Mas aquele que está disputando, é condenado se comer, porque não [age] pela fé, e tudo que não [é] de fé é pecado. (tradução minha)

Reflexão

Quase todas as versões da Bíblia em português traduzem a primeira frase assim: “mas aquele que tem dúvidas…” ao invés de “mas aquele que está disputando”. Não vou entrar no mérito da tradução.  Ao pé da letra a palavra significa “discriminar” ou “julgar”. De todo jeito, isto muda um pouco a orientação da reflexão da semana passada e dos versículos anteriores onde diz que não devemos forçar a barra quando, pela fé, a gente acha que alguma prática é lícita mas um outro irmão, também pela fé e convicção, acha que não é lícita.

O versículo acima levanta o outro lado da moeda, quando alguém adota uma prática como lícita ou não mas sem a convicção e por isso, não está agindo pela fé. Neste caso, a pessoa não deve ser deixado na sua não-convicção. Temos a obrigação de ajudá-la a chegar biblicamente a uma convicção.

Creio que parte da conscientização ambiental se enquadra neste caso. Devemos conhecer bem a Palavra de Deus a fim de caminhar com esta pessoa ou estas pessoas para que se definam e tenham convicções com boas bases….sem que nós nos esquecermos o que Paulo disse antes.

O que fazemos façamos em prol da justiça, da paz, e da alegria que está no Espírito Santo (v.17). Façamos com graça e façamos para contribuir para a união,  marcas registradas da obra que Deus está fazendo na nossa história.

Oração

Pai, como é fácil agir por egoísmo, querendo “ganhar”. Liberte-nos deste demônio de querer ser superior e querer “ganhar” as disputas com os nossos irmãos e irmãs em Cristo. Conceda-nos o espírito de Jesus. Em nome dele. Amém.

Como crente no Senhor Jesus, eu sei e estou convencido de que näo há nada que seja impuro em si mesmo. Mas se alguém pensa que uma coisa é impura, torna-se de facto impura para ele….Que ninguém seja levado a ofender a Deus por causa de uma coisa que tenha por boa. Com efeito, o reino de Deus näo é questäo de comida e bebida, mas é questäo de justiça, paz e alegria no Espírito Santo. (Sociedade Bíblica de Portugal)

Reflexão

Em Gênesis aprendemos que  Deus considerou tudo que Ele criou como “bom” (1.10, 12, 18, 21, 25), aliás, achou “muito bom” (1.31). Paulo, na passagem acima, seguindo o exemplo de Jesus (Mt 15.11, 18), disse que a impureza é coisa da nossa cabeça e não das coisas em si. Talvez, você, como eu, queira protestar ou qualificar estas afirmações. Mas se amamos e respeitamos a Palavra de Deus, estamos sem saída. A impureza não é inerente. É derivada. É o uso das coisas que determina o seu valor positivo ou negativo. Quais as implicações para aqueles que advogam a responsabilidade sócio-ambiental dos cristãos? Esta pergunta não é retórica. Suas dicas, mesmo com frases curtas , são bem vindas e poderão ajudar todos nós. Mas vou arriscar um primeiro palpite…

A bondade da criação aumenta a nossa responsabilidade como mórdomos. Isto é óbvio provavelmente para todos que leêm esta reflexão. E o fato de podermos explorar “para o mal” a criação também é óbvio, o que nos leva a observação que certamente não idolatramos ou romantizamos o mundo físico que nos inclue. Mas como entender versículos 16-17 acima? Talvez assim…

Embora a nova terra e o novo céu façam parte do projeto escatológico de Deus, há um alvo maior ainda: o estabelecimento da justiça, da paz e da alegria no Espírito. Esta é a razão do novo céu e da nova terra e da nossa incumbência como mordomos e guardiões. Não pela coisa em si por mais magnífica que seja o mundo material, sendo reflexo da mão de Deus. Aqui enfatizo a parte “sócio” do socio-ambientalismo. O novo céu e a nova terra, cujo instrumento de inauguração somos nós, estabelecem o contexto onde poderão habitar a justiça, a paz e a alegria. Ópa. Acabou meu espaço. Que pensas?

Oração

Como podemos não admirar a sua magestade diante das Tuas obras criadas, e diante do tão espantoso plano que tens? Graças Te damos por ter nos chamado pela Tua graça para sermos co-obreiros da Tua obra e no Teu plano. Amém.

Dêem bom acolhimento àquele que é fraco na sua fé, sem discutir com ele sobre as suas opiniões…. Por isso deixemos de nos criticar uns aos outros. Tomem antes a decisão de não fazer nada que leve os outros a tropeçar ou a cair no pecado. (Sociedade Bíblica de Portugal)

Reflexão

Não é fácil falar sobre a responsabilidade socioambiental…especialmente duma perspectiva cristã. Muitos simplesmente não entendem. Ou acham que não é assunto de crente…mesmo que nunca falem assim. Já teve esta impressão? Pois é. Isto se chama síndrome de mais forte e Paulo tem um bom conselho acima para nós. Vamos resumir de modo bem simples:

Primeiro: acolhemos as pessoas. Sejamos corteses, agradáveis. Deixemos as pessoas se sentirem em casa conosco.

