Por Ketelyn Sanchez Costa

"Amar, Verbo Intransitivo" é o título de livro de poesia de Mário de Andrade. Sempre que lembro desse título tento entender o que se passou na cabeça do poeta. Dentro das normas gramaticais, amar é um verbo transitivo, e não intransitivo. Então, por que "Amar, Verbo Intransitivo"? Pensemos… Verbo intransitivo é aquele que não “pede” objeto, pois a ação que ele exprime está completa. Por exemplo: “A menina dorme”. Compreendemos a ação e isso basta. Já o verbo transitivo pede um objeto (às vezes dois, quando são os objetos diretos e indiretos). Por exemplo: “Maria comprou”. Comprou o quê? “Maria comprou livros” (objeto direto: livros).

Em Bali é cultural ter namorado(a). Logo pensam que o(a) solteiro(a) está triste, quando ouvem que ele(a) não tem namorado(a). É como se a felicidade suprema do ser estivesse relacionada em ter alguém.  Conhecendo mais Bali notei que aqui ama-se muito por interesse. Sempre estão medindo as pessoas, perguntando quanto que pagou nisto ou naquilo, se você tem isto ou aquilo. Para algumas pessoas, o único objetivo na vida é arrumar um(a) estrangeiro(a) rico(a). O amor de Bali é um verbo transitivo; pede objetos.

Não sei se posso generalizar; quem não tiver pecado que atire a primeira pedra.

“Por que desta forma de amar?”, pensei. Seria cultural? Vamos às psicologias. É sabido que o primeiro lugar onde se aprende a amar é em casa, e depois nas organizações onde as pessoas são inseridas. Então… Será que na casa dos balineses há uma hierarquia de amor para com os filhos? Sei que o primeiro filho é considerado o mais importante, pois é encarregado de cuidar da cremação (funeral) dos pais e estudar a filosofia hindu a fim de passar para a próxima geração. É ele quem representa a família nas cerimônias. Todos podem faltar, exceto o primeiro filho. A crença hindu é baseada em hierarquias. Será que os primeiros filhos são mais amados?

Então percebi que o foco está na religião. Em Bali o hinduísmo molda a sociedade, então, dentro da lógica das coisas, molda também o comportamento.

E qual é a relação de amor dos balineses para com os seus deuses? Como os balineses são amados por seus deuses? Através de oferendas. Para eles receberem bênçãos e proteção de seus deuses, têm que dar algo em troca, não podem aparecer no Pura (templo hindu) de mãos vazias, pois os deuses ficam bravos e podem mandar maldição.

Por isso há muitas oferendas, todos os dias, de todos os modelos e cores. E mesmo com toda essa quantidade de oferendas, os deuses não os protegem totalmente. Por isso eles têm que fazer oferendas para os espíritos maus também. Normalmente são colocadas na frente do portão das casas e nas encruzilhadas com cocos amarelos. As oferendas para os espíritos maus são para eles não ficarem com inveja dos deuses bons e travarem uma guerra espiritual que pode causar muitos infortúnios para os balineses.

Sendo assim eles não têm proteção dos deuses e nem amor genuíno, sempre têm que dar alguma coisa em troca, o que se torna uma pesada obrigação: ficar agradando os deuses. E os deuses, por sua vez, os amam segundo a sua casta.

Penso que amar por interesse é algo que está no inconsciente dos balineses, porque é assim a relação deles com os seus deuses a importância maior da vida dos balineses.

Lembro dos anos universitários no qual estudei o amor na História das Mentalidades. A temática discutida foi o esfriamento do amor, e muitas foram as teorias estudadas. Uma dizia que o amor não existe por si só, que sempre está relacionado por interesses: sexual, estético e financeiro. Por isso tantos casais se separam, pois quando acabam os interesses ou estes mudam o amor se acaba e eles começam a ir em busca de novos interesses. Sendo assim , o caso não é só de Bali, é geral. Mas aqui me pareceu mais visível aos olhos. Porém ainda quero acreditar que em Bali há muitas pessoas que amam com o verbo intransitivo. Quero acreditar que ainda sejamos capazes de amar com o verbo intransitivo.

Ketelyn Sanchez Costa é brasileira, graduada em Letras/Português e há 14 meses mora em Bali, Indonésia, onde é professora de português. Lá frequenta a Igreja Betel Indonésia, a Igreja Internacional dos Estados Unidos e a JOCUM de Bali.

  1. Kety, a reflexão sobre o amor intransitivo foi excelente…… sabe, é interessante que não só no hinduísmo, mas em toda sociedade capitalista, as trocas refletem bem o grau de envolvimento das pessoas………logo, o mundo tem amado transitivamente…..

  2. Vc nem imagina a nossa felicidade quando lemos esta matéria!!!! Deus é fiel demaaaaiiisss!!! Ficou muito boa… Muito atrativa de ler!!! Deus abençoe grandemente Kety… Seus amigos que te admiram muito!!!! Jô e Dani

  3. Cleyton –
    Os tempos contemporaneos … As ideias que dizem ser livres ; o ter e nao o ser a corrida costante pelo lucro do tempo das coisas.
    A humanizacao rabotica a robotizacao humana ; programados . Certamente reflete sobre as formas de amar.
    Estas coisas me fazem lembrar de apocalipse ” o esfriamento do amor” e de ” o meu povo sera reconhecido pelo amor”

    Jocelei
    Sim! Deus e fiel !!
    A gente sabe da nossa istoria , que se cruzou, mora nas nossas mentes.
    Enquanto houver um fio de memoria em mim ela ViveRa.

    Delton
    Martin luther King do seculo XXI heeee !! orgulho da sua gente.
    Gostei de vc ter gostado.

    Pra todos
    BjiNhO di BaLi ♥

  4. A única referência que tenho de amor intransitivo e genuino é o de Jesus Cristo, que nos ama simplesmente.Fora o amor dele, seja no oriente ou seja no ocidente o amor é uma forma de moeda!
    Linda reflexão Ketelyn, amei !!!

  5. Ola Ketelin,
    Sou cristã e estarei in do à Indonesia em janeiro e gostrai de visitar alguma igreja por la…
    Vc poderia me indicar alguma??
    Deus abençoe sua vida…

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