Freud era ateu, mas dizia "graças a Deus".
A revista dominical do jornal The New York Times do dia 9 de setembro pergunta, não sem constrangimento, se Freud era um defensor da fé. Claro, a resposta óbvia é não. No entanto, os ateus de plantão, animados pelo recentes lançamentos Deus, um Delírio, de Richard Dawkins (Companhia das Letras); e, Deus não é Grande, de Christopher Hitchens (Ediouro), devem colocar as barbas de molho.
Para o autor da matéria existe mais sobre a, digamos, “religiosidade” de Freud. Mark Edmundson afirma que Freud sugere que a fé em Deus “possibilitou um retorno à vida interior, tornando-a rica”, além de reconhecer “poesia” e “promessa” na religião. O que parece novidade na matéria do NYTimes não o é para os leitores de obras como Cartas entre Freud e Pfister. Com prefácio da filha do pai da psicanálise, Anna Freud, a correspondência entre o pastor protestante Oskar Pfister e Freud, entre 1909 e 1938, é, nas palavras do psicanalista Joel Birman , “talvez o arquivo mais importante para balizarmos a relação entre os discursos psicanalítico e religioso”.
Aliás, Anna Freud disse a Armand Nicholi, psiquiatra e professor da Escola de Medicina de Harvard, algo que precisa ser lembrado sobre o mais conhecido dos ateus do século passado: “Se você quiser conhecer o meu pai, não leia a sua biografia: leia a suas cartas”. O autor de Deus em Questão: C.S. Lewis e Freud debatem Deus, amor, sexo e o sentido da vida seguiu o conselho e não deixa por menos: “Freud cita frequentemente a Bíblia […]. As cartas são repletas de ‘se Deus quiser’; ‘o bom Senhor’; ‘a vontade de Deus’; ‘pela graça de Deus’; ‘eu passei nos meus exames com a ajuda de Deus’; ‘minha oração secreta’ […]”. Não tenho maldade o suficiente para afirmar que Richard Dawkins está construindo uma igreja, talvez a dos sem-igreja, mas que o seu proselitismo é capenga, isso é. Graças a Deus.

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