Segundo: não discutimos. Discutir nunca adianta pois quando se discute, cada um tenta se impor. E quando discutimos somos ouvidos como transmissores de opiniões, não de fatos. Se discutir é se impor, imposição não realiza mudança interior. E o empenho socioambiental exige uma mudança interior.

Terceiro: não critiquemos. Criticar inferioriza o outro e assim também não realizamos mudanças. Além disto, ao inferiorizarmos o outro deixamos de ser corrigidos por ele. E deixar de aprender e se corrigir nunca é bom, ao longo prazo, certo?

Portanto, as palavras de Paulo são muito simples e práticas…muito apropriadas para nós. Não acha?

Oração

Pai amado. Inunde-nos com o Teu Espírito para que pareçamos mais com Cristo e acolhamos uns aos outros como Ele nos acolheu. Em nome de Jesus. Amém.

Não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns para com os outros. Quem ama o próximo cumpre a lei. Os mandamentos dizem: Não cometerás adultério, não matarás, não roubarás, não cobiçarás. Ora todos estes e qualquer outro mandamento resumem-se num só: Ama o teu próximo como a ti mesmo. O que ama o seu próximo não lhe faz nenhum mal. Pois o amor é o cumprimento total da lei. (Sociedade Bíblica de Portugal)

Reflexão

Quem tem medo do número “treze” não percebeu. Treze não tem nada de azar. Considere as seguintes passagens: 1 Coríntios 13, Hebreus 13 e Romanos 13 todos falam da proeminência do amor (mas não leia Apocalipse 13!). Claro que a primeira quebra todos os récordes nos casamentos. E Hebreus nos espanta com a afirmação de que quem ama, demonstrando hospitalidade, poderá chegar a receber anjos em sua casa sem o saber. Mas por mais bonito que seja a primeira passagem e mais espantosa que seja a última, Romanos 13 é mais inesperada. Afinal de contas, Paulo acabara de gastar os primeiros 11 capítulos desta carta elaborando longos e detalhados argumentos, citando dezenas de passagens do Antigo Testamento, para reconceituar a lei dentro da perspectiva da fé. E aqui, no capítulo 13, ele simplesmente resume estes milhares de palavras em sete: “quem ama o próximo cumpre a lei”! Vamos testar esta “teoria”? Vejamos…quem ama não adultera, quem ama não mata, quem ama não rouba, quem ama não cobiça. E podemos completar, não é? Quem ama não engana, quem ama não oprime, quem ama não se impõe, e assim vai. Ë possível até colocar o princípio de forma positiva: quem ama se compadece do próximo, quem ama exerce a justiça, quem ama ama o que Deus ama, quem ama cuida da criação.

Parece um truque meu, mas não é. Pense só um pouquinho. Marque apenas 60 segundos no seu relógio!

Romanos 13, leia tudinho. É inesperado!

Oração

Graças te damos por Teu grande amor, ó Pai. Encha-nos dele para que amemos de verdade. Em nome de Jesus. Amém.

… faze o bem…

Reflexão

Esta frase, “faze o bem”, se repete várias vezes nos primeiros versículos do capítulo 13. Era uma injunção do mundo greco-romano dirigida para as pessoas de maior condição sócio-econômico que deveriam ser “benfeitores” da sociedade, especialmente  daqueles menos privilegiados. Paulo, entretanto, aplica o mandato para toda a comunidade da fé. Assim, democratiza uma obrigação cuja aplicação, de outra sorte, parece bastante conservadora. E de fato, pesquisas recentes do sociólogo, Rodney Stark, confirmam que o ministério social da igreja primitiva transformou a sociedade romana, invertendo estruturas injustas de hierarquia social pelo exercício de ações extraordinárias de misericórdia nos seus primeiros 300 anos até ganhar a simpatia do então imperador Constantino.

Nesta carta aos romanos repleta de citações bíblicas (mais que 55) e densa em reflexão teológica, porque Paulo apelou para uma injunção popular? Porque não citou Miquéais 6.6-8 ou “n” outras passagens bíblicas apropriadas? Sinceramente, não sei. Não vou nem chutar. Mas acredito que podemos tirar disto uma grande lição para a ética cristã em geral e para a educação ambiental especificamente. Nem sempre precisamos apelar para passagens bíblicas, inclusive para gente da igreja!

Puxa vida. Agora que eu falei isto, parece grande heresia! Graças a Deus pelo exemplo de Paulo! Veja bem, não digo que não devemos usar as Escrituras. Claro que devemos. É revelação de Deus e esclarece muito. Apenas nem sempre precisamos. Às vezes basta o bom senso ou aqueles bons princípios encravados na consciência humana que fazem parte da imagem de Deus imbutida em todo ser humano. Quando possível, nos mostramos simpatizantes com a sociedade geral. Quando necessário, claro, a desafiamos com a verdade do evangelho.

