Por Délnia Bastos
Meia-noite. Depois de jantar na casa de um primo, no centro da cidade, Júnia e seu filho de 18 anos voltam para casa. Debaixo de chuva.
A casa não é deles – estão passando férias na casa da irmã e cunhado no bairro de Conselheiro Paulino, em Nova Friburgo, RJ. A família viajou e deixou a casa com Júnia, seu esposo e seu filho.
Júnia tenta dormir, mas não consegue. Às 2 horas da manhã a chuva fica forte.

Quando parece que uma grossa nuvem acabou de descarregar tudo o que tinha, outra nuvem começa a jorrar – e assim, repetidamente. Madrugada adentro. Lá pelas 4 da manhã, a luz vai embora – e por muitos dias (o que ninguém poderia prever, naquele momento). Escuridão. Falta o sono. Preocupação: “Tanta água, meu Pai!”
Aí começam os gritos. “De onde será que eles vêm? Tá tão escuro… Parece que tem gente pedindo socorro. Nossa… Outro estrondo! Quanta trovoada! E que breu…”
Nascem os primeiros raios de sol mais ou menos às 5 da manhã daquele dia que Júnia jamais vai esquecer – 12 de janeiro de 2011 (seria o 11 de setembro brasileiro, em termos de tragédia?). A casa onde está fica no segundo andar e possui algo como um varandão (lugar de se alegrar com a família, nas festinhas e churrascos que fizemos por ali…). Ela vai até a mureta pra ver a rua. Não acredita no que vê. O rio, antes distante e baixo, agora está larguíssimo, barrento, alto. Uma correnteza, na verdade. Atônita, ela vê corpos humanos, bujões de gás, móveis, geladeiras (ou parte delas) – tudo sendo arrastado violentamente correnteza abaixo. Correnteza que não existia! Embaixo da casa, na calçada, um formigueiro de gente em frente à igreja – igreja ainda é referência de ajuda, de porto seguro. Estão desesperados, batendo na porta…
Depois do susto da visão na varanda da casa pastoral, ela desce e abre as portas da igreja. Gente ferida. Fraturas expostas. Hospital? Não é possível. Um grande rio (agora) os separa de qualquer acesso aos hospitais da cidade.
Júnia não sabe explicar de onde veio, mas, de repente, ali está: uma enfermeira! “Ou seria um anjo? E que experiência ela parece ter!” Rapidamente começa a atender os feridos, um atrás do outro. “Atadura!” “Gaze!” “Rifocina!” Júnia perambula pela vizinhança, ecoando os gritos da enfermeira. A solidariedade é grande e a nova e desconhecida dupla atende muita gente, por horas. Homens ajudam a carregar outros feridos.
Mais tarde, o rio começa a baixar – mas não a tristeza.
Algumas pessoas só fazem aumentar esta tristeza. Em vez de ajudarem a recolher os corpos na correnteza (como a maioria faz), recolhem bujões de gás – “com certeza, terão um bom preço com esta calamidade”. Uma pessoa recolhe 80 bujões de gás, enquanto os vizinhos recolhem 70 corpos. “Meu Pai! O que é isso?! Até aqui, esta diabólica natureza humana!”
Setenta corpos empilhados com pressa no caminhão. De tudo, isso é o que mais choca a Júnia nesse dia. Ela se emociona quando conta esta parte.
Sentada ali, no final do dia, ela não faz ideia de que o mesmo cenário está se repetindo em mais de cem pontos da cidade.

  1. Descrição muito bem feita, clara. Dá para participar da cena, embora não sentir apropriadamente (só estando lá…) Fez-me lembrar “Ensaio sobre a cegueira”, de Saramago (especialmente pela parte de preferência pelos bujões de gás em detrimento dos corpos). A vida imita a arte, infelizmente

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