Passadas as emoções e comoções da Semana Santa, restam-nos impressões e reflexões sobre a vitória que Cristo conquistou ao morrer na cruz. Por exemplo, um debruçar-se sobre o significado da expressão “está consumado”, como quem se pergunta se alcança inteiramente o que Jesus quis dizer.

Impressiono-me muito a conexão desse momento central na história da humanidade com a cena da batalha no céu, de Apocalipse 12. Em particular, quando João revela que Satanás e suas hostes foram vencidos pelo Arcanjo Miguel, por meio do sangue do Cordeiro e pela palavra de testemunho que nossos irmãos sustentaram, sob acusação satânica e ao preço de martírio. “E, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida” (Ap 12:11).

É intrigante o problema da cronologia, neste capítulo. Sendo ele o ponto de inflexão de todo o livro, mistura fatos do céu com elementos da terra; momentos da eternidade, como o advento do grande dragão, com acontecimentos da nossa história, como a paixão e morte de Cristo. E ficamos a nos perguntar, atônitos, sobre os “quandos”. Quando foi essa batalha? Antes da fundação do mundo? Tendo sido Satanás expulso e lançado para a terra, veio diretamente para o Éden? Dante Alighieri, em sua Divina Comédia, sugere que a depressão e a aridez do Mar Morto foram causadas pela queda de Lúcifer. Mas, em qualquer caso, como pode ter perdido a guerra por conta do sangue perfeito, derramado milênios mais tarde?

De fato, neste momento do livro a cronologia nos atrapalha. Mas nossa curiosidade pode ser mais prática, mais devocional. Basta que nos perguntemos sobre “o testemunho do Cordeiro”. Em que consiste esse testemunho? A resposta, então, pode nos advir, poética ou pedagógica, de várias fontes bíblicas. Por exemplo, a bela exortação de Paulo, aos filipenses: “tende em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus…” (Fp 2).

Gosto de pensar no desafio cósmico, proferido em uma outra reunião celestial: aquela relatada em Jó 1. Ali, Satanás sugere que a devoção que Deus tanto aprecia em Jó não passa de ilusão. Bastaria a presença da dor, para que ele blasfemasse. Estava lançado o desafio: “Porventura, Jó debalde teme a Deus?” (Jó 1:9). Se Deus aceitar, esse homem será transformado em um representante da raça humana. E também uma figura do Cristo que viria. Uma testemunha do Cordeiro, situado na antiguidade. Será possível à criatura adorar ao Criador por amor, por pura afeição, sem que seja movido por interesse ou medo? E Deus permite o teste.

Sabemos da história. E das semelhanças, tanto com o “desamparo da cruz” quanto com a sedutora sugestão de blasfêmia, como resposta a esse desamparo: “amaldiçoa teu Deus e morre”.

Ferido pela tragédia, e doente na própria carne, nosso Jó rasga seu manto, rapa a cabeça, lança-se em terra e adora ao seu Senhor, em submissa mansidão. E diz, nas regiões celestiais: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor!”. O narrador complementa com a informação de que, em tudo isso Jó não pecou e nem atribuiu a Deus falta alguma (Jó 1:22).
O perfume que subiu do coração desse homem ferido certamente estaria sendo considerado, quando se mencionou, em Ap 12,11: “e por causa da palavra de testemunho que deram”. Sim, ali também Satanás foi exposto ao desprezo celestial (Cl 2:14).

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