Oração

Pai, necessitamos de discernimento e da Tua graça. Revista-nos da imagem de Cristo, cheios do Teu Espírito para exercermos o nosso papel de bons mordomos da Tua criação. Amém.

… que vocês se ofereçam completamente a Deus, um sacrifício vivo…

Reflexão

Na semana passada, refletimos sobre a introdução em Romanos 12.1, do versículo acima. Comentamos que a passagem avança a idéia de como podemos ser agentes de transformação neste mundo e deste mundo (leia: “criação”). Basicamente, a resposta que Paulo dá é que começamos por nós, e de modo bem prático: “nossos corpos”. No restante do capítulo 12, ele dá dicas bem práticas do que isto significa, dicas que muitas vezes vem até da cultura geral e não específica ou exclusivamente das Escrituras. Veja, por exemplo:

  • não se achem melhores do que realmente são…(v.3);
  • odeiem o mal e sigam o que é bom… (v.9);
  • amem uns aos outros com o amor de irmãos em Cristo e se esforcem para tratar uns aos outros com respeito…(v.10);
  • trabalhem com entusiasmo e não sejam preguiçosos…(v.11);
  • repartam com os irmãos necessitados o que vocês têm e recebam os estrangeiros nas suas casas…(v.13);
  • peçam que Deus abençoe os que perseguem vocês…(v.14);
  • não sejam orgulhosos, mas aceitem serviços humildes. Que nenhum de vocês fique pensando que é sábio! (v.16);
  • não paguem a ninguém o mal com o mal…(v.17);
  • não deixem que o mal vença vocês, mas vençam o mal com o bem (v.21).

Se seguíssemos estes conselhos já estaríamos caminhando bem na direção da nova criação, que Deus nos criou para sermos.

Oração

Graças Te damos ó Pai, pela Tua palavra que nos desafia e nos corrige. Cria em nós um espírito humilde e ensinável. No forte nome de Jesus. Amém.

…ho?n

Reflexão

Quantas pessoas já ouviram um estudo bíblico de Romanos 12.1-2? Certamente o pessoal da ABU bastante. Mas já acertou a segunda palavra do versículo em grego, ho?n? Ela significa “então”, “portanto”, “consequentemente”. É uma conjunção, o que significa que liga a parte anterior à posterior. E a parte anterior é aquela doxologia que vimos na semana passada. Quase ninguém repara esta observação básica e essencial. Não, todos estão com pressa para dizer ou que a gente deve se comportar bem (“apresentar o nosso corpo como sacrífio vivo”) ou que Deus quer que a gente use a nossa cabeça (“renovação da nossa mente”). Alías, são dois bons conselhos. Mas o que isso tem a ver com a doxologia anterior, que por sua vez conclue a observação anterior a isto a respeito da misericórida de Deus para gentios e judeus (11.30-32, veja a mesma palavra “misericórdia também em 12.1!)?

Na verdade a interpretação de Romanos nunca foi fácil para ninguém…literalmente. Não porque a carta é demasiadamente complicada ou exageradamente densa em teologia. Mas simplesmente porque nesta carta, mais do que nas suas outras cartas, Paulo gasta vários capítulos para dizer uma só coisa. Logo, o leitor precisa prestar muita atenção e sempre toda a carta em mente. Por exemplo….

Paulo traça o plano glorioso de redimir gentios como gentios e judeus como judeus por meio da fé e através de Cristo Jesus em Romanos 1-8. Romanos 9-11 expande o assunto para pensa em todos as naçõe sgentílicas e no povo judeu. É um plano glorioso cujo enredo central é a misericórdia (graça) de Deus. Em Romanos 12-14, Paulo elabora as implicações “práticas” disto na vida dos crentes. Logo, Romanos 12.1-2 é a transição do “plano glorioso de Deus” para a “vida prática do crente”. Aqui Paulo esta dizendo que, diante deste plano de Deus (cap.s 9-11) que faz parte do plano maior de redimir a criação toda (cap.8, compare 11.36), nós devemos tomar a iniciativa nesta redenção por oferecer os nossos próprios corpos (nossa parte pessoal da criação) de tal forma que glorifica Deus e isto, por sua vez, envolve uma nova perspectiva (esta seria uma tradução melhor de “renovação da nossa mente”). Nós temos que mudar de atitude em relação a criação toda, começando em nós, pelos nossos corpos, e por implicação, a maneira como nos relacionamos com o nosso próximo (o assunto de capítulos 12-14).

Oração

Pai, transforme a nossa maneira de pensar para que ajamos, nestes corpos que fazendo parte da sua criação, de modo que Tú sejas glorifiado. Em nome de Jesus. Amém.