, futebol, música, comida, cidadania, da mulher, da morte, do jogo do bicho e das categorias de tempo e espaço mais telúrico do que mecânico.

    Enquanto os Anglicanos sonham com 500 anos de história e tradição nas costas, onde a unidade veio através de ‘sangue suor e lágrima’, o evangelicalismo brasileiro sonha com unidade como se desfilasse em uma Marquês de Sapucaí teológica com as arquibancadas e os camarotes fervilhando fantasias para na quarta-feira tudo terminar em cinzas.

    Quanto tempo durou a antecessora da atual e incipiente ALIANÇA?

  3. Estou neste instante me lembrando de um poema de Carlos Drummond de Andrade…

    “João amava Teresa que amava Raimundo
    que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
    que não amava ninguém.
    João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
    Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
    Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
    que não tinha entrado na história.”

    Tem a cara do mundo evangélico brasileiro. Todos têm papeis, os papeis não
    difusos, todos entram na história e saem sem serem percebidos.

    O evangélico (brasileiro) é essa figura que não tem história, não tem tradição, não tem teologia (fundante), todo mundo sabe quem é quem mais por irrelevância do que propriamente por contribuição e do mesmo jeito que entraram, saem.

    Todas as vezes que leio um ‘gola clerical’ roxo falando de evangelical, evangelicalismo, evangélico, alguma coisa me diz que algo não computa! É mais ou menos imaginar um engravatado desfilando na Marquês de Sapucaí.

    Se Dom Robinson fosse pelo menos uma Mineiro, e não um Pernambucano arrojado e destemido, ele pelo menos poderia esconder-se atrás de uma mineirice matuta e ‘oiá di longi o trem vindu’.

    O problema é que o vistoso das vestes antecede o rigor das ideias.

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